Hospitais improvisados, choro e desespero no Paraná

BRA_FDL 200 feridos

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PM usa bomba e bala de borracha contra professores

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O Centro Cívico se transformou ontem em uma praça de guerra. Segundo informações da Prefeitura de Curitiba, mais de 200 pessoas ficaram feridas durante o conflito entre tropas da Polícia Militar e professores e servidores estaduais que se manifestavam em frente à Assembleia Legislativa contra a aprovação do projeto de lei que altera a Paranaprevidência, proposto pelo governo Beto Richa (PSDB). Cerca de 150 feridos foram atendidos em 12 ambulâncias. Outros 63 feridos foram encaminhados para Unidades de Pronto Atendimento. O Hospital Cajuru recebeu 36 pacientes, e o Hospital do Trabalhador, outros sete feridos. Segundo o governo do

Estado, 40 manifestantes ficaram feridos e outros 20 policiais. Um cinegrafista da TV Bandeirantes foi mordido por um pitbull da Tropa de Choque.

Por volta das 15 horas, os manifestantes tentaram transpor a primeira barreira de policiais que impedia a entrada na Assembleia Legislativa e houve confronto. A partir deste momento, foram disparadas bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha contra os manifestantes. O disparo de bombas durou uma hora e meia e só se encerrou por volta das 16h30, quando os professores recuaram um pouco do cordão de isolamento e se concentraram mais na área da Prefeitura de Curitiba. A cada passo que os manifestantes davam para tentar avançar novamente em direção à Assembleia Legislativa, mais bombas eram lançadas. Os policiais também usaram jatos de água.

Antes do início do conflito, os manifestantes gritavam palavras de ordem como “retira ou rejeita” o projeto que alteraria as regras da Paranaprevidência. O volume de bombas atirado contra os manifestantes foi muito grande, mas a Polícia Militar não soube informar o número exato. A confusão era tão grande que nem ambulâncias conseguiam passar para atender os feridos. Depois de cerca de 15 minutos de bombardeio, os dirigentes sindicais que estavam no carro de som gritavam “Chega governador! Não estamos armados.” A todo momento os manifestantes xingavam o governador de covarde. No início da noite, os manifestantes deixaram o Centro Cívico. A APP Sindicato, que representa os profissionais da rede estadual de ensino, informou que faria uma reunião ontem à noite para definir os rumos da paralisação que iniciou na última segunda-feira.

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CHORO E DESESPERO

O subsolo da Prefeitura virou um verdadeiro hospital de guerra. O primeiro atendimento aos feridos aconteceu no prédio da Prefeitura. O cenário era de muita gente chorando, desesperada e com medo. A estudante de Direito Isabel Cortes foi atingida por estilhaços de bomba e estava com a perna sangrando. Ela foi atendida na Prefeitura. Os feridos também foram atendidos em um centro médico improvisado no Tribunal de Justiça. Era possível ver pessoas desacordadas e sangrando. Um centro de educação infantil da prefeitura que atende 150 crianças de três meses a cinco anos no Centro Cívico chamou os pais para buscarem os filhos quando as bombas começaram a ser disparadas.

A fumaça do gás lacrimogênio atingiu o local e algumas crianças começaram a passar mal.

Em nota, o governo do Paraná disse lamentar “os atos de confronto, agressão e vandalismo” e que as reiteradas tentativas dos manifestantes de invadir a Assembleia Legislativa culminaram com a ação de defesa das forças policiais. Ainda de acordo com o governo, 13 pessoas foram detidas por envolvimento direto no ataque aos policiais. Essas pessoas seriam ligadas ao movimento black-bloc e está em curso uma investigação sobre a atuação delas durante a manifestação. Segundo o comandante geral da PM, coronel César Kogut, a ação de ontem contou com 1.600 policiais. Ele disse ainda que não houve falha da polícia. “A agressão partiu dos manifestantes que iriam romper a barreira. A nossa missão era cumprir a ordem judicial de não invadir a Assembleia”, afirmou.

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Vice de Aécio apresenta versão de “confronto” para defender a polícia de Beto Richa

Não teve confronto. Nem batalha campal. Veja abaixo a manchete mentirosa de um jornal vendido, governista e inimigo do povo.

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Não foi um dia de guerra. Foi um dia de massacre. Um dia com a cara nazista do governador Beto Richa.

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Aloysio Nunes defende governador do PR 

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Thiago Lucas
Thiago Lucas

O senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), que disputou a vice-presidência na chapa de Aécio Neves, saiu em defesa nesta quinta-feira (30), do governador do Paraná e também tucano, Beto Richa, após o massacra dos policiais militares que deixou mais de 200 pessoas feridas em Curitiba.

Em resposta a senadores petistas que se revezaram na tribuna para criticar Richa e cobrar um posicionamento do PSDB, Aloysio acusou os professores de entrar em “confronto” com os policiais, e afirmou que não há “inocentes neste caso”.

“Não há inocentes neste caso, como o senhor quer apresentar as pessoas que confrontaram a polícia militar como sendo vítimas”, disse Aloysio em resposta ao líder do PT no Senado, Humberto Costa.

Segundo o senador tucano, a Polícia Militar do Paraná teve de reagir à tentativa dos manifestantes de invadir a Assembleia Legislativa. Ele afirmou, no entanto, que Richa vai apurar se houve excesso por parte da PM e, caso isso fique comprovado, punir os responsáveis.

“Confio na ponderação, no espírito democrático, do governador Beto Richa para que ele mande proceder as apurações, com rigor, para que, se houve indícios de excessos que possam ser atribuídos a membros das forças de segurança, eles sejam punidos”, disse. Mais de 200 pessoas feridas, oito em estado grave, os tucanos acham pouco.

Enquanto ocupou a tribuna, o líder do PT culpou o governador do Paraná pela chacina, e cobrou do presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), uma posição sobre o assunto. “Onde está o senador Aécio Neves? Onde está o democrata, o defensor da boa gestão? Onde está o PSDB para aqui defender o indefensável, defender uma gestão temerária e, acima de tudo, a violência cometida contra os trabalhadores?”, disse.

Antes dele, a petista Gleisi Hoffmann, que é do Paraná, lamentou o episódio e disse que o Estado estava “de luto” pelo que aconteceu. Ela afirmou que nunca, em sua vida, havia visto tamanha truculência e observou: “Não podemos deixar que o governador não responda por essa barbaridade que foi feita”.

— O estado do Paraná está de luto pela forma como foram tratados os professores, os trabalhadores da educação que faziam ontem um manifesto na Assembleia Legislativa. Eu estive ontem com o senador Roberto Requião na Assembleia Legislativa do Paraná e também participei, junto aos professores, da manifestação que faziam, aliás estive junto aos professores quando foram atingidos por bombas de gás lacrimogênio, por cassetetes da polícia e por uma truculência incomparável — disse a senadora.

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Richa não tem mais condições de governar, afirma Requião

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confronto entre o peito e a bala

“Foi um massacre”, assim definiu o senador Roberto Requião (PMDB-PR), em entrevista ao Brasil 247, descrevendo a repressão da Polícia Militar do governador Beto Richa (PSDB), contra os professores estaduais. Requião acompanhou os fatos de dentro da Assembleia Legislativa do Paraná, em Curitiba.

“Uma violência absurda contra idosos, mulheres, jovens… Aqui, em Curitiba, o sentimento é de indignação, perplexidade e revolta”, completou o senador.

Requião foi à Assembleia, acompanhado da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR). Ambos tentaram convencer os parlamentares a não votar o pacote fiscal de Richa, que confisca R$ 2 bilhões da previdência dos servidores para tapar rombos no orçamento.

“Esse parlamento envergonhou o Paraná. Todos se venderam ao Beto. Votaram em troca de emendas e de pequenas benesses em suas localidades”, declarou Requião.

Segundo o senador, embora Richa tenha conseguido aprovar o pacote, ele perdeu as condições morais de permanecer no cargo. “Não tem a menor condição de governar. Antes desse massacre, a rejeição dele já era de 80%. Agora, vai bater no teto”, salientou.

Requião disse Richa só se mantém no cargo graças ao apoio quase absoluto da imprensa paranaense, que se replica também em veículos nacionais. “Como é que chamam de confronto um massacre que deixa 200 feridos? Era um elefante contra uma formiga”, pontua o parlamentar.

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Confisco de R$ 2 bilhões dos fundos dos servidores

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Como é característico de Requião, não poupou críticas ao governador e disse que o Paraná foi tomado por uma “quadrilha”.

“Beto elevou a distribuição de dividendos das estatais, como Copel e Sanepar, para os sócios privados e esmagou os professores. O que fazer diante desse quadro?”, indagou.

Segundo ele, agora os parlamentares pedirão um posicionamento do Ministério da Previdência sobre o confisco de R$ 2 bilhões dos fundos dos servidores. Requião avalia que, depois do massacre deste 29 de abril, os professores dificilmente retomarão as aulas no Paraná.

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Tiros, explosões e feridos em Curitiba; veja o vídeo

Por volta das 15h horas desta quarta-feira, policiais militares e manifestantes entraram em confronto na frente da Assembleia Legislativa. Imagens mostram que os policiais usaram bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha e jatos de água contra os manifestantes. Vídeo aqui

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Educação no Paraná: entre a gestão e o Choque

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por Christiano Ferreira

O atual governador do Estado elegeu-se baseado num discurso que previa um “choque de gestão” na máquina pública paranaense, a qual seria administrada por ele e seu secretariado como se fosse uma empresa privada. A frase “fechar as torneirinhas do desperdício”, acompanhada de gesticulação cuidadosamente ensaiada, foi uma constante na primeira campanha eleitoral e o resultado todos sabemos: dois mandatos conquistados sem muito esforço.

Uma ideia óbvia e muito cara a qualquer um que trabalhe com gestão é a da medição de resultados. O pressuposto básico é o seguinte: se não há uma medida clara para avaliar o sucesso ou o insucesso de determinada iniciativa ou política, não há como saber se os recursos, sempre escassos, estão sendo bem aplicados. Essa ideia, hoje disseminada nos setores público e privado, dão uma base sólida na avaliação de governos, programas e projetos.

Essas noções aliaram-se a outra, bastante forte e perigosa, que é a da deslegitimação da política. Embrenhado no discurso da gestão eficaz, há o pressuposto de que o setor público deve ser “técnico” e não “político”, ainda que as fronteiras entre um conceito e outro jamais sejam explicitadas formalmente pelos representantes eleitos. Uma gestão “técnica” da educação, dessa forma, deveria ser pautada na busca da eficiência e eficácia, na boa alocação dos recursos e na indicação de pessoas capacitadas para postos-chave. Os resultados do choque de gestão no Paraná são reconhecidos até pelos pobres pitbulls que, em algum momento do ano passado, ficaram sem ração nos canis da PM. Mas deixemos isso de lado e façamos uma análise “técnica” da gestão Beto Richa na educação.

Tudo aquilo que o governo estadual compromete-se a realizar fica registrado no PPA – Plano Plurianual. Lá estão explicitados os indicadores de desempenho para cada um dos programas que deveriam causar algum efeito na educação paranaense. São eles: Inova Educação, Educação para Todos e Excelência no Ensino Superior. Para cada um, há medidas e metas, as quais seriam alcançadas por meio da gestão modernizadora, técnica e apolítica do atual mandatário estadual.

Um dos programas, o Inova Educação, tem como objetivos a melhoria da qualidade da educação básica e a valorização do magistério. Neste programa estão elencados seis indicadores: Taxa de Aprovação, média de resultados na Prova Brasil e nota no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), cada qual desdobrado para o Ensino Médio e os anos finais do Ensino Fundamental. Os resultados são lamentáveis, a despeito dos aumentos de receita, do vasto apoio parlamentar e da conivência surda da intelligentsia local.

A taxa de aprovação aferida em 2010 e usada como base foi de 79,4% para o ensino médio e 82,4% nos anos finais, com a meta de chegar a 2015 com índices de 87% e 90%, respectivamente. Na apuração desses índices em 2014, o primeiro estava em 78,6% e o segundo em 83,2%, ou seja, menores ou praticamente estagnados em relação a 2010. Nos resultados da Prova Brasil constata-se que, a exemplo dos rabos da Cavalaria, o crescimento foi para baixo, pois no ensino médio estávamos com 4,76 de média e no fundamental com 4,95, e em 2014 regredimos para 4,19 e 4,88. Por fim, o Ideb do Ensino Médio era de 3,9 e ano passado estava em 3,4, enquanto que o Fundamental ficou nos mesmos 4,1 pontos de quatro anos atrás.

Antes que as assessorias de imprensa oficiais ou os blogueiros oficiosos apontem dedos de black blocs nesses números, é bom frisar: isto está em documentos produzidos e disponibilizados pelo próprio governo do Estado, no site da Secretaria de Planejamento.

Ou seja: a gestão modernizadora e limpinha, que prometeu fechar as torneiras do desperdício e trazer o melhor dos mundos para a educação paranaense, conseguiu o prodígio de piorar o que já era ruim. A percepção generalizada entre alunos, professores e diretores sobre a degradação do ambiente escolar e a falta de condições mínimas para o fornecimento de ensino de qualidade é comprovada com números contestáveis apenas por um laborioso exercício de fantasia e imaginação – o que não é raro por estas plagas, frise-se.

Talvez o indicador que o atual governo deixará gravado nas páginas da história seja outro: 28,5. Essa é a proporção de professores feridos (200) para cada detido (7) no massacre perpetrado pela Polícia Militar em frente à Assembleia Legislativa nos episódios de 29 de abril. Nas páginas futuras da história do Paraná, os números da gestão modernizante serão uma nota de rodapé quando comparados ao circo de horrores que se presencia na educação estadual.

AliceRuiz

Violência em Curitiba é assunto de jornais internacionais

Não acabou/ tem de acabar/ eu quero o fim/ da Polícia Militar

por Alexandra Lucas Coelho/ Jornal Público/ Portugal

1. Quando fui dormir contavam-se mais de cem feridos. Esta manhã passavam de duzentos, em maioria professores no activo, mas também reformados, crianças, gente em cadeira de rodas, jornalistas que cobriam o acontecimento: uns atingidos por balas de borracha, outros por bastões, pontapés, bombas de gás lacrimogéneo, spray de pimenta, jactos de água ou pitbulls. Aconteceu quarta-feira, no centro de Curitiba, por ordem do governador do Paraná, e foi uma das mais violentas cargas da Polícia Militar contra manifestantes desarmados de que haverá registo na democracia brasileira.

2. “Praça de guerra”, resumiu o prefeito da cidade, enquanto o edifício da prefeitura era transformado em refúgio e enfermaria de emergência. Desde sábado que a praça frente à Assembleia Legislativa do Paraná estava cercada pela Polícia Militar, obedecendo às ordens do governador Beto Richa (PSDB). Uns bons passos à esquerda, o prefeito Gustavo Fruet (PDT) denunciara o cerco como “um abuso” mas o contingente militar só se reforçou no dia da manifestação, com atiradores no cimo de prédios e helicópteros. A insatisfação dos professores vinha de trás, passara por uma greve entre Fevereiro e Março, e nessa quarta-feira os deputados do Paraná iam votar um projecto que cobriria buracos nas contas governamentais à custa de mexidas na reforma dos funcionários públicos. Os professores eram um dos grupos atingidos pela alteração. O protesto juntou milhares, 20 mil segundo a organização, em frente à Assembleia, cujo acesso estava bloqueado pela polícia. Segundo vários relatos na imprensa, quando os primeiros manifestantes tentaram furar o cerco para entrar na sessão, derrubando grades, a polícia respondeu com tiros de borracha, jactos de água e bombas de gás lançadas de helicópteros. Há fotografias de manifestantes com buracos de balas de borracha na cabeça e no tronco. Testemunhas contam que professores foram chutados e espancados quando já estavam no chão, feridos. Um jornalista foi levado em estado grave para o hospital depois de ser atacado por um pitbull da Polícia Militar. Os gases alcançaram uma creche vizinha, que convocou os pais de urgência a retirarem os filhos.

3. Com tudo isto a acontecer lá fora, e sem presença popular na votação, os deputados aprovaram o projecto, que agora segue para confirmação do governador Beto Richa. O nome parece uma caricatura, à altura de bandido-chefe, e ele não desarmou. No auge da pancadaria, apareceu a dizer que os manifestantes eram “black blocs”, justificando assim a truculência policial. Mais tarde declarou que a polícia — armada e equipada com capacetes, coletes e escudos perante manifestantes sem armas e sem protecção — agiu para proteger a própria vida. O sindicato dos professores anunciou que o vai processar. Uma greve geral de professores estava marcada para esta quinta-feira em que escrevo.

4. Estive em Curitiba apenas uma vez, atrás da sombra de Dalton Trevisan, esse enigma vivo da literatura brasileira. Mas, à distância, mantenho contacto regular com um curitibano da gema, por acaso professor (da Universidade do Paraná), Caetano Galindo, tradutor da mais recente edição brasileira de Ulisses, de James Joyce. Onde andaria ele, pensei, ao ver aquela sucessão de professores ensaguentados. Mandei-lhe uma mensagem já de madrugada, perguntando se gostaria de dizer algo sobre o sucedido, e esta manhã ele respondeu: “A incompetência do governo atual [do Paraná], financeira, política, retórica, não deixa de surpreender. A estupidez do comando da situação, além de total falta de respeito, demonstra uma falta de mero bom-senso que chega a espantar. Não me lembro de ter visto alguém tão nitidamente incompetente no cenário político.”

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5. Caetano não estivera na praça mas o seu irmão, jornalista, sim, caso eu quisesse falar com ele. Escrevi então a Rogério Galindo, que em menos de uma hora respondeu: “Em 15 anos de jornalismo, nunca tinha sentido o gás lacrimogêneo se espalhar à minha volta. O gás arde nos olhos, queima a garganta e o nariz, faz chorar. Mas eu e muitas pessoas que estavam ali chorávamos por outras razões, na verdade: por vermos feridos, por vermos gente sendo carregada, sangrando, por vermos a aflição dos que corriam para escapar às bombas e aos policiais. Chorávamos pelo absurdo que se praticava contra nossa democracia.”

6. Entretanto, alguém recuperava online uma entrevista que Beto Richa dera há tempos à rádio brasileira de notícias, em que se declarava contra a formação superior de polícias, para evitar desobediências. Argumentava ele: “Outra questão é de insubordinação também, uma pessoa com curso superior muitas vezes não aceita cumprir ordens de um oficial ou um superior, uma patente maior.” A partilha desta entrevista coincidiu com a notícia de que 17 polícias se tinham recusado a participar no cerco aos manifestantes e teriam sido detidos por desobediência.

7. Um polícia trabalha para o Estado, como um professor do ensino público trabalha para o Estado. O que aconteceu em Curitiba, assinalaram várias testemunhas, foi o Estado contra o Estado. Mais precisamente: um líder, eleito, lançando pesadamente uma parte do Estado, armada, contra outra parte do Estado, desarmada. Distorção extrema da democracia, ao ponto de começar a repetir-se insistentemente nas redes sociais a palavra “fascismo”.

8. Muitos destes polícias também nasceram negros ou pobres, como os negros ou pobres que mais morrem no Brasil, empurrados para o que sobra, carne para canhão, numa cultura que há séculos favorece obediência, falta de autonomia e repressão, assim perpetuando a violência. Em Agosto de 2013, na sequência das manifestações que tinham sacudido o Brasil em Junho, muitas vezes violentamente reprimidas, entrevistei o coronel Ibis Silva Pereira, que então dirigia o novo programa de formação da Polícia Militar. O coronel Ibis queria acabar com a “lógica do inimigo”, intrínseca à própria noção de Polícia Militar, e para isso, sim, ele defendia o fim da Polícia Militar, ou seja a desmilitarização da polícia. Dias depois dessa entrevista, o coronel Ibis foi deslocado de funções. Vendo a polícia agir agora em Curitiba também pensei nele.

9. “A Polícia Militar é mais do que uma herança da ditadura, é a pata da ditadura plantada com suas garras no coração da democracia”, disse numa entrevista o antropólogo Luiz Eduardo Soares, um dos maiores especialistas brasileiros em segurança pública. Luiz Eduardo era um admirador do coronel Ibis, e nesses dias de Agosto de 2013 acreditava que a conjuntura brasileira ia apontar para uma desmilitarização, essencial à democracia: “A cultura militar é muito problemática para a democracia porque ela traz consigo a ideia da guerra e do inimigo. A polícia, por definição, não faz a guerra e não defende a soberania nacional. O novo modelo de polícia tem de defender a cidadania e garantir direitos, impedindo que haja violações às leis. Ao atender à cidadania, a polícia se torna democrática.” Nessa entrevista, Luiz Eduardo dizia que “70% dos soldados, cabos, sargentos e subtenentes querem a desmilitarização e a mudança de modelo”, enquanto a percentagem entre os oficiais desce para 54%. Ainda assim, uma maioria absoluta a favor da desmilitarização. Mas quase dois anos depois das manifestações que tomaram o Brasil — e em que tantas vezes ouvi o lema “Não acabou / tem de acabar / eu quero o fim / da Polícia Militar!” —, Curitiba não aponta nessa direcção.

10. Um pouco mais a sul da capital paranaense, em Pelotas, interior do Rio Grande do Sul, o sempre grande Odyr Berrnardi desenhou dois PM (polícias militares), escudados até aos dentes, um dizendo para o outro, lá no combate de Curitiba: “Minha professora disse que estou irreconhecível nesse uniforme.”

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Massacre de Richa. Duzentos feridos, oito em estado mais grave (Vídeo)

As informações sobre o massacre da polícia do governador Beto Richa não oferecem um número preciso de feridos no prende e arrebenta promovido ontem contra os professores. Mais de duzentos feridos. Ou 150

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Publica Viomundo:

PM de Beto Richa usa gás lacrimogêneo, bombas e balas de borracha contra manifestantes: Há 150 feridos, oito em estado mais grave, diz o Samu

Segundo o Samu, há 150 pessoas feridas, 42 delas foram encaminhadas para o Hospital Cajuru e oito estão em estado grave. Também há outros feridos sendo atendidos no Centro Médico do Tribunal de Justiça, mas ainda não há total de atendimentos lá. Quatro ambulâncias fizeram atendimento no local. Muitos professores e manifestantes feridos são atendidos na rua e na prefeitura. Até o momento, cinco pessoas foram presas.

O prefeito Gustavo Fruet (PDT) disse que até o momento houve 34 pessoas encaminhadas ao hospital e mais de 100 atendimentos. O prédio da prefeitura está aberto para o acolhimento de feridos na a ação da polícia contra os manifestantes no Centro Cívico. As ambulâncias não foram suficientes e equipes da Guarda Municipal foram acionadas para ajudar no deslocamento dos manifestantes feridos.

Fruet repassou as informações em uma entrevista a jornalistas durante o confronto, por volta das 16 horas. Durante a conversa, bombas de gás lacrimogêneo continuavam sendo disparadas pela polícia. O prefeito disse que a ação do governo do estado tem um grau violência desnecessário. “Há dias a prefeitura vem alertando da desproporcionalidade da força.”

O Centro Municipal de Educação Infantil (Cemei) Centro Cívico , que atende cerca de 150 crianças, entrou em contato com os pais das crianças para que fossem buscá-las com urgência. Algumas delas estavam passando mal por causa do gás lacrimogênio utilizado pelos policiais.

Imagens da RPCTV mostram a confusão no Centro Cívico. Veja Vídeo 

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PARANÁ EM CHAMAS. O massacre a que Curitiba assistiu no 20 de abril

por Dimitri do Valle, especial para os #Jornalistas Livres

fotos de Leandro Taques

A série de explosões começou a ser ouvida pouco antes das três da tarde. Quem estava a distâncias que chegavam a seis quilômetros, por exemplo, conseguia ter uma ideia clara de que as coisas no Centro Cívico, a praça dos três poderes do Paraná (mais a Prefeitura de Curitiba), não estavam para brincadeira. Os estrondos eram resultado da ação violenta de policiais militares contra servidores públicos, a maioria professores da rede estadual.

Há dois dias, eles protestavam contra uma série de medidas de arrocho que a Assembleia Legislativa começava a colocar em segunda e última votação naquele momento. No final da tarde, sabia-se que houve pelo menos 107 feridos — dois policiais e 105 servidores. O placar medonho retrata um verdadeiro massacre.

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Já à noite, sabia-se que os feridos, aumentaram para 150, segundo informações oficiais do SAMU. Oito deles seguiam em estado grave por causa de mordidas de cães policiais e tiros com balas de borracha.

Na segunda-feira, com o registro de escaramuças entre PMs e servidores, mas em escala menor do que a de hoje, o fatídico e já histórico 29 de abril, os deputados já haviam aprovado em primeira votação, por 31 votos favoráveis contra 21 o tal pacotaço, encaminhado pelo governador Beto Richa (PSDB) para melhorar as finanças do Estado, cujos balanços festejados por ele mesmo durante sua campanha à reeleição, no ano passado, apontavam para uma contabilidade em céu de brigadeiro.

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Por mais de uma hora e meia, as bombas de gás e de efeito moral mostraram do lado de fora do parlamento estadual que eram a verdadeira garantia para a votação definitiva de hoje no interior do prédio, fazendo valer a vontade de Richa e de sua equipe de governo, comandada pelo baiano Mauro Ricardo Costa, importado pelo tucano para seu segundo mandato e já conhecido pelos serviços prestados na área fazendária da Prefeitura de de Salvador (BA), gestão de ACM Neto (DEM), e no governo de São Paulo, na gestão de José Serra (PSDB). A sessão prosseguia, sem final previsto, até a conclusão desta reportagem.

No entanto, à medida em que as bombas, os cães, as balas de borracha e os cassetetes caíam sobre os manifestantes armados apenas com gritos e palavras de ordem, deputados preocupados com a onda de violência que se desenrolava na praça principal, em frente a Assembleia, batizada de Nossa Senhora da Salete (trágica ironia), chegaram a sair do prédio para pedir calma aos policiais. A exemplo de servidores públicos feridos, com quem ficou lado a lado durante a confusão e barbárie generalizada na praça, o deputado Rasca Rodrigues, do PV, saiu no prejuízo e foi mordido por um dos cães da tropa de choque da PM, além de ter aspirado gás de pimenta e lacrimogênio. Voltou ao prédio com sangue escorrendo pelo braço.

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Proibidos de se aproximar da Assembleia Legislativa por grades e um cordão humano de 1.500 policiais, a maioria deslocados de batalhões do interior e sem garantia de pagamento de suas diárias, restou aos manifestantes fazer o caminho de volta, diante da intensa repressão policial que se iniciou. Eles voltavam correndo em direção à avenida Cândido de Abreu, a principal via de ligação com o Centro Cívico. Não estavam sozinhos.

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Muitos vinham carregando, como feridos da guerra campal, pelos braços e pernas, manifestantes desacordados e feridos.

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O prédio mais próximo em que eles poderiam ficar à espera de socorro, foi a Prefeitura, comandada atualmente por Gustavo Fruet (PDT), atual desafeto de Richa, que lhe negou candidatura a prefeito, em 2012 pelo PSDB, vindo a se candidatar e ganhar o poder da capital, como azarão.

O hall de entrada e salas próximas, onde o IPTU e tributos municipais são cobrados, foram transformados em hospital de campanha. Vídeos de smartphones com os feridos deitados, sangrando e sem camisa passaram a ser veiculados na internet. Mesas de trabalho viraram maca, e as poucas que chegavam, apareciam por meio das escassas equipes do SAMU, que estavam em dificuldades para se aproximar do Centro Cívico, por conta do bloqueio policial de ruas próximas, e à multidão em fuga por calçadas e a avenida principal.

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O expediente em toda a Prefeitura foi interrompido para que se desse cabo do atendimento aos feridos. Só ali foram acolhidos 35, muitos deles machucados no corpo, da cabeça aos pés, pelas balas de borracha das carabinas da tropa de choque e outros com dificuldade de respiração por inalação dos gases de dispersão, além dos atingidos de praxe pela força dos cassetetes. Testemunhas entre os manifestantes relataram ter visto um helicóptero com policiais atirando bombas em voos rasantes, no que seria o primeiro ataque aéreo feito contra seus próprios civis em território nacional.

Uma creche municipal que fica no Centro Cívico, a poucas quadras da praça onde a guerra prosseguia, testemunhou de dentro de suas paredes todo o terror protagonizado pelos policiais. Se a seis quilômetros, o barulho das bombas se fazia surpreender, como exposto no início deste relato, pode-se ter uma ideia da intensidade dos estrondos e do eco provocado dentro da creche infantil, exposta ao barulho das explosões e dos gritos dos manifestantes, apoiados por potentes carros de som, além do incômodo nauseante da fumaça dos gases de dispersão. O choro tomou conta das crianças, funcionários e professores, que não tinham a quem recorrer, restando torcer para que tudo terminasse o mais breve possível, o que não aconteceu.

Do ponto de vista militar, a polícia cumpriu, mesmo com o uso de força excessiva, a missão de deixar afastados da Assembleia os manifestantes, o que não havia conseguido em fevereiro, quando Richa tentou colocar o pacotaço em votação pela primeira vez, ocasião em que foi rechaçado pela presença de 20 mil manifestantes e um mês de greve dos professores, a maior categoria de servidores do Estado, com 50 mil profissionais. Naquela ocasião, os deputados da bancada governista tiveram que entrar na Assembleia dentro de um vetusto e gigante camburão policial de cor preta. Tentaram encaminhar a votação do restaurante da assembleia, pois o plenário havia sido ocupado, mas tiveram medo da reação dos manifestantes e adiaram o intento.

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Como se percebe, era questão de tempo para Richa assimilar o recuo, reorganizar a tropa, tanto a da fiel Assembleia, como a das balas, bombas e porretes, para fazer valer seu projeto que tira vários direitos do funcionalismo, como o corte de licenças de parte dos professores, o livre uso de recursos dos fundos estaduais, inclusive o do poder Judiciário, aumento da alíquota do ICMS de mais de 90 mil produtos, e mudanças no setor de previdência dos servidores, que os obrigarão a pagar um índice extra caso queiram manter seus salários integrais acima de R$ 4,6 mil.

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O preço político a ser pago para os principais atores do episódio, como Richa e seus colaboradores no governo e na Assembleia, ainda é tão nebuloso e maleável quanto a fumaça de cor branca das bombas que tomou conta do Centro Cívico e fartamente captada pelos celulares dos prédios próximos.

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Antes que o leitor estranhe esse direcionamento nessa parte do texto, um pouco de história recente da política local. Em 30 de agosto de 1988, a PM reprimiu no mesmo Centro Cívico, um protesto de professores da rede estadual, no então governo de Álvaro Dias, na época no PMDB, e hoje senador filiado ao PSDB. Muitos decretaram o fim de sua carreira política, marcado pelo pisoteio da cavalaria em professores desarmados, mas Álvaro segue firme na lida. Tirando duas derrotas circunstanciais ao governo paranaense, contra Jaime Lerner, em 1994, a novidade política daquele ano, e Roberto Requião, em 2002, apoiado por nada menos do que o presidente Lula, o bamba da vez, Dias é o senador com mais mandatos eleitos. Ganhou, por exemplo, com ampla folga mais oito anos em 2014. Já havia sido eleito em 2006 e em 1998, portanto, depois da pancadaria de 88.

Taques 9

Richa tem um destino mais incerto, mas nem por isso menos favorável. Richa encarna o antiesquerdismo visceral de boa parte do eleitorado paranaense atual. Com o tempo, como todo político, pode ser beneficiado pela diluição natural do episódio dantesco, assim como aconteceu com Álvaro Dias. A diferença é que, pelo tamanho do massacre e sua presença constante na internet (ferramente inexistente na época de Álvaro), Richa poderá passar o que resta do seu segundo mandato tentando explicar os “comos” e “por ques” de tanta violência contra profissionais da Educação. E mais: boa parte da população paranaense, assim como a brasileira, ainda marca sua rotina diária em frente à televisão pelo noticiário das emissoras de sinal aberto. Nesta noite, Richa pode ser beneficiado ou não pelos filtros editoriais e critérios supostamente jornalísticos (“não abusar das imagens, tem muita criança assistindo neste momento”, pode ser um deles, sim) lançados à mão por editores e cúpulas das emissoras.

A administração de Richa enfrenta também profunda investigação sobre supostos pagamentos de propina a servidores da Receita Estadual de Londrina, no Norte do Paraná, sua cidade natal, por empresas pressionadas a se verem livres de qualquer fiscalização e cobrança dos agentes do fisco. Um dos jornalistas mais premiados do Brasil, ao investigar o caso, teve que sair da cidade, pois recebeu a informação que seria morto em falso assalto a uma churrascaria que frequentava. O primo de Richa, Luiz Abi, é suspeito de estar por trás de fraudes de licitação para consertos de carros do governo, assunto que o jornalista ameaçado, James Alberti, da afiliada da Globo, no Paraná, também investigava em Londrina. Abi foi preso, a pedido do Ministério Público, mas atualmente responde ao processo de suspeita de corrupção em liberdade.

Beto Richa é filho de José Richa (morto em 2003). Richa pai teve papel de destaque na época da redemocratização, quando Tancredo Neves foi eleito presidente da República, no colégio eleitoral de janeiro de 1985. Se os militares da linha dura decidissem impedir a posse ou não reconhecessem o resultado da eleição indireta feita no Congresso Nacional, Richa pai havia se comprometido a participar de um plano para abrigar Tancredo no Paraná e resistir contra uma eventual tentativa de golpe, colocando a sua Polícia Militar, para proteger o novo presidente civil. Hoje, trinta anos depois, a mesma corporação, sob o desígnio de outro Richa, faz o caminho inverso, o da violência desenfreada, sem qualquer ligação com as garantias democráticas tão defendidas pelo próprio pai, como ficou explícito na tarde desse 29 de abril, marcada pelo frio e garoa que caiu no centro do poder da Capital do Paraná.

Taques 10

Diário do Norte chama massacre da polícia de Beto Richa de confronto

Não existe confronto (*) entre a policia armada e os professores desarmados. Existe terrorismo estatal, crueldade, covardia de uma milícia que prende e arrebenta.

Uma milícia comandada por um governador nazi-fascista. E defendida por uma imprensa partidária, conservadora e direitista.

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Marcos Simões: “Notem na manchete do jornaleco dos reaças: “entram em confrnto”. Não é isso, lixo! A meganha é que é violenta contra os trabalhadores, moradores das áreas mais pobres, donas de casa, estudantes pobres, etc. Mas é uma cadelinha no cio ao encontrar bandido reaça, ladrão poderoso, gente das áreas nobres, bandidas ou não”

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Policia de Beto Richa massacra professores no Paraná

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por Miguel do Rosário

brasil post 1

brazil post 2

Brasil Post 3

As fotos acima são do site Brasil Post.
Chegam relatos de todas as partes de que, desde ontem, a polícia militar do governador Beto Richa (PSDB) está massacrando professores da rede pública, que protestam contra o governo e seus deputados.

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Os relatos são sinistros. A PM está jogando bomba do alto de helicópteros, agredindo indiscriminadamente.

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Essa é a mesma PM ao lado da qual os coxinhas psicóticos gostam de tirar “selfies”.
Acompanhe os acontecimentos pelo blog do Esmael.

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Enquanto isso, o G1 chama o massacre de “confronto”. Como se professores desarmados, sem nenhuma disposição agressiva, pudessem estar em “confronto” com milhares de policiais armados até os dentes, com viseiras, escudos, gás lacrimogênio, cassetete, arma de fogo, etc.

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(*) Confronto: luta, contenda, guerra, briga, combate.

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