A tragédia nacional de Santa Maria. Não são necessárias mais leis. O imprescindível e indispensável: fiscalização e responsabilização

por Helio Fernandes

Descaso, descuido, desapreço, desinteresse, displicência, destroem e desmoralizam qualquer lei. Seja municipal ou federal. A polícia de Santa Maria fulminou toda e qualquer discussão e debate: “A boate Kiss não podia nem estar aberta”. Esse NEM reforça e condena qualquer defesa.

 O prefeito disse tudo…

Quem passasse pela frente da boate (ou verificasse pelas fotos amplamente divulgadas por jornais e televisões) constataria que aquela porta mínima não poderia ser a única a servir de entrada e saída da boate. Mas como a boate (igual a todas as outras) só começa a funcionar a partir das 22 ou 23 horas, aí as autoridade e os agentes das autoridades já estão dormindo.

O prefeito de Santa Maria (já devia estar afastado do cargo, pelo menos provisoriamente, agora que é impossível afastá-lo preventivamente), não sabia de nada. No dia seguinte fez declarações altamente comprometedoras. Deve ser o primeiro a ser investigado rigorosamente. E como todos os fatos apontam e indicam para a sua irresponsabilidade, punido severamente.

Afirmações que devem ficar separada para não se perderem: “Estou tranquilo, todos os documentos estão comigo, provando que todas as providências foram tomadas”. Esse papel (documento) indiretamente foi o combustível original da tragédia. Se o senhor Cesar Schirmer (o prefeito) tivesse tomado providência e previdência, nada teria acontecido.

Estava tudo perfeito, em condições de funcionar, sem nenhuma irregularidade, o que houve foi fatalidade”. Irresponsável e mentiroso. Nada funcionou. Desde a entrada que não permitia saída, até uma dezena de falhas criminosas, levantadas na investigação policial.

E o Ministério Público se prepara, vai denunciar o prefeito e autoridades do próprio Corpo de Bombeiros, que têm que ser responsabilizadas, pelo menos por omissão.

Quanto ao que ele chama de fatalidade, o Brasil inteiro chama de crime consciente e comprometedor. Fatalidade foi o incêndio de 1871, que destruiu T-O-D-A a cidade de Chicago. Até hoje não há segurança sobre o início do fogo. Como a cidade era (e continua sendo) dominada pelos ventos fortes, a causa, acredita-se, foi essa. Aí sim, fatalidade, a cidade inteira teve que ser reconstruída.

AS PROVIDÊNCIAS TARDIAS

Agora, no Brasil inteiro, milhares (milhares mesmo) de boates são revisadas por ordem de prefeitos e governadores. Pretendem diminuir a culpa direta e indireta depois da tragédia que matou centenas e traumatizou a vida de milhares ou de milhões. Como saber quanto são, como estão sofrendo desesperadamente e como reconstruirão suas vidas? A solidariedade total do país e do mundo, irrepreensível.

Ajudarão aos que ficaram? Diminuirá o sofrimento, a angústia, a ansiedade que estará presente dia e noite? O dia que parecerá interminável, a noite que não terminará nunca? A qualquer hora, a lembrança sempre presente, o vazio da ausência que será eterna.

Mais dilacerante, o fato de Santa Maria ser um centro universitário, todos os que se foram, estarem tentando se aprimorar para a longa viagem da vida, veio a destruição no momento exato da tentativa de construção. Chorar é o que restou, chorem o mais que puderem. Ao contrário do que dizem, chorar é tão inesquecível, necessário e até indispensável quanto o tamanho da perda sofrida. Nada será esquecido, ficará sempre na lembrança. Chorar não é fuga, é participação, individual e coletiva. Eu sei o que estou dizendo.

 (Transcrito da Tribuna da Imprensa)

O presídio de uma só porta da Kiss pretendem transformar em monumento aos mortos. Os vivos ficarão soltos: os empresários da noite e autoridades de Santa Maria. Por que fecharam a boate do DCE?

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Santa Maria – Na tarde desta terça-feira, manifestantes se concentraram em frente à Câmara Municipal de Vereadores, de onde iniciaram a marcha chamada de Protesto por Justiça. A manifestação, articulada através de redes sociais, foi em direção à Delegacia Regional, e depois até à Prefeitura. Os participantes do protesto entregaram um documento à chefe de gabinete do prefeito, Magali Marques da Rocha, pedindo clareza na apuração dos fatos e na investigação do incêndio na Boate Kiss, e que todos órgãos públicos culpados sejam devidamente responsabilizados. Fotos de Deivid Dutra, jornal A Razão.

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Incêndio em boate Argentina, em 2004, não serviu de lição para o Brasil, nem para o vizinho Rio Grande do Sul.
O incêndio que deixou 194 mortos em 2004 na boate República Cromañón, em Buenos Aires, similar ao que ocorreu neste domingo (27) em Santa Maria, provocou uma série de mudanças na segurança nas casas noturnas da capital argentina.
As medidas incluíram mais sinalização interna das discotecas indicando a saída de emergência; menos tolerância no tocante ao limite de público autorizado para cada local e a colocação de cartazes indicando a quantidade permitida de pessoas no recinto.

Investigações policiais e judiciais revelaram que a discoteca República Cromañón tinha o certificado de bombeiros vencido, cerca do triplo de público permitido e problemas com a saída de emergência.

A perícia apontou que o uso de pirotecnia provocou o incêndio, que gerou uma fumaça mortal.

A tragédia provocou prisões de empresários, dos músicos e renúncias de políticos na cidade.

No Brasil existem leis. Um mês antes do incêndio da Kiss, a prefeitura ou os bombeiros fecharam a boate do DCE, com entrada grátis. Fecharam a boate dos estudantes universitários, e esqueceram a Kiss. Esquecimento fatal. Por que o uso da lei para a boate dos estudantes que passaram a realizar suas festas na Kiss, pagando as estudantes ingressos de dez reais, e quinze reais os estudantes? Nem preciso explicar a razão das meninas pagarem menos…

Pretendem transformar o local da tragédia em memorial. Que seja. Mas um memorial de denúncia da corrupção. De combate à impunidade que facilita as tragédias de incêndios em boates e favelas.

Boate do DCE de Santa Maria

por Catherine

Casa do Estudante da UFSM. Foto por Budu
Casa do Estudante da UFSM. Foto por Budu

As pessoas dizem que é a única boate universitária periódica do país. Eu acredito, afinal a boate do DCE abre toda sexta-feira (com exceção nas férias de verão) com fila, copo de plástico, rock and roll e muita, mas muita cerveja. Quando eu digo muita cerveja estou falando de, em média, 90 caixas por semana, com picos de 120 caixas vendidas, ou seja, quase 5 mil garrafas de 600ml a preços que variam de 2,75 a 4,00. É. Como dizia o Wander Wildner: o DCE é um dos lugares do caralho. E não tem uma sexta que não toque ‘’Lugar do caralho’’, até porque o pessoal reclamaria com certeza. Quando o Wander veio à Santa Maria em 2006, a convite da gestão Voz Ativa (se não me falhe a memória), ele queria porque queria tocar no DCE. Imagina, seria pouco espaço para muita gente. O show acabou sendo no campus da UFSM e eu lembro muito pouco daquela noite.
Comecei a freqüentar a boate quando tinha 17 anos, no início de 2003, mas nunca tinha entrado até ganhar a isenção (universitários não pagam entrada). O máximo que eu fazia era ficar bebendo vinho nas calçadas em frente à Casa de Estudante ou freqüentava no sábado a Catacumba do DCE, que sempre tinha um show diferente, principalmente de hardcore, que eu não gostava, mas pela falta do que fazer, sempre ia. Nessa época, a Catacumba não tinha bico de luz nem portas. Era um local bizarrão.
Trabalhei na Boate do DCE por seis meses (2008) e, fora todo o estresse de estar na boate sem estar de fato aproveitando, foi uma das melhores épocas da minha vida. Era um prazer, principalmente no início, pegar a ficha, trocar a ficha pela cerveja, abrir a garrafa, servir a cerveja no copo e entregar o copo. Fiz algumas amizades-de-festa com alguns freqüentadores. Deveria abrir umas 350 garrafas por noite, calculando por cima.

Aliás, hoje tem Boate do DCE com Daniel Rosa.