Meu Recife querido

por Angelo Castelo Branco

Rafaela Lima
Ao secretário de Cultura

Meu Recife querido
Coitadinho
Tão maltratado
Tão agredido
Tão sujinho e desfigurado.
Cadê a rua Nova?
Cadê a Guararapes da minha infância?
Onde está a rua da Imperatriz?
Como incentivar a Cultura numa cidade tão violentada?
Eu te reencontro um pouco, meu Recife, no coração de Lisboa.
Pelo menos isso.

 

Lisboa, 19 de dezembro, 2014

 

Imagem Fotografia de Rafaela Lima

Leia Angelo Castelo Branco, jornalista, professor da Universidade Católica de Pernambuco, secretário de Imprensa de Pernambuco, um nome exemplar do Jornalismo brasileiro

 

Angelo

História e paisagens do Recife roubadas pela “modernidade” espelhada e a cegueira do poder público

por Josué Nogueira

 

Rio Mar ocupa a cena onde existia mangue e divide a paisagem com igrejas do bairro de São José
Rio Mar ocupa a cena onde existia mangue e divide a paisagem com igrejas do bairro de São José

 

A preservação da história de um centro urbano passa pela manutenção de edificações, paisagens e peculiaridades que documentam o passado e dão fisionomia à localidade.

Infelizmente, a cara do Recife, cidade nascida sobre ilhas, braços de rios e canais cortados por pontes, tem desaparecido aos poucos.

Áreas que reuniam cenários naturais e construções antigas de valor arquitetônico inquestionável vem sumindo gradativamente.

 

Torres com Brasília Teimosa e Pina ao fundo
Torres com Brasília Teimosa e Pina ao fundo

Impossível reconhecer o Cabanga olhado a partir de São José e do Recife Antigo, por exemplo.

O shopping Rio Mar e empresarias substituíram um trecho grande do estuário que compõe a Bacia do Pina – um dos últimos indícios de que vivemos sobre o mangue.

Do mesmo modo, é estranho olhar para o centro a partir das pontes que ligam Cabanga e Pina.

O casario secular e igrejas históricas são engolidos pelas “torres gêmeas” levantadas no cais vizinho à antiga ponte giratória.

O cenário vai ficar ainda mais estranho com o tal do projeto do Novo Recife entre o Cais José Estelita e a Av Sul.

Nada contra a ocupação de zonas esquecidas que devem e merecem ser revitalizadas, abrigando gente, comércio e “povoando” a cidade.

Foto de Ricardo Fernandes
Foto de Ricardo Fernandes

Mas, tudo contra a especulação imobiliária que toma mangues, viola paisagens e faz brotar espigões de concreto onde a história da cidade é contada (por que não limitar o número de pisos?).

A falta de limites na altura dos edifícios, associada à cultura do exclusivismo (prédios e condomínios fechados em si, erguidos como se estivessem em territórios independentes da urbe), rouba a feição e a alma da cidade.

As fotos do post atestam um pouco do escrito aqui. As duas primeiras, postadas na página de uma amigo, me estimulara a escrever este post.

O tema pode não estar na ordem do dia, mas segue carente de debate e de atitude (e comprometimento com a história) por parte do poder público.

É triste ver a cidade perder DNA diariamente e ser convertida em mais uma entre tantas, com prédios espelhados – tidos como atestado de luxo e “desenvolvimento” – e desconectados com a realidade circundante.


Dos comentários ao oportuno texto de Josué Nogueira, destaco dois anônimos (Recife é a cidade do medo, das patrulhas, do pensamento único, assim fica justificado o anonimato.

1 – Pois é… nos roubam a paisagem em nome de uma “mudernidadhy” pra lá de atrasada. Difícil escutar – todo o tempo – de gente que se diz esclarecida, e que já viajou mundo afora: “mas vai crescer como?”. E que não consegue captar bons exemplos de cidade, e que tem a mente no caixote que só enxerga o mundo na caixa fechada de espelhos a 100 metros de altura.

E é bom investigar os EIV’s (estudos de impactos de vizinhança) e os EIA’s (estudos de impactos ambientais) desses empreendimentos

2 – Engraçado, o blogueiro mora onde?
Deve morar em Boa Viagem ou em outro bairro nobre da cidade. Recife tem que se desenvolver e ficar uma cidade bonita. É muito fácil para esses intelectuais, com suas roupas de grifes, quererem que a cidade fique feia, enquanto eles moram na parte bonita.


[O comentarista n. 2 não diz em que lugar e que tipo de moradia deve residir o despejado pela justiça dos ricos e pelo braço armado da polícia que prende e arrebenta. Que todo arranha céu que aparece ocupa espaços antes habitados pelos pobres, pelos sem teto, pelos sem nada.

Quem são esse altos moradores que ocupam as novas altas torres?

Nada se faz que preste para o povo. Não há espaço para a vida e a morte das populações. Recife não tem um passeio público. Os hortos, parques e praças estão abandonados. Não se constrói mercado público. Centros de lazer, de cultura, de esportes. Nem cemitérios. O recifense não tem onde viver, nem onde morrer]

Supertripa vai voar sobre o Recife

por MANUEL CARVALHO

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De pé sobre um palanque que lhe confere uma posição dominante sobre o “vucuvucu” da Rua Direita, Supertripa levanta os braços e grita “vai descolar, vai descolar, vai descolar”. Vestido com um fato que o transforma num personagem a meio caminho entre o Super-homem e o Homem-aranha, óculos escuros que lhe sublinham um sorriso de moleque, Supertripa gesticula com uma mão, agita um cartaz com a outra, meneia-se, ri-se, fala ainda mais alto e consegue as atenções da pequena multidão que enche a rua estreita do zona central do Recife. Com os pés na terra, um outro rapaz grita a um microfone que a Narciso, loja para a qual ambos trabalham “é imbatível”, que tem blusas, vestidos e capas de sofá a nove reais e noventa, que “eles”, os patrões, “vão trazer liquidação para nós”. Supertripa corrobora com a promessa da sua partida para o espaço, agora que “está sendo filmado, está sendo filmado”.

Divertido, o rapaz sente-se na pele do herói da sua rua, torna-se mais confiante, chega a ser ousado. À porta da Narciso, alguns e algumas colegas de trabalho divertem-se com a cena, os transeuntes criam uma clareira em frente à loja, por um momento a lengalenga repetitiva do rapaz do microfone parece ser capaz de fazer parar o “vucuvucu” (expressão que designa aquela zona do Recife onde as pessoas andam em permanente movimento). “Ele vai voar, olha aí, ele vai voar”. Supertripa, cujo verdadeiro nome é Ítalo Hugo, não voa, mas paira, vaidoso, sobre as cabeças que fazem da rua uma mancha contínua. Veja vídeo de NELSON GARRIDO

Via Mangue destrói o verde e o azul, acinzentando o Recife, “Cidade das Águas”

Um americano que morou em São Paulo por três anos resolveu criar um lista com motivos pelos quais odiou viver no Brasil. Ele é casado com uma brasileira e não gostou muito da experiência. A lista inicial tinha 20 motivos, mas um fórum gringo resolveu continuá-la.

Transcrevo dois ítens:

39- Tudo é construído para carros e motoristas, mesmo os carros sendo 3x o preço de qualquer outro país. Os ônibus intermunicipais de luxo são eficientes, mas o transporte público é inconveniente, caro e desconfortável para andar. Consequentemente, o tráfego em São Paulo e Rio é hoje considerado um dos piores da Terra (SP, possivelmente, o pior). Mesmo ao meio-dia podem ter engarrafamentos enormes que torna impossível você andar mesmo em um pequeno trajeto limitado, a menos que você tenha uma motocicleta.

40- Todas as cidades brasileiras (com exceção talvez do Rio e o antigo bairro do Pelourinho em Salvador), são feias, cheias de concreto, hiper-modernas e desprovidas de arquitetura, árvores ou charme. A maioria é monótona e completamente idênticas na aparência. Qualquer história colonial ou bela mansão antiga é rapidamente demolida para dar lugar a um estacionamento ou um shopping center.

Shopping construído na Bacia do Pina, Recife
Shopping construído na Bacia do Pina, Recife

Conheça os outros dezoitos motivos. No Recife, o sonho da classe média alta é viver no alto de uma alta torre. E a vida acontece assim: Pega o carro e vai para um escritório. E depois pega o carro para a viagem de retorno. Quando o trânsito piorar deve fazer de helicóptero este percurso de ida-e-volta. Como já acontece em São Paulo. E no Rio de Janeiro. O governador Sérgio Cabral vive trepado em um helicóptero. Do alto a paisagem permanece sempre linda. Que as elites não sofrem do medo das alturas. Apenas têm medo do povo. Medo e nojo.

As novas pontes são feias. As ruas e estradas de uma monotonia de dar sono no motorista e passageiros. Não proporcionam nenhuma beleza. Pior ainda: destroem a beleza da paisagem.

A Via Mangue, ora em construção, para facilitar o acesso do Aeroporto Guararapes a um shopping de João Paes Mendonça, e às altas torres que serão erguidas na Bacia do Pina, tornou-se um super, super faturado mostrengo de cimento. Que é fácil diferenciar o que é belo e o que é feio, horrendo, nocivo, aberração.

Via Mangue, Recife
Via Mangue, Recife
Estrada da Graciosa (1873), Brasil. Fotografia: Mauro Nogueira
Estrada da Graciosa (1873), Brasil. Fotografia: Mauro Nogueira

Os engenheiros (não pode ser coisa de um arquiteto, de um artista) pegam um mapa, colocam uma régua em cima, e traçam uma linha reta. Não entendem que Iara é a Senhora das Águas. Que a Mãe-d’água tem curvas.

IARA

Vive dentro de mim, como num rio,
Uma linda mulher, esquiva e rara,
Num borbulhar de argênteos flocos, Iara
De cabeleira de ouro e corpo frio.
Olavo Bilac

Iara
Iara

Eles não entendem das curvas de uma mulher. Nem amam a Mãe Terra.

Encosta o ouvido
no morno ventre
da Mãe Terra.

(…)
Se queres sentir
o cheiro fresco do verde,
o doce gosto de chuva.
Se teu sexo anseia
arranhar-lhe o ventre,
arando a vida.
Se tuas penetrantes mãos
cavar-lhe o útero –
onde a semente
será jogada,
onde a semente
encontrará abrigo -,
sejas amigo.
Porque quando teu corpo
não mais te servir,
a Terra Mãe te desobrigará
de tão enfadonha
pesada carga.
Talis Andrade

A linha reta da Via Mangue
A linha reta da Via Mangue
Tianmen Mountain Road – Hunan, China
Tianmen Mountain Road – Hunan, China

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Serra do Rastro, Santa Catarina
Serra do Rastro, Santa Catarina

A BELEZA ROUBADA

O meio ambiente devastado pela especulação imobiliária, pela grilagem de terras e de águas, pelos aterros para a construção de shoppings e de altas torres & toda estrutura urbana presenteada com o dinheiro dos cofres públicos, apenas para atender esse novo Recife, sem povo, das elites provincianas e turistas da classe média baixa dos países do Primeiro Mundo.

O acesso ao shopping Rio Mar, construído com o dinheiro do povo
O acesso ao shopping Rio Mar, construído com o dinheiro do povo
POLUIÇÃO VISUAL. Via Mangue, afeando o Rio, encobrindo o azul - a beleza das águas que dão nome ao Recife, chamada de "Cidade das Águas", "Veneza Brasileira"
POLUIÇÃO VISUAL. Via Mangue, afeando o Rio, encobrindo o azul – a beleza das águas que dá nome ao Recife, chamada de “Cidade das Águas”, “Veneza Brasileira”

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The Atlantic Road, Noruega
The Atlantic Road, Noruega
Ponte de Dhongal, China
Ponte de Dhongal, China

A Via Mangue teve seu nome mudado para Celso Furtado, para não lembrar os manguezais destruídos pelos aterros clandestinos e oficiais. Uma proposital destruição do verde. Da natureza.

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Foto do Blog de Priscila Krause
Foto do Blog de Priscila Krause

Uma qualquer Recife

por Jomard Muniz de Britto


Uma qualquer Recife cidade sitiada
é a escuta PSI,
a escritura psiu de seus arquitetos da mais sutil
urbanidade ao redor dos favores
da SANTA CASA DE MISERICÓRDIA.
Restauram apenas fachadas em cores vivas,
reinventando a cidade-cartão-postal-global
em sua dignidade tão degradante, sufocada,
turismo mimético do Pelourinho e advertências.
Uma cidade, além das dúvidas e suspeições,
é o conjunto de seus buracos. Imanentes e
galácticos. Cartesianos e dionisíacos.
Gilbertianos por todos os séculos.