Especial Professores em Luta: um mês da truculência no Paraná

Foto: Joka Madruga
Foto: Joka Madruga

Em 29 de abril, mais de 200 pessoas, a maioria professores, ficaram feridas após ação da Polícia Militar (PM), a mando do governador Beto Richa, para dispersar os manifestantes que protestavam contra um projeto de lei que altera a Previdência no Paraná. O Brasil de Fato reuniu uma série de matérias e análises sobre o caso que completam um mês, nesta sexta-feira.

MATÉRIAS

Governo do Paraná descumpre Lei de Acesso à Informação

Após aprovar lei no dia do massacre, Richa saca R$ 500 milhões da previdência

Armas: do Oriente Médio ao Centro Cívico de Curitiba

Governo do Paraná gastou R$ 6,3 mi com um só fabricante de armas em 2014

Praça Nossa Senhora da Salete é rebatizada por jovens em Curitiba

A casa caiu: Beto Richa e o governo em xeque

ARTIGOS

12 % de aumento? “Nem tudo que reluz é ouro”

DEPOIMENTOS

29 de abril: o ocaso da civilização

Foto: Joka Madruga
Foto: Joka Madruga

Sangria dos cofres públicos. Governadores armam polícia contra o povo

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Os governadores quando compram bombas de gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, balas de borracha, balas de festim, armas e veículos blindados anti-motim, anti-bombas, anti-fogo e anti-mina etc não pretendem combater o crime organizado ou desorganizado, e sim dispersar passeatas estudantis, de movimentos sociais e grevistas, marchas de protesto e despejos judiciais que, na maioria das vezes, favorecem grileiros urbanos tipo Naji Nahas e outros bandidos.

Para dois exemplos, os governadores tucanos Beto Richa, do Paraná, e Geraldo Alckmin, de São Paulo, possuem uma história de violência policial, de ações sangrentas que superam as maldades de muitos ditadores.

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Em vídeo publicado no Blog da Cidadania, professores do Paraná criticam a repressão do governador Beto Richa (PSDB) e calculam o custo do massacre que deixou mais de 200 feridos em Curitiba na semana passada; a conclusão é de que o material usado para repressão, que cabe entre as mãos em concha de uma pessoa, pagaria meio mês de salário para um professor. Veja vídeo

GÁS LACRIMOGÉNEO. A polícia pulveriza com gás pimenta, um composto químico que provoca cegueira temporária, pontadas e dor nas suas vítimas. No caso de pessoas alérgicas, poderá provocar graves complicações.

A polícia dispõe de latas e mochilas de spray, bem como pistolas que disparam balas com este composto químico.

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BALAS DE BORRACHA. Mais perigosas, as pistolas e espingardas de balas de borracha podem cegar. Não existem estatísticas, no Brasil, para o terrorismo policial.

Só em Espanha, as balas de borracha conseguiram deixar 23 pessoas sem a visão de um dos olhos. Na Suíça, há décadas que as balas de borracha são utilizadas: uma associação de médicos independentes, a Vereinigung Unabhängiger Ärztinnen (VUA), alertava em 2003 para o seu perigo de morte, em especial nos casos em que o pescoço da vítima é atingido. Porém, a polícia persiste no seu emprego.

Bala de borracha

CANHÕES DE ÁGUA. Este tipo de canhões provocam ferimentos graves. Na Alemanha, cegou um manifestante.

PISTOLAS TASER. Também considerada não letal, pode matar. Curiosamente, a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado aprovou no dia 13 de março de 2013 o Projeto de Lei 2801/11, do deputado Luiz Argôlo (PP-BA), que autoriza o uso de armas de incapacitação neuromuscular (chamadas de Taser) pelo cidadão comum para fins de defesa pessoal.

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O projeto altera o Estatuto do Desarmamento (Lei 10.826/03). Pelo texto, o registro concedido para armas de incapacitação neuromuscular autoriza seu porte. Para conseguir o registro, o cidadão deverá ter idade mínima de 18 anos e comprovar que tem residência fixa, além de apresentar nota fiscal de compra ou comprovação da origem lícita da posse. Ele não precisará comprovar capacidade técnica nem aptidão psicológica — requisitos exigidos para que seja concedido o registro de arma de fogo.

DRONES. Um dos últimos brinquedos militares para a vigilância policial de manifestações são os veículos aéreos não tripulados, os drones, pequenos aviões sem piloto.

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“Nunca esqueça quem é Beto Richa”. Vídeo mostra detalhes do massacre tucano dos professores em Curitiba

No meio das bombas e balas, cinegrafista registrou em detalhes o desespero e a indignação de professores e servidores públicos de Curitiba atacados pela polícia do governador Beto Richa (PSDB), no dia 29 de abril.

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A produtora independente Cine Monstro registrou o massacre.

Em um vídeo de 9 minutos, parte da crueldade e covardia de uma polícia, que jogou bombas de gás lacrimogêneo e de efeito imoral, e que atirou com balas de borracha e de festim contra indefessos grupos de idosos, mulheres, vendedores ambulantes, professores e funcionários públicos.

Em diversos momentos as imagens registram os manifestantes implorando para que a polícia parasse os atos de violência, ou expressando natural indignação diante do terrorismo estatal.

As imagens são fortes. Confira o vídeo abaixo:

Para os governos tucanos, a questão social um caso de polícia

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Os governadores do PSDB “têm acumulado recordes macabros em confrontos com a população”, afirma Paulo Moreira Leite, diretor do 247 em Brasília, depois de descrever a violência da Polícia Militar do governador Beto Richa contra professores como “uma vergonha que não será esquecida tão cedo”; segundo ele, “o que se passou no Paraná foi um episódio muito grave, que não deve ser visto com um caso isolado”; PML cita o governador Geraldo Alckmin e a repressão dos protestos iniciais contra aumento da passagem de transporte de 2013, em São Paulo; “Para um partido que quer eliminar a CLT, nada mais apropriado do que assumir o lema da República Velha, onde a questão social era um caso de polícia” In Portal 247

Foi assim em 2013, em 2014, e será sempre assim nos governos tucanos
Foi assim em 2013, em 2014, e será sempre assim nos governos tucanos

PSDB Paraná professor Richa

A GRANDE REPRESSÃO TUCANA

por Paulo Moreira Leite

Trinta anos depois do fim da ditadura militar, chegou a hora de os brasileiros acertarem o relógio a respeito dos métodos de governo do PSDB e o tipo de futuro que planeja para o país. Embora seus fundadores tenham participado da luta pela democratização, os governadores do PSDB têm acumulado recordes macabros em confrontos com a população.

Com pit-pulls, helicópteros, balas de borracha e bombas de gás, a brutalidade da Polícia Militar do governador Beto Richa é uma vergonha que não será esquecida tão cedo. Mais de 200 pessoas foram atendidas nos hospitais da região, numa mobilização que procurava, essencialmente, impedir que a Assembléia Legislativa, controlada pelo governo, legalizasse uma apropriação inacreditável do ponto de vista social: colocar a mão no fundo de pensão da aposentadoria dos professores para cobrir um rombo nas contas do Tesouro estadual. Não estamos falando daquelas operações contábeis — chamadas pedaladas –, praticadas por todos os governos federais depois que o país adotou a Lei de Responsabilidade Fiscal. O caso, no Paraná, era tungada mesmo.

“O centro de Curitiba transformou numa praça de guerra,” afirma Carmen Helena Ferreira Foro, vice-presidente da Central Única dos Trabalhadores, presente aos protestos — onde teve de ser medicada por causa de um ferimento no braço, produzido por uma bomba. “Foram duas horas de tiroteio, uma insanidade ” diz ela.

O que se passou no Paraná foi um episódio muito grave, que não deve ser visto com um caso isolado. Em São Paulo, principal laboratório político tucano do país, Geraldo Alckmin transformou a repressão policial em instrumento regular de intervenção política. Estudantes universitários que ousam cometer atos de protesto — e mesmo gestos mais insolentes, próprios de seus hormônios políticos — são reprimidos e perseguidos judicialmente, arriscando-se a cumprir longas suspensões que podem atrasar e até impedir a formatura, com prejuízo para os cidadãos que, dentro ou fora das universidades, pagam pelo ensino público através de impostos.

A repressão violenta dos protestos iniciais contra aumento na passagem de transporte público de 2013 será inesquecível por ter provocado uma revolta nacional, mas não serviu de lição. Em janeiro, um novo protesto contra o aumento de passagens foi atacado de forma violenta pela PM, reação desproporcional diante de uma vidraça quebrada. Indo mais para trás. Alguém esqueceu Pinheirinho?

Essa opção repressiva não acontece por um “descuido”, “excesso” ou “erro.” É uma decorrência da conversão do PSDB à doutrina mais radical da economia de mercado. Este processo levou o partido a abandonar compromissos com a negociação de políticas de bem-estar social que marcaram seus anos iniciais, trocando o papel que Mário Covas exerceu na Constituinte, como guardião dos direitos sociais, pelo objetivo que Fernando Henrique se colocou na posse presidencial, em 1994, de encerrar a Era Vargas. Em seu governo, FHC inaugurou o novo período ao colocar tanques do Exército nas ruas para enfrentar um protesto de petroleiros que queriam impedir a privatização da Petrobras.

Na nova etapa ideológica, a negociação de conflitos e a barganha entre interesses sociais divergentes, típica das sociedades democráticas, tornou-se inconveniente e disfuncional. Por isso, faz-se o possível para evitar negociação e qualquer tipo de concessão que possa servir de estímulo a novas mobilizações. A ideia é mostrar que as decisões são tomadas de cima e não deve haver esperança de que possam vir a ser modificadas — o que explica a recusa do Palácio dos Bandeirantes em sequer marcar um audiência de professores às vésperas de completar dois meses em greve.

Ao contrário do discurso exportado pelos republicanos norte-americanos, apontando para elementos de caráter libertário na opção pelo mercado, a experiência prática demonstra que ela cobra um culto à ordem.

Procurando avaliar a teoria e a prática liberal na obra Décadas de Espanto e uma Apologia Democrática, publicada em 1998, no final do primeiro mandato de FHC, o professor Wanderley Guilherme dos Santos lembra que “depois de criado, o Estado liberal transforma-se no estado em que a hegemonia burguesa não é seriamente desafiada. Trata-se de um estado cuja intervenção em assuntos sociais e econômicos tem por fim garantir a operação do mercado como o mais importante mecanismo de extração e alocação de valores e bens.”

Neste esforço para separar a realidade liberal do discurso liberal, o professor esclarece: “Não é de modo algum um Estado não intervencionista. Muito pelo contrário, o Estado liberal está sempre intervindo, a fim de afastar qualquer obstáculo ao funcionamento ‘natural’ e ‘automático’ do mercado.”

Entre os principais obstáculos que atrapalham esse funcionamento ‘natural’ e ‘automático’, encontram-se a a política econômica e a política trabalhista, que devem ser “completamente revistas e modificadas.”

Não chega a espantar, assim, que o PSDB, num esforço para ajustar as leis sociais à nova ordem, tenha assegurado os votos que garantiram a aprovação, na segunda votação da Câmara, do PL 4330.

É coerente, vamos combinar. Para um partido que quer eliminar a CLT, nada mais apropriado do que assumir o lema da República Velha, onde a questão social era um caso de polícia.

Com alguma imaginação é possível entender como a peça da repressão se encaixa em outra parte do jogo, aquela que estimula a judicialização da atividade política, questionando a soberania popular em nome da palavra final da Justiça.

Não é difícil entender o que está acontecendo, certo?

ensino público gratis privatização educação professor

PM informa que cachorro passa bem depois de morder deputado que votou contra Richa

por Esmael Moraes

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O cão que mordeu o deputado Rasca Rodrigues (PV) passa bem, segundo a Polícia Militar. O animal tomou vacina depois de atacar o parlamentar verde, que, ironicamente, é defensor dos direitos dos animais.

O deputado Rasca Rodrigues foi um dos 20 que votou contra o confisco da poupança previdenciária. A Assembleia aprovou o projeto de Richa por 31 votos.

Piada à parte, o covarde massacre de milicianos contra professores e servidores públicos que lutavam contra o roubo da previdência enseja a discussão sobre a extinção da PM.

Além de pôr fim à força policial militar, algo anacrônico no mundo moderno, é fundamental que se discuta a ‘renúncia já’ do governador Beto Richa (PSDB) — que ordenou o massacre dos professores no último dia 29 de abril, no Centro Cívico, em Curitiba.

O faminto Pitbull da PM também atacou o repórter cinematográfico Luiz Carlos de Jesus, que ficou ferido na perna.

Ao todo, mais de 200 pessoas ficaram feridas no massacre ordenado pelo monstro chamado Beto Richa.

Agora, vai ficar por isso mesmo ou ele renunciará ao cargo?

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Não acabou/ tem de acabar/ eu quero o fim/ da Polícia Militar

por Alexandra Lucas Coelho/ Jornal Público/ Portugal

1. Quando fui dormir contavam-se mais de cem feridos. Esta manhã passavam de duzentos, em maioria professores no activo, mas também reformados, crianças, gente em cadeira de rodas, jornalistas que cobriam o acontecimento: uns atingidos por balas de borracha, outros por bastões, pontapés, bombas de gás lacrimogéneo, spray de pimenta, jactos de água ou pitbulls. Aconteceu quarta-feira, no centro de Curitiba, por ordem do governador do Paraná, e foi uma das mais violentas cargas da Polícia Militar contra manifestantes desarmados de que haverá registo na democracia brasileira.

2. “Praça de guerra”, resumiu o prefeito da cidade, enquanto o edifício da prefeitura era transformado em refúgio e enfermaria de emergência. Desde sábado que a praça frente à Assembleia Legislativa do Paraná estava cercada pela Polícia Militar, obedecendo às ordens do governador Beto Richa (PSDB). Uns bons passos à esquerda, o prefeito Gustavo Fruet (PDT) denunciara o cerco como “um abuso” mas o contingente militar só se reforçou no dia da manifestação, com atiradores no cimo de prédios e helicópteros. A insatisfação dos professores vinha de trás, passara por uma greve entre Fevereiro e Março, e nessa quarta-feira os deputados do Paraná iam votar um projecto que cobriria buracos nas contas governamentais à custa de mexidas na reforma dos funcionários públicos. Os professores eram um dos grupos atingidos pela alteração. O protesto juntou milhares, 20 mil segundo a organização, em frente à Assembleia, cujo acesso estava bloqueado pela polícia. Segundo vários relatos na imprensa, quando os primeiros manifestantes tentaram furar o cerco para entrar na sessão, derrubando grades, a polícia respondeu com tiros de borracha, jactos de água e bombas de gás lançadas de helicópteros. Há fotografias de manifestantes com buracos de balas de borracha na cabeça e no tronco. Testemunhas contam que professores foram chutados e espancados quando já estavam no chão, feridos. Um jornalista foi levado em estado grave para o hospital depois de ser atacado por um pitbull da Polícia Militar. Os gases alcançaram uma creche vizinha, que convocou os pais de urgência a retirarem os filhos.

3. Com tudo isto a acontecer lá fora, e sem presença popular na votação, os deputados aprovaram o projecto, que agora segue para confirmação do governador Beto Richa. O nome parece uma caricatura, à altura de bandido-chefe, e ele não desarmou. No auge da pancadaria, apareceu a dizer que os manifestantes eram “black blocs”, justificando assim a truculência policial. Mais tarde declarou que a polícia — armada e equipada com capacetes, coletes e escudos perante manifestantes sem armas e sem protecção — agiu para proteger a própria vida. O sindicato dos professores anunciou que o vai processar. Uma greve geral de professores estava marcada para esta quinta-feira em que escrevo.

4. Estive em Curitiba apenas uma vez, atrás da sombra de Dalton Trevisan, esse enigma vivo da literatura brasileira. Mas, à distância, mantenho contacto regular com um curitibano da gema, por acaso professor (da Universidade do Paraná), Caetano Galindo, tradutor da mais recente edição brasileira de Ulisses, de James Joyce. Onde andaria ele, pensei, ao ver aquela sucessão de professores ensaguentados. Mandei-lhe uma mensagem já de madrugada, perguntando se gostaria de dizer algo sobre o sucedido, e esta manhã ele respondeu: “A incompetência do governo atual [do Paraná], financeira, política, retórica, não deixa de surpreender. A estupidez do comando da situação, além de total falta de respeito, demonstra uma falta de mero bom-senso que chega a espantar. Não me lembro de ter visto alguém tão nitidamente incompetente no cenário político.”

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5. Caetano não estivera na praça mas o seu irmão, jornalista, sim, caso eu quisesse falar com ele. Escrevi então a Rogério Galindo, que em menos de uma hora respondeu: “Em 15 anos de jornalismo, nunca tinha sentido o gás lacrimogêneo se espalhar à minha volta. O gás arde nos olhos, queima a garganta e o nariz, faz chorar. Mas eu e muitas pessoas que estavam ali chorávamos por outras razões, na verdade: por vermos feridos, por vermos gente sendo carregada, sangrando, por vermos a aflição dos que corriam para escapar às bombas e aos policiais. Chorávamos pelo absurdo que se praticava contra nossa democracia.”

6. Entretanto, alguém recuperava online uma entrevista que Beto Richa dera há tempos à rádio brasileira de notícias, em que se declarava contra a formação superior de polícias, para evitar desobediências. Argumentava ele: “Outra questão é de insubordinação também, uma pessoa com curso superior muitas vezes não aceita cumprir ordens de um oficial ou um superior, uma patente maior.” A partilha desta entrevista coincidiu com a notícia de que 17 polícias se tinham recusado a participar no cerco aos manifestantes e teriam sido detidos por desobediência.

7. Um polícia trabalha para o Estado, como um professor do ensino público trabalha para o Estado. O que aconteceu em Curitiba, assinalaram várias testemunhas, foi o Estado contra o Estado. Mais precisamente: um líder, eleito, lançando pesadamente uma parte do Estado, armada, contra outra parte do Estado, desarmada. Distorção extrema da democracia, ao ponto de começar a repetir-se insistentemente nas redes sociais a palavra “fascismo”.

8. Muitos destes polícias também nasceram negros ou pobres, como os negros ou pobres que mais morrem no Brasil, empurrados para o que sobra, carne para canhão, numa cultura que há séculos favorece obediência, falta de autonomia e repressão, assim perpetuando a violência. Em Agosto de 2013, na sequência das manifestações que tinham sacudido o Brasil em Junho, muitas vezes violentamente reprimidas, entrevistei o coronel Ibis Silva Pereira, que então dirigia o novo programa de formação da Polícia Militar. O coronel Ibis queria acabar com a “lógica do inimigo”, intrínseca à própria noção de Polícia Militar, e para isso, sim, ele defendia o fim da Polícia Militar, ou seja a desmilitarização da polícia. Dias depois dessa entrevista, o coronel Ibis foi deslocado de funções. Vendo a polícia agir agora em Curitiba também pensei nele.

9. “A Polícia Militar é mais do que uma herança da ditadura, é a pata da ditadura plantada com suas garras no coração da democracia”, disse numa entrevista o antropólogo Luiz Eduardo Soares, um dos maiores especialistas brasileiros em segurança pública. Luiz Eduardo era um admirador do coronel Ibis, e nesses dias de Agosto de 2013 acreditava que a conjuntura brasileira ia apontar para uma desmilitarização, essencial à democracia: “A cultura militar é muito problemática para a democracia porque ela traz consigo a ideia da guerra e do inimigo. A polícia, por definição, não faz a guerra e não defende a soberania nacional. O novo modelo de polícia tem de defender a cidadania e garantir direitos, impedindo que haja violações às leis. Ao atender à cidadania, a polícia se torna democrática.” Nessa entrevista, Luiz Eduardo dizia que “70% dos soldados, cabos, sargentos e subtenentes querem a desmilitarização e a mudança de modelo”, enquanto a percentagem entre os oficiais desce para 54%. Ainda assim, uma maioria absoluta a favor da desmilitarização. Mas quase dois anos depois das manifestações que tomaram o Brasil — e em que tantas vezes ouvi o lema “Não acabou / tem de acabar / eu quero o fim / da Polícia Militar!” —, Curitiba não aponta nessa direcção.

10. Um pouco mais a sul da capital paranaense, em Pelotas, interior do Rio Grande do Sul, o sempre grande Odyr Berrnardi desenhou dois PM (polícias militares), escudados até aos dentes, um dizendo para o outro, lá no combate de Curitiba: “Minha professora disse que estou irreconhecível nesse uniforme.”

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PARANÁ EM CHAMAS. O massacre a que Curitiba assistiu no 20 de abril

por Dimitri do Valle, especial para os #Jornalistas Livres

fotos de Leandro Taques

A série de explosões começou a ser ouvida pouco antes das três da tarde. Quem estava a distâncias que chegavam a seis quilômetros, por exemplo, conseguia ter uma ideia clara de que as coisas no Centro Cívico, a praça dos três poderes do Paraná (mais a Prefeitura de Curitiba), não estavam para brincadeira. Os estrondos eram resultado da ação violenta de policiais militares contra servidores públicos, a maioria professores da rede estadual.

Há dois dias, eles protestavam contra uma série de medidas de arrocho que a Assembleia Legislativa começava a colocar em segunda e última votação naquele momento. No final da tarde, sabia-se que houve pelo menos 107 feridos — dois policiais e 105 servidores. O placar medonho retrata um verdadeiro massacre.

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Já à noite, sabia-se que os feridos, aumentaram para 150, segundo informações oficiais do SAMU. Oito deles seguiam em estado grave por causa de mordidas de cães policiais e tiros com balas de borracha.

Na segunda-feira, com o registro de escaramuças entre PMs e servidores, mas em escala menor do que a de hoje, o fatídico e já histórico 29 de abril, os deputados já haviam aprovado em primeira votação, por 31 votos favoráveis contra 21 o tal pacotaço, encaminhado pelo governador Beto Richa (PSDB) para melhorar as finanças do Estado, cujos balanços festejados por ele mesmo durante sua campanha à reeleição, no ano passado, apontavam para uma contabilidade em céu de brigadeiro.

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Por mais de uma hora e meia, as bombas de gás e de efeito moral mostraram do lado de fora do parlamento estadual que eram a verdadeira garantia para a votação definitiva de hoje no interior do prédio, fazendo valer a vontade de Richa e de sua equipe de governo, comandada pelo baiano Mauro Ricardo Costa, importado pelo tucano para seu segundo mandato e já conhecido pelos serviços prestados na área fazendária da Prefeitura de de Salvador (BA), gestão de ACM Neto (DEM), e no governo de São Paulo, na gestão de José Serra (PSDB). A sessão prosseguia, sem final previsto, até a conclusão desta reportagem.

No entanto, à medida em que as bombas, os cães, as balas de borracha e os cassetetes caíam sobre os manifestantes armados apenas com gritos e palavras de ordem, deputados preocupados com a onda de violência que se desenrolava na praça principal, em frente a Assembleia, batizada de Nossa Senhora da Salete (trágica ironia), chegaram a sair do prédio para pedir calma aos policiais. A exemplo de servidores públicos feridos, com quem ficou lado a lado durante a confusão e barbárie generalizada na praça, o deputado Rasca Rodrigues, do PV, saiu no prejuízo e foi mordido por um dos cães da tropa de choque da PM, além de ter aspirado gás de pimenta e lacrimogênio. Voltou ao prédio com sangue escorrendo pelo braço.

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Proibidos de se aproximar da Assembleia Legislativa por grades e um cordão humano de 1.500 policiais, a maioria deslocados de batalhões do interior e sem garantia de pagamento de suas diárias, restou aos manifestantes fazer o caminho de volta, diante da intensa repressão policial que se iniciou. Eles voltavam correndo em direção à avenida Cândido de Abreu, a principal via de ligação com o Centro Cívico. Não estavam sozinhos.

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Muitos vinham carregando, como feridos da guerra campal, pelos braços e pernas, manifestantes desacordados e feridos.

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O prédio mais próximo em que eles poderiam ficar à espera de socorro, foi a Prefeitura, comandada atualmente por Gustavo Fruet (PDT), atual desafeto de Richa, que lhe negou candidatura a prefeito, em 2012 pelo PSDB, vindo a se candidatar e ganhar o poder da capital, como azarão.

O hall de entrada e salas próximas, onde o IPTU e tributos municipais são cobrados, foram transformados em hospital de campanha. Vídeos de smartphones com os feridos deitados, sangrando e sem camisa passaram a ser veiculados na internet. Mesas de trabalho viraram maca, e as poucas que chegavam, apareciam por meio das escassas equipes do SAMU, que estavam em dificuldades para se aproximar do Centro Cívico, por conta do bloqueio policial de ruas próximas, e à multidão em fuga por calçadas e a avenida principal.

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O expediente em toda a Prefeitura foi interrompido para que se desse cabo do atendimento aos feridos. Só ali foram acolhidos 35, muitos deles machucados no corpo, da cabeça aos pés, pelas balas de borracha das carabinas da tropa de choque e outros com dificuldade de respiração por inalação dos gases de dispersão, além dos atingidos de praxe pela força dos cassetetes. Testemunhas entre os manifestantes relataram ter visto um helicóptero com policiais atirando bombas em voos rasantes, no que seria o primeiro ataque aéreo feito contra seus próprios civis em território nacional.

Uma creche municipal que fica no Centro Cívico, a poucas quadras da praça onde a guerra prosseguia, testemunhou de dentro de suas paredes todo o terror protagonizado pelos policiais. Se a seis quilômetros, o barulho das bombas se fazia surpreender, como exposto no início deste relato, pode-se ter uma ideia da intensidade dos estrondos e do eco provocado dentro da creche infantil, exposta ao barulho das explosões e dos gritos dos manifestantes, apoiados por potentes carros de som, além do incômodo nauseante da fumaça dos gases de dispersão. O choro tomou conta das crianças, funcionários e professores, que não tinham a quem recorrer, restando torcer para que tudo terminasse o mais breve possível, o que não aconteceu.

Do ponto de vista militar, a polícia cumpriu, mesmo com o uso de força excessiva, a missão de deixar afastados da Assembleia os manifestantes, o que não havia conseguido em fevereiro, quando Richa tentou colocar o pacotaço em votação pela primeira vez, ocasião em que foi rechaçado pela presença de 20 mil manifestantes e um mês de greve dos professores, a maior categoria de servidores do Estado, com 50 mil profissionais. Naquela ocasião, os deputados da bancada governista tiveram que entrar na Assembleia dentro de um vetusto e gigante camburão policial de cor preta. Tentaram encaminhar a votação do restaurante da assembleia, pois o plenário havia sido ocupado, mas tiveram medo da reação dos manifestantes e adiaram o intento.

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Como se percebe, era questão de tempo para Richa assimilar o recuo, reorganizar a tropa, tanto a da fiel Assembleia, como a das balas, bombas e porretes, para fazer valer seu projeto que tira vários direitos do funcionalismo, como o corte de licenças de parte dos professores, o livre uso de recursos dos fundos estaduais, inclusive o do poder Judiciário, aumento da alíquota do ICMS de mais de 90 mil produtos, e mudanças no setor de previdência dos servidores, que os obrigarão a pagar um índice extra caso queiram manter seus salários integrais acima de R$ 4,6 mil.

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O preço político a ser pago para os principais atores do episódio, como Richa e seus colaboradores no governo e na Assembleia, ainda é tão nebuloso e maleável quanto a fumaça de cor branca das bombas que tomou conta do Centro Cívico e fartamente captada pelos celulares dos prédios próximos.

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Antes que o leitor estranhe esse direcionamento nessa parte do texto, um pouco de história recente da política local. Em 30 de agosto de 1988, a PM reprimiu no mesmo Centro Cívico, um protesto de professores da rede estadual, no então governo de Álvaro Dias, na época no PMDB, e hoje senador filiado ao PSDB. Muitos decretaram o fim de sua carreira política, marcado pelo pisoteio da cavalaria em professores desarmados, mas Álvaro segue firme na lida. Tirando duas derrotas circunstanciais ao governo paranaense, contra Jaime Lerner, em 1994, a novidade política daquele ano, e Roberto Requião, em 2002, apoiado por nada menos do que o presidente Lula, o bamba da vez, Dias é o senador com mais mandatos eleitos. Ganhou, por exemplo, com ampla folga mais oito anos em 2014. Já havia sido eleito em 2006 e em 1998, portanto, depois da pancadaria de 88.

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Richa tem um destino mais incerto, mas nem por isso menos favorável. Richa encarna o antiesquerdismo visceral de boa parte do eleitorado paranaense atual. Com o tempo, como todo político, pode ser beneficiado pela diluição natural do episódio dantesco, assim como aconteceu com Álvaro Dias. A diferença é que, pelo tamanho do massacre e sua presença constante na internet (ferramente inexistente na época de Álvaro), Richa poderá passar o que resta do seu segundo mandato tentando explicar os “comos” e “por ques” de tanta violência contra profissionais da Educação. E mais: boa parte da população paranaense, assim como a brasileira, ainda marca sua rotina diária em frente à televisão pelo noticiário das emissoras de sinal aberto. Nesta noite, Richa pode ser beneficiado ou não pelos filtros editoriais e critérios supostamente jornalísticos (“não abusar das imagens, tem muita criança assistindo neste momento”, pode ser um deles, sim) lançados à mão por editores e cúpulas das emissoras.

A administração de Richa enfrenta também profunda investigação sobre supostos pagamentos de propina a servidores da Receita Estadual de Londrina, no Norte do Paraná, sua cidade natal, por empresas pressionadas a se verem livres de qualquer fiscalização e cobrança dos agentes do fisco. Um dos jornalistas mais premiados do Brasil, ao investigar o caso, teve que sair da cidade, pois recebeu a informação que seria morto em falso assalto a uma churrascaria que frequentava. O primo de Richa, Luiz Abi, é suspeito de estar por trás de fraudes de licitação para consertos de carros do governo, assunto que o jornalista ameaçado, James Alberti, da afiliada da Globo, no Paraná, também investigava em Londrina. Abi foi preso, a pedido do Ministério Público, mas atualmente responde ao processo de suspeita de corrupção em liberdade.

Beto Richa é filho de José Richa (morto em 2003). Richa pai teve papel de destaque na época da redemocratização, quando Tancredo Neves foi eleito presidente da República, no colégio eleitoral de janeiro de 1985. Se os militares da linha dura decidissem impedir a posse ou não reconhecessem o resultado da eleição indireta feita no Congresso Nacional, Richa pai havia se comprometido a participar de um plano para abrigar Tancredo no Paraná e resistir contra uma eventual tentativa de golpe, colocando a sua Polícia Militar, para proteger o novo presidente civil. Hoje, trinta anos depois, a mesma corporação, sob o desígnio de outro Richa, faz o caminho inverso, o da violência desenfreada, sem qualquer ligação com as garantias democráticas tão defendidas pelo próprio pai, como ficou explícito na tarde desse 29 de abril, marcada pelo frio e garoa que caiu no centro do poder da Capital do Paraná.

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