Governo tucano vai matar de sede o povo de São Paulo

O Alto Tietê chega ao volume morto, e o Cantareira, ao fio da navalha

 

1 represa do sistema cantareira na Grande São Paulo

Represa do Sistema Cantareira na Grande São Paulo
Represa do Sistema Cantareira na Grande São Paulo
Córrego Lafon, afluente do Rio Tietê
Córrego Lafon, afluente do Rio Tietê
Represa de Ponte Nova, em Salesópolis, exibe pedras em seu leito. Foto: Edson Martins
Represa de Ponte Nova, em Salesópolis, exibe pedras em seu leito. Foto: Edson Martins
Reservatório de Ponte Nova (28 de Setembro)
Reservatório de Ponte Nova (28 de Setembro)
Reservatorio de Taiaçupeba, Jundiaí (28 de Setembro)
Reservatorio de Taiaçupeba, Jundiaí (28 de Setembro)
Reservatorio do Rio Jundiaí (28 de Setembro)
Reservatorio do Rio Jundiaí (28 de Setembro)

 

por Sergiorgreis

 

De crítica, a situação dos principais mananciais que abastecem a região metropolitana de São Paulo está se tornando desesperadora.

A situação do Alto Tietê se encontra em um nível absolutamente adverso. E os próximos capítulos da crise tendem a ser similares aos já vivenciados no Cantareira, talvez com dramaticidade ainda maior. Lamentavelmente, a SABESP, pelo menos publicamente, não apresentou nenhuma mudança na forma com que o sistema tem sido conduzido: sem pressões da ANA, continuou a permitir vazões de saída elevadíssimas, sem restrições, uma prática similar à empreendida no Cantareira no final de 2013. Na medida em que aquele continua a ajudar este, vimos até mesmo o aumento dos padrões de decréscimo dos reservatórios ao longo dos últimos meses.

O ponto é que o plano “A” da SABESP, seja para o Cantareira, seja para o Alto Tietê, seja para os demais reservatórios – que começam, também, a atingir níveis cada vez mais preocupantes – é confiar em São Pedro, o mesmo que “nos abandonou” ao longo dos últimos anos. E, mais grave, a empresa e o governo não dispõem de outras saídas. Ainda que seja possível extrair todos os 25 bilhões de litros dos volumes mortos de Biritiba-Mirim e Jundiaí, todo esse adicional sequer garante mais um mês de sobrevivência para o Alto Tietê, e os estudos iniciais não apontaram para a possibilidade de sucção de mais volume morto do Sistema. Vale dizer que as três represas que ainda não secaram (Paraitinga, Ponte Nova e Taiaçupeba) possuem juntas cerca de 51 bilhões de litros (dois meses de consumo, nos padrões atuais).

O problema, já ressaltado em outras oportunidades, é que o transporte de água de Ponte Nova para Biritiba possui um limite operacional de 9 m³/s – ali a água não transita por gravidade. Mesmo que as bombas para retirar o volume morto de Jundiaí estejam prontas, teríamos um beco sem saída: as duas primeiras represas esgotariam em 82 dias (02 de Janeiro de 2015), e as três outras, mesmo com os volumes mortos inteiramente considerados, durariam 13 dias além disso (15 de Janeiro de 2014). Por certo, teremos algumas precipitações, até lá, que poderão vir a segurar a queda. Não será fácil manter o abastecimento até lá.

O que provavelmente ocorrerá, de agora em diante, é que as crises de desabastecimento passarão a ocorrer mais frequentemente e de forma mais disseminada. É difícil imaginar que um dia, subitamente, a água deixará de chegar até as casas das pessoas, mas é possível que os períodos sem água tendam a se tornar cada vez mais longos e menos intermitentes, até o colapso final – a ocorrer em algum momento de 2015 (ainda cerca de um ano antes da conclusão da primeira grande obra capaz de contornar, momentaneamente, o macroproblema), a não ser que tenhamos as maiores precipitações de todos os tempos. Também se intensificarão as disputas entre o próprio Governo de São Paulo e dezenas de municípios que conformam o Comitê PCJ, consoante avançarão as extrações dos volumes mortos do Cantareira e, assim, aumentarão os riscos de que diminuam as vazões a jusante para os rios que abastecem a região, formada por mais de 3 milhões de habitantes.

De uma forma que seria absolutamente inexplicável, não fosse o cenário eleitoral que perdura, a SABESP continua a gerir a crise sem tomar conhecimento algum a respeito de sua gravidade: seus porta-vozes dão declarações absolutamente desconectadas do cenário vigente, seus planos de contingência fazem previsões totalmente distantes daquilo que vem ocorrendo já há alguns anos, suas obras suplementares atrasam ainda mais do que antes. Nessa lógica, longe de afastar um pouquinho mais a inevitável falência de dois dos seis grandes sistemas de abastecimento de São Paulo, o Governo Alckmin, mediante a grave politização (no sentido negativo, antirrepublicano) da questão, acaba por contribuir para o agravamento da crise, se é que isso é possível. É incrível, simplesmente incrível, como não houve uma sinalização dessa gestão, até hoje, no sentido de reconhecer a profundidade inenarrável do óbice em questão – seria uma declaração mínima de humildade capaz de trazer a população para perto, uma admissão de que as medidas são ineficazes e que é preciso rever a estratégia. Mas o conceito de cidadania do governo é pobre demais para tanto: quem sabe, ficaremos sabendo de algo por meio dos relatórios a serem enviados aos investidores da Bolsa de Valores. Leia mais. Veja vídeos em comentários. A água em São virou luxo  

 

Lixo acumulado no Rio Tietê no bairro da Ponte Grande em Mogi das Cruzes. Foto: Tatiane Santos
Lixo acumulado no Rio Tietê no bairro da Ponte Grande em Mogi das Cruzes. Foto: Tatiane Santos
Ricardo Bermúdez
Ricardo Bermúdez

Tá chegando a hora da salvação do Nordeste

BRA_OPOVO chuva esperança

Todo o Nordeste depende da chuva. Chuva é vida. No livro Sertões de Dentro e de Fora, escrevi:

XOTE

Chuva é bem
que dura pouco
é ouro
é prata
que corre
para o mar

Quando a chuva
vai embora
seca o rio
seca o chão
seca o verde
de repente
seca tudo
no sertão

 Siham Zebiri
Siham Zebiri

Exclusivamente os industriais da seca permanecem contra a Transposição do Rio São Francisco, que tem o profético nome de Rio da Redenção.

BRA_OPOVO chuva seca

Com a transposição, vamos ter rios e açudes cheios o ano inteiro. E água no imenso de-sertão. Em lugares nunca sonhados.

 Miguel Villalba Sánchez
Miguel Villalba Sánchez

Açudes

O projeto de integração – maior obra de infraestrutura hídrica do Brasil e uma das 50 maiores do mundo – construído em dois eixos (Norte e Leste) para atender um maior número de municípios, propiciando, assim, melhor distribuição de água para o Norte e o Nordeste brasileiro.

Por meio do Eixo Norte, a água será levada para os rios Brígida (PE), Salgado (CE), do Peixe e Piranhas-Açu (PB e RN) e Apodi (RN), garantindo o fornecimento para os açudes Chapéu (PE), Entremontes (PE), Castanhão (CE), Engenheiro Ávidos (PB), Pau dos Ferros (RN), Santa Cruz (RN) e Armando Ribeiro Gonçalves (RN).

Já o Eixo Leste, levará agua para os reservatórios de Areias (PE), Barro Branco (PE) e Poções (PB) e abasteceráos açudes Poço da Cruz, em Pernambuco, e o Rio Paraíba, responsável pela manutenção dos níveis do açude Epitácio Pessoa (PE), também conhecido como Boqueirão. Além disto, está previsto atender as bacias do Pajeú, do Moxotó e do rio Ipojuca, na região agreste de Pernambuco.

tunel

 

tunel 2

tunel 3

tunel 4

tunel dentro

52,2% das obras já foram executadas. Estão em construção, no Eixo Norte com 260 km de extensão, 3 estações de bombeamento, 9 aquedutos, 3 túneis e 17 reservatórios de pequeno porte. Já no Eixo Leste, com 217 km de comprimento, 6 estações de bombeamento, 4 aquedutos, 1 túnel e 14 reservatórios.

O Projeto de Integração do Rio São Francisco faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. Orçado em R$ 8,2 bilhões, o empreendimento prevê recursos de quase R$ 1 bilhão para programas básicos ambientais, o que representa cerca de 11,8% do investimento total. Trata-se do mais significativo volume de investimentos nas questões socioambientais e arqueológicas do semiárido setentrional.

Tais investimentos estão proporcionando conhecimentos aprofundados do bioma caatinga, não só no que se refere à fauna e à flora, mas também em diversos aspectos econômico-sociais, arqueológicos e na melhoria de condições de vida de comunidades indígenas e quilombolas, existentes na área de impacto do projeto.

agua cachoeira

finalmente água

agua 1

água até o fim do mundo

ABC DO NORDESTE FLAGELADO

 

Patativa do Assaré

 

sertanejo

A — Ai, como é duro viver
nos Estados do Nordeste
quando o nosso Pai Celeste
não manda a nuvem chover.
É bem triste a gente ver
findar o mês de janeiro
depois findar fevereiro
e março também passar,
sem o inverno começar
no Nordeste brasileiro.
B — Berra o gado impaciente
reclamando o verde pasto,
desfigurado e arrasto,
com o olhar de penitente;
o fazendeiro, descrente,
um jeito não pode dar,
o sol ardente a queimar
e o vento forte soprando,
a gente fica pensando
que o mundo vai se acabar.
C — Caminhando pelo espaço,
como os trapos de um lençol,
pras bandas do pôr do sol,
as nuvens vão em fracasso:
aqui e ali um pedaço
vagando… sempre vagando,
quem estiver reparando
faz logo a comparação
de umas pastas de algodão
que o vento vai carregando.
D — De manhã, bem de manhã,
vem da montanha um agouro
de gargalhada e de choro
da feia e triste cauã:
um bando de ribançã
pelo espaço a se perder,
pra de fome não morrer,
vai atrás de outro lugar,
e ali só há de voltar,
um dia, quando chover.
E — Em tudo se vê mudança
quem repara vê até
que o camaleão que é
verde da cor da esperança,
com o flagelo que avança,
muda logo de feição.
O verde camaleão
perde a sua cor bonita
fica de forma esquisita
que causa admiração.
F — Foge o prazer da floresta
o bonito sabiá,
quando flagelo não há
cantando se manifesta.
Durante o inverno faz festa
gorjeando por esporte,
mas não chovendo é sem sorte,
fica sem graça e calado
o cantor mais afamado
dos passarinhos do norte.
G — Geme de dor, se aquebranta
e dali desaparece,
o sabiá só parece
que com a seca se encanta.
Se outro pássaro canta,
o coitado não responde;
ele vai não sei pra onde,
pois quando o inverno não vem
com o desgosto que tem
o pobrezinho se esconde.
H — Horroroso, feio e mau
de lá de dentro das grotas,
manda suas feias notas
o tristonho bacurau.
Canta o João corta-pau
o seu poema funério,
é muito triste o mistério
de uma seca no sertão;
a gente tem impressão
que o mundo é um cemitério.
I — Ilusão, prazer, amor,
a gente sente fugir,
tudo parece carpir
tristeza, saudade e dor.
Nas horas de mais calor,
se escuta pra todo lado
o toque desafinado
da gaita da seriema
acompanhando o cinema
no Nordeste flagelado.
J — Já falei sobre a desgraça
dos animais do Nordeste;
com a seca vem a peste
e a vida fica sem graça.
Quanto mais dia se passa
mais a dor se multiplica;
a mata que já foi rica,
de tristeza geme e chora.
Preciso dizer agora
o povo como é que fica.
L — Lamento desconsolado
o coitado camponês
porque tanto esforço fez,
mas não lucrou seu roçado.
Num banco velho, sentado,
olhando o filho inocente
e a mulher bem paciente,
cozinha lá no fogão
o derradeiro feijão
que ele guardou pra semente.
M — Minha boa companheira,
diz ele, vamos embora,
e depressa, sem demora
vende a sua cartucheira.
Vende a faca, a roçadeira,
machado, foice e facão;
vende a pobre habitação,
galinha, cabra e suíno
e viajam sem destino
em cima de um caminhão.
N — Naquele duro transporte
sai aquela pobre gente,
agüentando paciente
o rigor da triste sorte.
Levando a saudade forte
de seu povo e seu lugar,
sem um nem outro falar,
vão pensando em sua vida,
deixando a terra querida,
para nunca mais voltar.
O — Outro tem opinião
de deixar mãe, deixar pai,
porém para o Sul não vai,
procura outra direção.
Vai bater no Maranhão
onde nunca falta inverno;
outro com grande consterno
deixa o casebre e a mobília
e leva a sua família
pra construção do governo.
P – Porém lá na construção,
o seu viver é grosseiro
trabalhando o dia inteiro
de picareta na mão.
Pra sua manutenção
chegando dia marcado
em vez do seu ordenado
dentro da repartição,
recebe triste ração,
farinha e feijão furado.
Q — Quem quer ver o sofrimento,
quando há seca no sertão,
procura uma construção
e entra no fornecimento.
Pois, dentro dele o alimento
que o pobre tem a comer,
a barriga pode encher,
porém falta a substância,
e com esta circunstância,
começa o povo a morrer.
R — Raquítica, pálida e doente
fica a pobre criatura
e a boca da sepultura
vai engolindo o inocente.
Meu Jesus!  Meu Pai Clemente,
que da humanidade é dono,
desça de seu alto trono,
da sua corte celeste
e venha ver seu Nordeste
como ele está no abandono.
S — Sofre o casado e o solteiro
sofre o velho, sofre o moço,
não tem janta, nem almoço,
não tem roupa nem dinheiro.
Também sofre o fazendeiro
que de rico perde o nome,
o desgosto lhe consome,
vendo o urubu esfomeado,
puxando a pele do gado
que morreu de sede e fome.
T — Tudo sofre e não resiste
este fardo tão pesado,
no Nordeste flagelado
em tudo a tristeza existe.
Mas a tristeza mais triste
que faz tudo entristecer,
é a mãe chorosa, a gemer,
lágrimas dos olhos correndo,
vendo seu filho dizendo:
mamãe, eu quero morrer!
U — Um é ver, outro é contar
quem for reparar de perto
aquele mundo deserto,
dá vontade de chorar.
Ali só fica a teimar
o juazeiro copado,
o resto é tudo pelado
da chapada ao tabuleiro
onde o famoso vaqueiro
cantava tangendo o gado.
V — Vivendo em grande maltrato,
a abelha zumbindo voa,
sem direção, sempre à toa,
por causa do desacato.
À procura de um regato,
de um jardim ou de um pomar
sem um momento parar,
vagando constantemente,
sem encontrar, a inocente,
uma flor para pousar.
X — Xexéu, pássaro que mora
na grande árvore copada,
vendo a floresta arrasada,
bate as asas, vai embora.
Somente o saguim demora,
pulando a fazer careta;
na mata tingida e preta,
tudo é aflição e pranto;
só por milagre de um santo,
se encontra uma borboleta.
Z — Zangado contra o sertão
dardeja o sol inclemente,
cada dia mais ardente
tostando a face do chão.
E, mostrando compaixão
lá do infinito estrelado,
pura, limpa, sem pecado
de noite a lua derrama
um banho de luz no drama
do Nordeste flagelado.
Posso dizer que cantei
aquilo que observei;
tenho certeza que dei
aprovada relação.
Tudo é tristeza e amargura,
indigência e desventura.
— Veja, leitor, quanto é dura
a seca no meu sertão

 

 

No Nordeste água tem cheiro e cor. Empresas de abastecimento, privatizadas, vão subir os preços

br_atarde. água barata grande consumidor

A imprensa sempre fala dos preços dos alimentos, e esquece o custo da água engarrafada pelas empresas multinacionais. Quando um litro de água, em garrafa de plástico, está mais caro que a gasolina. Ou um litro de qualquer fruta comprada em uma feira livre. Faça a experiência com a laranja, a melancia, o melão.

BRA_JOBR e quanto custa um litro de água engarrafada em Brasília?

A mania agora é privatizar a água. Na surdina. Privatização hoje tem diferentes nomes: concessão (devia ser Conceição), outorga, parceria e outros me engana que o povo gosta.

Resultado: água mais cara para o povo.

BRA_DN água preço

Escreve Mauri König: “A morte ronda diuturnamente o sertanejo no Semiárido, no lastro das secas que forjam a mais triste e previsível tragédia brasileira. Fustigado pelo desejo de quantificar as perdas humanas, o pesquisador Marco Antônio Villa contou os mortos nas principais estiagens ocorridas no Nordeste entre 1825 e 1985. Chegou a 3 milhões de vítimas, conforme narra em Vida e Morte no Sertão (Ática, 2000)”.

E de 1985 para 2013?

Para não morrer de sede, o nordestino bebe água com cheiro e cor. Ou morre de sede, ou a água mata, e a estatística registra como morte por causa desconhecida.

Doenças          
Cólera
Disenteria
Febre tifóide
Hepatite infecciosa
Febre paratifóide
Gastroenterite
Diarréia infantil
Leptospirose

Por que a água deve ser parte da cesta básica? Leia a série de reportagens Órfãos da Seca de Mauri König. Veja reportagem da Tv Globo:

A seca está afetando a saúde de milhares de brasileiros da Região Nordeste. O repórter Alessandro Torres mostra por quê.

Na estiagem que parece não ter fim, a água quase se esgotou. 40% dos reservatórios do Ceará estão com nível crítico para abastecimento da população. Os moradores de Irauçuba, no sertão, a 150 km de Fortaleza, por exemplo, dependem de um açude que está praticamente seco.

Os moradores que não são atendidos já sentem na saúde as consequências da falta de água tratada para consumir.

O hospital e o posto de saúde precisam do caminhão-pipa para prestar atendimento aos pacientes que chegam com sintomas de contaminação.
“Está vomitando, vomitando, vomitando. Eu dei soro, não sustentou, vomitando e diarréia”, descreve a dona de casa Francisca Sousa Rodrigues.

“Por causa da água de má qualidade acontecem os casos de verminose e diarréias, principalmente em crianças”, aponta a enfermeira Ana Lúcia Pereira Lima.

Sem nada na torneira e sem carro-pipa, os moradores correm para comprar a pouca água que chega em caminhões até a cidade.

“Cada dia é de uma pessoa diferente, ninguém sabe nem de onde é que eles trazem”, diz a aposentada Neide Brito de Araújo.

“Quantos já hoje correram atrás de mim por mil litros de água, por 200, por tamborzinho de 50 litros, 20”, fala o comerciante Francisco Salomão Bastos.

“Está com quase uma hora que eu procuro água e não encontro. Tem dinheiro, mas não tem água pra comprar”, lamenta o desempregado Francisco das Chagas Lopes.

E quem não tem nem o dinheiro recorre aos vizinhos. Mas a água, que não é paga, pode custar a saúde.

“A gente cedeu água para eles, mas é um cacimbão que fica bem próximo ao esgoto, então nós não temos nenhuma qualidade e também não nos responsabilizamos por nenhum dano que a água causar”, diz a professora Osília Rodrigues Lima dos Santos.

“É o jeito usar porque não tem outra. É ruim, mas tem que aproveitar ela, né?”, fala o operário Vandecarlos Alves da Silva.

“A gente usa para tomar banho, às vezes até para beber também. Passa mal, faz mal às crianças, mas a gente não tem dinheiro para comprar todo dia”, diz a dona de casa Lucivânia Lopes dos Santos. Veja vídeo

Falta água engarrafada na cesta básica

Pela leitura da série de reportagens de Mauri König (vide tags), o Brasil deveria incluir a água engarrafada na cesta básica.

Para ONU, a água é alimento.

Informa a Wikipedia: Cesta básica é o nome dado a um conjunto formado por produtos utilizados por uma família durante um mês. Este conjunto, em geral, possui gêneros alimentícios, produtos de higiene pessoal e limpeza.

Não existe um consenso sobre quais produtos formam a cesta básica sendo que a lista de produtos inclusos pode variar de acordo com a finalidade para a qual é definida, ou de acordo com o distribuidor que a compõe. Há leis em alguns estados brasileiros que proporcionam isenção de impostos sobre produtos da cesta básica definida por cada um deles.

No Brasil, o DIEESE utiliza a Cesta Básica Nacional, ou Ração Essencial Mínima, composta de treze gêneros alimentícios com a finalidade de monitorar a evolução do preço deles através de pesquisas mensais em algumas capitais dos estados brasileiros. A quantidade dos gêneros na cesta varia conforme a região.

Os produtos desta cesta básica são (lista da Wikipédia):

Carne (enlatada), leite (em pó), feijão, arroz, batata, farinha, café (em pó), pão (francês ou de forma), açúcar, óleo (ou banha), manteiga, frutas (banana, maçã).

Manteiga nunca vi em nenhuma cesta. Nunca existe pão, e sim bolacha mofada. Maçã é exagero. É fruta importada. Tomate só se for enlatado.

Falta o fubá, o pão do índio. Hoje o milho é plantado nos latifúndios para ser exportado para os Estados Unidos fabricarem álcool.

Nos supermercados (as grandes redes são estrangeiras), o pacote da cesta básica fica sempre em baixo de alguma prateleira, e a maioria dos produtos com data vencida.

Antônia da Silva, de Canindé, equilibra-se com panela d´água na cabeça
Antônia da Silva, de Canindé, equilibra-se com panela d´água na cabeça

No Diario do Nordeste, Karoline Viana traça o mapa da seca no Ceará: Mesmo nos centros urbanos, onde há abastecimento, a situação não é melhor. Na sede de Parambu, quem pode compra água de caminhões que chegam carregados de Baixa do Poço, na divisa entre o Ceará e o Piauí. A dona de casa Francisca Gonçalves de Lima Leite diz que a água da torneira é muito salobra.

“Muita gente fica com dor nas urinas por causa dessa água. Eu mesma não tomo porque tenho gastrite, o jeito é comprar de fora”. Em Aiuaba, a água que sai das torneiras é ainda pior, com cheiro forte e coloração semelhante a de chá. Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Aiuaba, Francisco Jailson de Castro Feitosa, parte do esgoto das comunidades de Barra e Bonomi cai no rio e chega no Açude Benguê, que abastece a cidade.

Na comunidade de Batoque, a 20km de Caridade, os 52 alunos da Escola João Beres dos Santos tomam a água salobra de um poço, enquanto logo ao lado há uma caixa d´água sem funcionar. “Terminaram a obra há quatro meses, mas o projeto não foi concluído. Agora os canos ressecaram porque deixaram expostos ao sol”, comenta o professor Antônio Iranildo Freitas Silva.

Já as crianças que estudam na Creche Criança Esperança, em Tejuçuoca, precisam trazer de casa a água para beber. Em cada garrafinha, etiquetada com o nome do aluno, há água de colorações diversas: barrenta, amarelada, quase limpa, meio suja. Há um dessalinizador, mas está quebrado.

A aposentada Margarida Freitas chora diante da falta de água em Catitu de Cima (Pacoti). Os poços estão secando e não há açude
A aposentada Margarida Freitas chora diante da falta de água em Catitu de Cima (Pacoti). Os poços estão secando e não há açude
Em Tauá, cacimbão é cavado %22no braço%22 pelos moradores da região. A areia retirada influencia na qualidade da água
Em Tauá, cacimbão é cavado %22no braço%22 pelos moradores da região. A areia retirada influencia na qualidade da água
Luís Venerando Sobrinho mostra a água, de aparência leitosa. O recurso é consumido depois de coado em um pano
Luís Venerando Sobrinho mostra a água, de aparência leitosa. O recurso é consumido depois de coado em um pano

Nordeste. Estiagem afeta cultura da vaquejada

por MAURI KÖNIG

Prova de vaquejada em Cabrobó no sertão do estado de Pernambuco Alexandre Mazzo
Prova de vaquejada em Cabrobó no sertão do estado de Pernambuco Alexandre Mazzo

Seca histórica mata o gado no semiárido e começa a faltar animais para a secular tradição dos sertanejos. Eventos estão sendo cancelados

No final do século 18, o gado passou a ser criado solto nas matas dos sertões do Brasil, dando origem à figura do peão encarregado de recolher o rebanho dos coronéis. Desse ofício derivou a vaquejada, atividade recreativa-competitiva com um século de tradição. Hoje o Nordeste tem 110 parques de vaquejada, fora as raias em propriedades rurais no sertão. É justamente nesses pontos mais remotos que a tradição está por um fio devido ao flagelo da seca que dura três anos. Está faltando boi para a disputa, mortos pela sede e pela fome.

Ronaldo Ramos Reis, o Ronaldo Galo, de 59 anos, organiza vaquejadas há 30 anos em Coração de Jesus, cidade de 26 mil habitantes no Norte de Minas Gerais. Seus últimos sete circuitos tiveram 15 eventos por ano, e a final de 2012 reuniu 40 mil pessoas na vizinha São João da Lagoa. O oitavo circuito foi cancelado. Até estava dando para driblar as exigências dos Bombeiros e as pressões dos protetores dos animais, mas a chuva deixou de comparecer. “A seca atinge todos os segmentos da área rural, e a vaquejada é rural”, explica Ronaldo.

O sertanejo ainda buscou meios para manter a tradição. Reduziu de 10 para 7 metros a raia até o ponto em que o gado tem de ser tombado pelo rabo, extensão proporcional ao tamanho do boi, minguado em tamanho e quantidade. Mas os rebanhos estão cada vez mais sendo vendidos ou abatidos antes do tempo por causa da estiagem. As prefeituras do Norte de Minas, que sustentam a vaquejada, veem seus cofres esvaziarem na mesma proporção dos reservatórios de água. “Por insistência e paixão de alguns que têm mais condições, vão acontecer cinco vaquejadas neste ano, se acontecerem”.

Estratégia onerosa

Em Cabrobó, cidade de 30 mil habitantes na região mais árida de Pernambuco, a 600 km da capital Recife, sedia 12 vaquejadas por ano em pequenas e médias propriedades rurais. Por causa da falta de gado, uma delas deixou de ser realizada ano passado e outra foi suspensa neste ano. Fabrício Barros dos Santos, de 36 anos, que em março organizou sua sétima festa, diz que em 2012 não encontrou boi forte o suficiente para a vaquejada. Neste ano ele teve de recorrer a uma estratégia bastante onerosa para manter a tradição herdada do bisavô.

Antes da seca, pecuaristas da região emprestavam parte do rebanho para a organização do evento. Desta vez, Fabrício teve de recorrer ao rebanho da Ilha de Assunção, uma reserva indígena dentro do Rio São Francisco, em Cabrobó. Os índios trucás estão alugando as terras com pasto para pecuaristas de muitas cidades do Polígono da Seca. A ilha de 3,5 mil habitantes e 5.700 hectares se tornou a UTI do gado que está morrendo de fome e de sede. A vaquejada foi realizada dia 13 de março, mas a experiência não foi muito promissora.

Fabrício e o sócio Paulo Reginaldo alugaram 50 cabeças a R$ 80 cada uma. Entre aluguel de bois, custo de transporte e de pessoal, mais a premiação aos vencedores, a organização gastou R$ 12,8 mil dos R$ 15 mil arrecadados. Um resultado pífio para dois meses de trabalho. Além de desmotivar outro evento, o perfil do gado também compromete a qualidade da vaquejada. O boi da caatinga é mais arisco, o que tornava a prova mais difícil. “Se a gente continuar, só mesmo pra reunir os amigos e pra manter a tradição. Mas é difícil”, diz Fabrício.

Ilha do Rio São Francisco vira a UTI do gado

A Ilha de Assunção, uma das maiores do Rio São Francisco, tinha até recentemente o cultivo de arroz, feijão, cebola, goiaba, coco, maracujá e banana como principal atividade produtiva. Mas a seca que há três anos castiga o semiárido brasileiro mudou o perfil da ilha dos índios trucás, de 3,5 mil habitantes. Essa rara mancha verde no Polígono da Seca, com seus 5.700 hectares cercados por água, tornou-se a UTI do gado que está morrendo de fome e de sede nos arredores de Cabrobó (PE), um dos núcleos de desertificação no Brasil.

Pela ponte estreita que leva à ilha passam os caminhões com boiadas esquálidas vindas de muitas cidades do sertão pernambucano. Os índios passaram a alugar suas terras a pecuaristas desesperados com as perdas de rezes, cujas carcaças se multiplicam em meio à caatinga. Um deles é Joseílson Ramos dos Santos, 45 anos. Dono de 16 hectares em Parnamirim (PE), perdeu 11 das 30 cabeças de gado por inanição.

Joseílson vendeu dois bois pela metade do preço e levou os 17 sobreviventes para a UTI do Rio São Francisco. Alugou dois hectares de pasto por R$ 2 mil e pagou R$ 400 pelo transporte até a ilha, distante 75 quilômetros. Ao desembarcar o gado, mês passado, notou que Carinhosa, a mais velha do rebanho, estava desmantelada na carroceria. A fome cobrava as últimas forças do xodó da família.

Joseílson recorreu então a uma engenhoca muito recorrente no sertão para animais à beira da morte. O equipamento é basicamente o mesmo em todo lugar, feito com estacas de madeira, cordas e saco de nylon. O propósito é ajudar o gado a se manter de pé, pois se ficar prostrado morre logo.

Joseílson fincou as estacas, aprumou as cordas e pediu ajuda para suspender Carinhosa. Um morador da ilha sugeriu inovações. Eles cavaram sob uma árvore um buraco profundo e largo o suficiente para caber as pernas do animal e instalaram as estacas ao redor, de modo a mantê-la suspensa por cordas com os membros inferiores metidos na cavidade. O sobrinho, Éverson, de 11 anos, ajuda a dar água e comida na boca de Carinhosa. Ela passou a responder bem aos cuidados.

A família de Joseílson teve de dar uma cota extra de sacrifício para tentar salvar o parco rebanho, único patrimônio depois de a seca fustigar o plantio de milho, feijão e algodão. Ele foi com os filhos de 18 e 19 anos para cuidar do gado na ilha, enquanto a mulher ficou em Parnamirim com o menino de 16 e a menina de 14 anos. A família teve de se dividir na esperança de saldar as dívidas, cujo valor a vergonha impede Joseílson de revelar.

Sobrevivência
Fustigado pela estiagem, sertanejo se vê entre a doença e a dependência

Salgueiro (PE), a 520 quilômetros de Recife, é o retrato da dependência governamental em decorrência da seca prolongada. O município de 57 mil habitantes, cuja economia está centrada na agricultura, tem três mil produtores rurais mantidos por programas oficiais de transferência de renda. São 1.478 agricultores recebendo o Garantia Safra, no valor de R$ 760 anuais divididos em parcelas, e outros 1.500 auxiliados pelo Bolsa Estiagem, de R$ 80 por mês.

O Bolsa Estiagem começou a ser pago pelo governo federal em junho do ano passado e atendeu 880,6 mil pessoas, em 1.316 municípios, totalizando R$ 569 milhões. O pagamento é feito em parcelas de R$ 80,00 a agricultores de baixa renda que vivem em municípios atingidos pela seca. Já o Garantia Safra repassou R$ 953,5 milhões a 769 mil agricultores de 1.015 municípios desde 2011.

O benefício destina-se a agricultores que contraíram empréstimo do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e tiveram prejuízo com a estiagem. O valor chega a R$ 1,2 mil, em parcelas que variam de R$ 135,00 a R$ 140,00 mensais. O governo de Pernambuco socorre ainda com o Programa Chapéu de Palha. Seis mil agricultores são beneficiados com um valor mínimo de R$ 100, válido para o período da entressafra que vai de abril a agosto.

A família de João José da Costa, de 66 anos, é uma das beneficiadas com os programas oficiais. Ele vive com a mulher, duas filhas, dois genros e três netos em dois terrenos, de 66 e 39 hectares, onde criam gado e cultivam a terra. João tinha 16 cabeças de gado. Vendeu uma e outras sete morreram. As demais ninguém quis, estavam muito magras. Uma tímida chuvinha em janeiro animou, e ele plantou milho e feijão. Perdeu tudo. Teve de se contentar com o Seguro Safra e Chapéu de Palha. Ele e a mulher são aposentados rurais.

A filha, Neuza, recebe o Bolsa Família. O marido dela, Pedro Expedito da Cruz, de 44 anos, foi diagnosticado com depressão e não pode trabalhar. Vítima da seca, passou a manifestar problemas neurológicos decorrentes das sucessivas perdas agrícolas causadas pela estiagem. Ele, a mulher e os três filhos passaram a ficar dependentes do Seguro Safra e do Chapéu de Palha.

O outro genro de João, Joaquim Josias Gomes, não teve igual sorte. Ele fez o cadastro no Garantia Safra, pagou a taxa de R$ 9,50 há dois meses, mas ainda não teve resposta. Antes, havia feito inscrição no Bolsa Família, mas não pôde receber o benefício porque tinha uma moto em seu nome. A moto, no entanto, não é um luxo. É o único meio de locomoção da família até a cidade, distante 14 quilômetros, a maior parte em estradas de terra.

Socorro
Fundo constitucional garante R$ 2,7 bilhões de ajuda ao semiárido

Por meio do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), o governo federal oferta crédito com juros baixos para agricultores familiares, produtores rurais e pequenas e médias empresas das regiões afetadas pela seca. Desde maio de 2012, foram contratadas 300 mil operações pelas linhas emergenciais de crédito, no valor de R$ 2,4 bilhões. O apoio chegou a produtores de mais de 1,3 mil municípios do semiárido. O Tesouro Nacional fará, ainda, um aporte adicional de R$ 350 milhões de recursos do FNE para as linhas de crédito emergenciais, elevando os valores para R$ 2,75 milhões. A medida vai assegurar a continuidade da assistência de crédito com juros baixos para produtores rurais afetados pela seca.

FOTOS: Veja slideshow da seca no Nordeste

Diáspora da seca redesenha o Brasil

por MAURI KÖNIG

Abandono do Semiárido começou há dois séculos, na época do Império. Nordestinos fugiam para o Sudeste ou eram levados para desbravar outras regiões do país. Foto Alexandre Mazzo
Abandono do Semiárido começou há dois séculos, na época do Império. Nordestinos fugiam para o Sudeste ou eram levados para desbravar outras regiões do país. Foto Alexandre Mazzo

A seca, realidade sempre presente no Semiárido brasileiro, tem como consequên­cias diretas a fome, a desnutrição, a miséria, a morte, o êxodo rural. Toda essa tragédia, em boa medida, forjou uma nova geopolítica nacional com base em uma diáspora imposta pela intolerância da seca. A despeito das glórias do passado, do seu papel na construção do país, o Nordeste de hoje se tornou um bode expiatório para aqueles que discursam sobre o desperdício do dinheiro público na sua recuperação. Mas é preciso pôr na balança o que o Nordeste já fez.

FOTOS: Veja slideshow da seca no Nordeste

O Nordeste foi a região mais rica e povoada do território brasileiro nos três séculos seguintes ao Descobrimento. Centro da produção açucareira até o fim do século 19, a queda dos preços do açúcar e do algodão fez a economia estagnar. Embora a água fosse escassa, antes a terra vasta e plana fez do sertão grande produtor de gado, levando carne e couro para toda a Colônia no século 17. A seca, sempre presente, foi agravada pela ocupação irregular do solo e a devastação da natureza. Desde o Brasil Colônia nunca houve políticas públicas para a região.

A seca de 1791 a 1793 tornou a vida mais difícil. A vegetação não se recuperou. A seca de 1877 a 1880 piorou o cenário, e se criou o conceito de retirante, o sertanejo que deixa sua terra para escapar dos efeitos da estiagem. Pela primeira vez o governo tentou uma política de salvação para o sertão: dom Pedro II importou camelos do Saara. Porém, as raízes do problema eram mais profundas. Em número quase quatro vezes maior do que a população de Fortaleza, os proscritos da seca ocuparam a capital do Ceará. O resultado foram epidemias, fome, saques e crimes.

Evasão em massa

À época começaram os primeiros movimentos migratórios significativos. O Ceará tinha 800 mil habitantes, dos quais 120 mil emigraram para a Amazônia e 68 mil se dirigiram a outros estados. Outra grande seca assolou a região em 1915. Para evitar nova invasão a Fortaleza, os governos estadual e federal criaram campos de concentração na periferia das grandes cidades para recolher os flagelados. Nova seca catastrófica em 1932, e outra vez foram sete os campos de concentração no Ceará, encarcerando 105 mil retirantes, recrutados para trabalhar de forma compulsória nas obras públicas.

Nas secas seguintes, os governos desistiram dos campos de concentração e começaram a estimular o sertanejo a abandonar suas terras. Passaram a planejar a migração maciça para o Oeste, de forma a povoar os sertões do Mato Grosso, num movimento migratório conhecido como Marcha para o Oeste.

Até o século 19, cinco entre dez brasileiros viviam no Nordeste, proporção que caiu para quatro entre dez no início da década de 1990, embora ali a taxa de natalidade seja maior do que no restante do país. O Censo de 1950 verificou que mais de 2 milhões de nordestinos haviam migrado para outras regiões do país. Entre 1950 e 1980, as grandes metrópoles do Sudeste tornaram-se o destino da maioria dos retirantes. Hoje, 12% da população da cidade de São Paulo é composta por migrantes nordestinos.

Conviver com a seca, a palavra de ordem

Não se pode combater a seca porque, como fenômeno natural, ela sempre se repete. O que se pode fazer é conviver com as condições climáticas. “Essa é a palavra, convivência”, diz o agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco João Suassuna. Tecnologia existe, mas nada aproveitada. Suassuna indica duas alter­­nativas mais prudentes como alternativa econômica para o Semiárido.

A primeira, criar gado adap­­tado à condição de seca. A Paraíba está tendo bons resultados com bois das raças guzerá e sindi, oriundas dos desertos da Índia e do Paquistão. Em grande escala, pode-se repetir o sucesso dos caprinos e ovinos, que se adaptaram bem ao clima do Nordeste desde sua chegada à época da colonização. O alimento para os rebanhos pode vir da segunda alternativa: plantas adaptadas ao meio para servir de forragem.

Há uma tecnologia de plantio adensado de palma, com alto ganho de produtividade. O bioma caatinga tem plantas que ao longo das eras se adaptaram à aridez, desenvolvendo meios de reserva de água para os períodos secos. Na caatinga há plantas produtoras de látex, mel, fibra, energia (para queimar como lenha) e alimento para o gado.

“Temos de fazer um extrativismo sustentável das plantas que existentes no bioma”, diz Suassuna. Mas ele observa com pesar o desperdício desse potencial. “A tristeza é que sabemos que conhecemos pouco esse bioma e o estão destruindo”. No extremo de Pernambuco fica a maior mina de gipsita do mundo. Para extrair o gesso é preciso calfinar o mineral, queimá-lo em fornalhas. Para isso, estão usando a caatinga. “Está virando carvão, estão acabando com um bioma que pouco se conhece.”

A família de Josafá Pereira dos Santos, 47 anos, tenta se adaptar ao meio. Ao todo, 15 pessoas viajam de carroça três quilômetros todos os dias de Mirandiba até Angico Verde (PE) para trabalhar. Carregam água em baldes para irrigar os pés de feijão e macaxeira.

Josafá Pereira dos Santos e sua família voltando depois de um dia de trabalho Mirandiba-Pernambuco Foto Alexandre Mazzo
Josafá Pereira dos Santos e sua família voltando depois de um dia de trabalho Mirandiba-Pernambuco. Foto Alexandre Mazzo

 

Tragédia brasileira
Intermitências da seca provocaram a morte de 3 milhões de nordestinos

A morte ronda diuturnamente o sertanejo no Semiárido, no lastro das secas que forjam a mais triste e previsível tragédia brasileira. Fustigado pelo desejo de quantificar as perdas humanas, o pesquisador Marco Antônio Villa contou os mortos nas principais estiagens ocorridas no Nordeste entre 1825 e 1985. Chegou a 3 milhões de vítimas, conforme narra em Vida e Morte no Sertão (Ática, 2000). Só a seca de 1877-1879, a mais terrível, dizimou 4% da população nordestina à época.

O saldo de mortos se deu, em grande medida, ao imobilismo das autoridades públicas, numa demonstração de negligência, violência, corrupção, manipulação e clientelismo. Villa reconstituiu o contexto e conjunturas para retratar os efeitos das secas sobre a economia regional, o fenômeno das migrações orientadas pelos governos, a indústria da seca, os saques perpetrados por retirantes desesperados, as epidemias, frentes de trabalho de caráter puramente assistencialistas.

Realidade ou ficção?
Vida do sertanejo em meio à aridez abasteceu a literatura nacional

Há realidades que, de tão inverossímeis, só a ficção para melhor explicá-las. A seca no Semiárido brasileiro, por exemplo, abasteceu a literatura mundial de grandes escritores. À literatura se incorporou a fase do ciclo das secas, tamanho o volume de romances que tinham como tema central a estiagem e a vida no sertão. José de Alencar (1876) inaugurou a série com a publicação O sertanejo, e o período se estendeu até a primeira década do século 20.

São três os personagens principais da literatura do ciclo das secas: o cangaceiro, o beato e o retirante. Nenhum livro desse período teve tanta influência quanto Os sertões, uma obra que mistura sociologia, literatura e reportagem de guerra, escrita por Euclides da Cunha. Numa clara admiração pelo sertanejo, o escritor buscou retratar sua resiliência com os rigores da natureza e carregou nas críticas ao governo federal pelo desprezo no tratamento dispensado a essa gente.

Outros escritores consagrados dedicaram seu talento literário a retratar a vida do sertanejo.

Publicado in

Gazeta do Povo

Jornal de Londrina

Gazeta Maringá