Quantas crianças iranianas terão que morrer até que o mundo dê um basta?

Paulo Nogueira 

Gleen Greenwald é um excelente jornalista americano. Escrevia para o Huffington Post, e agora seu passe foi adquirido pelo Guardian, britânico.

É uma pena que nenhuma publicação brasileira ofereça aos leitores os textos de Greenwald, mas não uma surpresa: Greenwald não escreve as coisas que as grandes corporações de jornalismo do Brasil se acostumaram a veicular, num serviço que desinforma muito mais que informa e distorce o mundo muito mais que o faz mais compreensível.

Greenwald, hoje, fala das consequências que o boicote americano ao Irã vai trazendo à sociedade iraniana: mulheres, crianças, velhos, civis em geral. Começa a faltar comida, por exemplo.

Ele relembra o que aconteceu com o Iraque quando submetido ao mesmo tipo de coisa pelo governo de Bill Clinton: meio milhão de crianças iraquianas morreram.

Na ocasião, um jornalista perguntou à então Secretária de Estado, Madeleine Albright, sobre este abominável infanticídio em massa. Infamemente, ela respondeu que o objetivo americano de derrubar Saddam Hussein compensava esse custo – 500 mil crianças mortas.

Greenwald toca num ponto crucial: a ignorância do americano médio. Recentemente, nos protestos antiamericanos nos países árabes, a opinião pública americana se perguntava, perplexa: por que nos odeiam tanto?

“A maior parte dos americanos não tem a menor ideia, porque ninguém conta para eles, de que as sanções que seu governo impôs ao Iraque resultaram na morte de centenas de milhares de crianças, e igualmente eles não têm agora a menor ideia de que o sofrimento dos iranianos comuns vai crescendo substancialmente”, escreveu Greenwald em seu artigo no Guardian.

Ora, por que tamanha ignorância? Em grande parte, porque a mídia americana representa, essencialmente, os interesses americanos. Os jornais americanos apoiaram a Guerra do Vietnã durante muito tempo – e foram cegos para o massacre da população vietnamita com armas como as bombas de napalm. George W Bush foi louvado pelos maiores jornais americanos quando fez a Guerra do Iraque.

A grande mídia brasileira é tecnicamente ruim e mentalmente perniciosa? Sim. Mas a americana, se tecnicamente é ok, mentalmente é tão perniciosa como a brasileira.

É um benefício, uma bênção para a sociedade o fato de que a era digital tire a importância velozmente do jornalismo feito por grandes corporações como a News Corp de Murdoch ou a Globo da família Marinho — interessadas em perpetuar um sistema que as beneficia extraordinariamente, e a seus iguais em privilégios disfarçados de meritocracia, em detrimento do interesse público.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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