Chico Buarque proibido de namorar

Vi vários tipos de patrulhas sexuais.

Tinha uma vida imoral ou suspeita, uma condição social idêntica à da prostituta, toda adolescente solteira que perdesse a virgindade, e toda mulher descasada. Idem as primeiras desquitadas e, depois, as divorciadas.

Eram estigmatizadas a menina namoradeira e a ex-noiva, apesar de virgens; e, em alguns casos, a viúva.

Aos 30 anos, a mulher se tornava um encalhe. E chamada de solteirona, titia,  donzelona, moça velha.

Não existiam lésbicas. Costumeiro as meninas andar de mãos dadas, dormir na mesma cama, dançar coladinhas ou ser par constante.

Mas vistas como aberrações a mulher de aspecto e atitudes masculinizadas (inclusive exercer certas profissões típicas do homem). Os nomes pra lá de feios: fanchona, machona, machoa, homaça, marimacho, mulher-homem, mulher-macho, virago.

Atualmente o macho não segue o ritual de cortejo, de pretendente, de paquera, de namoro, de noivado (o pedido de casamento feito aos pais, com a permissão de usar aliança – o anel como símbolo tradicional do ilimitado (eterno).

O movimento feminista considerou tais costumes machistas.  Alguns, sim. Moça que procurava atrair homem era chamada de sirigaita, assanhada, exibida, galinha, lambisgóia, oferecida, perereca, piririca, sapeca, semostradeira.

Moça recatada,  um elogio máximo. Ou, ainda, moça prendada.

Nenhum movimento feminista realizou mudanças.  Novos costumes foram impostos pela revolução de 64, assim digo, com os programas Mauá e Rondon. Faziam partes do Projeto Camelot da CIA. Com a introdução do movimento hipee de butique. E das drogas. Notadamente nas universidades. Com a onda da mãe solteira.

Na ditadura de Vargas a ordem era caminhar, não juntar gente; na de 64, não pensar, e faça amor, não a guerra. Wilhelm Reich, que morreu em 1957, foi apresentado como novidade nas faculdades de Psicologia, com sua teoria de amor livre deturpada. Proclamaram o liberou geral, embora o homossexualismo masculino continuasse perseguido pela igreja e a polícia.

Certos crimes agora comuns eram severamente punidos: o estupro e o assédio sexual.

Cometi este nariz-de-cera para criticar o espalhafato que a imprensa promove com o namoro de Chico Buarque de Holanda. Pelas manchetes pensei que Thaís Gulin fosse uma adolescente. Não é não. Nos anos de universidade de Chico seria considerada uma balsaquiana. Tem 31 anos.

Hoje é assim: menina de 12 anos faz sexo com um coleguinha de 12. Garota de 16 com rapaz de 16. Essa obrigação cria uma avalanche de abortos.

Quando as adolescemtes e mulheres de vinte fogem de sua faixa etária passaram a ser vítimas de tarados. Coisa de pedofilia, crime de sedução e outras anomalias contra a natureza.

Antigamente os meninos procuravam sair de casa o mais cedo possível. Hojemente são as mulheres. Os varões alargam uma conveniente adolescência. No meu tempo, o homem que não casava antes dos trinta boa coisa não era.

A sociedade nunca será livre de tabus e preconceitos. Diziam que as mulheres quando chegavam a menopausa perdiam o desejo sexual.

O idoso  passou a ser pedófilo, sodomita, devasso, um nojo. Que procure as prostitutas. De rua. Que amor de outono não existe. Nem romantismo. Lugar de velho é no asilo.

Assim se explica o sensacionalismo com o namoro de Chico. Inclusive passaram a perseguir a moça. “Não é uma boa cantora”, como se isso fosse preciso. A inveja se torna maior, que Thaís, além de linda, é poetisa e compositora.

Escreve Ricardo Setti, na revista Veja:

Thaís Gulin. Você a aprova como cantora?

Amigos, eis a cantora Thaís Gulin, 31 anos, namorada de Chico Buarque, a curitibana que faz carreira no Rio de Janeiro desde 2007 e que inspirou o compositor em uma das canções de seu mais recente CD, “Chico”.

A canção de Chico, “Minha Pequena”, fala claramente da relação entre os dois e menciona delicadamente a diferença de idade  (ele tem 67 anos):”Meu tempo é curto, o tempo dela sobra. Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora. Temo que não dure muito a nossa novela, mas eu sou tão feliz com ela”.

Thaís acaba de lançar seu segundo CD, ôÔÔôôÔôÔ

Ainda bem que Rosiska Darcy de Oliveira (O Globo, 21/01/12) escreveu:

Um tempo sem nome

Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.

Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida .

Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.

A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.

Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.

Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de pasanunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade.sagem que a  Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.

A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.

”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição. Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.

Essa Pequena

Chico Buarque

Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela

Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la

Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai

Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena

Veja o vídeo Essa Pequena
Chico e Thaís cantam juntos . Formam um dueto que en-canta