Um sueco assassinado em uma das favelas mais turísticas do Rio

Mille Ballai Miuta, de 34 anos, havia se tornado sócio há poucos meses de um albergue do Vidigal

por Francho Barón/ El País

Mille Ballai Miuta era sócio da Casa Alto Vidigal
Mille Ballai Miuta era sócio da Casa Alto Vidigal

 

Na tarde do último sábado, com a confirmação de que o Brasil se classificava para as quartas de final da Copa do Mundo depois de uma dramática cobrança de pênaltis, a favela do Vidigal explodia em uma euforia coletiva. Enquanto dezenas de milhares de vizinhos festejavam a vitória com música e cerveja, o cadáver do iraniano de nacionalidade sueca, Mille Balai Miuta, de 34 anos, era encontrado no interior do albergue Alto Vidigal, um dos albergues pioneiros, e também um dos mais conhecidos, entre os que funcionam em algumas favelas do Rio. Pouco se sabe ainda sobre a morte do jovem empresário, apenas que era um dos sócios do albergue, conhecido por ter passado por diferentes etapas, algumas delas polêmicas. Enquanto os grupos de traficantes mantiveram o controle territorial da favela, o Alto Vidigal organizava famosas festas de música eletrônica frequentadas por gente de todas as condições sociais. Ricos e pobres se misturavam em um grande terraço do qual era possível ter uma impressionante visão panorâmica da praia de Ipanema. Era normal que a facção que controlava a vida na favela se permitisse às vezes a liberdade de instalar um ponto de venda de drogas na porta do estabelecimento.

Depois de muitas polêmicas e a chegada da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na comunidade, os traficantes desapareceram e os donos de Alto Vidigal adaptaram o negócio à nova etapa. As festas começaram a ser mais tranquilas e o amanhecer que se avista do privilegiado mirante passou a ser o principal atrativo. O albergue foi selecionado durante anos por múltiplas publicações turísticas como uma das melhores opções noturnas do Rio.

Que vista. Fachada da pousada Casa Alto Vidigal, onde um dos sócios foi assassinado domingo - Felipe Hanower: O Globo
Que vista. Fachada da pousada Casa Alto Vidigal, onde um dos sócios foi assassinado domingo – Felipe Hanower: O Globo

A morte de Balai Miuta, sócio do albergue havia poucos meses, deixa uma série de perguntas. Várias fontes próximas ao empresário consultadas pelo EL PAÍS afirmam que o sueco foi assassinado horas antes do início da partida entre Brasil e Chile. Todas elas também dizem que a morte foi motivada por um ajuste de contas ou por uma vingança. Segundo uma das primeiras pessoas a encontrar o cadáver do sueco, o corpo não apresentava marcas de ter recebido disparos ou feridas próprias de arma branca. As mesmas fontes asseguram que Balai foi assassinado por asfixia ou a golpes. Outras pessoas consultadas sob condição de anonimato relatam que uma semana antes ele recebeu um aviso de um membro do narcotráfico local ainda ativo: Balai estava marcado para morrer.

O início da investigação mostra que Ballai foi asfixiado ou assassinado a golpes por vingança

A Divisão de Homicídios da Polícia Civil descartou que Balai tivesse sido vítima de um roubo. Uma pessoa próxima ao sueco dá uma informação crucial para descartar esta possibilidade: no quarto onde foi encontrado o corpo sem vida também havia 50.000 reais em dinheiro, que não foram levados.

Balai era conhecido no bairro por ser uma pessoa sociável, solidária e introspectiva. Vivia no albergue e desenvolvia boa parte de sua rotina na zona alta da favela, que conta com uma alta concentração de albergues que estão na moda.

Vidigal é uma favela conhecida no Rio por suas vistas espetaculares e por estar encravada entre os bairros ricos de São Conrado e Leblon. Nos últimos anos, foram abertas nesta comunidade muitos albergues que a converteram no principal pólo de alojamento alternativo no Rio. Caras conhecidas das artes e do espetáculo também investiram no mercado imobiliário local.

 

 

O assassinato de DG revolta o carioca

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Reproduções das capas do Extra, O Dia e O Globo. Escreveu o deputado Garotinho: “Copacabana viveu momentos de terror e guerra. Ainda tem muita coisa obscura, mas o fato é que mais uma vez a Zona Sul fica refém da violência. Aliás, a propaganda enganosa da pacificação cria situações absurdas. Um grupo de franceses chegou para se hospedar num albergue no Pavão-Pavãozinho porque ouviu falar que era um lugar completamente tranquilo e barato. Devem ter entrado em pânico com o tiroteio e a guerra que se seguiu”.

Não entraram em pânico. Parece que Garotinho desconhece o chamado turismo de favela, ou turismo da miséria, ou o turismo sádico, chamado de slumming. O desejo dos turistas era ver sangue derramado. Como faziam os antigos romanos nas arenas de gladiadores. Como se faz hoje nos ringues de boxe, nas pistas de corridas de carro.

O deputado Chico Alencar foi mais realista:

PELO MENOS DUAS MORTES E MUITA REVOLTA NO PAVÃO-PAVÃOZINHO

As informações são chocantes: Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, de 25 anos, dançarino do programa ‘Esquenta’, da TV Globo, foi encontrado morto na Creche Escola Lar de Pierina, na comunidade Pavão-Pavãozinho, na zona sul do Rio.

O corpo foi encontrado cheio de escoriações. A Secretaria de Segurança, pelo twitter, disse que um laudo da polícia civil teria apontado para morte por queda. Em pelo menos uma matéria na internet, há a informação de que Douglas estaria fugindo de um tiroteio quando caiu de uma grande altura.

Há outra versão, no entanto. Douglas teria sido confundido com um traficante, torturado e morto por policiais da UPP. É a versão de moradores e de parentes do rapaz:

– O corpo dele estava cheio de marcas de botas. As costas todas arranhadas, e as paredes da creche, que são de chapisco, ensanguentadas. A UPP não protege ninguém. A gente vive num regime de arbitrariedade. A gente quer que quem fez isso com meu filho seja punido. O corpo só foi aparecer hoje porque descobriram que mataram um trabalhador — disse a mãe de Douglas, Maria de Fátima, ao jornal O Globo.

protesto DG

No fim da tarde, moradores fecharam ruas na região de Copacabana e Ipanema. Houve confronto com policiais e tiros foram ouvidos. Na foto, um morador reage enquanto é detido por policiais.

Agora à noite, A NOTÍCIA DE QUE MAIS DUAS PESSOAS TERIAM SIDO MORTAS, ambas com TIROS NA CABEÇA.

Uma das mortes já foi confirmada: um homem de cerca de 30 anos, ainda não identificado, que já chegou morto ao Hospital Miguel Couto.

Moradores afirmam que um garoto de 12 anos chamado Matheus também teria sido baleado na cabeça quando descia o morro com os braços erguidos.

— Os policiais correram em direção ao rapaz. Pegaram o menino e o colocaram num carro da PM que saiu em disparada. Mas acho que o garoto já estava morto. Todo mundo viu o jeito como ele caiu — afirmou o cozinheiro Antonio Mauro Nunes de Souza, de 25 anos, para o jornal O Globo.

É mais um caso grave que acontece em áreas de UPP e que envolve policiais militares. É muito importante que todos os organismos de fiscalização e controle se façam presentes. Fundamental seguirmos atentos aos acontecimentos e ao esclarecimento dessas informações.

DG encenou a própria morte em 2013. A polícia transformou o filmete em realidade. Cena mil vezes repetida nas ruas do Rio de Janeiro
DG encenou a própria morte em 2013. A polícia transformou o filmete em realidade. Cena mil vezes repetida nas ruas do Rio de Janeiro