A elite branca vaiou Dilma

A elite branca promove as procissões pela paz nos bairros nobres. As virgens de branco, com uma vela acesa na mão, cantam as músicas religiosas da TFP – Tradição, Família e Propriedade. E contra o slogan “o povo unido jamais vencido”, respondem com “a família que reza unida, permanece unida”.

Nada mudou no Brasil desde 1964. A justiça é a mesma. A polícia é a mesma. Povo no Brasil é sinônimo de negro.

A elite jamais fez uma passeata pelas 500 mil crianças prostitutas, os sem teto, os sem terra, pelo Fome Zero, pelo Bolsa Família; e contra os fuzilamentos de negros e negras – as Cláudias, os Amarildos.

 

Jogadores negros, público branco

por Antonio Jiménez Barca

El País/ Espanha

Imagem de uma parte da torcida no Itaquerão. / F. A. (AP)
Imagem de uma parte da torcida no Itaquerão. / F. A. (AP)

seleção-Brasileira-amistoso

Em 1914, um jogador mulato do elitista clube Fluminense, do Rio de Janeiro, para dissimular a cor de sua pele, lambuzou sua cara com pó de arroz. No começo tudo bem. Mas quando começou a suar, seu truque foi descoberto. O jogador ficou marcado, para sempre, como o Pó de Arroz, assim como o próprio clube. A relação entre as tensões raciais (ou distensões) e o futebol no Brasil é extensa.

Na verdade, há muitos historiadores e especialistas que sustentam que o futebol serviu precisamente para unir as diferentes raças que povoam este país-continente, que é uma das poucas coisas que todos fazem juntos, ricos e pobres, brancos e negros, ou que todos assistem juntos. E a seleção seria o ponto alto desse sentimento de irmandade acima das cores. Sim, mas há também quem afirme que em 1950, o goleiro Barbosa, por ser negro, foi injustamente culpado por tomar o gol definitivo de Ghiggia no infeliz Maracanazo. Se fosse branco, teria sido perdoado. No vídeo no Youtube, podemos comprovar que a ação de Barbosa tampouco foi um erro enorme, nem sequer pode ser catalogado como erro. Mas que digam isso ao pobre goleiro que carregou por toda a vida, até sua morte em 2000, a culpa imensa de ter servido de instrumento da desgraça. Até nos supermercados ele era apontado com o dedo: “Olha, filha, o homem que fez o Brasil chorar”, disse uma vez a mãe para sua filha na presença do atribulado Barbosa.

Pelé, Garrincha e outros redimiram sua raça e converteram a seleção brasileira em uma máquina mestiça e perfeita, capaz de fabricar o melhor futebol da história. Desde então, a seleção do Brasil foi uma radiografia fiel da sociedade, onde mais da metade da população é negra ou mulata.

E assim era mais ou menos a equipe que entrou na quinta-feira no estádio do Itaquerão e ganhou da Croácia graças a Neymar e a um árbitro armado com um spray de grafiteiro.

No entanto, as arquibancadas estavam cheias de milhares e milhares de brasileiros brancos, quase todos brancos, os únicos que, em sua grande maioria, têm dinheiro neste país para pagar a entrada, os únicos que, no geral neste país, vão ao cinema, ao teatro, às exposições ou aos restaurantes de categoria, os que dominam as melhores oportunidades…

Dentro do campo era fácil: Marcelo, Daniel Alves, Thiago Silva, Hulk, Ramires…. Mas olhem as fotos da partida e brinquem de encontrar um negro entre o público do estádio que, vestido de amarelo, animava com euforia sua seleção. Tentem encontrar algum negro que não estivesse assistindo à seleção de todos pela televisão, do lado de fora.

 

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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