Quem acredita em versão policial? Os soldados de Alckmin prendem e arrebentam

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Os Advogados Ativistas, grupo que defende voluntariamente manifestantes presos durante protestos públicos em São Paulo, denunciaram ilegalidades na coleta do depoimento do jovem Fabrício Proteus Chaves. O rapaz de 22 anos foi ouvido por três delegados em seu leito hospitalar na UTI da Santa Casa de Misericórdia, centro da capital, para onde foi levado no sábado (25) após ser alvejado à queima-roupa no tórax e na genitália por dois PMs.

“A colheita do depoimento foi ilegal

porque, no momento em que os delegados colheram o depoimento do Fabrício, ele tinha acabado de sair do coma, estava internado numa UTI, estava sob efeito de morfina, e esse depoimento foi assinado com o dedão. Daí você imagina o valor legal que tem esse documento”, explicou um dos integrantes dos Advogados Ativistas, Geraldo Santamaria Neto, em coletiva de imprensa. “Seus pais não puderam acompanhar o depoimento. Ele ficou sozinho com três delegados no quarto.”

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De acordo com a assessoria de imprensa da Santa Casa, Fabrício Proteus Chaves deixou o coma induzido poucas horas antes do interrogatório. Durante o depoimento, ainda segundo o hospital, o estado de saúde do jovem era estável, inspirando cuidados intensivos. Hoje, os médicos afirmam que o rapaz está consciente, comunicativo e apresentando evolução satisfatória. Fabrício perdeu um testículo e pode ter alguns movimentos do braço direito comprometidos – atualmente, está paralisado.
Ameaças

ADVOGADOS AMEAÇADOS DE MORTE

Além de denunciar as condições ilegais em que os delegados tomaram depoimento do jovem, os Advogados Ativistas, que representavam judicialmente o rapaz, afirmaram que receberam “ameaças de morte” para sair do caso. “Na segunda-feira (27), nas imediações do hospital, fui abordado por alguém chamando meu nome. Essa pessoa estava dentro de um carro e pediu que a gente se retirasse do caso, mostrando uma arma”, conta Daniel Biral, 33 anos, um dos integrantes do grupo.

Como advogado criminalista e defensor de manifestantes, com presença constante em protestos de rua, Biral afirma que ameaças são comuns e que essa não é a primeira que ele e seus colegas recebem. “Só que nunca quisemos denunciá-las à imprensa. Não tinha nem motivo”, ressalva. “O grande motivo por termos aparecido agora é por causa desse caso específico, que estávamos cuidando, e tinha uma necessidade de mostrar a cara e falar que tem alguma coisa errada.”

“Não sabemos quem fez a ameaça, mas a ameaça foi específica com relação a esse caso do Fabrício, para a gente sair do caso. E também para deixar de defender manifestantes”, complementa Geraldo Santamaria Neto, sublinhando que, pese aos riscos, o grupo tinha decidido continuar no caso. De acordo com André Zanardo, outro membro dos Advogados Ativistas, a família do jovem havia até mesmo assinado uma procuração constituindo o grupo como os representantes de Fabrício perante a Justiça.

(…) porém, no dia seguinte, parentes entraram em contato com os advogados e, sem maiores justificativas, invalidaram o documento. “Algo ocorreu nesse meio-tempo, e a família nos desconstituiu do caso”, explica Zanardo, que não soube dizer por que a família de Fabrício tomou essa decisão ou se seus pais também receberam algum tipo de ameaça. Os Advogados Ativistas vinham acompanhando e prestando assistência jurídica ao jovem baleado.

“O caso está estranho desde o começo”,

afirma Luiz Guilherme Ferreira, integrante do grupo. “Desde a obscura versão oficial até a falta de informações aos familiares, passando pela colheita ilegal do depoimento de Fabrício, o que vemos é um interesse político atípico, que é confirmar a todo custo a versão dos policiais.” Ferreira ecoou nota do Ministério Público, que ontem repreendeu o governo do estado por inocentar os policiais antes de qualquer investigação.

“Parece-nos oportuno lembrar à Secretaria de Segurança Pública que o único órgão legitimado para imputar e enquadrar conduta criminosa a alguém é o Ministério Público. Caso contrário, existe o risco de Fabrício deixar de ser uma vítima policial para ser também uma vítima política”, continuou. “Percebe-se que as investigações mal começaram e os órgãos deslegitimados já estão até condenando.” Transcrevi trechos de um texto de Tadeu Breda. E acrescento que versão policial não tem lá muito crédito. Veja links dos casos Amarildo, chacina da família Pesseghini, e de um jovem, que antes de falecer, perguntou para um PM: – Por que o senhor atirou em mim?

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135 PROTESTANTES PRESOS 

De um texto de Thiago de Araújo:
Zanardo e um grupo de advogados prestaram auxílio jurídico aos 135 manifestantes detidos pela polícia durante o protesto no centro da capital, sendo a maioria levada para o 78º Distrito Policial, nos Jardins, e para outras delegacias na região central. Todos foram ouvidos e liberados em seguida. No caso de Chaves, a versão dos policiais é de que ele teria tentado fugir e agredir os agentes com um estilete, após ter um coquetel molotov encontrado em sua mochila.

O advogado vê um relato “absurdo” e “desproporcional” para justificar os disparos, que atingiram o tórax e o pênis do manifestante, encontrado na esquina das ruas Sabará e Piauí que está internado em estado grave, porém estável, de acordo com o que informou a assessoria de imprensa da Santa Casa no início da noite deste domingo.
— Parte da versão dos fatos que eles relataram é que ele estivesse com coquetel molotov na mão, e isso é algo que você aprende no direito: é preciso ter proporcionalidade na ação. Você está com coquetel molotov na mão, então a primeira pergunta que faço é se ele estava aceso ou apagado. Se estivesse apagado, não oferece risco. O risco do objeto é muito pequeno e a agilidade para ele acender é ridícula. (Chaves) poderia ser contido com gás de pimenta no caso.

Zanardo disse ainda ter testemunhado a presença de pelo menos dois policiais na entrada do ambulatório da Santa Casa. Segundo ele, tal fato caracterizaria que o manifestante já seria considerado preso e, por isso, justificaria uma escolta. O fato – não confirmado pelo hospital – estaria, inclusive, trazendo dificuldades à família do rapaz em ter informações sobre o seu estado de saúde.

— O que posso dizer é que as informações estão completamente sendo cerceadas, a família está com dificuldade de ter acesso ao garoto. Há dois policiais acompanhando, porque ele está detido, só que isso não é usual acontecer. Ele está em coma induzido, então não há essa necessidade porque ele não pode se locomover. Então o Estado está gastando a sua força policial por uma desnecessidade.

Já a SSP (Secretaria de Segurança Pública) informou, em nota, que “não há escolta”.
“A Polícia Militar informa que esperou no hospital a autoridade policial deliberar se Fabrício Proteus Nunes Fonseca Mendonça Chaves seria preso ou não.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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