Segunda Visão de Tiradentes

por Talis Andrade
in O Enforcado da Rainha

Tiradentes

Aposto que me enforcam
na árvore ao vento
e na árvore balanço noite após noite
até que a liberdade venha
mesmo que tarde

Pelos povoados e vilas
uma mão de finados
exibirá pedaços do meu corpo
esquartejado
Um dia serei justiçado
Um dia serei venerado
por inteiro
Nas ruas e nas praças
o meu corpo ressuscitado
em pedra
em mármore
em bronze
oferenda que sou
a mim mesmo

 

.

Ilustração Pedro Américo de Figueiredo e Melo,
Estudo de anatomia para Tiradentes Esquartejado,1893

Seleta de Moacir Japiassu

ENSINA A TEU FILHO – Frei Betto

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Ensina a teu filho que o Brasil tem jeito e que ele deve crescer feliz por ser brasileiro. Há neste país juízes justos, ainda que esta verdade soe como cacófato. Juízes que, como meu pai, nunca empregaram familiares, embora tivessem filhos advogados, jamais fizeram da função um meio de angariar mordomias e, isentos, deram ganho de causa também a pobres, contrariando patrões gananciosos ou empresas que se viram obrigadas a aprender que, para certos homens, a honra é inegociável.

Ensina a teu filho que neste país há políticos íntegros, administradores competentes, autoridades honradas, que não se deixam corromper, não varrem as mazelas para debaixo do tapete, não temem desagradar amigos e desapontar poderosos, ousam pensar com a própria cabeça e preservar mais a honra que a vida.

Ensina a teu filho que não ter talento esportivo ou rosto e corpo de modelo, e sentir-se feio diante dos padrões vigentes de beleza, não é motivo para ele perder a auto-estima. A felicidade não se compra nem é um troféu que se ganha vencendo a concorrência. Tece-se de valores e virtudes, e desenha, em nossa existência, um sentido pelo qual vale a pena viver e morrer.

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Ensina a teu filho que o Brasil possui dimensões continentais e as mais fertéis terras do planeta. Não se justifica, pois, tanta terra sem gente e tanta gente sem terra. Assim como a libertação dos escravos tardou mas chegou, a reforma agrária haverá de se implantar. Tomara que regada com muito pouco sangue.

Saiba o teu filho que os sem-terra que ocupam áreas ociosas, griladas ou devolutas são, hoje, chamados de “bandidos”, como outrora a pecha caiu sobre Gandhi sentado nos trilhos das ferrovias inglesas e Luther King ocupando escolas vetadas aos negros.

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Ensina a teu filho que pioneiros e profetas, de Jesus a Tiradentes, de Francisco de Assis a Nelson Mandela, são invariavelmente tratados, pela elite de seu tempo, como subversivos, malfeitores, visionários.

Ensina a teu filho que o Brasil é uma nação trabalhadora e criativa. Milhões de brasileiros levantam cedo todos os dias, comem aquém de suas necessidades e consomem a maior parcela de suas vidas no trabalho, em troca de um salário que não lhes assegura sequer o acesso à casa própria. No entanto, essa gente é incapaz de furtar um lápis do escritório, um tijolo da obra, uma ferramenta da fábrica. Sente-se honrada por não descer ao ralo que nivela bandidos de colarinho branco com os pés-de-chinelo. É gente feita daquela matéria-prima dos lixeiros de Vitória, que entregaram à polícia sacolas recheadas de dinheiro que assaltantes de banco haviam escondido numa caçamba.

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Ensina a teu filho evitar a via preferencial dessa sociedade neoliberal que tenta nos incutir que ser consumidor é mais importante que ser cidadão, incensa quem esbanja fortuna e realça mais a estética que a ética. Convence-o de que a felicidade não resulta da soma de prazeres e a via espiritual é um tesouro guardado no fundo do coração – quem consegue abri-lo desfruta de alegrias inefáveis.

Saiba o teu filho que o Brasil é a terra de índios que não se curvaram ao jugo português e de Zumbi, de Angelim e Frei Caneca, de madre Joana Angélica e Anita Garibaldi, dom Helder Camara e Chico Mendes.

Ensina a teu filho que ele não precisa concordar com a desordem estabelecida e que será feliz ao unir-se àqueles que lutam por transformações sociais que tornem este país livre e justo. Então, ele transmitirá a teu neto o legado de tua sabedoria.

Ensina a teu filho a votar com consciência e jamais ter nojo de política, pois quem age assim é governado por quem não tem, e se a maioria o tiver será o fim da democracia. Que o teu voto e o dele sejam em prol da justiça social e dos direitos dos brasileiros imerecidamente tão pobres e excluídos, por razões políticas, dos dons da vida.

Ensina a teu filho que a uma pessoa bastam o pão, o vinho e um grande amor. Cultiva nele os desejos do espírito, a reverência pelos mais velhos, o cuidado da natureza, a proteção dos mais frágeis.

Saiba o teu filho escutar o silêncio, reverenciar as expressões de vida e deixar-se amar por Deus que o habita.

Era uma vez o País da Geral. O Estado entregou o mapa dos tesouros e as minas para os piratas

A imprensa entreguista mete o pau no serviço público. Mas não apresenta os culpados. Os culpados são bajulados:  a presidente da República, o governador de Minas Gerais e o prefeito de Belo Horizonte.

A imprensa direitista, conservadora, tradicional e safada, apresenta como exemplo da bagunça estatal o Detran em Belô.

Realmente, a corrução atinge todos os Detrans. Sejam estaduais ou municipais. Isso acontece porque o judiciário é conivente. A justiça não prende ninguém.

O jornalão mineiro  mete o pau no serviço público para justificar a entrega das riquezas de Minas Gerais aos piratas. Caso do nióbio, um minério mais precioso que o ouro, que o pretróleo, que o gás.

É isso aí:  os leilões/doações continuam. Estrangeiras Minas Gerais. Este o nome certo do Estado que enforcou Tiradentes.

Libertas… quae?

Esquartejado (Pedro Américo,1893)
Esquartejado (Pedro Américo,1893)

por Christiana Nóvoa

Mártir dos inconfidentes,
Faze aqui uma confidência:
Se tivesses consciência
dos Judas, Joaquins falsos,

Da forca e da ruína,
Teu corpo exposto aos pedaços,
Uma perna em cada poste,
Aceitavas tua sina?

Cumprias, herói, teu fado
Só pra virar feriado
Todo vinte um de abril?

Dize lá, ó Tiradentes,
Quantos dentes arrancaste
À pátria que te traiu?