Animação “Zarafa” critica colonialismo francês na África. Despejos brasileiros e desaparecimento e morte dos Amarildos

por Alysson Oliveira

zarafa

Poética e relevante, a animação francesa “Zarafa” é uma alternativa aos excessos e à falta de diversidade, ao menos temática, dos filmes infantis vindos dos Estados Unidos.

Dirigido por Rémi Bezançon (“Um Evento Feliz”) e Jean-Christophe Lie (animador de filmes como “Kiriku – Os Animais Selvagens” e “As Bicicletas de Belleville”), o longa busca inspiração na história da primeira girafa levada da África para a França.

O filme estreia em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e Santos, em versões dubladas e legendadas.

Uma das primeiras coisas a chamar a atenção em “Zarafa” não é apenas sua paleta de cores fortes, mas a facilidade com que a trama, assinada por Bezançon e Alexander Abela, é capaz de se comunicar com as crianças.

Usando uma linguagem simples, mas nunca infantilizada, o filme evita aquele velho clichê do cinema infantil de animação de Hollywood: seja você mesmo e tudo vai dar certo. Aqui, há tintas políticas sutis, assim como uma crítica ao colonialismo francês num paralelo entre a ida da girafa para a França e o saque promovido pelo país em suas colônias na África.

O protagonista é o pequeno sudanês Maki, no século 19, capturado para ser vendido como escravo. O garotinho consegue fugir e faz amizade com uma girafa, que é morta por um mercador, deixando seu filhote, ao qual o garoto se apega. Quando o animal é capturado por Hassan, um egípcio a caminho da Alexandria, o garoto decide ir junto. Mas ao chegar à cidade, descobrem que ela caiu sob domínio dos turcos. Hassan é enviado pelo paxá local para pedir ajuda ao rei da França, Carlos 10, e, para isso, levará a pequena girafa como um presente.

A viagem é uma grande aventura, já que é realizada num balão, levando Hassan, Maki, o francês Malaterre, condutor do balão, a girafa e duas vacas que fornecem leite. Na França, no entanto, os viajantes não encontram bem o que esperavam. Várias pessoas são corruptas, exploradoras e mal-educadas — a começar pelo rei e sua corte.

O monarca, ao ver o garoto Maki, diz, para diversão dos que o cercam, que o menino “se parece com um macaco que fugiu da jaula”. O mesmo rei esnobe receberá o troco mais tarde, com a chegada de um novo animal ao zoo. Tal qual a girafa (“zarafa”, em árabe), pessoas e riquezas foram tiradas da África e levadas para a Europa — não apenas a França. Nesse sentido, o longa faz um retrato metafórico e bastante honesto sobre essa questão.

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amarildo
NASCIMENTO DO NAZISMO,
FRUTO DO RACISMO FRANCÊS
Nota do redator do blogue: Essa questão: o racismo francês. Temos aí o que Christian Descamps chama de fantasmagorias de Gobineau. O médico e biólogo Jacques Ruffié comenta: “Gobineau era um diplomata que se entediava numa Europa que ele já encontrara pronta. Esse contemporâneo de Darwin, que se dava ares de antropólogo, decidiu procurar a raça superior que teria produzido a civilização, como outras produziram a cerâmica. Na verdade, seu esquema era muito simples: pegou um atlas e traçou um triângulo, encontrou o Nepal, onde situou seus famosos arianos.  E como gostava muito de Wagner e dos alemães, decidiu encontrar seus descendentes do outro lado do Reno.
Franscis Galton, primo de Darwin, lançou mão do esquema darwiniano para explicar a existência de raças hierarquizadas. Em sua obra de 1869, O gênio hereditário, ele considerava que as raças humanas se definem por caracteres  morfológicos. Tentou construir um racismo científico, no qual se encontrariam no ponto mais baixo os negros, no mais alto os ingleses, e mais alto ainda a família Darwin.
Gobineau se preocupava essencialmente com a raça superior. Vacher de Lapouge se interessou pela raça inferior; seu filho, aliás, foi homenageado pelos nazistas. Para ele, quanto mais a pele é escura, menos qualidades biológicas se tem. Quando os brancos  escurecem um pouco, isto é péssimo. Mas ainda há coisa pior: os judeus são portadores de genes ruins; portanto, ameaçam envenenar o sangue ariano. Essas pseudoteorias eram tão idiotas que ninguém levava a sério, até que um certo Hitler as tomou ao pé da letra”. Estas declarações de Ruffié são de 1983. Se antes pegaram o judeu, novo bode expiatório sempre  aparece. O racismo religioso é tão maléfico quanto o racismo científico,  O negro, vem sendo considerado inferior desde a lenda da Rainha Sabá e, principalmente, depois da necessidade de braço escravo para a colonização das Américas.
O engraçado que, no Brasil, o dinheiro embranquece. Toda política brasileira de marginalização do favelado – de eliminar os Amarildos – tem origem escravocrata. Uma escravidão que persiste.
Manifestante escrevendo o nome de Amarildo em uma improvisada faixa. Amarildo representa os 200 mil brasileiros que estão sendo despejados para os governadores - os novos Neros - construírem estádios e obras complementares para a Copa de 2014
Manifestante escrevendo o nome de Amarildo em uma improvisada faixa. Amarildo representa os 200 mil brasileiros que estão sendo despejados pelos governadores – os novos Neros dos  estádios e  obras complementares para a Copa de 2014
Amarildo passa a ser símbolo do martírio – chacina – dos sem terra, dos sem teto, dos descendentes de escravos, dos despejados, dos marginalizados por uma elite corrupta e parasita, uma justiça PPV e uma polícia violenta e assassina.
A polícia quando não mata, prende, fabricando processos e mais processos que a justiça legaliza.
A polícia e a justiça sempre lavam mais branco. Foi assim no holocausto das nações indígenas (os índios chamados de bugres, pederastas), no tráfico dos negros (classificados como peças).
A escravidão persiste no Brasil. A chacina de Unaí continua impune. A pacificação das favelas do Rio de Janeiro é uma farsa denunciada pelo Papa Francisco. Farsa criada pela grilagem de cobiçados terrenos nos altos dos morros com panorâmica vista do mar.
Qual a diferença de uma favela do Rio para uma favela em São Paulo ou em qualquer capital brasileira? Vai um Geraldo Alckmin adotar a política de conquista de Sérgio Cabral? Idem Eduardo Campos em Pernambuco?
Zarafa trailer

A morte de um herói discreto

por Leneide Duarte-Plon

A criança soldado e o sol  de Mali. Ilustração de Talal Nayer. Que mostra o eterno sofrimento de um povo colonizado. Quando um negro de alma branca governa os Estados Unidos. Esta expressão popular negro de alma branca nunca foi racista. Apesar dos diferentes significados.   Apenas frisa que falta generosidade. De negro para negro. Vale para toda a humanidade. Independente da cor da pele
A criança soldado e o sol de Mali. Ilustração de Talal Nayer. Que mostra o eterno sofrimento de um povo colonizado. Quando um negro de alma branca governa os Estados Unidos. Esta expressão popular negro de alma branca nunca foi racista. Apesar dos diferentes significados.
Apenas frisa que falta generosidade. De negro para negro. Vale para toda a humanidade. Independente da cor da pele

Em fevereiro de 1958, graças ao livro La Question, de Henri Alleg, a França descobriu que seu Exército torturava na Argélia, como os nazistas da Gestapo tinham torturado os resistentes franceses. Imediatamente, o jornalista comunista nascido em Londres sob o nome de Harry Salem, filho de judeus russo-poloneses, se transformou num ícone da luta anticolonial, em plena guerra da Argélia.

Antes, alguns intelectuais haviam escrito artigos na imprensa mas naquele livro, um homem torturado dava seu testemunho. O diretor do jornal Alger Républicain – militante da luta anticolonialista, sequestrado e preso no ano anterior – confirmava as suspeitas num relato que se transformou imediatamente num best-seller. A partir da segunda edição, o livro passou a ter um posfácio de Jean-Paul Sartre, no qual o filósofo dizia: “Henri Alleg pagou o mais elevado preço para ter o direito de continuar um homem”.

Dia 17 deste calorento mês de julho, Henri Alleg faleceu em Paris, aos 91 anos, vítima de um AVC. Os principais jornais franceses noticiaram sua morte com espaço dedicado somente aos grandes personagens. O Le Monde deu uma página inteira, Libération, duas, e o comunista L’Humanité, do qual Alleg foi diretor, deu a notícia na capa, ressaltando os combates do jornalista e escritor contra o colonialismo, a opressão e todo tipo de racismo.

O presidente François Hollande louvou “o anticolonialista ardente cujo livro alertou o país sobre a realidade da tortura na Argélia”.

O secretário nacional do Partido Comunista Francês, Pierre Laurent, escreveu que o nome de Henri Alleg “permanecerá para sempre sinônimo de verdade, de coragem, de justiça”.

O diretor do jornal L’Humanité, Patric Le Hyaric, escreveu :

“A melhor homenagem que o Estado francês poderia fazer a Henri Alleg seria, enfim, reconhecer oficialmente a tortura na Argélia, assim como os crimes de guerra.”

Outra articulista, Rosa Moussaoui ressaltou que Alleg combateu “até o fim, sem cessar, a direita francesa sempre disposta a exaltar os ‘aspectos positivos’ da colonização”. Ela se referia ao longo debate durante o governo de Nicolas Sarkozy que, tentando reabilitar o período colonial, se pôs a apontar “aspectos positivos” na colonização francesa.

O livro

Quando foi proibido na França, três meses depois de ser lançado, o livro La Question já era um best-seller, com 65 mil exemplares vendidos. O governo do general Charles De Gaulle, tendo o escritor André Malraux como ministro da Cultura, não sabia ainda como iria acabar a guerra que, aliás, não era chamada de guerra pela França, mas “les événements d’Algérie” (os acontecimentos da Argélia). A expressão guerra da Argélia só foi imposta pelos historiadores muito depois da independência da antiga colônia.

A partir da proibição, o livro passou a ser impresso na Suíça e depois saiu em diversos países. Na França, o texto de Alleg passou a ser distribuído clandestinamente por uma rede de militantes católicos, socialistas e comunistas. Antes do livro, a revista católica Esprit havia denunciado a tortura na Argélia, mas Alleg veio trazer à opinião pública um texto-testemunho de grande qualidade literária. Nele não há psicologia ou julgamento moral – o texto é límpido, seco e objetivo.

O relato de Alleg tinha deixado a prisão em folhas soltas, levadas por seu advogado, burlando o controle dos torturadores. La question foi editado por Jérôme Lindon nas Editions de Minuit, num clima de debate passional entre os anti e os pró-colonização. O livro despertou a consciência de toda uma geração que descobriu horrorizada a tortura exercida pelos paraquedistas franceses em nome do combate à “subversão” da Frente de Libertação Nacional, que lutava pela independência da Argélia.

Em 1960, Alleg foi condenado a 10 anos de trabalhos forçados. No ano seguinte, fugiu da prisão indo se refugiar num país do Leste europeu. Escreveu diversos livros e dedicou toda sua vida ao jornalismo, à causa comunista e ao combate anticolonialista.

A notícia da morte de um herói discreto me transportou ao mês de dezembro de 2011, quando fui à sua casa nabanlieue parisiense para uma entrevista em torno do seu livro e de sua experiência de resistente à guerra colonial na Argélia. Ele será um personagem do livro que estou escrevendo sobre como os militares franceses na Argélia exportaram técnicas de tortura e de controle das populações civis através do general Paul Aussaresses, que viveu no Brasil por quase três anos como adido militar da França.

Apesar da idade avançada, Alleg tinha a memória intacta e a inteligência preservada pelo tempo. E ao contar sua prisão, tortura e engajamento, seus olhos brilhavam cheios de vida e de generosidade.

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Nota do redator do blogue: A França continua colonialista. A propaganda sempre cria neologismo para seculares crimes de guerra. Os países colonizados são classificados como departamentos ultramarinos. No nosso continente temos a Guiana que, inclusive, invade terras brasileiras.
Guiana Francesa livre!, repetindo o grito de De Gualle.
A França imperialista continua a mesma, desde quando tentou uma França Antártica, em 1555, no Rio de Janeiro; em 1594, no Maranhão.
Recentemente, em abril de 1988, na Ilha de Ouvea, Nova Caledônia, mais um massacre de libertadores nativos, contado no filme A Rebelião, dirigido por Mathieu Kassovitz, e proibido de ser exibido nas colônias francesas, a começar, obviamente, pela Nova Caledônia. O filme foi rodado no Taiti, em 2010, pelas dificuldades criadas pelo exército francês.
rebeliao-poster
Cartaz original
Cartaz original
 Dirigido e estrelado por Mathieu Kassovitz
Dirigido e estrelado por Mathieu Kassovitz
Um dos libertários
Um dos libertários
Trailer do filme:
A brutal Legião Francesa, formada por mercenários e criminosos internacionais, jamais abandonou a África.  François Hollande começou seu governo com a invasão do Mali, onde pretende manter, permanentemente, mil soldados, sob a desculpa de combater o terrorismo islâmico religioso. Até a queda do Muro de Berlim era o terrorismo ateu do comunismo.

A presidente Dilma Rousseff fez críticas à ação francesa para conter “grupos rebeldes” que dominam parte do norte do Mali. Em declaração à imprensa junto a autoridades da União Europeia, em Brasília, a presidente defendeu que as ações no país sejam realizadas por vias multilaterais e criticou o que chamou de “tentações coloniais”, referindo-se ao protagonismo da França – que colonizou o país africano até meados do século 20 – nas ações militares.

Fotos: veja a intervenção francesa no Mali

“No que se refere a essa questão do Mali, nós defendemos a submissão das ações militares às decisões do Conselho de Segurança da ONU com atenção à proteção dos civis. O combate ao terrorismo não pode violar os direitos humanos nem reavivar nenhuma das tentações, inclusive as antigas tentações coloniais”, afirmou Dilma.

Outro filme interessante: Zarafa. Ver link