Brasil ocupa terceiro lugar na lista do CPJ dos países mais mortais para jornalistas em 2015

Jornalistas torturados antes de morrer. Jornalistas decapitados. Um Brasil nada cordial. Da pregação do ódio e do retorno da ditadura com sua lista de presos políticos, flagelação e morte

 

A violência fatal contra jornalistas na América Latina continuou em crescimento em 2015, e o Brasil foi destaque na lista dos países mais mortais para jornalistas, preparada pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ na sigla em inglês), ocupando o terceiro lugar no mundo todo.

Com seis mortes confirmadas pela organização, o país “teve seu maior número de mortes desde 1992, quando o CPJ começou a registrar dados detalhados destes casos”, segundo o relatório. A organização ressaltou que houve avanços no país na punição aos assassinos de jornalistas nos últimos dois anos.

O caso mais recente foi o do blogueiro de 30 anos Ítalo Eduardo Diniz Barros, assassinado no estado do Maranhão em 13 de novembro. Apenas três dias antes, o jornalista de uma rádio comunitária Israel Gonçalves Silva foi assassinado no estado de Pernambuco.

O jornalista de rádio Gleydson Carvalho tomou um tiro enquanto estava no ar com um programa da Rádio Liberdade FM em Camocim, Ceará, em agosto.

No transcurso de uma semana em maio, os corpos de dois jornalistas assassinados foram encontrados na parte oriental do país. Em 18 de maio, o corpo decapitado do blogueiro de ‘Coruja do Vale’ Evany José Metzker foi encontrado em Minas Gerais. Dias mais tarde, a polícia descobriu o corpo torturado do jornalista de rádio comunitária Djalma Santos da Conceição na Bahia.

Em uma região que foi particularmente perigosa para os jornalistas nos últimos anos, o jornalista de rádio paraguaio Gerardo Ceferino Servían Coronel foi assassinado em Ponta Porã, Brasil, na fronteira com o Paraguai, em 5 de março.

Além do Brasil, México, Colômbia e Guatemala foram os outros três da América Latina na lista de mais mortais para jornalistas em 2015, segundo o relatório de fim de ano da organização. Para o CPJ, 12 dos assassinatos de jornalistas nestes países foram confirmados como crimes relacionados ao trabalho. Seis dos casos ocorreram no Brasil.

 

Brasil está entre os países que mais matam jornalistas no mundo, aponta entidade

Agência Estado – O Brasil continua sendo um dos países mais perigosos para jornalista no mundo. Um levantamento publicado em  dezembro último, pela entidade Press Emblem Campaign (PEC), com sede em Genebra, aponta que em 2015 sete jornalistas foram assassinados no País. Com esses números, o Brasil aparece na 7ª colocação entre os locais com a maior quantidade de mortes de jornalistas no mundo no ano.

Em cinco anos, 35 jornalistas foram mortos no Brasil. Liderando a lista está a Síria, onde 86 jornalistas foram assassinados em cinco anos, seguido do Paquistão, com 55 mortes e do Iraque e México, cada um com 46 assassinatos em cinco anos. A Somália teve nesse mesmo período 42 mortos e as Filipinas 34. Com os números, o Brasil supera a situação em Honduras ou Líbia.

Guerra Invisível

Para o ano de 2015, o Brasil ainda empatou em número de mortes com o Iêmen e Sudão do Sul, dois países em guerra. Cada um deles registrou sete assassinatos. Matou-se mais jornalistas no Brasil neste ano do que na Somália, Paquistão, Ucrânia e Afeganistão.

Brasil é 1º em mortes de jornalistas nas Américas

Daniela Fernandes
De Paris para a BBC Brasil

 

O Brasil se tornou o país com o maior número de jornalistas mortos nas Américas, segundo o relatório anual da organização Repórteres sem Fronteiras (RFS), com sede em Paris, divulgado em 2o14.
Com cinco jornalistas mortos no país em 2013, o Brasil passou o México (duas vítimas), considerado um “país muito mais perigoso (do que o Brasil)”, diz o relatório.
A organização calcula que 114 jornalistas foram feridos desde junho de 2013 por conta dos protestos que tomaram conta do Brasil, no que a RSF chama de “primavera brasileira”.
“A dura repressão policial que ocorreu no Brasil em 2013 também atingiu os profissionais da informação. Essa primavera brasileira provoca um forte questionamento em relação ao modelo midiático dominante e coloca em evidência os sinistros hábitos mantidos pela polícia militar desde a ditadura”, afirma o relatório.
Para a organização, “mais de dois terços dos casos (de violência contra jornalistas nos protestos) são atribuídos às forças policiais”.

JORNALISTAS MORTOS

Cláudio Moleiro de Souza (12/10/2013) – Rádio Meridional – assassinado com um tiro no pescoço na rádio onde trabalhava, em Rondônia. A polícia descartou a possibilidade de roubo como motivo do crime e afirmou que Souza foi vítima de um atentado.

José Roberto Ornelas de Lemos, 45 anos (11/06/2013) – Hora H – foi executado com 44 tiros em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro enquanto fazia compras em uma padaria. Um carro com quatro pessoas estacionou na frente do local e começou a atirar em sua direção. Segundo sua família, Lemos já havia recebido ameaças de morte em razão da linha editorial do jornal, bastante crítica em relação à polícia e às autoridades locais.

Walgney Assis Carvalho, 43 anos (14/04/2013) – Jornal Vale do Aço – o fotógrafo foi assassinado com um tiro nas costas em um restaurante em Coronel Fabriciano (MG) por um motoqueiro que fugiu após os disparos. Carvalho teria informações sobre o assassinato de um colega de trabalho (Rodrigo Neto de Faria), morto um mês antes.

Rodrigo Neto de Faria, 38 anos (08/03/2013) – Rádio Vangarda AM / Vale do Aço – morto a tiros por dois homens enquanto saía de um bar em Ipatinga (MG). Autoridades federais acreditam em excecução. O jornalista havia denunciado o envolvimento de policiais em crimes. Suas denúncias haviam sido feitas à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

Mafaldo Bezerra Goes, 61 anos (22/02/2013)- Rádio FM Rio Jaguaribe – morto a tiros por dois motoqueiros em Jaguaribe, no Ceará. Goes denunciava em seus programas nomes de suspeitos de crimes e teria sido assassinado por ordem de um traficante preso.

 

 

 

 

Últimos escritos de Gleydson Carvalho, jornalista assassinado no Ceará

Radialista Gleydson Carvalho 1

Em Martinópole tem gente soltando foguete por conta do 1º lugar em acompanhamento do Bolsa Família

E o Bolsa Família é de vocês? Então quando cancelam um beneficio a responsabilidade é de vocês?
Ah, deve ser assim; Quando a notícia é boa eles dizem que foram eles quem fizeram, quando é ruim foi o Governo Federal.
Assim é muito bom, se apropriar do sucesso aleio para disfarçar a própria inoperância e incompetência.
Quero ver o Martinópole sendo 1º lugar em atendimento médico nos postos de saúde, que são de inteira responsabilidade da prefeitura.
São dois Martinópole, o REAL e o da internet.

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O rei e a rainha. Soube que ontem foi a maior baixaria em Senador Sá, os caras querendo ocupar a força uma praça que está em reforma, deu até polícia.
Engraçado, em Martinópole até pra vender pipoca tem que pedir autorização, aí os caras chegam em Senador Sá e querem mandar e desmandar, como é que pode?
O engraçado é que o rei, o príncipe e a rainha mor foram lá fazer pressão.
Até diziam, ” É muito absurdo! Como é que pode?” da vontade de rir da hipocrisia desse povo.
Pode ser que agora depois que sentiram a humilhação na pele, eles se compadeçam do povo de Martinópole e deixem de ser tão arrogantes.

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Uma puta velha. Estava eu aqui pensando, “Luciano”… Luciano… Quem é Luciano???
Ah, lembrei! É um fulano de tal que ocupa cargo de confiança e passa o dia bajulando o prefeitão e a trupe dele…
Luciano deixa de ser babão, deixa de ser mentiroso.
Quem é você? Que moral você tem?
Cara você está na folha, tem moral de nada não.
Teu bloguizão que só Deus é quem sabe como é que se sustenta, porque dizer que as Casas Bahia anuncia no teu blogue é ser muito inocente, pra não dizer, mentiroso. Teu bloguizão que tem o moral de preá armado com uma tampa de refrigerante na porta de um clube, não escreve uma linha a favor do povo de Martinópole, você só serve de menino de recado para defender o indefensável…
É ser muito cara de pau.
Aí vir querer dá uma de madre Tereza pra cima me mim?
Dizendo que não sei o que é ser pobre?
Canalha você me conhece de onde?
Perdi meu pai aos 14 anos, tive que trabalhar de faxineiro para ajudar em casa, já vendi picolé, fui carroceiro, garçom, vendedor ambulante, camelô, continuo, já morei de favor muitas vezes, já passei muita fome, aí um merda desses vim dizer que não conheço o sofrimento do povo?
Deixa de ser mentiroso. Trabalhei, estudei, e hoje tenho um pouco de conforto, tudo graças a bondade de Deus e ao meu trabalho. Trabalho 14 horas por dia, e por isso, digo e repito, não preciso de prefeitura pra nada, pra mim é uma zero a esquerda.
Quanto aos teus amigos que não me conhecem diga pra eles, já que você se coloca na situação de menino de recado, que não me misturo com qualquer um não, quero é distancia da mesa dos escarnecedores.
Aproveita teu momento de preocupação com o povo e faz um tur pelos postos de saúde e posta às fotos, aproveita e posta também onde é que os funcionários cedidos por outros órgãos e cidades estão lotados. Faz uma matéria especial denunciando o gravíssimo crime que um pipoqueiro cometeu que não pode entrar em um estabelecimento publico para vender seus produtos. Outra pauta, investigar de onde saiu o dinheiro para fazer chitão em Senador Sá, porque só você não percebeu a coincidência das atrações.
Uma puta velha dessa querendo dá uma de moça.
É muita falta de absurdo.

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Urna prenha. Justiça Eleitoral intima prefeito de Martinópole por captação ilícita de sufrágio.
Traduzindo: “Por compra de votos”

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Eu sonho com um Brasil melhor pra todos!
Onde nossos filhos e filhas possam crescer e ser felizes.
Sonho com um país que cuida dos seus filhos os respeita e os acolhe como mãe gentil.
Sonho com um Brasil onde o povo não se vende e não se deixa enganar, onde o cidadão tem consciência dos seus direitos e pleno direito de reivindica-los.
Eu sonho! Mas infelizmente enquanto as leis forem brandas com os corruptos, enquanto o nosso povo não aprender a votar, não aprender a exigir serviços básicos, como saúde, educação, segurança, direito de viver, e tantos outros…
Meu sonho de ver um país melhor ficará mais distante, mais utópico.
Às vezes fico angustiado com tantas notícias ruins, com tanta maldade, intrigas, corrupção, falsidade, deslealdade, falta de humanidade e de amor ao próximo.
Todos os dias quando sento em frente ao computador para produzir meu programa, sinto-me triste em ter que ser o porta voz de tantas notícias ruins, às vezes meu sentimento de indignação ultrapassa o dever de apenas informar, em determinados momentos, sinto a necessidade de expressar como cidadão que sou, o sentimento de revolta que tenho a convicção que muitos que me ouvem sentem e não tem onde expressa-lo.
É revoltante saber que nesse momento em que escrevo essas singelas linhas, existam muitos desviando o dinheiro público da saúde, da merenda escolar, o dinheiro que poderia está sendo aplicado para matar a cedo do nosso povo, e que ao invés disso, é utilizado para o enriquecimento ilícito de poucos, para bancar o luxo de alguns canalhas que se aproveitam dos cargos que ocupam para saquear o nosso povo.
Eu sonho com um Brasil melhor pra todos!
Conclamo a todos, vamos sonhar! Sonhar que um dia as coisas possam mudar.
Sonhar que um dia nossos irmãos terão a consciência de que aquele presente que recebem na véspera das eleições irá custar um posto de saúde no seu bairro, merenda de qualidade na escola do filho e tantos outros serviços essenciais para todos nós.
Sonhemos com um Brasil melhor.

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Gleydson Carvalho,  jornalista e radialista, brasileiro nascido no Ceará e que daqui não saio nem no último pau de arara.

CORRUPÇÃO Brasil das ditaduras e impeachments mata jornalistas

Alfredo Martirena
Alfredo Martirena

O Brasil precisa de uma Justiça Social, de uma Polícia Social e de leis e governos para a felicidade do povo em geral.

Temos uma justiça e uma polícia PPV, um executivo e um legislativo BBB, e nada se faz que preste para o povo. As castas, as elites, os burocratas, os tecnocratas, os sacerdotes e os militares criaram uma nação onde predominam ditaduras, feudos, capitanias hereditárias, governos paralelos, leis de talião, da omertà, da terceirização, do direito divino dos juízes, e escravidão e marginalização e abandono dos sem teto, dos sem terra e dos sem nada.

Quem defende a Liberdade, mesmo que tarde, tem a morte anunciada.

liberdade mesmo que tarde

Estado brasileiro é denunciado à OEA por violência contra jornalistas

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Entidades denunciam violação à liberdade de expressão; de 87 ataques recentes, 74% têm indícios da ação de agente público

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BBC Brasil – No último dia 6 de agosto, um radialista foi morto a tiros enquanto apresentava um programa em Camocim, no Ceará. O relógio da Liberdade FM marcava 12h40. Um homem rendeu a recepcionista e outro mandou o operador de áudio se abaixar. Gleydson Carvalho levou três tiros, um deles na cabeça.

Radialista Gleydson Carvalho3

Radialista Gleydson Carvalho

Radialista Gleydson Carvalho

A investigação apontou envolvimento de sete pessoas no crime – entre elas o tio e o sobrinho do prefeito de uma cidade vizinha. Conhecido pelas denúncias e cobranças contra políticos da região, Gleydson morreu por “falar demais”.

O caso de Gleydson não é isolado. De 2012 a 2014, houve 87 graves violações contra comunicadores no Brasil – 14 assassinatos, 18 tentativas de homicídio, 51 ameaças de morte e quatro sequestros. E em 74% dos casos há indícios de participação de agentes do Estado: policiais, políticos ou agentes públicos, aponta levantamento da associação Artigo 19, braço brasileiro de organização pró-liberdade de expressão sediada em Londres.

A violência continua em 2015. Apenas no primeiro semestre, um jornalista e três radialistas já foram mortos em decorrência de sua atividade profissional, e investiga-se a relação com a profissão em outros três homicídios.

A gravidade do cenário levou o Estado brasileiro a ser denunciado, na última sexta-feira, na CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), órgão ligado à OEA (Organização dos Estados Americanos).

“Ao não desenvolver políticas efetivas de garantia da liberdade de expressão de comunicadores, o Estado brasileiro viola suas obrigações internacionais e por isso foi denunciado nesta audiência”, afirmou Paula Martins, diretora-executiva da Artigo 19.

Ao lado da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e da Fitert (Federação Interestadual dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão), a associação denunciou o Brasil por violação ao direito à liberdade de expressão, firmado na Convenção Americana de Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário desde 1992.

“Os números são expressivos, e mostram que o quadro é sistemático: as violações ocorrem em todas as regiões, e em cidades de todos os portes”, disse à BBC Brasil Júlia Lima, coordenadoras do programa de proteção e segurança da liberdade de expressão da Artigo 19.

Procurada pela BBC Brasil, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República diz que não se trata de uma denúncia contra o Estado brasileiro, mas “sim de uma solicitação de informações a respeito ‘da violação sistemática de direitos humanos de comunicadores nos últimos três anos'”.

Contra o senso comum

Em julho de 2012, o cronista esportivo Valério Luiz foi morto a tiros na saída da rádio Jornal 820 AM, de Goiânia. A apuração concluiu que ele foi morto pelas críticas que fazia à diretoria do Atlético Goianiense, um dos maiores times de futebol do Estado. O ex-vice presidente do clube foi acusado de encomendar o crime a dois policiais militares – todos esperam em liberdade pelo júri popular.

Violência contra comunicadores no Brasil
Casos de 2012 a 2014
87 violações graves, sendo:

· 14 homicídios

· 18 tentativas de homicídio

· 51 ameaças de morte

· 4 sequestros

O levantamento dos casos, diz Lima, contraria a ideia de que esse tipo de violação seria mais comum em regiões menos desenvolvidas – o Sudeste, por exemplo, concentrou 28% dos ataques registrados de 2012 a 2014.

Usando metodologia própria, a Artigo 19 descobriu que a maioria dos episódios (83% do total) resultou da tentativa dos comunicadores (sobretudo jornalistas, radialistas e blogueiros) de promoverem investigações e denúncias sobre temas de interesse público.

Um deles foi Pedro Palma, morto em fevereiro de 2014 na porta de casa em Miguel Pereira, município de 25 mil habitantes na região serrana do Rio. Dono e único repórter do jornal local Panorama Regional, ele cobria corrupção (como o desvio de patrocínio para um festival de jazz que não ocorreu) e já havia sido alvo de ameaças.

E embora casos como o de Palma ainda tramitam na Justiça, o relatório apresentado na sessão da CIDH em Washington (EUA) indica que três em cada quatro violações tiveram envolvimento de agentes públicos.

“Não levamos em conta apenas as investigações oficiais. Entrevistamos pessoas envolvidas em cada caso, como familiares, colegas de profissão e autoridades, para chegar a essas conclusões”, diz Júlia Lima.

Em busca de soluções

As entidades consideram que o governo brasileiro está longe de oferecer segurança devida aos comunicadores. O relatório diz que houve avanços com a ação, entre 2013 e 2014, de um grupo de trabalho sobre o tema na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

“Ainda assim, passado mais de um ano da finalização dos trabalhos do grupo, nenhuma das recomendações foi implementada”, afirma o relatório da Artigo 19, Abraji e Fitert.

Entre as recomendações por cumprir estão a ampliação do Sistema Nacional de Proteção para incluir comunicadores ameaçados, a criação de um Observatório de Violência contra Comunicadores e a padronização da ação da segurança pública em manifestações, para evitar a violência nessas ocasiões.

“O Estado oferece um Programa de Proteção para Defensores de Direitos Humanos que, de maneira isolada, atendeu casos de comunicadores, mas sem inseri-los formalmente em sua estrutura, o que acarreta na ausência de medidas específicas para esse público e na falta de reconhecimento por parte dos comunicadores de que esse mecanismo poderá atendê-los”, diz o relatório.

Questionada pela BBC Brasil sobre isso, a secretaria, hoje parte do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, afirma que “os comunicadores que estão sofrendo ameaças em razão do exercício da profissão podem, sim, solicitar sua inclusão” no programa. Segundo o órgão, o “procedimento já está em pleno vigor” e já há profissionais da área sendo atendidos.

Outras entidades vêm lançando alertas ao governo brasileiro sobre o agravamento da situação. Em junho deste ano, após dois assassinatos de jornalistas em uma semana, a ONG internacional Repórteres sem Fronteiras divulgou carta aberta à presidente Dilma Rousseff pedindo “medidas concretas e efetivas” contra esse tipo de violência.

A ONG diz que o Brasil “fracassou” na tarefa de prover segurança a esses profissionais, e hoje é o terceiro país do Ocidente mais perigoso para trabalhadores de mídia, atrás apenas de México e Honduras.

A impunidade em relação aos crimes também é uma das principais preocupações. Segundo a Artigo 19, dos casos registrados em 2014, por exemplo, 61% estavam arquivados ou ainda em apuração um ano depois. Outro número a corroborar esse diagnóstico partiu do CPJ (Comitê para Proteção de Jornalistas), que classificou o Brasil em 2015 como o 11º país no mundo com maior índice de impunidade em crimes contra comunicadores, e o segundo na América Latina.

Júlia Lima e Paula Martins (à esq.), da ONG Artigo 19, apresentam denúncia contra Estado brasileiro na Comissão Interamericana de Direitos Humanos/ BBC
Júlia Lima e Paula Martins (à esq.), da ONG Artigo 19, apresentam denúncia contra Estado brasileiro na Comissão Interamericana de Direitos Humanos/ BBC

Próximos passos

Para as entidades que denunciaram o Brasil na OEA, é preciso ação conjunta para enfrentar esses crimes, como no caso no jornalista Rodrigo Neto, morto em março de 2013. Neto investigava a ação de grupos de extermínio na região do Vale do Aço, em Minas Gerais, e um fotógrafo que trabalhava com ele foi morto um mês depois.

A mobilização de órgãos estaduais e federais ajudou a prender o acusado de matar os dois profissionais – os eventuais mandantes, contudo, continuam em liberdade.

O objetivo da denúncia apresentada na semana passada nos EUA é que o Brasil seja instado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos a adotar as recomendações das entidades.

Um primeiro passo nesse sentido foi dado logo após a audiência, quando o relator especial para liberdade de expressão da comissão, Edison Lanza, decidiu pedir informações ao Estado brasileiro sobre o cenário de ataques contra comunicadores.

Últimas palavras

Cinco dias antes de morre, em 1 de agosto último, escreveu Gleydson Carvalho: “Fui caluniado, difamado, ofendido, insultado, ameaçado, me defendo e o cara ainda me processa. É muito absurdo.

Quando eu digo que lá existe uma grande inversão de valores acham ruim.

Eu sou a vitima, eu que fui agredido na minha honra.

Perdoei nas outras vezes mas agora não, por tamanho absurdo estou sendo obrigado a acionar a justiça, pois a justiça é o único caminho para se reparar os danos que me foram imputados.

Homem de verdade faz assim”.

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A justiça iníqua balançou, sim, para o lado dos algozes.

chacina jornalista 1

Morte de radialista expõe riscos na fronteira entre Brasil e Paraguai

“O estado é fraco. Traficantes e outros criminosos dominam mais de 600 quilômetros de uma fronteira sem lei”

Radialista e jornalista Gerardo Seferino Servian Coronel
Radialista e jornalista Gerardo Seferino Servian Coronel

A região de fronteira entre Brasil e Paraguai é uma das mais perigosas para jornalistas na América do Sul. Pedro Juan Caballero, principal cidade do lado paraguaio da fronteira, encontra-se no centro de rotas de contrabando entre os dois países. Estima-se que, entre traficantes brasileiros e paraguaios, haja mais de 100 gangues atuando na região. Desde o início de 2014, quatro jornalistas haviam sido mortos ali.

No dia 5/3, este número aumentou com o assassinato, na cidade brasileira de Ponta Porã, do radialista paraguaio Gerardo Ceferino Servían Coronel. Segundo o delegado responsável pela investigação do caso, o crime está sendo tratado como execução. “Duas pessoas atiraram seis vezes nas suas costas e cabeça”, disse o policial.

De acordo com o analista político paraguaio Ignacio Martinez, a situação de segurança na região parece saída de uma obra de ficção. “O estado é fraco. Traficantes e outros criminosos dominam mais de 600 quilômetros de uma fronteira sem lei”, explica.

Servían, que trabalhou nos últimos anos em diversas estações de rádio em Pedro Juan Caballero, começou, no início de 2015, a apresentar um programa matinal de notícias em uma pequena estação de rádio comunitária baseada em Zanja Pytã, cidade localizada a cerca de 16 quilômetros dali. Ele havia se mudado recentemente para Ponta Porã por causa das filhas, que estudam na cidade brasileira. Seu irmão, o também jornalista Francisco Servían, afirmou à Associated Press que Gerardo não havia relatado ter recebido ameaças de morte. Ele ressaltou, entretanto, que “nessa área do país é normal que silenciem jornalistas com tiros”.

Um jornalista que não quis se identificar afirmou ao Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) que Servían tinha feito críticas ao prefeito da cidade de Zanja Pytã, Marcelino Rolón, que irá tentar a reeleição neste ano. A polícia ainda não tem suspeitos do caso.

“As autoridades de ambos os países precisam trabalhar em conjunto para investigar a morte de Gerardo Ceferino Servían Coronel e levar os responsáveis para a justiça para demonstrar que não permitirão que a imprensa seja aterrorizada”, declarou Sara Rafsky, pesquisadora associada para as Américas do CPJ.

Corpo do radialista paraguaio Gerardo Coronel caído em rua do bairro da Granja, em Ponta Porã (Foto: Ponta Porã Informa)
Corpo do radialista paraguaio Gerardo Coronel caído em rua do bairro da Granja, em Ponta Porã (Foto: Ponta Porã Informa)

Tradução: Pedro Nabuco, edição de Leticia Nunes. Informações do Comitê para a Proteção dos Jornalistas [“Paraguayan journalist gunned down in Brazil”, 6/3/15] e da Associated Press [“Paraguayan radio journalist shot dead in Brazilian border city”, The Guardian, 6/3/15]. Transcrito do Observatório da Imprensa

DECAPITADO. A morte selvagem do jornalista Evany Jany José Metzker

A vida de Evany José Metzker, torturado e decapitado enquanto investigava traficantes e pedófilos na região mais pobre de Minas Gerais

CENA DO CRIME A carteira de identidade do  jornalista Evany José Metzker. Ela foi lançada numa área rural do município de Padre Paraíso, onde seu corpo foi achado (Foto: Leo Drumond/Nitro/Época)
CENA DO CRIME
A carteira de identidade do jornalista Evany José Metzker. Ela foi lançada numa área rural do município de Padre Paraíso, onde seu corpo foi achado (Foto: Leo Drumond/Nitro/Época)

por FLÁVIA TAVARES| DE PADRE PARAÍSO, MINAS GERAIS
Revista Época

Na manhã do dia 13 de junho último, uma quarta-feira, o jornalista Evany José Metzker, também conhecido como Coruja, levantou-se, tomou café com um pedaço de bolo, que não dispensava, e avisou Cristiane, a filha da dona da pousada Elis, que precisava ir a uma cidade próxima. Metzker havia se comprometido a dar uma palestra naquela tarde no colégio da garota. Prometeu dar notícias se não conseguisse voltar a tempo. A viagem de Padre Paraíso a Teófilo Otoni, a 100 quilômetros dali, tomou-lhe quase o dia todo. A palestra que ele daria, sobre exploração do trabalho infantil, ficaria para a próxima semana. Metzker retornou à pousada, se desculpou com a pupila, saiu para jantar com o amigo Valseque e, no fim do Jornal Nacional, voltou ao hotelzinho de beira de estrada. Pediu que sua conta de três meses fosse encerrada. Disse que iria a Brasília no dia seguinte e, na volta, pagaria os R$ 2.700 que devia. Saiu novamente, deixando o ventilador e a luz do quarto ligados. “Eu vou ali e volto”, avisou. Metzker não voltou.

Na segunda-feira passada, dia 18, a Polícia Militar de Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, recebeu um telefonema. Moradores da roça haviam visto o que parecia ser um corpo na margem de uma estrada de chão batido, a 20 quilômetros do centro. Uma viatura foi ao local. Dois policiais encontraram um corpo sem a cabeça, que fora decepada já quase na altura dos ombros. As mãos da vítima estavam amarradas sobre a barriga, numa corda alaranjada – a direita sobre a esquerda. O homem estava seminu. Vestia apenas jaqueta, camiseta e meias pretas. Mais adiante, avistavam-se um pé do sapato social e uma calça preta. A armação dos óculos e uma lente estavam em outro ponto. O cadáver se decompunha rapidamente. Estava muito inchado – sobretudo os testículos. O perito apontou, mais tarde, que havia indícios de sangramento anal e hematomas na genitália. O crânio foi encontrado a 100 metros do corpo. Possivelmente fora arrastado por cachorros, que devoraram a pele e os olhos do homem. O maxilar estava quebrado, descolado da cabeça. A cena de horror não continha uma gota de sangue. O corpo fora arrastado até ali e o rastro ainda estava lá. O autor da monstruosidade não se preocupou em ocultar o crime ou a identidade de sua vítima. Deixou o cadáver na lateral da pista, a poucos metros de um barranco profundo. A seu redor, os documentos espalhados: um título de eleitor, um RG, um CPF, três folhas de cheque, dois cartões da Caixa Econômica e uma carteira funcional do jornal Atuação. Todos em nome de Evany José Metzker, de 67 anos. A camiseta preta ainda trazia do lado direito do peito uma coruja amarela, marca do blog de Metzker, Coruja do Vale. Nas costas, em letras maiúsculas, estava escrito: IMPRENSA.

Metzker tinha profundo orgulho de ostentar o título de repórter. Dizia para o colega Valseque Bomfim, também blogueiro de Padre Paraíso: “Nós somos jornalistas. Investigativos. Temos de investigar”. Valseque resistia em firmar com Metzker uma parceria entre os blogs, como propunha o forasteiro com insistência. Metzker chegara à cidade havia pouco tempo. Valseque passou, então, a frequentar o quarto dele na pousada. “O Metzker não me contava sobre as apurações que estava fazendo. Só falava que queria ajuda, que queria trabalhar junto”, conta Valseque. Metzker havia montado uma pequena redação em seu quarto. Pediu a Elizete, dona do hotel, um roteador exclusivo, para ter acesso estável à internet. Dispôs três mesas no pequeno cômodo, onde instalou uma impressora, seu notebook e por onde espalhava muitos papéis. Fumava incessantemente seus Hiltons e Hollywoods. O cheiro de tabaco impregnou paredes, colchão e travesseiro, talvez de forma irreversível. Elizete teme nunca mais conseguir alugar o quarto. “Eu chamava ele de Paulo Coelho”, diz Elizete. “Ele tinha cavanhaque, era caladão. Só escrevia, trabalhava e fumava. Nunca chegava depois das 10 da noite e jamais trouxe mulher para cá.” Nos poucos momentos em que se descontraía, Metzker dava conselhos às filhas de Elizete. Inclusive a Cristiane, que queria ser jornalista e para quem ele fez uma carteirinha de repórter aprendiz. Repetia que elas precisavam estudar e levar uma vida regrada, como a dele. Metzker não falava muito do passado, nem com a própria mulher, Ilma. Mas contou às meninas que fora desenhista da polícia. Fazia retratos falados. De fato, desenhava muito bem. Também dizia que fora militar, sem entrar em detalhes. Só vestia roupas sociais e gostava de tingir o cavanhaque, que alternava com um espesso bigode.

Metzker iniciou a carreira de repórter em 2004 e tinha orgulho de se apresentar como jornalista

A profissão de jornalista foi construída a partir de 2004. No ano anterior, Metzker conhecera Ilma. Ele era de Belo Horizonte, mas trabalhava em Montes Claros, dando suporte de informática em um hospital. Ilma estava ali acompanhando o primeiro marido, que tinha câncer. Meses depois da morte do marido, Ilma retomou contato com Metzker. Numa tarde de dezembro de 2003, Metzker foi visitá-la em Medina, uma cidade pequena e charmosa do interior de Minas. Ficou. Lá, montou o jornal Atuação, que imprimia numa gráfica de Montes Claros. Fazia denúncias sobre a administração da cidade, sobre ruas esburacadas e sobre a falta de atendimento nos postos de saúde. Queria mais. Dez anos depois de dar início a sua carreira de repórter, sentia que não era reconhecido por seu trabalho. Em 2014, então, passou a viajar pela região, buscando notícias mais quentes. Mantinha bom relacionamento com policiais, militares e civis, de todas as cidades por onde passava. Seu blog, que lhe rendeu o apelido de Coruja, noticiava muitas ocorrências policiais. Percorreu quase todo o nordeste de Minas, passando por Almenara, Divisa Alegre, Itinga, Araçuaí, Itaobim… Hospedava-se em uma dessas cidadezinhas e, nos finais de semana, voltava a Medina, para ficar com Ilma e com os três filhos dela, que criou como seus. Quando os pequenos anúncios no blog escasseavam, fazia bico bolando logotipos para empresinhas das cidades. Vivia com pouco. Queria construir uma reputação, ser referência. “Aos poucos, as pessoas começaram a procurar ele para contar o descaso das autoridades”, diz Ilma, que nunca viu um diploma de jornalista do companheiro. Metzker lhe garantia que havia estudado. “Ele era muito responsável, só publicava se tivesse certeza, documento.”

Seguindo sua turnê investigativa, no dia 13 de fevereiro deste ano Metzker encontrou morada em Padre Paraíso. Na entrada da cidade, um letreiro enuncia que este é o “Portal do Vale do Jequitinhonha”. É a chegada à região com os piores índices de desenvolvimento de Minas Gerais – a área representa menos de 2% do PIB do Estado. Não há político em campanha que não prometa uma salvação para o infame “vale da miséria”. Padre Paraíso se espalha por dois morros, rasgada ao meio pela BR-116, a estrada que liga o Ceará ao Rio Grande do Sul. São quase 5.000 quilômetros, trafegados pesadamente por caminhões. Padre Paraíso, com seus pouco menos de 20 mil habitantes, é aquele tipo de cidade que nasceu em torno de um posto de gasolina. Casebres ladeados de borracharias e botecos margeiam a estrada. Há um pequeno centro comercial, movimentado e bem popular. A tradicional igreja na pracinha está oprimida pelas dezenas de templos evangélicos que a cercam. A casa mais bonita da cidade é a da prefeita Dulcineia Duarte, do PT. Cabeleireira, ela assumiu a candidatura do marido, Saulo Pinto, impugnada pela Justiça Eleitoral.

A VIÚVA Ilma Chaves Silva Borges,  mulher de Metzker. Os dois se conheceram num hospital de Montes Claros, onde ele trabalhara na área de suporte de informática (Foto: Leo Drumond/Nitro/Época)
A VIÚVA
Ilma Chaves Silva Borges, mulher de Metzker. Os dois se conheceram num hospital de Montes Claros, onde ele trabalhara na área de suporte de informática (Foto: Leo Drumond/Nitro/Época)

É uma cidade de passagem. Caminhoneiros estacionam nos postos para descansar, beber, farrear. Numa rua paralela à rodovia, um pequeno bar de madeira abriga as negociações entre os motoristas e os aliciadores de menores para prostituição. “Este é um dos problemas mais graves que temos aqui”, diz o tenente Sandro da Costa, da Polícia Militar. “Já flagramos uma criança de 10 anos fazendo sexo oral em um mendigo por R$ 5.” Não há descrição mais bem acabada da miséria. “Muitos pais vendem os filhos para a prostituição, é a fonte de renda da família”, completa o tenente. À noite, algumas garotas se exibem na margem da BR-116, e, numa nova modalidade de crime, quando o caminhoneiro desce para negociar o programa, garotos o abordam, assaltam e agridem. Metzker se interessava pelo assunto. Começou a investigar a rede de prostituição infantil nas cidades da região. Seria o tema de sua palestra na escola da aprendiz de repórter. Não se sabe quanto ele avançou na apuração.

Padre Paraíso tem um pequeno destacamento da Polícia Militar, com 13 homens e duas viaturas. Uma está com os pneus carecas; a outra, sem freio. A caminhonete, que alcançava as áreas rurais mais longínquas, ficou destruída num acidente em 2013. Não foi reposta. A propósito, o acidente aconteceu porque o soldado que a dirigia adormeceu. Como a delegacia de Padre Paraíso fecha às 18 horas e nos finais de semana, qualquer ocorrência nos intervalos tem de ser registrada em Pedra Azul, a mais de 150 quilômetros dali. Os PMs levam o criminoso na viatura, frequentemente sentado ao lado da vítima, que vai depor. Dirigem por horas, prestam esclarecimentos e voltam sonolentos pela BR. É em Pedra Azul também que a delegada de Padre Paraíso, Fabrícia Nunes Noronha, dá seus plantões semanais – ela manteve a rotina mesmo depois de o corpo de Metzker ter sido encontrado. Padre Paraíso não tem comarca, juiz. A lei está longe.

Com tão pouca vigilância, o crime prospera. Em 2014, foram seis vítimas de assassinato. Neste ano, já foram cinco. Dois dos crimes mais recentes são bárbaros, como o que matou Metzker. Um deles foi uma chacina, que vitimou três idosos e uma criança de 7 anos. No outro, um casal de caseiros foi morto a marteladas. “O ranço de violência da cidade vem dos tempos dos garimpos”, diz o tenente Costa. “A cultura é de resolver tudo na bala, na morte.” O tráfico de drogas foi substituindo, aos poucos, o lucro com as pedras águas-marinhas que rendiam fortunas. O crack se espalhou. Metzker tentava mapear as estradas vicinais, de terra, que serviam de rota de fuga de traficantes – e seu corpo foi encontrado justamente numa delas. Ele passou a se interessar também por outros dois esquemas criminosos na área: a compra e venda de motos roubadas, que são depois usadas como mototáxi, e o aterro de terrenos protegidos pelas leis ambientais. Se já estão livres das investigações policiais, os bandidos certamente não querem um jornalista fuçando em seus negócios. Fazer jornalismo em regiões como o Vale do Jequitinhonha é mais do que profissão, do que um diploma que autorize alguém. É um ato de coragem, de enfrentamento da falta de estrutura mínima de segurança, da miséria humana explorada por criminosos.

Não está claro se Metzker estava no faro de algo certeiro. Em seu blog, ele publicou apenas histórias menos ameaçadoras, como a do uso de carros públicos para fins particulares ou a de um garoto que tinha sérios problemas bucais e estava sem atendimento. Elizete, a dona da pousada, provocava Metzker: “Tô achando o senhor muito fraquinho. Essas historinhas aí não estão com nada”. O jornalista replicava, pacientemente. “Calma, menina. Muita coisa ainda vai mudar nesta cidade.” A polícia recolheu o notebook e as anotações de Metzker para tentar identificar alguma pista. A delegada Fabrícia, primeira a comandar a investigação, insiste que há a possibilidade de um crime passional. Ilma, a mulher de Metzker, nega com firmeza. “Ele me dava notícia de cada passo que dava. A gente trocava recado sem parar. Ele nunca tinha ido a Brasília antes, a história não fecha.” Na noite em que desapareceu, Metzker enviou a última mensagem pelo WhatsApp para a mulher, dizendo que ia jantar e que eles se falariam mais tarde. “Nunca vou esquecer o que aparece no celular: ‘Metzker, visto pela última vez às 19h03’”, Ilma chora.

A morte brutal de Metzker não mobilizou as forças policiais do Estado de Minas Gerais imediatamente. Depois que o corpo foi liberado do IML e seguiu para Medina, três investigadores de Padre Paraíso começaram lentamente as diligências. A delegada Fabrícia viajou na noite de terça-feira para seu plantão rotineiro em Pedra Azul. Um dos investigadores avisou logo que só atenderia a reportagem na quarta-feira se fosse até as 16h30, quando ele iria para a faculdade. Apesar da barbárie, o silêncio foi absoluto. O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, do PT, não disse palavra sobre o caso. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, também não. Nem mesmo o secretário de Direitos Humanos da Presidência da República, Pepe Vargas, pronunciou-se. Todas essas autoridades, mesmo provocadas por ÉPOCA, permaneceram caladas. (Na tarde da sexta-feira, Pepe finalmente falou. Disse que o caso é grave e vai acompanhá-lo.)

Após ÉPOCA noticiar em seu site a falta de empenho nas investigações, o governo de Minas se mexeu. Uma equipe de Belo Horizonte chegou a Pedro Paraíso na noite de quarta-feira: um delegado, quatro investigadores e uma escrivã. Na quinta-feira pela manhã, eles estavam no local onde o corpo foi encontrado. De lá, seguiram para a delegacia, onde pediram o material apurado até ali pelos policiais da cidade. Antes do meio-dia, o acesso ao inquérito já estava bloqueado para os investigadores locais. Não havia nenhuma pista de quem decapitou o jornalista Metzker.

TESTEMUNHA O blogueiro Valseque Bomfim, que publica notícias policiais. Ele ouviu dizer que “pegaram o homem errado” (Foto: Leo Drumond/Nitro/Época)
TESTEMUNHA
O blogueiro Valseque Bomfim, que publica notícias policiais. Ele ouviu dizer que “pegaram o homem errado” (Foto: Leo Drumond/Nitro/Época)

Emerson Morais, o delegado de Belo Horizonte que assumiu o caso, comandou as investigações, em 2013, do assassinato de Rodrigo Neto, jornalista de Ipatinga, no Vale do Aço de Minas. Rodrigo denunciava a atuação de policiais corruptos e homicidas da região. Um mês depois, o fotógrafo Walgney Carvalho também foi morto, depois de ter dito pela cidade que sabia quem havia assassinado Rodrigo. Um policial civil foi condenado pela morte de Rodrigo. Um outro rapaz, conhecido como Pitote, ainda será julgado por envolvimento nos dois crimes. O delegado Morais foi procurado pelo blogueiro Valseque, o amigo de Metzker. Valseque contou que fora ameaçado. Um amigo disse a ele que um homem havia perguntado por Valseque num bar. Quando soube que Valseque estava na cidade, comentou que “pegaram o homem errado”. Seu blog, Lente do Vale, publica o mesmo tipo de matérias que o de Coruja.

Metzker não pôde ser velado – o cheiro do corpo decomposto extravasava mesmo com a urna lacrada. Não houve flores. A filha mais velha, Sara, não teve tempo de chegar de Belo Horizonte para se despedir do pai. À meia-noite de segunda-feira, dez parentes e amigos acompanharam o corpo até o cemitério de Medina. O caixão de Metzker ainda não foi coberto com terra ou cimento. Aguarda a documentação para o sepultamento completo. O caso segue aberto, assim como a sepultura de Metzker.