Recife da Cultura desprezada. Duvido o prefeito destinar um palacete para os artistas

Palacete dos Artistas faz parte do projeto da Prefeitura de ocupação do Centro de São Paulo (Foto Olivia Florência/ G1)
Palacete dos Artistas faz parte do projeto da Prefeitura de ocupação do Centro de São Paulo (Foto Olivia Florência/ G1)

 

Artistas, escritores, poetas, jornalistas e educadores da rede pública morrem na miséria em Pernambuco, notadamente no Recife.

O poeta Carlos Pena Filho, termina assim seu Guia Prático da Cidade do Recife:

“Recife, cruel cidade,
águia sangrenta, leão.
Ingrata para os da terra,
boa para os que não são.
Amiga dos que a maltratam,
inimiga dos que não
este é o teu retrato feito
com tintas do teu verão
e desmaiadas lembranças
do tempo em que também eras
noiva da revolução”

Um prefeito não faz nada que preste para o povo, principalmente pela Cultura.

Que realiza um prefeito, se o Recife não tem museu, biblioteca, editora, universidade, cinema, tv educativa e passeio público?

As festas tradicionais – Carnaval, São João, Natal e Virada do Ano Novo – são animadas por artistas de fora, contratados a peso de ouro.

Que diabo um prefeito do Recife empreende com os bilhões que arrecada?

Constrói e varre os caminhos dos shoppings.

PALACETE PARA 50 ARTISTAS EM SÃO PAULO

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O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, inaugurou nesta sexta-feira (12) o edifício Palacete dos Artistas, destinado a moradia popular de artistas com mais de 60 anos e renda familiar de um a três salários mínimos.

Os 50 artistas beneficiados terão que pagar de 10% a 12% da renda mensal deles pelo apartamento. O contrato será renovado a cada quatro anos.

O imóvel permanecerá como propriedade pública. “Uma locação social a um preço bastante módico para permitir que o prédio seja sempre destinado a artistas que dependam de locação”, explicou Haddad.

SÃO 50 HABITAÇÕES COMO HOMENAGEM E RECONHECIMENTO PELOS SERVIÇOS PRESTADOS ÀS ARTES

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A Prefeitura de São Paulo entregou nesta sexta-feira (12) 50 apartamentos do Edifício Palacete dos Artistas, o antigo Hotel Cineasta, localizado na Avenida São João, a poucos metros do seu cruzamento com a Avenida Ipiranga. O edifício foi revitalizado e adaptado para ser o novo endereço de 50 artistas ligados a diversas entidades do meio, entre as quais o Sindicato dos Artistas, a Cooperativa Paulista de Teatro o Balé Stagium e o Movimento de Moradia dos Artistas e Técnicos.

“São 50 habitações, mas este número não expressa a importância do gesto. O nosso programa habitacional é mil vezes maior, mas [este gesto] significa muito mais do que isso. A sua dimensão quantitativa não retrata a dimensão qualitativa do projeto. Vocês certamente vão alegrar o centro, vão enriquecer a vida do centro e suas próprias vidas. Este é o reencontro da cidade com seu centro histórico. Requalificar o centro não é só reformar prédios. É, sobretudo, um gesto em direção às pessoas. E acho que o gesto não poderia ser mais significativo”, afirmou o prefeito Fernando Haddad na cerimônia onde foram entregues aos artistas as chaves de seus apartamentos.

A cantora aposentada Penha Maria, de 74 anos, é uma delas. Nesta sexta-feira (12), ao visitar o que será sua residência, não conteve a emoção. “Não tenho nem palavras. É um sonho. Achei o apartamento lindo”, disse com a voz embargada. O ator e diretor de teatro Kokocht, de 66 anos, elogiou a vista. “É maravilhosa, uma vista para a Avenida São João. Amei o apartamento. Está lindo”, afirmou.

O cantor Valdemar Farias, 85, popularmente conhecido como Roberto Luna, será um dos novos maradores do palacete. Atualmente, ele vive com sua companheira na casa de uma amiga no Horto Florestal, zona norte da capital. Nesta manhã, ele não escondia o seu contentamento pela conquista. “Sou da Paraíba e, quando cheguei em São Paulo, na década de 50, foi para o centro que eu vim. Fui morar no Hotel Excelsior. Hoje posso dizer que estou voltando às origens”, afirmou.

“Esta é a luta de nós artistas. Nós lutamos com a nossa alma, com a palavra, com a emoção e com o coração. E a nossa luta de tantos anos vai cada dia conquistando mais espaço”, afirmou a atriz Vicencia Militello, 71. Após receber a chave do apartamento que habitará, Vic, como é chamada pelos colegas, chamou atenção para a questão dos idosos e afirmou que o projeto contribui para uma melhoria da qualidade de vida dessa população. “Trazer para o Centro os idosos é importante, pois desobrigaremos eles a terem de andar de ônibus e atravessar a cidade frequentemente”, disse, lembrando que nem sempre os mais jovens são generosos de modo a facilitar suas vidas.

 

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE PENHA MARIA, A SAPOTI DO NORDESTE

por Germano Barbosa

 

Recife,1968, Jornal do Comércio
Recife,1968, Jornal do Comércio

Ela foi a maior cantora do Norte e Nordeste do Brasil, de todos os tempos. Brilhou no Rio, em shows do rei da noite, Carlos Machado, foi aplaudida e elogiada pela imprensa em mais de 10 países da antiga cortina de ferro, representando a Varig. Trabalhou com Abelardo Figueiredo, no Beco e nas melhores casas noturnas de São Paulo, até que resolveu parar, em 1972, para cuidar da família. Agora, 42 anos depois, eu a encontrei, pobre e doente, mas completamente lúcida, em um lar para idosos, na periferia da capital paulista.

Simpática e muito educada, ela quer dar a volta por cima e voltar a cantar.

Eu a procurei, incansavelmente, durante mais de 10 anos.

Nascida em 22 de dezembro de 1939, em João Pessoa, Paraíba, com o nome de Maria da Penha Soares, desde cedo seus pais, Antônio e Hercília, lhe deram uma educação religiosa, tendo ela começado a cantar na igreja aos 10 anos.

Com 18 anos, depois de ganhar um concurso de calouros, estreou profissionalmente na Radio Tabajara, a melhor da capital paraibana, e aí começou a sua trajetória de sucesso.

Dois anos depois, em 1959, o grande maestro Giuseppe Mastroianni a descobriu e levou-a para a Rádio Jornal do Comércio de Recife. No ano seguinte, ela inaugurou a TV Jornal do Comércio, onde sua voz, maravilhosa, aliada a sua beleza e elegância, deslumbrava os espectadores, participando dos famosos programas da época, Você Faz o Show, de seu grande amigo Fernando Castelão, Noite de Black-Tie e Bossa 2, de Nair Silva.

Durante cinco anos, foi eleita a melhor cantora de Recife, sendo conhecida como “a sapoti do nordeste”.

Penha era convidada para cantar para as grandes personalidades da época que passavam por Recife, como o governador de São Paulo Ademar de Barros e o presidente Juscelino Kubitchek, e cantou ao lado de grandes ídolos, como Cauby Peixoto e Angela Maria. Transcrevi trechos. Leia mais 

 

RECIFE QUEIMA DINHEIRO NO RÉVEILLON

No Palacete dos Artistas de São Paulo foram investidos cerca de R$ 8,2 milhões, sendo R$ 1,3 milhão em restauro; R$ 5,1 milhões em reformas e adequações em geral e R$ 1,8 milhão em reforços da estrutura do prédio e adequação e instalação dos elevadores. Outros R$ 4,2 milhões foram gastos com a desapropriação do edifício.

A fonte de recurso foi do governo federal, por meio do Programa Especial de Habitação Popular (PEHP), que previa o financiamento para esse tipo de empreendimento a fundo perdido por meio da Caixa Econômica Federal.

No Recife gasta-se muito mais com qualquer festança. Como acontece no Réveillon, com a queima de fogos e carnaval à baiana.

Os palacetes e casarões do Recife, reservados para a especulação imobiliária, deveriam ser transformados em museus, biblioteca de bairros, asilos, casas de artistas, de educadores, de jornalistas, ateliês, escolas de arte como a de João Pernambuco na Várzea, cinemateca, sede de bandas de música, galerias de arte etc

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Antonin Artaud: Fragmentos de un diario infernal

Artaud by Man Ray
Artaud by Man Ray

 

Ni mi grito ni mi fievre me pertenecen. Esta desintegración de mis fuerzas secundarias, de esos elementos disimulados del pensamiento y del alma, ¿pueden ustedes concebir, acaso, su constancia?
Ese algo que está a medio camino entre el color de mi atmósfera típica y el despertar de mi realidad.
No tengo tanta necesidad de alimento como de una especie de elemental conciencia.
Ese nudo de la vida al que la emisión del pensamiento se aferra.
Un nudo de asfixia central.
Instalarme simplemente en una verdad clara, es decir que se mantenga sobre uno solo de sus filos.
Ese problema del enflaquecimiento de mi yo no se presenta ya bajo su aspecto únicamente doloroso. Siento que factores nuevos intervienen en la desnaturalización de mi vida y que poseo algo así como una nueva conciencia de mi íntimo debilitamiento.
Veo en el hecho de lanzar los dados y de lanzarme en la afirmación de una verdad presentida, por muy aleatoria que sea, toda la razón de mi vida.
Permanezco durante horas bajo el efecto de una idea, de un sonido. Mi emoción no se desarrolla en el tiempo, no transcurre en el tiempo. Los reflujos de mi alma están en perfecto acuerdo con la idealidad absoluta del espíritu.
Ponerme frente a la metafísica que me he construido en función de la nada que llevo en mí.
De este dolor hincado en mí como una astilla, en el centro de mi más pura realidad, en ese lugar de la sensibilidad donde los dos mundos del cuerpo y del espíritu se unen, he aprendido a distraerme gracias a una falsa sugestión.
En el espacio de este minuto que dura la iluminación de una mentira, me fabrico un pensamiento de evasión, me precipito sobre una pista falsa que mi sangre indica. Cierro los ojos de mi inteligencia y, dejando que hable en mí lo informulado, me brindo la ilusión de un sistema cuyos términos me sería imposible asir. Pero de ese minuto de error me queda el sentimiento de haber hurtado algo real a lo desconocido. Creo en conjuraciones espontáneas. En las rutas hacia las que mi sangre me arrastra no es posible que algún día no descubra una verdad.
La parálisis se apodera de mí y me impide cada vez más volverme hacia mí mismo. Ya no tengo un punto en que apoyarme, una base…, no sé dónde me busco. Mi pensamiento ya no puede ir adonde mis emociones y las imágenes que surgen en mí lo empujan. Me siento castrado hasta en mis más pequeños impulsos. Acabo por ver el día a través mío, a fuerza de renunciamientos en todos los sentidos de mi inteligencia y de mi sensiblidad. Es necesario que se comprenda que es el hombre viviente el que está afectado en mí, y que esta parálisis que me asfixia se encuentra en el centro de mi personalidad corriente y no de mis sentidos de hombre predestinado. Estoy definitivamente al costado de la vida. Mi suplicio es tan sutil, tan refinado como recio. Me son necesarios esfuerzos insensatos de imaginación, multiplicados por el abrazo de esta asfixia sofocante para llegar a pensar mi mal. Y si me obstino así en esta búsqueda, en esta necesidad de fijar una vez por todas el estado de mi sofocación…
Te equivocas al hacer alusión a esta parálisis que me amenaza. Me amenaza, en efecto, y aumenta cada día que pasa. Existe ya y como una horrible realidad. Es cierto que hago aún (pero, ¿por cuánto tiempo?) lo que quiero con mis miembros, pero hace mucho tiempo que ya no gobierno mi espíritu, y que mi inconsciente todo entero me gobierna con impulsos que vienen del fondo de mis agudos dolores nerviosos y del torbellino de mi sangre. Imágenes apresuradas y rápidas y que no le pronuncian a mi espíritu sino palabras de cólera y de odio ciego, pero que pasan como cuchilladas o relámpagos en un cielo cargado.
Estoy estigmatizado por una muerte urgente en la que la muerte verdadera carece para mí de terror.
Siento que la desesperación de esas formas aterradoras que se adelantan está viva. Se desliza en ese nudo de la vida a partir del cual las rutas de la eternidad se abren. Es realmente la separación para siempre. Esas formas deslizan su cuchillo en ese centro donde me siento hombre, cortan las ataduras vitales que me unen al sueño de mi lúcida realidad.
Formas de una desesperación capital (realmente vital),
encrucijada de las separaciones,
encrucijada de la sensación de mi carne,
abandonado por mi cuerpo,
abandonado por cualquier sentimiento posible en el hombre.
No puedo compararlo sino a ese estado en cual nos hallamos en medio de un delirio provocado por la fiebre, en el curso de una profunda enfermedad.
Es esta antinomia entre mi facilidad profunda y mi exterior dificultad que crea el tormento que me hace morir.
El tiempo puede pasar y las convulsiones sociales del mundo devastar los pensamientos de los hombres, yo estoy a salvo de todo pensamiento ligado a los acontecimientos. Que me abandonen con mis nubes apagadas, con mi inmortal impotencia, con mis absurdas esperanzas. Pero que sepan que no abdico de ninguno de mis errores. Si he juzgado mal es culpa de mi carne, pero esas luces que mi espíritu deja filtrar de tanto en tanto son mi carne cuya sangre se recubre de relámpagos.
Él me habla de narcisismo, yo le contesto que se trata de mi vida. Tengo el culto no del yo sino de la carne, en el sentido sensible de la palabra carne. Ninguna cosa me toca sino en la medida en que afecta a mi carne, que coincide con ella, y sólo en ese punto exacto en que la conmueve, no más allá. Nada me toca, nada me interesa sino aquello que se dirige directamente a mi carne. Y en ese momento me habla del Sí-mismo. Le contesto que el Yo y el Sí-mismo son dos términos distintos y que no deben ser confundidos, y que son precisamente los dos términos que se balancean en el equilibrio de la carne.
Siento bajo mi pensamiento la tierra hundirse, y me veo conducido a encarar los términos que empleo sin el apoyo de su sentido íntimo, de su substrato personal. E incluso mejor que eso, el punto en donde ese substrato parece unirse con mi vida se vuelve de repente extrañamente sensible y virtual. Concibo la idea de un espacio imprevisto y fijado, allí donde en tiempo normal todo es movimiento, comunicación, interferencia, trayecto.
Pero esta desintegración que ataca mi pensamiento en sus bases, en sus comunicaciones más urgentes con la inteligencia y con la instintividad del espíritu, no ocurre en el terreno de un abstracto insensible en el que participarían solamente las partes elevadas de la inteligencia. Más que el espíritu que permanece intacto, herizado de puntas, es el trayecto nervioso del pensamiento lo que esta desintegración ataca y desvía de su camino. Es en los miembros y en la sangre que esta ausencia y este estacionamiento se hacen especialmente sentir.
Un gran frío,
una atroz abstinencia,
los limbos de una pesadilla de huesos y de músculos, con el sentimiento de las funciones estomacales que suenan como una bandera en las fosforescencias de la tormenta.
Imágenes larvarias que se empujan como con el dedo y que no están en relación con ninguna materia.
Soy hombre gracias a mis manos y a mis pies, a mi vientre, a mi corazón de animal, a mi estómago cuyos nudos me unen a la putrefacción de la vida.
Me hablan de palabras, pero no se trata de palabras, se trata de la duración del espíritu.
No hay que imaginarse que el alma no esté implicada en esta corteza de palabras que caen. Junto al epíritu está la vida, está el ser humano en el círculo del cual este espíritu da vueltas, unido con él por una multitud de hilos…
No, todos los desgarramientos corporales, todas las disminuciones de la actividad física y esta molestia de sentirse dependiente en su cuerpo, y este mismo cuerpo cargado de mármol y acostado en una mala madera, no igualan la pena que hay en el hecho de estar privado de la ciencia física y del sentido de su equilibrio interior.Que el alma falte a la lengua o la lengua al espíritu, y que esta ruptura trace en las llanuras de los sentidos una especie de vasto surco de desesperación y de sangre, ésta es la gran pena que mina no la corteza o las vigas de maderas sino la TELA de los cuerpos. Se puede perder esta chispa errante de la cual sentimos que ERA un abismo que se apodera de toda la extensión del mundo posible, y el sentimiento de una inutilidad tal que es como el nudo de la muerte. Esta inutilidad es como el color moral de ese abismo y de esa intensa estupefacción, y su color físico es el gusto de una sangre que brota en cascadas a través de las aberturas del cerebro.
Por más que me digan que ese lugar peligroso está en mí mismo, yo participo de la vida, yo represento la fatalidad que me elige y no es posible que toda la vida del mundo me cuente, en un momento dado, junto con ella ya que, por su naturaleza misma, amenaza el principio de la vida.
Existe algo que está por encima de toda actividad humana: es el ejemplo de esa monótona crucifixión en la que el alma no acaba nunca de perderse.
La cuerda que dejo entrever de la inteligencia que me ocupa y del inconsciente que me alimenta deja ver, en medio de su tejido de formas que se ramifican, hilos cada vez más sutiles. Y es una nueva vida que renace, cada vez más profunda, elocuente, enraizada.
Jamás podrá esta alma que se ahorca dar alguna precisión, ya que el tormento que la mata y la descarna, fibra tras fibra, ocurre por debajo del pensamiento, por debajo de ese lugar al que puede llegar la lengua, puesto que es la ligadura misma de lo que la hace y la mantiene espiritualmente aglomerada, lo que se rompe a medida que la vida la llama a la constancia de la claridad. Nunca habrá claridad respecto a esta pasión, a esta especie de martirio cíclico y fundamental. Y sin embargo vive, pero con una duración con eclipses en la que lo huidizo se mezcla perpetuamente a lo inmóvil, y lo confuso a esa lengua aguda de una claridad sin duración. Esta maldición posee una alta enseñanza para las profundidades que ella ocupa, pero el mundo no oirá la lección.
La emoción que conlleva la eclosión de una forma, la adaptación de mis humores a la virtualidad de un discurso sin duración es para mí un estado mucho más precioso que la satisfacción de mi actividad.
Es la piedra de toque de ciertas mentiras espirituales.
Esa especie de paso atrás que da el espíritu más acá de la conciencia que lo fija, para ir en busca de la emoción de la vida. Esa emoción que reside fuera del punto particular en que el espíritu la busca, y que emerge, recién moldeada, con su densidad rica de formas; esa emoción que le da al espíritu el sonido conmovedor de la materia; toda el alma se desliza en su molde y pasa en su fuego ardiente. Pero aún más que el fuego, lo que transporta al alma es la limpidez, la facilidad, lo natural y la glacial candidez de esa materia demasiado fresca cuyo soplo contradictorio es ya caliente ya frío.
Aquel sabe lo que la aparición de esa materia significa y de que subterránea masacre su eclosión es el precio. Esa materia es la medida de una nada que se ignora.
Cuando me pienso mi pensamiento se busca en el éter de un nuevo espacio. Estoy en la luna como otros están en su balcón. Participo de la gravitación planetaria con las grietas de mi espíritu.
La vida va a hacerse, los acontecimientos van a desarrollarse, los conflictos espirituales van a resolverse, y yo no participaré en nada de eso. Nada tengo para esperar, ni del lado físico ni del lado moral. Para mí es el dolor perpetuo y la sombra, la noche del alma, y ni siquiera tengo una voz para gritar.
Dilapiden sus riquezas lejos de este cuerpo insensible al que ya ninguna estación, ni espiritual ni sensual, le hace nada.
Yo he elegido el terreno del dolor y la sombra como otros eligen el del resplandor y el de la acumulación de la materia.
Yo no trabajo en la extensión de ningún terreno.
Sólo trabajo en la duración.

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Traducción de Miguel Ángel Frontán.

 

As luzes que apagam [Decoração natalina]

 

por Priscila Krause*

No Império Romano, os mandatários dos tempos entre o antes e o depois de Cristo conquistavam o apoio popular por meio da distribuição de cereais à base de trigo e da frequente realização de eventos com o objetivo de distrair a população. Era o tempo da construção de grandes arenas, promoção de suntuosos espetáculos, da famosa política do panem et circenses (pão e circo). Com os cofres públicos abarrotados e o desejo da conquista fácil e rápida em busca da aprovação aos seus atos, os governos, a qualquer sinal de crise, lançavam mão de artifícios assim. Estava mantida a ordem “e la nave va”…

Corta: Recife, 2013. A Prefeitura, por meio da Fundação de Cultura Cidade do Recife, contrata a decoração natalina da cidade (elementos decorativos e iluminação) pela bagatela de R$ 5,8 milhões, a mais cara da nossa história. No período de um mês, a municipalidade gastará, diariamente, algo em torno de R$ 187 mil para maquiar, à Noel, restritos recantos da capital pernambucana. O valor inclui até uma árvore de vinte metros de altura, às margens do Capibaribe (aquele pobre “Cão sem plumas” do poeta João Cabral) por absurdos R$ 793 mil. O ornamento conta com lâmpadas importadas, gravuras de passarinhos e leques. Muita luz e cor. Mas por que não correr atrás de patrocínios da iniciativa privada, como ocorre no Rio de Janeiro?

Ainda o Recife. Enquanto montava-se a luxuosa árvore e outros apetrechos natalinos cidade afora, votávamos na Câmara do Recife o projeto da Lei Orçamentária Anual 2014. Por decisão do Executivo e nada mais, quaisquer emendas que alterassem os rumos da peça sugerida pelo prefeito cairia fora. Foi assim com sugestão minha que transferia R$ 8 milhões da realização de shows e eventos por parte da Fundação de Cultura para a restauração do Teatro do Parque, joia arquitetônica e cultural da nossa cidade prestes a completar seu centenário, em 2015.

Na peça orçamentária aprovada, dos quase R$ 79 milhões previstos para a Fundação de Cultura no ano que vem, R$ 52 milhões serão gastos com eventos (shows e decorações) para o Carnaval, São João e Natal, enquanto a política em torno da restauração, preservação e aquisição de bens culturais para equipamentos sob a responsabilidade da Fundação (entre elas o Teatro do Parque) ficou com restritos R$ 6 milhões. Numa das justificativas para o veto, chegou-se registrar que os recursos para a restauração do Parque poderiam ser fruto de um convênio federal. Se fosse tão simples e fácil captar de Brasília, o Parque não estaria abandonado desde 2010.

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O governo inverte as prioridades. Trata o supérfluo como política de estado e o inverso, o prioritário, como necessidade de terceira ordem. Entre o tempo do “pão e circo” e a atualidade dos panetones, shows e decorações milionárias, há diferenças: redes sociais, participação, democracia, opinião pública vigilante. Ainda assim, no abrir das cortinas de 2014, tudo estará como antes. O Teatro do Parque de portas fechadas e os impostos pagos por cada um de nós mais uma vez rarefeitos no lúdico das luzes do Natal que se foi.

P.S.: Governo acaba de rejeitar emenda de minha autoria que diminui recursos para shows e eventos (e decorações natalinas...) de R$ 52 milhões para R$ 44 mi, em 2014, em prol da restauração do Teatro do Parque. Joia arquitetônica e cultural da cidade teria sua restauração garantida no próximo ano com R$ 8 milhões de recursos municipais. Em 2015, Teatro completa 100 anos. Fica o registro da tentativa
P.S.: Governo acaba de rejeitar emenda de minha autoria que diminui recursos para shows e eventos (e decorações natalinas…) de R$ 52 milhões para R$ 44 mi, em 2014, em prol da restauração do Teatro do Parque. Joia arquitetônica e cultural da cidade teria sua restauração garantida no próximo ano com R$ 8 milhões de recursos municipais. Em 2015, Teatro completa 100 anos. Fica o registro da tentativa

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A árvore de Natal do Cais da Alfândega, montada pela Prefeitura do Recife, custará R$ 793 mil aos cofres públicos, valor 34% superior ao contratado no ano passado. Através de processo licitatório (três empresas participaram do certame), a Fundação de Cultura Cidade do Recife contratou a mesma empresa responsável pela montagem em 2012, a Edson Lira Iluminação Ltda.. Em 2012, o objeto de decoração natalina foi contratado através de dispensa de licitação ao custo de R$ 590 mil. Na oportunidade, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) instaurou auditoria especial para averiguar a regularidade da contratação. Na época, o preço da decoração foi fortemente criticado nas redes sociais.

Mais cara, a árvore deste ano será montada em base metálica com 20 metros de altura – no ano passado, o objetivo alcançou 25 metros. Em 2010, a árvore (montada pelo consórcio Lixiki/Blachere, também contratado sem licitação) foi a mais alta: 36 metros. Posicionado sobre base composta por pallets de madeira, o objeto decorativo deste ano será iluminada por strobos e decorada por dezenas de pássaros e flores nas cores azul, amarelo e vermelho, conforme projeto contratado pela PCR à empresa “Mão Livre”, que por R$ 225 mil elaborou o conceito de decoração e iluminação para o ciclo natalino PCR/2013.

Árvore-de-Natal-PCR-2

*Priscila Krause é jornalista e vereadora do Recife pelo Democratas

AINDA A DECORAÇÃO NATALINA
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 Escreve Edson Lima: Depois do Parque das Esculturas, cuja inspiração fálica culminou até em invasão de redação de jornal por um certo prefeito, Brennand ataca de novo, agora na decoração de Natal do Recife. A cidade está “enfalecida”…
paisagem fálica
PROTESTO EM OLINDA

Decoração natalina com papel higiênico em Olinda

Um Sábado em Trinta dos jornalistas de Pernambuco

O bom de fazer jornalismo: a possibilidade de conhecer pessoas geniais.

Nas entrevistas e reportagens, no final da década de Cinquenta, várias personalidades citavam o cientista e o artista Reinaldo de Oliveira.

Até que uma dia conheci Reinaldo, o professor de médicos, teatrólogos e atores hoje famosos.

Estava no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco, para votar, no dia 17 último, nas eleições sindicais. Na inquietação de matar o tempo, e levado pela saudade, entrei no Teatro Valdemar de Oliveira, prédio vizinho. Pura sorte e alegria, um grupo de jovens ensaiava a peça Um Sábado em Trinta de Luiz Marinho.

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Em 1960, Luiz Marinho entregou a Valdemar de Oliveira Um Sábado em Trinta. Parece escrita para os dias de hoje. Particularmente para os jornalistas, que acabam de realizar uma votação bico-de-pena, com urnas prenhas, capangada da CUT, e o mando do coronelismo. Tudo no jeitinho da República Velha.

O Brasil fez uma Revolução, em Trinta, para acabar com a corrupção política, e  mudar uma sociedade, cujos costumes, e comportamento, Luiz Marinho transformou em comédia; e Moacir Japiassu, em romance.

Nei Duclós, poeta de primeira, e crítico literário, escreve sobre Concerto Para Paixão e Desatino, de Japiassu:

“Sua galeria de personagens inclui tantas figuras fundamentais, que elencá-las numa resenha parece ser o relatório do viajante iludido em levar o romance como lembrança. O jornalista do jornal Imprensa às Suas Ordens, cúmplice do assassinato do presidente João Pessoa, ilumina as origens de um conterrâneo tornado ilustre, Assis Chateaubriand; o José Américo recriado aqui revela o lado desconhecido da Revolução de 30, com suas contradições no bojo da luta; o conde cafetão e a soprano lírica amante do político poderoso são um ensaio sobre os bastidores de um movimento que ainda guarda inúmeros enigmas. Não satisfeito, Japiassu ainda brinda o leitor com os antecedentes de toda a situação política e social do Nordeste ao colocar em praticamente dois parágrafos (páginas 185 e 186) as origens da República por meio de ilustres figuras da transição, vindas do Império. Parece um confeito no bolo da noiva, mas é mais uma bala nesse rifle recheado”.

Diz mais Duclós: Wagner Carelli define o livro como um épico “capaz de ser poderoso como um sinfonia de Mahler – mas que se lê rápida, clara e deliciosamente como uma partitura de Mozart”.

Relatei para Moacir Japiassu que, nas eleições do Sinjope, nem parece que o Brasil fez uma revolução em Trinta.

Jornalistas metidos a intelectuais votam encabrestados, sim. Votam do jeito que o governo de Eduardo Campos manda.

Eu, que fui barrado na cancela do Jornal do Comércio que dirigi, revivi as redações eternizadas noutro romance de Moacir Japiassu: Quando Alegre Partiste, “Melodrama de um Delirante Golpe Militar”.

Fico imaginando se o título Quando Alegre Partiste é uma referência a uma época, o Brasil de antes de 1964; um tempo do Nunca Mais, a juventude; uma profissão, o jornalista sonhador e desprendido; uma mulher, talvez Vera, personagem do romance.

O que se foi na alegria, não significa que deixou a tristeza, a solidão, a desesperança de nunca escrever a Carta a uma Paixão Definitiva, título de um livro de crônicas de Japiassu, que considero o maior romancista brasileiro da atualidade. Gosto de repetir, como um mantra, que Moacir Japiassu é o maior romancista brasileiro da atualidade.

Certamente que nunca vou perder a esperança de um Brasil melhor, e este Brasil, que sonho, depende muito dos jornalistas.

Parece paradoxal, a salvação do jornalismo advirá do jornal que se fazia antigamente: o jornalismo opinativo, escrito na primeira pessoa: o jornalismo de opinião, que a rádio informa instantaneamente; e a televisão mostra; e o jornalismo on line consegue ser estas três mídias.

Não quer dizer que o jornalismo impresso esteja morto. Nem o livro. Mauri König mostra que não. E por fazer jornalismo, o verdadeiro, Mauri pena no exílio.

Vizinha à sede do Sindicato, estudantes ensaiavam a peça Um Sábado em Trinta. Que gostoso de ouvir: Falavam de Luiz Marinho, de Valdemar de Oliveira, do TAP – Teatro de Amadores de Pernambuco, de Reinaldo de Oliveira.

Estavam em um ensaio, prova de conclusão do Curso Theatros&Cia, sem esquecer a realidade, de que eram jovens viventes deste ano de 2013, que o Papa Francisco pede para os jovens ir para as ruas do povo.

No Sindicato, os jornalistas viajavam na máquina do tempo, e viviam a farsa de um eleição em Trinta.  (Continua)

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Um Sábado em Trinta

Dia 3 próximo, Um Sábado em Trinta, de Luiz Marinho, volta a ser encenado no Teatro Valdemar de Oliveira, no Recife.

Luiz Marinho escreveu 14 peças, e Um Sábado em Trinta foi a primeira, e encenada em várias cidades do Brasil e no exterior. Antes mesmo de sua estréia, Luís Marinho recebeu em 1963, dois importantes prêmios: um no concurso da União Brasileira de Escritores, secção Pernambuco; outro no concurso da Escola de Belas Artes, da Universidade do Recife. Outra premiação significativa deu-se em 1974, quando o teatrólogo foi contemplado com o prêmio Molière, de melhor autor, pela obra Viva o Cordão Encarnado, dirigida por Luís Mendonça, no Rio de Janeiro.

Um Sábado em Trinta tem duas montagens famosas. A primeira de Valdemar de Oliveira. A segunda de Reinaldo de Oliveira. Valdemar tornou o nome de Luiz Marinho nacionalmente conhecido.

Reinaldo seguiu os passos do pai. Em 22 de setembro de 2012, publicou o jornal O Globo:

“Além de dirigir a montagem, Oliveira é ator e concilia a carreira da arte com a medicina, inclusive professor. “Às vezes as pessoas me perguntam: como é que você como médico, cirurgião, consegue ajustar o seu tempo com o teatro? É muito fácil, de manhã, quando eu estou operando, estou pensando na peça que vou representar à noite. E de noite, quando estou representando a peça, estou pensando na operação que vou fazer no dia seguinte! É uma maneira um pouco grotesca e graciosa ao mesmo tempo, de justificar essa minha vida, tanto na arte da medicina quanto na arte teatral”, comentou.

Um Sábado em Trinta com o genial Reinaldo Oliveira, que também é compositor, autor de frevos do Carnaval de Pernambuco
Um Sábado em Trinta com o genial Reinaldo Oliveira, que também é compositor, autor de frevos do Carnaval de Pernambuco

Uma mudança que certamente será sentida pelo público é a troca dos atores, entre eles, a dama do teatro pernambucano, Geninha da Rosa Borges, que encenou Dona Mocinha durante anos. Quem assume o papel é a atriz Renata Phaelante, que diz se sentir honrada. “É emocionante, porque vem de Geninha para mim, e eu trouxe para a minha carreira esse senso de responsabilidade que ela tem com os personagens. Ela cuida do figurino dela, das coisas dela, da meinha, do sapato, ela leva para casa, ajeita, compõe o personagem. E eu acho que eu trouxe isso dela para mim”, contou.

Outros atores que estavam no elenco original e serão substituídos são Fernando de Oliveira e Lano Lins. No lugar deles, entram, respectivamente, os atores Adelson Simões e Alderico Costa Melo. Além disso, o elenco recebe também a jovem Sophya Costa.

O texto da nova montagem também não é o mesmo de 1963, ano em que estreou o espetáculo. De acordo com a companhia, a mudança foi feita porque algumas coisas que faziam sentido na época não seriam tão engraçadas atualmente. No entanto, o grupo afirma que as alterações não afetam a direção ou o rumo da peça, que sofreu apenas pequenos cortes e acréscimos”.

Temos agora uma terceira montagem. Cenas:

Sábado em 30

2 Sábado em 30

3 sábado em 30

3 sabado em 30
Luís Marinho, além do Molière, foi premiado pela Academia Brasileira de Letras,  Academia Pernambucana de Letras e o Estadual de Teatro (do então Estado da Guanabara).

Suas principais obras foram:
Um sábado em trinta.
A promessa.
Viva o cordão encarnado.
A derradeira ceia.
A incelença.
A afilhada de Nossa Senhora da Conceição.
A valsa do diabo.
A estrada.
Foi um dia.
A família Ratoplan.
As aventuras do capitão Flúor.
O último trem para os igarapés.
Corpo corpóreo.
As três graças.

Em sua dramaturgia, suas memórias do interior de Pernambuco, de sua cidade natal,  Timbaúba, a partir de um universo de crendices, violeiros, vaqueiros, cangaceiros e outros tipos locais. Muito embora tenha sido reconhecido como um autor regionalista, ele acreditava que sua obra transcendia a esta categorização.

“Apenas procuro defender e valorizar o que amo. Que viva o teatro maior, de todas as regiões e pátrias”, ressaltou Luís Marinho.

No elenco de Um Sábado em Trinta:

Anayra Bandeira
Anayra Bandeira
Kackeline Villarim
Kackeline Villarim

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