Blogueiros na mira enquanto aumenta o número de assassinatos no Brasil

Em 23 de abril de 2012, Décio Sá, o jornalista e blogueiro mais influente do Maranhão, estado localizado no nordeste brasileiro, foi baleado três vezes na cabeça por um atirador que fugiu de motocicleta. Sá foi morto dois meses depois do assassinato de Mário Randolfo Marques Lopes, um combativo blogueiro que era editor de um site de notícias em Barra do Piraí, cidade localizada a aproximadamente 145 quilômetros ao noroeste do Rio de Janeiro.

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A presidente Dilma Rousseff tentou minimizar os perigos que os jornalistas brasileiros enfrentam. (AFP / Yasuyoshi Chiba).

As mortes de Sá e Randolfo, os primeiros blogueiros brasileiros a serem mortos devido ao seu trabalho informativo, fazem parte de um aumento mais amplo no número de assassinatos de jornalistas no país desde 2011. O caso de Randolfo também é emblemático da difícil situação dos repórteres interioranos no Brasil: sem vínculos com os principais meios de comunicação de grandes centros urbanos, esses jornalistas não têm visibilidade e o apoio de colegas em nível nacional. Um perfil tão discreto pode significar que as autoridades se sintam menos pressionadas a investigar atentados contra a imprensa regional. Ataques não resolvidos contra jornalistas, por sua vez, podem dissuadir os repórteres locais de investigar crimes e corrupção em suas regiões.

“Quando ocorre qualquer tipo de violência contra jornalistas, ela ameaça outros repórteres que poderiam querer fazer o mesmo tipo de trabalho,” afirmou Marcelo Moreira, editor-chefe da TV Globo no Rio de Janeiro e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a ABRAJI. “Isso é especialmente verdadeiro no Brasil, onde o número de ataques está aumentando. É por isso que estamos tão preocupados.”

Repórteres e agentes encarregados de manter a lei disseram ao CPJ, durante visitas realizadas em setembro de 2012 às cidades de São Luís, Barra do Piraí e Rio de Janeiro, que Sá e Rodolfo provavelmente foram visados por suas enérgicas reportagens sobre a corrupção política local e o crime organizado; histórias que foram, em grande parte, ignoradas pela grande mídia estabelecida no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Jornalistas de rádio foram amiúde baleados em áreas remotas do Brasil devido a reportagens agressivas e, muitas vezes, politicamente tendenciosas. Mas, os blogueiros que produzem notícias, vistos como mais independentes do que repórteres de rádio, vêm ganhando influência em muitas das pequenas e médias cidades do país. Dessa forma, eles se tornaram os alvos mais recentes daqueles que querem silenciar a mídia brasileira.

“Tradicionalmente, o maior número de mortes de jornalistas no interior ocorria entre os que trabalhavam em rádio,” disse ao CPJ José Reinaldo Marques, pesquisador da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), um grupo do setor com sede no Rio de Janeiro. “Mas isso foi até o surgimento dos blogueiros.”

Não há estimativas oficiais do número de blogs noticiosos no Brasil. Uma pesquisa realizada em 2011 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, criado pelo governo brasileiro, mostrou que 16% dos usuários online em áreas urbanas e 11% em áreas rurais haviam criado blogs. Os dados nada revelavam sobre a natureza das postagens, mas está claro que blogs e sites de notícias sérios, focados em eventos atuais, estão se originando por todo o país. Por exemplo, na cidade de São Luiz, capital do estado do Maranhão, onde Sá foi morto, cerca de 20 blogs com ampla difusão abordam notícias e política, segundo Marco Aurélio D’Eça, blogueiro que era um dos amigos mais próximos de Sá.

D’Eça contou ao CPJ que blogs e sites de notícias suplantaram o rádio como a mídia mais importante em muitas cidades e capitais no interior. Nestas regiões, frequentemente faltam jornais ou canais de TV locais com cobertura agressiva e elas são amplamente ignoradas pelos grandes e massivos meios de comunicação brasileiros.

As estações de rádio já supriram algumas destas lacunas, mas muitas emissoras pertencem a políticos, e seus repórteres frequentemente produzem relatos que favorecem seus chefes, disse ele. Embora alguns blogueiros também estejam alinhados e sejam e pagos por políticos, comentou D’Eça, ele e muitos outros blogueiros independentes “têm mais liberdade para investigar” assuntos como tráfico de drogas, tráfico de pessoas e crimes ambientais.

Além disso, o noticiário de rádio geralmente visa audiências menos sofisticadas e fica no ar só por alguns minutos antes de desaparecer. Em contraste, disse D’Eça, notícias locais e comentários publicados online podem ter maior impacto porque as postagens são normalmente voltadas a uma audiência mais letrada, composta por políticos, líderes empresariais, e formadores de opinião. Além disso, textos de blogs ficam disponíveis na internet por meses e podem ser reproduzidos e enviados por e-mail para atingir um público mais amplo. O resultado é que casos de corrupção, escândalos políticos e rumores em áreas rurais de Pernambuco, Mato Grosso, Bahia e outros estados – histórias que no passado teriam permanecido no âmbito local – podem agora ser lidas por usuários de internet em todo o país e repercutidas pela grande mídia.

Sá, 42, era um repórter político veterano do maior jornal da região, O Estado do Maranhão, pertencente à família Sarney, uma dinastia política liderada pelo ex-presidente brasileiro e atual presidente do Senado José Sarney, cuja filha, Roseana Sarney, é governadora do estado. O jornal geralmente evita fazer investigações ou reportagens críticas sobre os Sarney, disse Saulo McClean, repórter policial de O Estado do Maranhão. McClean escreve notícias com base em boletins policiais, mas disse que seus editores raramente o pressionam a investigar mais fundo.

Sá, entretanto, tornou-se conhecido fora do jornal em 2006, quando iniciou seu independente Blog do Décio, que vigorosamente abordava a intersecção entre a política e o crime organizado. “Décio tinha que seguir a linha editorial em seu trabalho no jornal, mas não em seu blog,” disse McClean. “O blog dele era mais informal. Incluía boatos e rumores, mas ele sempre ia atrás dos ‘peixes grandes’”. Logo se tornou um dos blogs mais lidos no estado. As fontes de Sá eram tão boas que, às vezes, ele ia longe demais e comprometia investigações policiais, disse Aluísio Mendes, chefe da polícia do Maranhão. “Ele era muito agressivo,” disse Mendes ao CPJ. “Todo mundo lia seu blog.”

As postagens que podem ter levado ao assassinato de Sá diziam respeito ao homicídio, ocorrido em março, de um empresário local. Mendes disse que Sá se antecipou à investigação policial ao conectar o caso a uma rede maranhense de agiotas que frequentemente emprestava enormes quantias para candidatos políticos em troca de contratos governamentais quando seus clientes fossem eleitos. O empresário morto, Fábio Brasil, aparentemente não pagara sua dívida, disse Mendes. Embora Sá não tenha publicado nomes, diversos comentários publicados sob sua postagem original alegavam que o assassinato tinha sido encomendado por Gláucio Alencar e seu pai, José de Alencar Miranda Carvalho – renomados líderes do grupo de agiotas.

Como os líderes da quadrilha contavam com policiais corruptos e políticos em sua folha de pagamento, disse Mendes, eles estavam mais preocupados com o que Sá poderia revelar em seu blog do que com a investigação oficial da polícia. Assim, contrataram o mesmo atirador que assassinara Brasil para matar Sá, contou Mendes. Sá levou um tiro enquanto estava sentado em um bar em São Luís. Ele deixou esposa, que na época estava grávida, e uma filha.

Mendes contou ao CPJ que solucionar o crime era uma enorme prioridade. Sá não apenas trabalhava para a família Sarney, que exigia respostas, como era o jornalista mais conhecido do Maranhão. “Havia a sensação de que se eles podiam matar o Décio, podiam matar qualquer um,” afirmou Mendes. Um homem foi logo preso, confessou ser o atirador, e disse que o crime havia sido encomendado pela família Alencar, segundo Mendes. Gláucio Alencar, seu pai, e sete outros suspeitos – incluindo um subcomandante da polícia militar que supostamente forneceu a pistola usada para matar Sá – foram presos. Alencar e os outros suspeitos negaram as acusações e, assim como o suposto atirador, aguardavam julgamento no final de 2012.

O assassinato de Sá atraiu grande atenção da imprensa brasileira e foi considerado solucionado em 50 dias. Em contrapartida, o assassinato de Randolfo permanece sob investigação e pouco chegou aos noticiários, segundo Moreira, presidente da ABRAJI. Ao contrário de Sá, Randolfo não trabalhava para um grande jornal e não tinha conexões políticas de peso. Ele também vivia em uma cidade muito menor, Vassouras, no estado do Rio de Janeiro, onde era fundador, editor-chefe e o principal blogueiro do site de notícias Vassouras na Net.

Como muitos jornalistas de internet independentes, Randolfo se sustentava com a venda de publicidade em seu site para empresas locais, de acordo com Wilians Renato dos Santos, repórter policial para a RBP Rádio na cidade de Barra do Piraí, onde Randolfo foi assassinato. Em suas postagens, Randolfo frequentemente acusava funcionários locais de corrupção e havia noticiado sobre uma suposta rede de assassinos de aluguel liderada por um ex-chefe de polícia de Vassouras. “Ele desafiava todo mundo,” disse dos Santos. “Denunciava crimes. Ele pôs muita gente em uma situação difícil, e queriam silenciá-lo.”

Ele descreveu Randolfo como um repórter honesto e ético. J. C. Moreira, amigo de Randolfo e presidente do sindicato dos jornalistas, disse que o blogueiro proclamava com frequência: “Ninguém pode me comprar”. Mas o chefe de polícia de Barra do Piraí, José Mário Salomão de Omena, contou ao CPJ que Randolfo também publicou boatos e investigou a vida pessoal de funcionários públicos, até escrevendo sobre seus casos extraconjugais. “Ele era como um franco-atirador desarmado. Não tinha limites,” disse Omena, que não era um dos alvos das investigações de Randolfo. “Em uma cidade pequena, esse tipo de informação pode ser devastadora. Você não ia querer matar alguém que dissesse que sua mãe era uma prostituta e seu pai infiel?”

Em julho de 2011, um desconhecido entrou na redação do Vassouras na Net e disparou contra a cabeça de Randolfo, deixando-o em coma por três dias com uma bala alojada atrás de sua orelha direita. Ele sobreviveu e posteriormente denunciou em seu site que foi alvo de retaliação por ter revelado irregularidades na investigação de um assassinato. Ninguém foi acusado ou preso pelo atentado. Para sua segurança, Randolfo se transferiu em janeiro de Vassouras para Barra do Piraí, uma cidade de 88.000 habitantes. Mas as duas cidades estão a apenas 25 quilômetros de distância, e Randolfo não parou de escrever em seu site. “Depois do ataque, eu disse a ele pra tomar cuidado e esquecer o jornalismo,” seu amigo Moreira disse ao CPJ. Como Barra do Piraí era muito perto de Vassouras, comentou Moreira, “achei que ele era louco de se mudar para cá”.

Randolfo foi assassinado em 9 de fevereiro de 2012, junto com sua companheira, Maria Aparecida Guimarães. Omena disse que os corpos foram encontrados na beira de uma estrada, nos arredores de Barra do Piraí. Ambos foram raptados da casa de Randolfo na noite anterior e mortos a tiros no início da manhã.

Omena disse que, em sua maioria, os homicídios em Barra do Piraí são solucionados, mas admitiu uma falta de progresso no caso de Randolfo. Pouco tempo após a morte de Randolfo, ele disse a repórteres que o jornalista tinha criado “um número tão grande de inimigos que é difícil saber por onde começar” a investigação. Em resposta às questões escritas pelo CPJ, Ramon Leite Carvalho, promotor público encarregado do caso de Randolfo, se recusou a discutir detalhes, argumentando que a investigação ainda estava em curso.

Na esteira dos assassinatos de Sá e Randolfo, o governo da presidente Dilma Rousseff tentou atenuar a noção de que o Brasil está se tornando uma zona vermelha para jornalistas, de acordo com Moreira, presidente da ABRAJI. Ele assinalou que a Copa do Mundo de 2014 vai ocorrer em 12 cidades por todo o Brasil e que, em meio a um maior escrutínio internacional, o governo está tentando defender a ideia de que o país é pacífico e amistoso para repórteres. Mas pelo menos sete jornalistas brasileiros foram mortos por motivos diretamente relacionados ao seu trabalho entre janeiro de 2011 e outubro de 2012, tornando o país um dos mais letais para a imprensa. E o governo, às vezes, pareceu insensível ao problema. Em abril de 2012, a delegação brasileira se opôs a um plano liderado pela UNESCO para combater a impunidade em assassinatos de jornalistas em todo o mundo. Depois que a posição do Brasil atraiu muitas críticas da ABRAJI e de outros organismos, em junho a embaixadora do país junto à ONU, Maria Luiza Ribeiro Viotti, disse que o país apoiaria o plano à medida que este avançasse nas Nações Unidas.

Sá e Randolfo se apraziam em cutucar os poderosos, mas nenhum deles tomou qualquer medida especial para se proteger, de acordo com amigos e companheiros de profissão. Seus colegas blogueiros reagiram às mortes de maneiras diversas. Gildean Farias, editor online de O Imparcial, o jornal diário mais antigo de São Luís, disse que o assassinato de Sá o persuadiu a passar ao largo de política no blog que escreve para o jornal. D’Eça, ao contrário, tem usado seu blog para continuar a investigação de Sá sobre os agiotas do Maranhão.

Amigos repórteres de Sá têm mantido seu blog ativo. Mas, no interior do estado do Rio de Janeiro, o site de Randolfo foi tirado do ar; com sua morte, há uma sentinela a menos em uma parte do país já com poucos jornalistas. Não houve quase nenhum acompanhamento da mídia brasileira sobre o seu caso. De acordo com Moreira, da ABRAJI, isso significa bem menos pressão sobre as autoridades locais para encontrar os assassinos.

Moreira disse que repórteres no Rio de Janeiro e São Paulo frequentemente veem jornalistas do interior como tendenciosos, corruptos e coniventes com políticos locais. Dessa forma, explicou, a grande mídia presta menos atenção quando esses repórteres e blogueiros são alvos de ataques. O assassinato de Randolfo nem chegou ao principal noticiário da TV Globo no Rio de Janeiro, apesar de o blogueiro ter sido morto numa cidade próxima. “Se não estão escrevendo para os grandes meios de comunicação, são praticamente inexistentes,” disse Moreira ao CPJ. “Mas esses blogueiros tiveram a coragem de escrever sobre as coisas ruins que estavam acontecendo em suas comunidades.”


John Otis, correspondente do Programa das Américas do CPJ nos Andes, também trabalha como correspondente para a revista Time e para o Global Post. Ele escreveu em 2010 o livro Lei da Selva, sobre contratantes militares norte-americanos raptados por rebeldes colombianos. Ele vive em Bogotá, na Colômbia.

PROFISSÃO PERIGO. Blogueiros na mira

Na esteira dos assassinatos, o governo da presidente Dilma Rousseff tentou atenuar a noção de que o Brasil está se tornando uma zona vermelha para jornalistas. (…) A Copa do Mundo de 2014 vai ocorrer em 12 cidades por todo o Brasil e que, em meio a um maior escrutínio internacional, o governo está tentando defender a idéia de que o país é pacífico e amistoso para repórteres. 

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Em 23 de abril de 2012, Décio Sá, o jornalista e blogueiro mais influente do Maranhão, foi baleado três vezes na cabeça por um atirador que fugiu de motocicleta. Sá foi morto dois meses depois do assassinato de Mário Randolfo Marques Lopes, um combativo blogueiro que era editor de um site de notícias em Barra do Piraí, cidade localizada a 145 quilômetros a noroeste do Rio de Janeiro.

As mortes de Sá e Randolfo, os primeiros blogueiros brasileiros a serem mortos devido ao seu trabalho informativo, fazem parte de um aumento mais amplo no número de assassinatos de jornalistas no país desde 2011. O caso de Randolfo também é emblemático da difícil situação dos repórteres interioranos no Brasil: sem vínculos com os principais meios de comunicação de grandes centros urbanos, esses jornalistas não têm visibilidade e o apoio de colegas em nível nacional.

“Quando ocorre qualquer tipo de violência contra jornalistas, ela ameaça outros repórteres que poderiam querer fazer o mesmo tipo de trabalho”, afirmou Marcelo Moreira, editor-chefe da TV Globo no Rio de Janeiro e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo(Abraji). “Isso é especialmente verdadeiro no Brasil, onde o número de ataques está aumentando. É por isso que estamos tão preocupados.”

Repórteres e agentes encarregados de manter a lei disseram ao Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), durante visitas realizadas em setembro de 2012 às cidades de São Luís, Barra do Piraí e Rio de Janeiro, que Sá e Rodolfo provavelmente foram visados por suas enérgicas reportagens sobre a corrupção política local e o crime organizado; histórias que foram, em grande parte, ignoradas pela grande mídia estabelecida no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Novo padrão

Jornalistas de rádio foram amiúde baleados em áreas remotas do Brasil devido a reportagens agressivas e, muitas vezes, politicamente tendenciosas. Mas, os blogueiros que produzem notícias, vistos como mais independentes do que repórteres de rádio, vêm ganhando influência em muitas das pequenas e médias cidades do país. Dessa forma, eles se tornaram os alvos mais recentes daqueles que querem silenciar a mídia brasileira.

Não há estimativas oficiais do número de blogs noticiosos no Brasil. Uma pesquisa realizada em 2011 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, criado pelo governo brasileiro, mostrou que 16% dos usuários online em áreas urbanas e 11% em áreas rurais haviam criado blogs. Os dados nada revelavam sobre a natureza das postagens, mas está claro que blogs e sites de notícias sérios, focados em eventos atuais, estão se reproduzindo por todo o país. Por exemplo, na cidade de São Luiz, capital do estado do Maranhão, onde Sá foi morto, cerca de 20 blogs com ampla difusão abordam notícias e política, segundo Marco Aurélio D’Eça, blogueiro que era um dos amigos mais próximos de Sá.

D’Eça contou ao CPJ que blogs e sites de notícias suplantaram o rádio como a mídia mais importante em muitas cidades e capitais no interior. Nestas regiões, frequentemente faltam jornais ou canais de TV locais com cobertura agressiva e estas são amplamente ignoradas pelos grandes e massivos meios de comunicação brasileiros.

As estações de rádio já supriram algumas dessas lacunas, mas muitas emissoras pertencem a políticos, e seus repórteres frequentemente produzem relatos que favorecem seus chefes, disse ele. Embora alguns blogueiros também estejam alinhados e sejam e pagos por políticos, comentou D’Eça, ele e muitos outros blogueiros independentes “têm mais liberdade para investigar” assuntos como tráfico de drogas, tráfico de pessoas e crimes ambientais.

Além disso, o noticiário de rádio geralmente visa audiências menos sofisticadas e fica no ar só por alguns minutos antes de desaparecer. Em contraste, disse D’Eça, notícias locais e comentários publicados online podem ter maior impacto porque as postagens são normalmente voltadas a uma audiência mais letrada, composta por políticos, líderes empresariais e formadores de opinião. Além disso, textos de blogs ficam disponíveis na internet por meses e podem ser reproduzidos e enviados por e-mail para atingir um público mais amplo. O resultado é que casos de corrupção, escândalos políticos e rumores em áreas rurais de Pernambuco, Mato Grosso, Bahia e outros estados – histórias que no passado teriam permanecido no âmbito local – podem agora ser lidas por usuários de internet em todo o país e repercutidas pela grande mídia.

Alvo de retaliação

Sá, de 42 anos, era um repórter político veterano do maior jornal da região, O Estado do Maranhão, pertencente à família Sarney, uma dinastia política liderada pelo ex-presidente brasileiro e ex-presidente do Senado José Sarney, cuja filha, Roseana Sarney, é governadora do estado. Sá tornou-se conhecido fora do jornal em 2006, quando iniciou seu independente Blog do Décio, que vigorosamente abordava a intersecção entre a política e o crime organizado.

As postagens que podem ter levado ao assassinato de Sá diziam respeito ao homicídio, ocorrido em março, de um empresário local. Mendes disse que Sá se antecipou à investigação policial ao conectar o caso a uma rede maranhense de agiotas que frequentemente emprestava enormes quantias para candidatos políticos em troca de contratos governamentais quando seus clientes fossem eleitos. O empresário morto, Fábio Brasil, aparentemente não pagara sua dívida, disse Mendes. Embora Sá não tenha publicado nomes, diversos comentários publicados sob sua postagem original sugeriam que o assassinato tinha sido encomendado por Gláucio Alencar e seu pai, José de Alencar Miranda Carvalho – renomados líderes do grupo de agiotas.

Como os líderes da quadrilha contavam com policiais corruptos e políticos em sua folha de pagamento, disse Mendes, eles estavam mais preocupados com o que Sá poderia revelar em seu blog do que com a investigação oficial da polícia. Assim, contrataram o mesmo atirador que assassinara Brasil para matar Sá, contou Mendes. Sá levou um tiro enquanto estava sentado em um bar em São Luís. Ele deixou esposa, que na época estava grávida, e uma filha.

Mendes contou ao CPJ que solucionar o crime era uma enorme prioridade. Sá não apenas trabalhava para a família Sarney, que exigia respostas, como era o jornalista mais conhecido do Maranhão. “Havia a sensação de que se eles podiam matar o Décio, podiam matar qualquer um”, afirmou Mendes. Um homem foi logo preso, confessou ser o atirador, e disse que o crime havia sido encomendado pela família Alencar, segundo Mendes. Gláucio Alencar, seu pai, e sete outros suspeitos – incluindo um subcomandante da Polícia Militar que supostamente forneceu a pistola usada para matar Sá – foram presos. Alencar e os outros suspeitos negaram as acusações e, assim como o suposto atirador, aguardam julgamento.

O assassinato de Sá atraiu grande atenção da imprensa brasileira e foi considerado solucionado em 50 dias. Em contrapartida, o assassinato de Randolfo permanece sob investigação e pouco chegou aos noticiários, segundo Moreira, presidente da Abraji. Ao contrário de Sá, Randolfo não trabalhava para um grande jornal e não tinha conexões políticas de peso. Ele também vivia em uma cidade muito menor, Vassouras, no estado do Rio de Janeiro, onde era fundador, editor-chefe e o principal blogueiro do site de noticias Vassouras na Net.

[Sequestrados e torturados]

Como muitos jornalistas de internet independentes, Randolfo se sustentava com a venda de publicidade em seu site para empresas locais, de acordo com Wilians Renato dos Santos, repórter policial para a RBP Rádio, na cidade de Barra do Piraí, onde Randolfo foi assassinato. Em suas postagens, Randolfo frequentemente acusava funcionários locais de corrupção e havia noticiado sobre uma suposta rede de assassinos de aluguel liderada por um ex-chefe de polícia de Vassouras. “Ele desafiava todo mundo”, disse Santos. “Denunciava crimes. Ele pôs muita gente em uma situação difícil, e queriam silenciá-lo.”

Ele descreveu Randolfo como um repórter honesto e ético. J. C. Moreira, amigo de Randolfo e presidente do sindicato dos jornalistas, disse que o blogueiro proclamava com frequência: “Ninguém pode me comprar”. Mas o chefe de polícia de Barra do Piraí, José Mário Salomão de Omena, contou ao CPJ que Randolfo também publicou boatos e investigou a vida pessoal de funcionários públicos, até escrevendo sobre seus casos extraconjugais. “Ele era como um franco-atirador desarmado. Não tinha limites”, disse Omena, que não era um dos alvos das investigações de Randolfo.

Em julho de 2011, um desconhecido entrou na redação do Vassouras na Net e disparou contra a cabeça de Randolfo, deixando-o em coma por três dias com uma bala alojada atrás de sua orelha direita. Ele sobreviveu e posteriormente denunciou em seu site que fora alvo de retaliação por ter revelado irregularidades na investigação de um assassinato. Ninguém foi acusado ou preso pelo atentado. Para sua segurança, Randolfo se transferiu em janeiro de Vassouras para Barra do Piraí, uma cidade de 88.000 habitantes. Mas as duas cidades estão a apenas 25 quilômetros de distância, e Randolfo não parou de escrever em seu site.

Randolfo foi assassinado em 9 de fevereiro de 2012 junto com sua companheira, Maria Aparecida Guimarães. Omena disse que os corpos foram encontrados na beira de uma estrada, nos arredores de Barra do Piraí. Ambos foram raptados da casa de Randolfo na noite anterior e mortos a tiros no início da manhã.

Coragem de escrever

Na esteira dos assassinatos de Sá e Randolfo, o governo da presidente Dilma Rousseff tentou atenuar a noção de que o Brasil está se tornando uma zona vermelha para jornalistas, de acordo com Moreira, presidente da Abraji. Ele assinalou que a Copa do Mundo de 2014 vai ocorrer em 12 cidades por todo o Brasil e que, em meio a um maior escrutínio internacional, o governo está tentando defender a ideia de que o país é pacífico e amistoso para repórteres. Mas pelo menos sete jornalistas brasileiros foram mortos por motivos diretamente relacionados ao seu trabalho entre janeiro de 2011 e outubro de 2012, tornando o país um dos mais letais para a imprensa.

Sá e Randolfo se apraziam em cutucar os poderosos, mas nenhum deles tomou qualquer medida especial para se proteger, de acordo com amigos e companheiros de profissão. Seus colegas blogueiros reagiram às mortes de maneiras diversas. Gildean Farias, editor online de O Imparcial, o jornal diário mais antigo de São Luís, disse que o assassinato de Sá o persuadiu a passar ao largo de política no blog que escreve para o jornal. D’Eça, ao contrário, tem usado seu blog para continuar a investigação de Sá sobre os agiotas do Maranhão.

Moreira disse que repórteres no Rio de Janeiro e São Paulo frequentemente veem jornalistas do interior como tendenciosos, corruptos e coniventes com políticos locais. Dessa forma, explicou, a grande mídia presta menos atenção quando esses repórteres e blogueiros são alvos de ataques. O assassinato de Randolfo nem chegou ao principal noticiário da TV Globo no Rio de Janeiro, apesar de o blogueiro ter sido morto numa cidade próxima. “Se não estão escrevendo para os grandes meios de comunicação, são praticamente inexistentes”, disse Moreira ao CPJ. “Mas esses blogueiros tiveram a coragem de escrever sobre as coisas ruins que estavam acontecendo em suas comunidades.”

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[John Otis, correspondente do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) nos Andes, também trabalha como correspondente para a revista Time e para o Global Post. Este artigo foi adaptado de uma análise do relatório “Ataques à Imprensa: Jornalismo sob Fogo Cruzado”, que será lançado dia 14 de fevereiro. Transcrito do Observatório da Imprensa]

Os deuses da justiça, o último artigo de Mário Randolfo Marques Lopes, assassinado este mês

Reportagem especial em protesto contra os 7 meses em que o inquérito do atentado contra a vida do editor-chefe desde jornal, jornalista Mario Randolfo, está apodrecendo sem nenhuma apuração na gaveta do delegado da 95ª DP, José Soares dos Santos, e sendo boicotado pela justiça.

Há muito se ouve falar de esquemas de venda de sentença na Terra dos Barões e hoje as evidências são claras de que elas existem. E começam na 95ª DP, onde são negociados os Registro de Ocorrências e os inquéritos, e nos casos mais graves em que haja algum interesse político ou o réu tenha de onde tirar o dinheiro ou quem banque, o delegado José Soares dos Santos forja os procedimentos, descumpre os prazos, falsifica documentos, e até folhas dos inquéritos são arrancadas; o Ministério Público não enxerga tamanhas irregularidades e absorve as reclamações contra os desvios do delegado; o defensor Eduardo Salgado recebe um mapa com a localização dos pontos para explorar no processo e no júri ou numa AIJ (Audiência de Instrução e Julgamento) faz discurso sobre a máquina persecutória do Estado, diz que o processo não serve sequer para papel higiênico e aponta um carrossel de irregularidades cometidas pelo MP. E o bandido é absolvido devido a falhas processuais.

São numerosos os casos, várias vítimas e dezenas de reclamações que estão escondidas nas gavetas da Corregedoria de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

Nem as denúncias nem as provas materiais sequer foram avaliadas e em vez da instauração de um procedimento disciplinar, o corporativismo judicial projetou a imagem da autoridade do magistrado acima da própria verdade, como se fosse uma suástica hitlerista, e inverteu os papéis. Pois o crime praticado deixou de ser a corrupção e o desvio de conduta e passou a ser o pecado capital de se denunciar um juiz de direito, demonstrando na prática que a justiça considera crime os crimes externos e classifica de procedimentos os crimes internos. Um peso e duas medidas, esta é a tônica triste deste país de dimensões continentais que busca uma cadeira no primeiro mundo. Mas com tanta injustiça e desvio de verbas para os bolsos, para as meias e para as cuecas dos ladrões do colarinho branco, estamos mais para Macondo, da obra de Gabriel Garcia Marques.

Prefeito Eurico Júnior
Prefeito Eurico Júnior

O processo pivô, que disparou a artilharia de processos, está relacionado a uma matéria publicada por este jornal, denunciando um jogo de favorecimento entre o então prefeito Eurico Júnior e o juiz Victor Passos, por meio da contratação, via decreto, da esposa do magistrado, a arquiteta Keila dos Passos Miranda. Ela não foi aprovada no concurso público municipal de 2007, ficando em segundo lugar para apenas uma vaga, e assumiu o cargo. Funcionários da Prefeitura chamavam-na de “fantasminha da Secretaria de Obras” porque ninguém a via na repartição nem a conhecia, e só passou a existir após as publicações, mesmo assim, apresentando uma licença maternidade e uma licença amamentação que lhe deixaram 11 meses de férias, com apenas dois anos de casa.

Na Audiência de Instrução e Julgamento realizada em 24 de novembro último (0001479-76.2010.8.19.0065), o juiz não levou aos autos uma única prova de que a esposa realmente exercesse a função de arquiteta na Secretaria de Obras entre 29/02/2008 (data em que foi admitida) e 30/10/2009 (data em que saiu de licença), apenas citou os processos referentes aos 11 meses em que ela ficou de licença maternidade e licença amamentação. Sendo que, na licença amamentação, ela ficou em casa recebendo do erário, contrariando a lei que determina a saída da repartição durante uma hora para amamentar o filho.

Acostado aos autos há um documento assinado pelo subsecretário municipal de Administração Patrick Lopes Telles, garantindo que antes das licenças, Keilla Cristine teve freqüência normal no setor de trabalho. Mas mentiu em juízo. Pois naquele período, ele ainda não era cargo comissionado do prefeito e não trabalhava na Prefeitura, e não apresentou o caderno de ponto ou um mísero papel de pão com alguma anotação que comprovasse sua declaração.

Ao ser interpelado pelo defensor Eduardo Januário Newton, um brilhante advogado nomeado pelo corregedor Elison Teixeira de Souza, da DPGE-RJ (Defensoria Pública Geral do Estado do Rio de Janeiro), o secretário de Obras da Prefeitura de Vassouras, conhecido como Lelei, não soube explicar o que a arquiteta Keilla fazia na repartição que ele comanda.

A arquiteta Eliane dos Santos Souza, que passou em primeiro lugar no concurso e ficou com a vaga, e há suspeitas de que ela também não trabalhava e quem assinava os projetos era outro funcionário, respondeu ao defensor que ambas não atuavam no setor de projetos nem na fiscalização das obras no município, motivo pelo qual não assinavam nada e não tinham como comprovar por meio de documentos o trabalho delas na secretaria. Entretanto, o decreto assinado pelo prefeito Eurico Júnior nomeando Keilla Cristine respaldava-se na urgente necessidade de mais uma arquiteta para suprir a deficiência na Secretaria. Porém, nenhuma delas exercia o cargo para o qual fora contratada e a Prefeitura de Vassouras durante dois anos não tinha um mísero controle administrativo para saber se a funcionária comparecia ao trabalho ou não.

Com a assinatura do decreto nomeando a esposa do juiz, os inquéritos de corrupção na Prefeitura se perderam entre a 95ª DP e o MP. E o processo Nº 0001742-79.2008.8.19.0065 contra o prefeito municipal Eurico Júnior e contra o secretário de Administração Humberto Mandaro Sobrinho, o juiz Victor deixou-o sem movimentar durante um ano e prevaricou ganhando tempo para uma nova eleição da provedoria da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Vassouras, tornando sem sentido a causa de pedir que era a anulação da eleição.

Nos autos há um parecer do IBAM (Instituto Brasileiro de Administração Municipal) taxando de absurdo e de improbidade administrativa o fato de o prefeito e o secretário de Administração serem os gestores de instituições que celebram serviços e negócios entre si, ressaltando o perigo do desvio nas transações comerciais entre ambas instituições, já que o prefeito e o secretário negociavam com eles próprios na Prefeitura, assinavam os cheques e eles mesmos recebiam na Irmandade. A denúncia também comprova que o prefeito Eurico Júnior não era irmão e se passou pelo pai falecido, enquanto Humberto Mandaro se passou pelo falecido tio, e ambos cometeram o crime de falsidade ideológica.

Com tudo isso, o juiz Victor engessou o processo, não permitindo que saísse do lugar, e protegeu despudoradamente o prefeito. E a partir daí, todas as denúncias de corrupção na Prefeitura, tanto no governo Júnior quanto do prefeito Renan Vinícius, são abafadas pelo juiz. E a secretaria que mais está envolvida em escândalos de corrupção por venda de Alvarás e licenças para obras ilegais em áreas públicas é a Secretaria de Obras, onde a esposa do juiz é arquiteta.

Recentemente o CNJ descobriu que Eurico Júnior abriu uma vaga fantasma para Pillar Rodrigues Gama de Souza, sobrinha do conselheiro do TCE-RJ, desembargador Aluízio Gama, em troca de imunidade às punições por mau uso dos recursos municipais. Fato que não deixa dúvida de que o mesmo modelo de corrupção foi estendido ao juiz Victor Passos: a vaga para a esposa em troca do arquivamento dos processos.

(Transcrevi trechos. Leia mais).

Trucidamento de Mário Rodolfo Marques Lopes. Todo blogueiro ameaçado de morte

Um terceiro atentado mata o jornalista e editor-chefe do site Vassouras na NetMário Randolfo Marques Lopes, de 50 anos, morto a tiro juntamente com sua namorada, Maria Aparecida Guimarães, em Barra do Piraí (Rio de Janeiro), na noite de 8 a 9 de fevereiro último.

Mário Randolfo Masques Lopes historiou no Vassouras na Net como sofreu o primeiro atentado, quando levou cinco tiros na cabeça, em Vassouras, onde residia.

Veja o vídeo com o título “Jornalista ressuscita em Vassouras”.  

O segundo atentado aconteceu em 6 de julho de 2011. Vendo que a polícia e a justiça de Vassouras jamais descobririam nada, e que o crime continuaria encoberto, decidiu fugir da cidade para morar em Barra do Piraí.

Mas os assassinos foram sequestrar Mario Randolfo Marques Lopes em Barra do Piraí, e decididos a matar bem matado, sem nenhuma possibilidade de uma nova “ressureição”.

A inércia da polícia e do judiciário do Rio de Janeiro precisa ser investigada, pela Polícia Federal e pelo Conselho Nacional de Justiça.

Publica o portal internacional “Jornalismo sem Fronteiras”:

“Embora a motivação do crime esteja ainda por estabelecer, Mário Randolfo Marques Lopes era conhecido pelas inimizades causadas por suas repetidas denúncias de casos de corrupção, envolvendo por vezes empresários e políticos locais. Um delegado e um juiz chegaram mesmo a processá-lo por ‘calúnia’ e ‘difamação”.

Todo blogueiro precisa denunciar esse crime repetido, e covarde e hediondo, para não ser a próxima vítima.

 

Reportagem sobre o assassinatopublicada no Diário do Vale, em 09/02/2012

O jornalista Mário Randolfo Marques Lopes, de 50 anos, e a companheira dele, Maria Aparecida Guimarães, foram assassinados na madrugada de hoje (9), por volta de 1h30, em Barra do Piraí. Eles teriam sido rendidos na casa da mulher, no Centro, e levados até a localidade conhecida como Estrada das Rosas, no bairro Minuano, onde foram executados. Cada uma das vítimas foi atingida com um tiro a queima roupa no ouvido.

O duplo homicídio foi registrado na 88ª DP (Barra do Piraí), mas ainda não há informações sobre suspeitos e as circunstâncias do crime. A polícia não conseguiu testemunhas do crime. A PM foi acionada ao local através de uma denuncia anônima que informava que uma mulher estaria caída as margens da BR 393. Ao chegar no local, os policiais encontraram o casal que só foi identificado na manhã de hoje. Segundo policiais militares do 10º Batalhão, a mulher era magra, branca, vestia calça jeans, blusa estampada e sandália. Já o jornalista estava vestindo calça jeans, blusa estampada e botas.
De acordo com informações da polícia, o crime é de difícil investigação já que o jornalista possuía muitos inimigos, e todos os seus conflitos foram estabelecidos na cidade de Valença – onde trabalhava. No site que administrava (www.vassourasnanet.net), o jornalista publicava matérias polêmicas e denunciava supostas irregularidades envolvendo órgãos, autoridades e políticos.

Leia mais: http://comunicatudo.blogspot.com/2012/02/jornalista-e-assassinado-no-interior-do.html#ixzz1nArBNLY8
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Maria Aparecida Guimaraes
Maria Aparecida Guimaraes

 

Texto e vídeo feito por Mário Randolfo e publicado no Youtube em 07/08/2011:

A reportagem em questão foi publicada para registrar fatos importantes da mecânica do crime e evitar que eu sofresse um novo atentado, que poderia dessa vez ser fatal. E meu caixão não fosse rotulado com LATROCÍNIO. O que significaria mera fatalidade de eu estar na hora e no lugar errado e ter reagido ao assalto. Com isso, a indústria da pistolagem e os escandalosos desvios de verbas públicas permaneceriam nas sombras, longe dos holofotes.

Para um idealista guerreiro, morrer por uma causa, sabendo que haverá uma rigorosa investigação e providências que trarão mudanças significativas no combate a injustiça social, é mais do que uma honra. Mas ser enterrado dentro de um ritual de mentiras, de maneira torpe e banal, é uma desonra.

A matéria que por ora retiro do ar, foi feita com muita análise e um estudo detalhado do local e das circunstâncias do crime, embora o meu estado emocional já passasse do vermelho. Ela foi feita visando o futuro e com os pés nele, e a justiça ainda está no presente e vai demorar um pouco para chegar lá. Mas podem confiar que vai chegar.

Só eu sei o que passei e sei o que é morrer executado com vários tiros, dentro de uma covardia traiçoeira. E ninguém sabe o que é se esvair em sangue gritando pelo socorro de alguém que estava presente, mas quase pisou no cadáver e foi embora. Uma imagem traumática, sombria, daquela bolsa vermelha passando quase sobre o meu nariz e aquele vulto que eu achava que conhecia como a mais notável criatura. Não foi fácil nadar no próprio sangue e sentir que o ar estava acabando e a minha vida chegando ao fim.

Naquele momento, uma força misteriosa me agarrou pela cintura e me colocou de pé. Em seguida, me ajudou a dar alguns passos até a mesa onde estava a minha filmadora. Minha idéia era filmar a minha própria morte e relatar detalhes que esclarecessem o crime, evitando assim o assassinato de outros inocentes. Mas a máquina estava sem as baterias. Dali, a mesma força me arrastou para a varanda e pedi socorro aos funcionários da Policlínica. Depois desabei no chão, e sem reclamar, acompanhei a morte. Acordei três dias depois na UTI do Hospital Universitário. E ao abrir os olhos e me deparar com uma enfermeira me examinando com o olhar, como se eu fosse de outro mundo, perguntei-a como ela podia me ver e conversar com quem está morto.

Ao sair do hospital, passei a receber toda espécie de ameaças de morte, por telefone, pela internet e até mesmo recados, prometendo invadir meu esconderijo e me matar a facadas e com um tiro de escopeta no rosto. E para evitar que meu novo assassinato fosse novamente tipificado de latrocínio e tudo terminasse numa formidável pizza, exigi o máximo do meu péssimo estado de saúde e com muita dificuldade preparei a matéria e consegui colocá-la no ar. No período crucial, quem fez 24 horas por dia a minha segurança no HU foi a 4ª Companhia da Polícia Militar de Vassouras, mas é vergonhoso saber que o Estado deixou-me largado feito uma folha ao vento, sem tomar uma providência para resguardar a vida de um sobrevivente de um atentado. Até porque milícia e atentado demonstram um sistema enferrujado, que joga na lata do lixo os impostos que pagamos para ter segurança pública e uma vida digna.

(Transcrevi trechos. Leia mais) Presidente Dilma Rousseff, salve a vida de outros blogueiros. Ministra Eliana Calmon, salve a vida de outros blogueiros.

Entidade internacional pede para Dilma proteger os jornalistas brasileiros. Três já morreram este ano

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) pediu, em nota nessa terça-feira, 14, que a presidente Dilma Rousseff apresentasse medidas para proteger os jornalistas do País.

Devido ao assassinato de “outro jornalista no Brasil em menos de uma semana”, afirmou a SIP, se referindo ao editor-chefe do diário ‘Jornal da Praça’ e fundador do site de notícias Mercosulnews, Paulo Roberto Cardoso Rodrigues. Conhecido com Rocaro, o jornalista foi morto na madrugada de segunda-feira, 13,  por dois homens, que dispararam 12 tiros, na em Ponta Porã (MS).

A entidade, que tem sede em Miami, condenou as atitudes brasileiras e solicitou que Dilma  “concentre esforços para criar uma jurisdição especial para processar crimes contra jornalistas, assim como órgãos em nível federal para proteger repórteres e fotógrafos em risco”.

No comunicado, a SIP também lembrou que Rocaro foi o terceiro jornalista morto no Brasil em 2012. Além do jornalista que trabalhava no Mato Grosso do Sul, foram assassinados o editor do site de notícias Vassouras na Net’, Mário Randolfo Marques Lopes, e o  radialista Laércio de Souza. “Desde 1987, 41 jornalistas foram assassinados no país, quatro deles em 2011”, informou a SIP.

Laerte de Souza, morte encomendada

Radialista Laércio de Souza
Radialista Laércio de Souza

Um jovem de 16 anos confessou ter sido o autor dos disparos que mataram o radialista Laércio de Souza, em Simões Filho, região metropolitana de Salvador (BA).

A polícia está a procura de um outro adolescente, da mesma idade, que teria acompanhado o jovem detido. Testemunhas foram ouvidas e reconheceram o adolescente preso como o autor dos disparos.

Segundo o  delegado titular da 22ª DT, Antônio Fernando Soares do Carmo, o jovem disse ter planejado matar Souza depois de ter sido denunciado à Polícia Militar pelo radialista, por causa de delitos que cometeu na região. Mas há suspeita de que o crime tenha outros motivos (por Priscila Fonseca)

O radialista era candidato a vereador nas eleições de outubro próximo.

Mário Randolfo Marques Lopes
combatia os corruptos de Vassouras

Mário Randolfo Marques Lopes
Mário Randolfo Marques Lopes

Tudo indica que tem gente muito poderosa envolvida.

ornalista e editor-chefe do site Vassouras na NetMário Randolfo Marques Lopes, de 50 anos, foi morto a tiro juntamente com sua namorada, Maria Aparecida Guimarães, em Barra do Piraí (Rio de Janeiro), na noite de 8 a 9 de fevereiro de 2012.

As circunstâncias do crime são ainda imprecisas. De acordo com informações difundidas pela imprensa local, o casal terá sido sequestrado em sua casa por três indivíduos, que os conduziram a outro bairro da cidade para executá-los. A polícia não dispõe, até ao momento, de nenhuma pista concreta acerca dos assassinos.

Embora a motivação do crime esteja ainda por estabelecer, Mário Randolfo Marques Lopes era conhecido pelas inimizades causadas por suas repetidas denúncias de casos de corrupção, envolvendo por vezes empresários e políticos locais. Um delegado e um juiz chegaram mesmo a processá-lo por “calúnia” e “difamação”.

A 6 de julho de 2011, um indivíduo encapuzado tentara matá-lo, em circunstâncias semelhantes, no seu antigo domicílio de Vassouras. Atingido por cinco balas na cabeça, com proteção policial durante o internamento no hospital, o jornalista sobreviveu miraculosamente a esse atentado, nunca elucidado, e decidiu mudar-se para Barra do Piraí.

“Apesar de toda a prudência que o caso exige, esperamos que esses antecedentes serão tomados em consideração e explorados pelos investigadores. Em 2011, foram várias as tragédias que enlutaram a imprensa brasileira. O acompanhamento de casos políticos delicados continua colocando os jornalistas em perigo, sobretudo ao nível local. Qualquer que seja a motivação por trás desse crime, sua rápida elucidação deve constituir um ponto de viragem na luta contra a impunidade”, declarou Repórteres sem Fronteiras, que expressa também suas condolências à família e colegas de Mário Randolfo MarquesLopes e de Maria Aparecida Guimarães.

Os graves atos de violência ocorridos no Brasil em 2011 motivaram uma significativa queda – de 41 posições – do país na Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa, publicada por Repórteres sem Fronteiras no passado dia 25 de janeiro. (Repórter sem Fronteiras)

Paulo Roberto Cardoso Rodrigues
também assassinado a tiros no MS

Paulo Roberto Cardoso Rodrigues
Paulo Roberto Cardoso Rodrigues

O jornalista Paulo Roberto Cardoso Rodrigues, editor-chefe do ‘Jornal Da Praça’ e diretor do Mercosulnews.com, fundador do PT,  foi assassinada a tiros na noite do domingo 12 último, em Ponta Porã (MS), cidade que faz divisa com o Paraguai.

Paulo Rocaro, como era conhecido, estava dentro de seu carro na avenida Brasil, quando foi parado por uma motocicleta com dois homens armados, que dispararam 12 tiros contra o jornalista, em seguida fugiram.

“Algumas pessoas trouxeram essas informações sobre a possibilidade de crime político, mas tudo está sendo investigado e não temos nenhuma pista ainda, disse o delegado Clemir Vieira Júnior (Comique-se.com).