Mundial ou festinha de infantário?

 

Jennifer Lopez
Jennifer Lopez
Cláudia Leite
Cláudia Leite

por Andréia Azevedo Soares

Público/ Portugal

 

 

Apesar de ser brasileira, não entendo nem gosto de futebol. Mas gosto muito de Mundiais de futebol, sobretudo quando estes campeonatos acontecem no país onde nasci. Como estou sem televisão em casa (esta história fica para outra crónica), tive de acompanhar a cerimónia de abertura através das redes sociais e de links manhosos (obrigada, amigos!). E ainda bem que assim foi. Ver em directo aquele espectáculo sofrível teria sido ainda mais traumatizante. Pessoas vestidas de relva? Gotinhas d’água saltitantes? Flores dançantes? Mas isto é o Mundial ou uma festinha de infantário para os pais aplaudirem?

O que senti foi vergonha. Aquilo foi tão mau que uma hora após o encerramento já circulavam pela Internet memes e piadas. Depois de todas as polémicas e confusões que ensombraram o arranque do Mundial, não dava para ter preparado pelo menos uma apresentação com a beleza e a energia a que os Carnavais nos habituaram? Caramba, era só dar aos carnavalescos um terço do orçamento entregue à belga Daphne Cortez que eles davam conta do recado. Como assim a Jennifer Lopez e companhia a cantar num playback sem sincronia sobre uma bola transformada em casca de banana? Eu não estou nem a comentar o facto de a plataforma elevatória não ter funcionado (isso acontece), refiro-me mesmo ao mau gosto, ao repisar de um sem-número de estereótipos que não fazem justiça à criatividade e diversidade do Brasil. Índios e baianas? Não havia nada menos óbvio para representar o país?

Havia. Um bom exemplo até estava em campo mas quase ninguém viu : uma tecnologia criada pelo neurocientista Miguel Nicolelis permitiu a um paraplégico dar o pontapé de saída do Mundial. Tudo graças a um exoesqueleto (ou seja, um esqueleto externo), uma estrutura metálica que recebe as “ordens” do cérebro do paciente e as transforma nos movimentos desejados. Vocês leram bem: Juliano Pinto, 29 anos, paralisado da cintura para baixo, levantou-se da cadeira de rodas e chutou uma bola em pleno estádio. Passou despercebido e até se entende o porquê: é muito difícil competir com pessoas vestidas de vegetais coloridos.

 

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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