Papa Francisco: “A medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como esta trata os mais necessitados, quem não tem outra coisa senão a sua pobreza!”

A Imprensa avisava que faltaria transporte. O jornal O Globo botava mais areia: “A chuva prejudicou parte dos eventos previstos com a presença do Papa Francisco no Rio de Janeiro”. O povo nem aí para o que a mídia fala. E foi para Copacabana.

“Sempre ouvi dizer que o carioca não gosta de frio e de chuva. A fé de vocês é mais forte que o frio e a chuva. Parabéns!”, disse o Papa.

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Francisco fala de temas que a imprensa censura. Na fala do Papa, palavras que o povo grita nas ruas:

“Não deixemos entrar no nosso coração a cultura do descartável. Não deixemos entrar no nosso coração a cultura do descartável, porque nós somos irmãos, ninguém é descartável”. Uma sociedade assim simplesmente empobrece a si mesma; antes, perde algo de essencial para si mesma. Lembremo-nos sempre: somente quando se é capaz de compartilhar é que se enriquece de verdade; tudo aquilo que se compartilha se multiplica! A medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como esta trata os mais
necessitados, quem não tem outra coisa senão a sua pobreza!

Queria dizer-lhes também que a Igreja, «advogada da justiça e defensora dos pobres diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas, que clamam ao céu» (Documento de Aparecida, 395), deseja oferecer a sua colaboração em todas as iniciativas que signifiquem um autêntico desenvolvimento do homem todo e de todo o homem. Queridos amigos, certamente é necessário dar o pão a quem tem fome; é um ato de justiça. Mas existe também uma fome mais profunda, a fome de uma felicidade que só Deus pode saciar. Não existe verdadeira promoção do bem-comum, nem verdadeiro desenvolvimento do homem, quando se ignoram os pilares fundamentais que sustentam uma nação, os seus bens imateriais: a vida, que é dom de Deus, um valor que deve ser sempre tutelado e promovido; a família, fundamento da convivência e remédio contra a desagregação social; a educação integral, que não se reduz a uma simples transmissão de informações com o fim de gerar lucro; a saúde, que deve buscar o bem-estar integral da pessoa, incluindo a dimensão espiritual, que é essencial para o equilíbrio humano e uma convivência saudável; a segurança, na convicção de que a violência só pode ser vencida a partir da mudança do coração humano.

Queria dizer uma última coisa. Aqui, como em todo o Brasil, há muitos jovens. Vocês, queridos jovens, possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam de corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram o seu próprio benefício. Também para vocês e para todas as pessoas repito: nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança. A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem ser vocês os primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem ao mal, mas a vencê-lo. A Igreja está ao lado de vocês, trazendo-lhes o bem precioso da fé, de Jesus Cristo, que veio «para que todos tenham vida, e vida em abundância» (Jo 10,10).

A VIDA


por Luís Cernuda

 

3

Como quando o sol ilumina
Algum rincão deste mundo,
Redimindo sua pobreza,
Enchendo-o de verdes risos,

Assim sua presença chega
A minha existência obscura
Para exaltá-la, para dar-lhe
Esplendor, prazer, formosura.

Mas tu, amado, também te pões,
Assim como o sol, e crescem
À minha volta as sombras
Da solidão, velhice, morte.


Tradução Paulo Azevedo Chaves
Ilustração Francesco Clemente

DA VIDA E DA MORTE

por José Carreiro

 

Perante o drama da fugacidade da vida e da fatalidade da morte, Epicuro (filósofo grego, 341-270 a.C.) propõe a seguinte arte de viver:

Familiariza-te com a ideia de que a morte não nos diz respeito, pois todo o Bem e todo o Mal residem na sensação; ora a morte é a privação completa desta última. Este conhecimento exacto de que a morte não nos diz respeito tem como consequência apreciarmos melhor as alegrias que nos oferece a vida efémera (que não tem uma duração ilimitada), suprimindo o nosso desejo de imortalidade. Com efeito, deixa de sentir terror quem verdadeiramente compreende que a morte nada tem de atemorizador. (Epicuro, “Carta a Menaceu” in Dicionário Prático de Filosofia, Elisabeth Clément et alii, Ed. Terramar)

Tânatos, por Abecat
Tânatos, por Abecat

 

Não obstante certas filosofias de vida (como o epicurismo, o estoicismo ou o “carpe diemhoraciano) tentarem, talvez em vão e com esforço, construir um ideal ético da tranquilidade, o ser humano, no fundo, continua amargurado com o Tempo.

Existir é ser para a morte. Existir é ser para o nada.

A ideia da morte mantém-se obsessivamente viva. Será que constitui manifestação de masoquismo e antecipação? Será uma maneira de a exorcizarmos ou habituarmo-nos a ela? Ou talvez de tentarmos reaver os entes perdidos? Será maneira de resistir à mudança e a uma forma de existência desconhecida? Medo duma reabsorção no nada?

 

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