Água para todos, defende o Papa

«A água é o elemento mais essencial para a vida, e da nossa capacidade de a preservar e partilhar depende o futuro da humanidade», afirmou o Papa Francisco no Angelus de domingo 22 de Março, dia mundial da água, promovido pelas Nações Unidas. O Pontífice encorajou «a comunidade internacional a vigiar a fim de que as águas do planeta sejam adequadamente protegidas e ninguém seja excluído ou discriminado no uso deste bem, que é um bem comum por excelência». E citou a propósito as palavras que são Francisco de Assis dedicou à água no Cântico do irmão Sol. Sucessivamente, Francisco anunciou a distribuição aos fiéis presentes na praça de São Pedro de cinquenta mil cópias de uma edição de bolso do Evangelho, renovando a iniciativa promovida também por ocasião da quaresma do ano passado.

 

“Queremos ver Jesus”

 

Neste V Domingo da Quaresma, o Santo Padre referiu o Evangelho de S. João que nos propõe o pedido de alguns gregos ao Apóstolo Filipe que queriam ver Jesus.

Presente na cidade santa de Jerusalém para as festividades da Páscoa, Jesus foi acolhido festivamente pelos simples e humildes. Estão também presentes na cidade os sumo sacerdotes e os chefes do povo que querem eliminar Jesus porque consideram-no perigoso e herético – afirmou o Santo Padre. Aqueles gregos tinham curiosidade de ver Jesus.

“Queremos ver Jesus; estas palavras, como tantas outras nos Evangelhos, vão para além do episódio particular e exprimem qualquer coisa de universal; revelam um desejo que atravessa as épocas e as culturas, um desejo presente no coração de tantas pessoas que sentiram falar de Cristo, mas não o encontraram.”

O Papa Francisco apontou a resposta profética de Jesus ao pedido de encontro que lhe é feito: “Chegou a hora de o Filho do Homem ser glorificado”.

É a hora da Cruz – frisou o Papa que recordou ainda a seguinte frase da profecia de Jesus que nos fala do “grão de trigo” que caído na terra morre e dá muito fruto.

A morte de Jesus, efetivamente, é uma fonte inesgotável de vida nova – afirmou o Santo Padre que exortou os cristãos a oferecerem três coisas àqueles que querem ver Jesus nos dias de hoje: o evangelho, o crucifixo e o testemunho da fé:

“O Evangelho, o crucifixo e o testemunho da nossa fé, pobre mas sincera. O Evangelho: ali podemos encontrar Jesus, escutá-Lo, conhecê-Lo.           O crucifixo: sinal do amor de Jesus que se deu a si próprio por nós.             E depois uma fé que se traduz em gestos simples de caridade fraterna. Mas principalmente na coerência da vida.”

Depois da recitação do Angelus, o Papa Francisco referiu a comemoração neste domingo do Dia Mundial da Água, e encorajou a comunidade internacional a estar vigilante na preservação deste bem comum, tendo recordado, em particular, o Cântico do Irmão Sol de S. Francisco de Assis.

 

Irmão Sol, Irmã Lua (Fratello sole, sorella luna), do diretor Franco Zeffirelli. O filme de 1972 conta a trajetória
Irmão Sol, Irmã Lua (Fratello sole, sorella luna), filme do diretor Franco Zeffirelli, 1972, cena em que São Francisco recebe Santa Clara como itmã
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. São Francisco de Assis e Santa Clara Autor Josefa de Óbidos Data1647 Técnicaóleo sobre cobre Dimensões	25,5 cm × 34,5 cm Localização	Colecção Particular São Francisco de Assis e Santa Clara' é um óleo sobre cobre da autoria de pintora Josefa de Óbidos. Pintado em 1647 e mede 25,5 cm de altura e 34,5 cm de largura.1
São Francisco de Assis e Santa Clara é um óleo sobre cobre da autoria de pintora Josefa de Óbidos. Pintado em 1647, e mede 25,5 cm de altura e 34,5 cm de largura.

 

Cântico do Irmão Sol

 

Altíssimo, onipotente, bom Senhor
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a benção.
Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar
Louvado sejas, meu Senhor
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo, é a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste as claras
E preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor
Pela irmã Água,
Que é muito útil e humilde
E preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite,
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.
Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.
Bem-aventurados os que as sustentam em paz,
Que por Ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.
Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes à tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!
Louvai e bendizei ao meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade.

 

 

 

 

Invisíveis porque demasiado visíveis

por Giulia Galeotti/ Osservatore Romano

Fotos de Lee Jeffries

lee_jeffries_revisited_by_ronmonroe-d6772t2

Invisíveis porque demasiado visíveis. Presenças, cada vez mais constantes no nosso panorama urbano, que vivem silenciosamente abandonadas às margens das ruas que percorremos todos os dias. Que nos incomodam porque é mais fácil enviar dinheiro aos pobres da África que superar a tentação de desviar o olhar daqueles leitos que contêm os restos da nossa indiferença. Cada um de nós tem a sua culpa por ter tentado expulsar o grito de solidão, de desolação e embrutecimento que provém, mudo, destas pessoas. Dos corpos consumados e provados dos desabrigados, sem casa nem família, dos rostos fechados em si mesmos, completamente sós. Parece que são impermeáveis a tudo, e no entanto não é difícil perceber o coração esmagado pelo sofrimento de quem sabe que vive e morre ao nosso lado com a nossa mais total indiferença.

Apesar de tudo há pessoas que tentam fazer alguma coisa. Na França uma mulher e um homem escolheram viver com eles, partilhando literalmente a sua existência: Colette Gambiez e Michel Collard. Desejando conhecer deveras estas pessoas, tornaram-se mendigos, enfrentando a luta diária contra frio, fome, rejeição, solidão e abandono para tentar construir uma comunidade e traçar um caminho juntos.

A história dos anos vividos com os desabrigados em 1998 tornou-se o livro Quand l’exclu devient l’élu, vie partagée avec les sans-abri, que agora foi traduzido em italiano (Sulla strada, Roma, Castelvecchi, 2013). São páginas que nos imergem neste mundo distante de nós embora tão próximo: o mundo das mulheres e dos homens-sombra, que vivem em papelão, remexendo o lixo, dormindo nas calçadas e nos corredores do metropolitano.

Collard teve contacto com esta realidade através de uma associação de voluntariado na qual permaneceu por cinco anos, antes de tomar a decisão de partilhar integralmente a vida dos desabrigados. Estávamos em 1983. Nove anos depois Collard prosseguiu o seu caminho com Gambiez, enfermeira fundadora da comunidade Magdala (a favor dos desabrigados), que se tornou sua esposa. Juntos abandonaram tudo para partilhar a vida dos mais pobres. Por detrás da sua escolha estava o desejo de seguir o exemplo de são Francisco, para compreender e amar, interpelar a si mesmos e a Igreja, na convicção de que precisamente nisto é possível o encontro com Deus.

O coração da sua experiência é exactamente o que não gostaríamos de ouvir: «Mais do que o pão é preciso oferecer uma relação fraterna, isto é, recíproca». De facto, a verdadeira infelicidade de quem vive na rua está na dor dilacerante da falta do encontro.

Graças à escolha de Collard e Gambiez, ouvimos quem nos conta a verdade desta vida, as histórias, as dores, os sonhos. Existem dificuldades concretas: quem dorme todas as noites numa cama não consegue imaginar no que consiste a vida de uma pessoa cujo corpo nunca se distende bem, mas está sempre contraído e encolhido. Há a violência sofrida e provocada, que é o pão de cada dia dos pobres. Há a inadaptação, às vezes a loucura; para o homem que sente queimar dentro a própria falência, refugiar-se no imaginário pode ser a única saída para sobreviver.

São situações rápidas e mortíferas como a areia movediça para as quais é necessária uma ajuda diária ampla, muito além do limite da inserção formal. «Para alguns a reinserção já se tornou quase impossível. Então procuremos promover actividades que os tirem do estado meramente vegetativo. A ideia é criar lugares comunitários como as comunidades da Arca», explicam os autores do livro.

Demonstração de uma realidade que une as sociedades mais distantes, as vidas narradas por este surpreendente casal francês encontram parecenças concretas nas imagens de Lee Jeffries, fotógrafo autodidata, contabilista de profissão, que passou os últimos anos nas ruas de Roma, Los Angeles, Paris, Miami, Nova Iorque, Las Vegas e Londres. Não se reconhecem os lugares mas só a dimensão pessoal: são retratos em branco e preto de olhares e rostos de homens, mulheres e crianças unidos pelas dificuldades e pelo sofrimento, mas que brilham de vida.

lee jeffries

Não são imagens feitas à traição, mas retratos fruto do encontro, construído pelas ruas das cidades. Entre luz e sombra, enquadramentos sóbrios sobre fundos monocromáticos escuros, as imagens restituem olhos terrivelmente vivos, brilhantes, lúcidos, arregalados pela surpresa, que choram e olham para o céu, olhos vendados e cegos, olhos enormes e olhos que são fendas. Muitas barbas, lágrimas, muitíssimas rugas. E mãos. Mãos que suplicam, riem, desesperam-se, imploram, rezam, escondem, mãos que fumam, mãos postas sobre o ventre. Crianças que se dão as mãos.

lee-jeffries26-550x549

lee jeffries2

Belém: Terra do Pão

por dom Demétrio Valentini

 

 

Julio Carrión Cueva
Julio Carrión Cueva

Estamos chegando ao Natal de 2013. É o primeiro sob o Papa Francisco. Ainda temos bem presente o impacto positivo, causado no final do conclave, com a dupla surpresa: a escolha de um cardeal que ninguém imaginava, junto com a escolha do nome Francisco.

Esta dupla surpresa abriu logo um amplo espaço de projeção de expectativas, que foram se confirmando. Como o Francisco de Assis, o agora “Francisco de Roma” também se defronta com o desafio de renovar a Igreja de Cristo, e de retornar à vivência dos valores evangélicos.

Foi dentro deste contexto, que São Francisco teve a ideia de celebrar o Natal reproduzindo o cenário de Belém, de onde resultou o “presépio”, que acabou entrando na tradição cristã.  Hoje não se celebra o Natal, sem um presépio, por simples que seja.

Pois bem, estas circunstâncias nos chamam a atenção para conferir como vai ser este Natal, com um nome que sintetiza bem dois personagens, colocados a serviço da missão de Cristo e da Igreja, o Francisco de Assis e o Francisco de Roma.

Em vista desta sintonia de duas figuras simbolizando os mesmos valores, a Diocese de Jales elaborou sua novena propondo um “Natal com Francisco”.

O “presépio” é fácil de fazer. O mais desafiador é sintonizar com os objetivos que o novo papa vem nos propondo, com surpreendente objetividade e impressionante firmeza.

Uma iniciativa, que encontra respaldo no contexto do Natal, é a campanha contra a fome no mundo, lançada pela Cáritas, e recomendada com particular insistência pelo Papa Francisco.

Assumindo esta iniciativa concreta, em tempos ainda de definição do seu pontificado, resulta clara a intenção de fazer desta campanha contra a fome a inspiração para a Igreja se voltar para a sociedade, e abraçar suas causas importantes.

A fome é expressão da necessidade mais premente de toda pessoa humana. Todos temos absoluta necessidade de comer, para viver. A fome se torna símbolo das necessidades, que precisam ser atendidas para garantir um mínimo de dignidade humana.

O bispo emérito de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, referindo-se ao debate sobre valores relativos e valores absolutos, com sua verve costumeira sentenciou: “só Deus é absoluto, e a fome!”

Concordamos com Dom Pedro, se entendemos que a fome dispensa qualquer discussão ou justificativa. Ela precisa ser atendida, e não pode esperar.

Nestes dias de Natal nos encantamos com os gestos proféticos do Papa Francisco, aproximando-se dos mendigos de Roma.

Estes gestos sinalizam o compromisso do combate à fome, que precisa ser colocado de maneira absoluta, pela Igreja e pela sociedade. Até o nome da cidade onde Jesus nasceu lembra o alimento mais necessário e mais universal.

Belém significa “terra do pão”. Que o Natal nos ensine de novo o gesto da partilha do pão, como fez Jesus, saciando as multidões. Assim o Natal será, certamente, mais feliz, para todos!

Quem tem medo de Julia Colle, uma jovem mártir que amava os irmãos bichos protegidos de São Francisco de Assis e São Roque?

Veja as coisas estranhas que aconteceram em São Roque:

Sábado 9, a casa do dono do Instituto Royal é invadida por falsos policiais fardados e com carros com dísticos militares. Tentaram, inclusive, sequestrar o filho do empresário.

Domingo 10, morre Julia Colle, líder ativista, e mártir da luta em defesa dos direitos dos animais.

Terça 12, o Instituto Royal é novamente invadido por um suposto e violento grupo, que apenas picha um símbolo anarquista.

royal2

 

A página de Julia, na internet, sofre apagão. E aparece uma outra, intitulada “Suicídio ou assassinato”, com feroz censura.

São Roque possui apenas 78 mil habitantes, e nada acontece que não seja do conhecimento de toda cidade. Nesta segunda invasão, depois da morte de Julia, os seguranças contaram 40 mascarados armados de faca. Para a imprensa local afirmaram que sofreram tortura psicológica. Para a imprensa nacional: Foram agredidos e roubados pelos invasores.

De acordo com informações da assessoria de imprensa do Instituto Royal, os ativistas quebraram vários equipamentos, carros da empresa e dos seguranças e levaram cerca de 370 roedores.

Seguranças com carros, e bem pagos.

Não se sabe quantas horas levaram os esfaqueadores para juntar todos os roedores.

O Royal, em São Roque, era um falso laboratório roedor de moedas do governo federal, via Anvisa. Que se desconhece qualquer teste científico realizado. Muito menos, publicado em alguma revista médica. Era uma casa de testes de produtos de beleza.

Testes de medicamentos podem ser realizados em animais e em humanos, notadamente voluntários ou com detentos em cadeias públicas, e eram comuns nos campos de concentração nazistas.

Muito propícia esta segunda invasão para apagar a memória de Julia Colle, cuja morte pretende a imprensa que seja rapidamente esquecida.

Papa Francisco: “O dinheiro destrói! É assim ou não?”

O dinheiro é importante para ajudar o próximo

dinheiro cabeça corrupção

“A ganância, pensar só no dinheiro destrói as pessoas, destrói as famílias e as relações com os outros”. Foi o que disse o papa Francisco na missa da manhã desta segunda-feira, 21 de outubro, na capela da Casa Santa Marta. Comentando o Evangelho do dia, em que um homem pede a Jesus que ajude a resolver uma questão de herança com o seu irmão, o papa falou sobre a relação de cada pessoa com o dinheiro.

“Isso é um problema de todos os dias. Quantas famílias vemos destruídas pelo problema do dinheiro: irmão contra irmão; pai contra filho… E esta é a primeira consequência desse atitude de desejar dinheiro: destrói! Quando uma pessoa pensa no dinheiro, destrói a si mesma, destrói a família! O dinheiro destrói! É assim ou não? O dinheiro é necessário para levar avante coisas boas, projetos para desenvolver a humanidade, mas quando o coração só pensa nisso, destrói a pessoa”.

Ao recordar a parábola do homem rico, Francisco explicou a advertência de Jesus de que devemos nos manter afastados da ambição. “É isso que faz mal: a ambição na minha relação com o dinheiro. Ter mais, mais e mais… Isso leva à idolatria, destrói a relação com os outros! Não o dinheiro, mas a atitude que se chama ganância. Esta ganância também provoca doença… E no final – isso é o mais importante – a ambição é um instrumento da idolatria, porque vai na direção contrária àquela que Deus traçou para nós. São Paulo nos diz que Jesus Cristo, que era rico, se fez pobre para nos enriquecer. Este é o caminho de Deus: a humildade, o abaixar-se para servir. Ao contrário, a ambição nos leva para a estrada contrária: leva um pobre homem a fazer-se Deus pela vaidade. É a idolatria!”, disse o papa.

O encontro dos dois Franciscos em Assis

Papa Francisco em Assis

Ei-lo, portanto, no dia da festa do santo, 4 de Outubro, recomeçar precisamente onde há oitocentos anos Francisco deu início ao seu caminho: a partir de Cristo encarnado no homem sofredor. Para o santo foram os leprosos. Para o Papa Bergoglio, os corpos das crianças assistidas no Instituto  Seráfico de Assis.

Aqui no Seráfico ainda se respira o amor do frade Francisco por cada criatura. E o Papa conhece bem esta riqueza. Por isso, imergiu-se de alma e corpo nesta realidade. O encontro com as crianças teve lugar na capela do Instituto. Deixando de lado o discurso preparado, o Pontífice recolheu e relançou a amargura e a indignação diante de uma sociedade que não sabe reconhecer as chagas de Cristo.

Entretanto, uma pequena multidão reuniu-se diante do santuário de São Damião, onde é venerado o Crucifixo diante do qual pela primeira vez Francisco ouviu o Senhor falar-lhe e recomendar-lhe: «Vai e repara a minha casa». O Papa Francisco meditou prolongadamente diante daquele Crucifixo. Ao seu redor, um silêncio quase irreal, mas deveras eloquente.

No paço episcopal teve lugar talvez o momento mais significativo da sua peregrinação, certamente o mais esperado. Na «Sala da Espoliação», onde são Francisco renunciou à sua riqueza para se oferecer ao Senhor, o Papa propôs a imagem de uma Igreja despojada de toda a mundanidade, da «mundanidade espiritual que mata».

A sala estava cheia de desabrigados assistidos pela Cáritas umbra,  por ex-prisioneiros e por pais de família que com o trabalho perderam tudo, menos a dignidade. Diante deles, o Papa Francisco voltou a pôr de lado o discurso preparado e falou com o coração na mão, como em Cagliari, quando fez o mesmo gesto diante dos operários.

Depois, foi a pé até à vizinha basílica de Santa Maria Maior, a antiga catedral de Assis. Em seguida, retomou a sua peregrinação dirigindo-se de carro até à basílica superior. O Santo Padre desceu primeiro à cripta e ajoelhou-se em recolhimento diante da rocha secular que conserva os despojos mortais do santo. Depois, foi à praça de São Francisco onde presidiu à concelebração eucarística com os oito membros do Conselho de cardeais — que o acompanharam nesta peregrinação — e com os cardeais Bagnasco, Betori e Nicora, com os arcebispos Becciu, substituto da Secretaria de Estado, e  Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia, com os bispos da Úmbria e com numerosos sacerdotes.

A manhã terminou no mais puro estilo franciscano. O Papa Bergoglio  despediu-se dos hóspedes e do seu próprio séquito e, de carro, foi ao centro de primeiro acolhimento situado nos arredores da estação ferroviária de Santa Maria dos Anjos, onde almoçou com os pobres. Ali, todos os dias há uma refeição quente para eles, posta à disposição pela Cáritas umbra. Trata-se de um lugar onde a dificuldade se ameniza com uma refeição frugal, na paz do coração por um calor humano oferecido abundantemente, por um gesto quotidiano que tem um sabor de humanidade. O Papa Francisco sentou-se à grande mesa de madeira  em forma de «L», pondo-se precisamente no canto, de maneira a poder fitar todos nos olhos. Toalha e guardanapos rigorosamente de papel, como todos os dias. Não havia vinho, só a «irmã água». A refeição preparada pela irmã Dina, chefe da cozinha, era a mesma do domingo ou de qualquer dia de festa, com a lasanha preparada por Annarita, como  seu prato forte.

«Uma lição de simplicidade», estava escrito num dos vários cartazes de boas-vindas. E foi o que o Pontífice fez durante esta manhã passada em Assis: deu uma grande lição de simplicidade. E na casa do seu «mestre» Francisco não podia deixar de ser assim.

 do nosso enviado Mario Ponzi/ L’Orsevatore Romano
ITALY-POPE-VISIT-ASSISI
Trechos de sermões do Papa em Assis
“Aqui, Jesus está escondido nesses jovens, nessas crianças, nessas pessoas. No altar, adoramos a Carne de Jesus. Neles, encontramos as chagas de Cristo – que precisam ser ouvidas talvez não tanto nos jornais, como notícias… Esta é uma escuta que dura um, dois, três dias. Devem ser ouvidas por aqueles que se dizem cristãos. O cristão adora e busca Jesus e sabe reconhecer as suas chagas. A Carne de Jesus são as suas chagas nessas pessoas”.
Francisco recordou o luto em toda a Itália, neste dia, por conta da trágico naufrágio em Lampedusa. “Hoje, é um dia de lágrimas. É o espírito do mundo que faz essas coisas”, explicou o papa, que usou palavras fortes para quem se deixa levar por este espírito: “É realmente ridículo que um cristão verdadeiro, que um padre, um freira, um bispo, um cardeal, um papa, queiram percorrer esta estrada do mundo, é uma atitude homicida. O mundano mata, mata a alma, as pessoas, mata a Igreja. Hoje, aqui, peçamos a graça para todos os cristãos. Que o Senhor nos dê a coragem de nos espoliar do espírito do mundo, que é a lepra e o câncer da sociedade, é o câncer da revelação de Deus. O espírito do mundo é o inimigo de Jesus”.

“Paz e Bem!”, começou o papa em sua homilia. Em primeiro lugar, frisou que o caminho de Francisco para Cristo começou do olhar de Jesus na cruz. “O santo se deixou olhar por Ele no momento em que deu a vida por nós e nos atraiu para Ele. Naquele instante, Jesus não tinha os olhos fechados, mas bem abertos: um olhar que lhe falou ao coração”.

:“Quem se deixa olhar por Jesus crucificado fica recriado, torna-se uma nova criatura. E daqui tudo começa: é a experiência da Graça que transforma, de sermos amados sem mérito algum, até sendo pecadores”, prosseguiu.

O papa recordou que quem segue a Cristo recebe a verdadeira paz. “A paz franciscana não é um sentimento piegas, não é uma espécie de harmonia panteísta com as energias do cosmos… Também isto não é franciscano, mas uma ideia que alguns formaram. A paz de São Francisco é a de Cristo, é a de quem assume o seu mandamento: Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei. E este jugo não se pode levar com arrogância, presunção, orgulho, mas apenas com mansidão e humildade de coração”, ressalvou o pontífice, pedindo a São Francisco que nos ensine a ser «instrumentos da paz»”.

Encontro dos Franciscos hoje em Assis

sao_francisco3

O papa Francisco parabenizou todos os italianos no dia do patrono da Itália, o santo homônimo ao Pontífice, em visita a cidade italiana de Assis.

“Rezamos pela Nação italiana, para que cada um trabalhe sempre para o bem comum, olhando mais para aquilo que une que para o que divide”, disse Francisco durante a missa realizada na praça São Francisco.

“Respeitemos cada ser humano, tenham fim os conflitos armados que ensanguentam a terra, que se calem as armas e em qualquer lugar onde existir ódio que dê lugar ao amor, a ofensa ao perdão, e a discórdia à união”.

http://www.youtube.com/watch?v=lXyMhZZy4mg

http://www.youtube.com/watch?v=AOf01NOYHjA

 

Twitter

“O mundanismo espiritual mata! Mata as pessoas! Mata a alma! Mata a Igreja” – #PapaFrancisco #Assis.

“É muito triste encontrar um cristão mundano” – #PapaFrancisco #Assis, hoje.”

“O cristão adora Jesus, procura Jesus, reconhece as chagas de Jesus” – #PapaFrancisco #Assis #Discurso de chegada.

Zapatos sucios. Papa Francisco: De poco sirve emerger de la pobreza si la sociedad deja atrás a multitud de minusválidos y enfermos, drogadictos y presos, maltratados y prostituidos, parados y desposeídos

por Lluís Bassets

Jorge Bergoglio no cuida de sus zapatos. Son los de un cura andariego, poco atento al atildamiento de un príncipe de la Iglesia. Se vio ya en el primer momento, cuando la foto de sus zapatones de papa recién elegido contrastaba con los esmerados mocasines rojos de Benedicto XVI.

No es solo el diablo el que está en los detalles. El papa Francisco lleva su cartera atiborrada de papeles y circula en utilitario, el Ford Focus o el Fiat Idea de las clases medias emergentes, en vez de los Mercedes y BMW de los ejecutivos. Los pastores no tienen remilgos en mezclarse con las ovejas ni en hundir los pies en el barro.

Su mensaje inicial aparece en toda su magnitud en su primer viaje internacional esta pasada semana. Este hombre que escogió como papa el nombre del pobrecillo de Asís quiere una Iglesia pobre y para los pobres. El primer país católico del mundo así lo ha entendido a la primera: no hacen falta muchos teólogos para captar el mensaje.

Brasil es uno de los países emergentes, que va a contar y ya cuenta en el nuevo reparto de poder mundial en el siglo XXI. Su fuerza está en sus clases medias, estas multitudes que están accediendo a costa de sudor y sufrimientos a la educación, la vivienda, la sanidad y el bienestar. Su debilidad, en cambio, en los que quedan en el camino y los que no consiguen subir el peldaño.

A pedir la atención y su cuidado dedica Francisco sus sermones de cura de aldea. De poco sirve emerger de la pobreza si la sociedad deja atrás a multitud de minusválidos y enfermos, drogadictos y presos, maltratados y prostituidos, parados y desposeídos. A ellos ha dedicado sus primeros cien días y sus primeros viajes, el que hizo a la isla de Lampedusa para recabar solidaridad con los inmigrantes tachados de ilegales, y ahora a Latinoamérica, su continente y continente también de los desposeídos.

No los ha dedicado, en cambio, a la moral sexual y reproductiva, donde el conservadurismo católico busca su identidad y su frontera con la sociedad laica, a pesar de que su instalación en el Vaticano ha coincidido con los mayores avances legales del matrimonio entre personas del mismo sexo en Estados Unidos y Francia. ¿Significa eso que Bergoglio está a favor del aborto, del matrimonio gay y de la reproducción asistida? En absoluto: pero sí nos dice con la elección de los temas de su preferencia que considera mucho más importante arrastrar sus zapatos de pastor junto a los parias de la tierra.

Hay euforia en la Iglesia católica con el nuevo Papa. Cosas así no se habían visto desde hace al menos medio siglo, cuando llegó al papado Juan XXIII, el hombre que suscitó la admiración de la filósofa judía y agnóstica Hannah Arendt por el hecho insólito de que un cristiano verdadero alcanzara la sede de San Pedro. ¿Sabían entonces realmente los cardenales a quién habían elegido? ¿Lo sabían ahora?.

Reparem nas 7 diferenças. 1. Mudou o trono dourado por uma cadeira de madeira ... algo mais apropriado para o discípulo de um carpinteiro. 2. Ele não aceitou a estola vermelha bordada a ouro roubada do herdeiro do Império Romano, ou a capa vermelha. 3. Usa mesmos sapatos pretos velhos, não pediu o vermelho clássico. 4. Usa a mesma cruz de metal, nenhuma de rubis e diamantes. 5. Seu anel papal é de prata, não de ouro. 6. Usa sob a batina as mesmas calças pretas, para lembrar-se de que é apenas um sacerdote. Você já descobriu a sétima diferença? 7. Retirou o tapete vermelho, parece que não se interessa tanto pela fama e aplausos.
REPAREM AS SETE DIFERENÇAS:

1. Mudou o trono dourado por uma cadeira de madeira.
2. Ele não aceitou a estola vermelha bordada a ouro, nem a capa vermelha.
3. Usa os mesmos sapatos pretos velhos, não pediu o vermelho clássico.
4. Usa uma cruz de metal, nenhuma de rubis e diamantes.
5. Seu anel papal é de prata, não de ouro.
6. Usa sob a batina as mesmas calças pretas, de quando era apenas um padre.
7. Retirou o tapete vermelho.

Papa Francisco. Por que a imprensa brasileira esconde o discurso de Dilma?

O Papa Francisco e Dilma Rousseff escutam os hinos do Vaticano e do Brasil
O Papa Francisco e Dilma Rousseff escutam os hinos do Vaticano e do Brasil
Francisco quebra protocolo ao beijar Dilma
Francisco quebra protocolo ao beijar Dilma

 

Que disse a presidente Dilma Rousseff que tanto incomodou a imprensa conservadora?

Destaco trechos do discurso:

 

A presença de Sua Santidade no Brasil nos oferece a oportunidade de renovar o diálogo com a Santa Sé em prol de valores que compartilhamos: a justiça social, a solidariedade, os direitos humanos e a paz entre as nações. Conhecemos o compromisso de Sua Santidade com esses valores. Por seu sacerdócio entre os mais pobres, que se reflete até mesmo no próprio nome escolhido como Papa, uma homenagem a São Francisco de Assis, sabemos que temos, diante de nós, um líder religioso sensível aos anseios de nossos povos por justiça social, por oportunidade para todos e dignidade cidadã.

Lutamos contra um inimigo comum: a desigualdade, em todas as suas formas.

Em seu discurso de 16 de maio, Vossa Santidade manifestou preocupação com as desigualdades agravadas pela crise financeira e o papel nocivo das ideologias que defendem o enfraquecimento do Estado, reduzindo sua capacidade de prover serviços públicos de qualidade para todos. Manifestou sua preocupação com a globalização da indiferença, que deixa as pessoas insensíveis ao sofrimento do próximo.

Compartilhamos e nos juntamos a essa posição. Estratégias de superação da crise econômica, centradas só na austeridade, sem a devida atenção aos enormes custos sociais que ela acarreta, golpeiam os mais pobres e os jovens, que são pelo mundo afora as principais vítimas do desemprego. Geram xenofobia, violência e desrespeito pelo outro. O Brasil muito se orgulha de ter alcançado extraordinários resultados nos últimos dez anos na redução da pobreza, na superação da miséria e na garantia da segurança alimentar à nossa população.

A juventude brasileira tem sido protagonista nesse processo e clama por mais direitos sociais: mais educação, melhor saúde, mobilidade urbana, segurança, qualidade de vida na cidade e no campo, o respeito ao meio ambiente. Os jovens exigem respeito, ética e transparência. Querem que a política atenda aos seus interesses, aos interesses da população e não seja território dos privilégios e das regalias. Desejam participar da construção de soluções para os problemas que os afetam.

Os jovens querem viver plenamente. Estão cansados da violência que muitas vezes os tornam as principais vítimas. Querem dar um basta a toda forma de discriminação e ver valorizadas sua diversidade, suas expressões culturais. Tal como em várias partes do mundo, a juventude brasileira está engajada na luta legítima por uma nova sociedade.

IMPRENSA DO EQUADOR
IMPRENSA DO EQUADOR

O novo Papa e a atualidade do espírito de São Francisco

por Leonardo Boff

Lucas Nine
Lucas Nine

Pelo fato de o atual papa ter escolhido o nome de Francisco, muitos voltaram a se interessar por essa figura singular, talvez uma das mais luminosas que o cristianismo e o próprio Ocidente já tenham produzido: Francisco de Assis.

Seguramente, podemos dizer que, quando o cardeal Bergoglio escolheu esse nome, quis sinalizar um projeto de Igreja na linha do espírito de são Francisco, que optou por viver o evangelho puro, ao pé da letra, na mais radical pobreza, numa simplicidade quase ingênua e numa humildade que o colocava junto à terra, no nível dos mais desprezados da sociedade. Nunca criticou o papa ou Roma. Simplesmente, não lhes seguiu o exemplo. Para aquele tipo de Igreja e de sociedade, confessava explicitamente: “Quero ser um ‘novellus pazzus’, um novo louco” – louco pelo Cristo pobre e pela “senhora dama” pobreza, como expressão de total liberdade: nada ser, nada ter, nada poder, nada pretender.
Resistiu o mais que pôde e, no fim, teve que se render à mediocridade e à lógica das instituições que pressupõem regras, ordem e poder. Mas não renunciou ao seu sonho. Frustrado, voltou a servir aos hansenianos, deixando que seu movimento, contra sua vontade, fosse transformado na Ordem dos Frades Menores.

A humildade ilimitada e a pobreza radical lhe permitiram uma experiência que vem ao encontro de nossas indagações: é possível resgatar o cuidado e o respeito para com a natureza?
Francisco mostrou essa possibilidade e sua realização mediante uma prática vivida com simplicidade e paixão. Ao não possuir nada, entreteve uma relação direta de convivência, e não de posse, com cada ser da criação.

QUESTÃO DE RESPEITO

A pobreza e a humildade assim praticadas não têm nada de beatice. Supõem algo prévio: o respeito ilimitado diante de cada ser. Cheio de devoção, tira a minhoca do caminho para não ser pisada, enfaixa um galhinho quebrado para que se recupere, alimenta no inverno as abelhas que esvoaçam perdidas. Ao renunciar a qualquer posse de bens, rechaçando tudo o que poderia colocá-lo acima de outras pessoas e acima das coisas, possuindo-as, emergiu como irmão universal. Foi ao encontro dos outros com as mãos vazias e o coração puro, oferecendo-lhes apenas a cortesia, a amizade, o amor desinteressado, cheio de confiança e ternura.

A fraternidade universal surge quando nos colocamos com grande humildade no seio da criação, respeitando todas as formas de vida e cada um dos seres. Essa fraternidade cósmica, fundada no respeito ilimitado, constitui o pressuposto necessário para a fraternidade humana. Sem esse respeito e essa fraternidade, dificilmente a Declaração dos Direitos do Homem terá eficácia. Haverá sempre violações, por razões étnicas, de gênero, de religião e outras.

Essa sua postura de fraternidade cósmica, assumida seriamente, poderá animar nossa preocupação ecológica de salvaguarda de cada espécie, de cada animal ou planta, pois são nossos irmãos e irmãs. Sem a fraternidade real, nunca chegaremos a formar a família humana que habita a “irmã e Mãe Terra” com respeito e cuidado. Essa fraternidade demanda inarredável paciência, mas encerra também uma grande promessa: ela é realizável. Não estamos condenados a liberar o animal feroz que nos habita e que ganhou forma em Videla, Pinochet, Fleury e em outros covardes torturadores.
Oxalá o papa Francisco de Roma, em sua prática de pastor local e universal, honre o nome de Francisco e mostre a atualidade dos valores vividos pelo “fratello” de Assis.