Natal, “uma cidade da putaria” e das máfias do frio

Natal é uma capital litorânea com potencial turístico superlativo e imagem consolidada junto a vários mercados internacionais, notadamente europeus. Ao despontar como um dos principais pólos turísticos internacionais no Brasil, Natal também passou a fazer parte da rota mundial do sexo-turismo, inserindo-se na emergência do chamado “turismo sexual” entre as capitais do Nordeste do Brasil, cuja quantidade exata é difícil contabilizar em função da expansão incessante e em larga escala. A capital potiguar está em 11a posição no ranking dos destinos brasileiros mais procurados pelos estrangeiros e a segunda do Nordeste (superada apenas por Fortaleza), conforme os dados do Estudo da Demanda Turística Internacional no período 2004-2008, formulado por um órgão público federal, a Secretaria Nacional de Políticas de Turismo.

O estudo traz alguns detalhes que ajudam a traçar o perfil do visitante, em mais de 70% dos casos do sexo masculino. A faixa etária predominante é extensa, variando de 25 aos 50 anos, e a renda média mensal individual não é desprezível, especialmente para os padrões da cidade: US$ 3,7 mil. a afluência é maciçamente de europeus, tendo italianos e portugueses à frente, em 68% dos casos vêm exclusivamente em viagem de lazer, mais de 96% declaram intenção de voltar e 62% já têm o hábito de visitar a cidade regularmente.

No portal oficial de turismo da cidade, é possível identificar o locus físico preferencial:

[…] Os visitantes estrangeiros já fizeram de Ponta Negra seu território em Natal. Os turistas nacionais também a elegeram. E os natalenses observam a cena, orgulhosos. Ponta Negra não pára de ganhar novas opções de gastronomia e vida noturna. O aumento da demanda acabou favorecendo o surgimento de mais um pólo no bairro. Fica na rua Manuel de Araújo [amplamente conhecida, na cidade e por seus visitantes estrangeiros e nacionais, como rua do Salsa] e abrange algumas vias adjacentes, em área próxima das ladeiras que dão acesso à praia”. Estudo de Maria Stella Galvão Santos. Confira

Temos uma sociedade que vive o sonho do capitalismo, que além do consumismo alia-se a idéia de viver pelo Carpem Diem, aproveite o dia, tudo é possível neste mundo do materialismo histórico superficial, ao qual, nos é vendido à idéia de que a ascensão social, o prazer e o dinheiro são os objetivos maiores da vida do ser humano, fazendo com que inúmeras vidas girem em torno deste fato, o da superficialidade. Este último citado, superficialidade, se mescla ao fator de que turistas oriundos de outros países são tidos pelas mulheres locais, algumas, como uma forma rápida para esta ascensão social e material. O Euro e o Dólar são mais valorizados que o Real e a oportunidade de alavancar-se socialmente faz com que algumas mulheres procurem por turistas especificamente estrangeiros. Mas é aí que reside o perigo, no momento em que alguns deles decidem vir não por causa das nossas belas praias, e sim, visando à oportunidade de praticar o turismo sexual com crianças e adolescentes, crimes previstos em lei como o Estatuto da Criança e do Adolescente, Artigos 240 e 241, estipula pena e reclusão para quem for pego praticando atos de pedofilia, seja cidadão nacional e estrangeiro.

Para termos uma forma efetiva de combate a exploração sexual é necessária que haja uma ação por parte das autoridades competentes de divulgação de Natal no mundo valorizando as paisagens naturais e culturais, acrescentando-se a imagens que remetam a idéia de família, ao invés de mulheres seminuas. Escreve Claudio Taveira.

Uma verdadeira cadeia de agentes aliciadores se ramificou pela cidade, indo desde o agente de viagens que oferece meninas, passando pelo taxista que indica lugares onde conseguir sexo fácil com crianças e adolescentes, chegando até os donos de hotel que ignoram a prática e aceitam a presença de turistas acompanhados de menores de idade em seu estabelecimento. Ao contrário do que pensamos, não são apenas europeu idosos que alimentam esta cadeia criminosa. A reportagem traça um perfil do turista sexual e chega a uma conclusão alarmante: mo maior problema são os turistas que chegam sem esta intenção mas, devido a oferta, acabam explorando sexualmente crianças e adolescentes.

Sim, a oferta. Depois de tantos anos de sexo-turismo, tornou-se normal entre crianças e adolescentes carentes adquirir status social se prostituindo. Durval Muniz de Albuquerque Lopes, doutor em História pela Universidade de Campinas (Unicamp) e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), foi ouvido pela reportagem e concluiu: “A identidade do adolescente no seu grupo social é dada pela marca que ele consome. Se ele não consome, é excluído. Para ter acesso, ele se submete à exploração sexual. Estou falando de outro nível de consumo, não de alimentos.” Em outras palavras: o buraco é bem mais embaixo, pois já chegamos ao nível em que os explorados fazem questão de ser explorados. (Patrício Jr). Leia mais 

A  existência  do  turismo  sexual  se  justifica  a  partir  de  inúmeros  problemas  sociais,  que principalmente  no  nordeste,  têm  feito  com  que  o  dinheiro  estrangeiro  viole  os  princípios éticos  e  humanos.  Com  isso,  os  estabelecimentos  turísticos,  o  histórico  de  pobreza  do nordeste, o modo de vida, a entrada de estrangeiros e seu dinheiro têm sido fatores de repulsa e que denigre a  imagem do Brasil. Isto nos  faz  refletir de que modo a divulgação  realizada pela Embratur, há anos reflete até hoje na população. Mas a exploração de menores feita por estrangeiros, muitas vezes permitida pelos próprios brasileiros, não pode ser responsabilidade de apenas um órgão, instituição ou a falta destes, já que o problema abrange também questões culturais,  onde  estão  inseridos  os  turistas  estrangeiros  que  encontram  oferta  de  sexo  em grande quantidade, como  também os  trabalhadores desta “indústria” que adquirem cada vez mais lucros, junto às mulheres que se permitem ser exploradas e as crianças que acabam no mercado do sexo como vítimas da família e muito mais da facilidade de obtenção de dinheiro que conseguem com a venda de seus corpos. Por Nayara Teodoro Ferrigatto

A foto abaixo foi tirada por mim mesmo. Mostra um gringo no aeroporto Augusto Severo vendo uma pornografiazinha despreocupado. Nada contra a pornografia na internet, afinal essa é uma das funções desta rede mundial. O que incomoda na imagem é o fato de o visitante estar em pose tão relaxada, mostrando segurança de quem está fazendo a coisa certa e no lugar adequado. Algo como “estou em Natal, então viva a putaria!” Bem que o slogan turístico de Natal poderia ser algo como “Estrangeiro, te esperamos de pernas abertas.”

A imagem foi registrada por este blogueiro. Considero um símbolo da situação turística de Natal. Uma cidade de putaria.

Vamos tentar abordar esse assunto sem hipocrisia, tá bom? Nem vou me referir a ele como um problema, mas sim como algo que acontece por essas bandas bem debaixo dos nossos narizes. Muita gente tenta negar a situação ainda mais depois dos mais recentes acontecimentos lá pelas bandas de Ponta Negra: a inauguração de um verdadeiro aquário da libidinagem travestido de bar e o fato de terem encontrado mais resíduos de esperma de gringos em nosso litoral do que coliformes fecais na última análise.

Bem, o turismo sexual existe e fica cada vez mais difícil de coibir. Virou indústria, atração turística e comenta-se que na Europa já conhecem o Morro do Careca ou as Dunas de Genipabu como atrativos localizados nos arredores dos motéis da cidade. Nossa frágil sociedade não resistiu a um punhado de Euros despejados para comprar apartamentos, terrenos, restaurantes, hotéis e o que restava de nossa dignidade. Abriram as pernas e fecharam os olhos, inclusive literalmente em muitos casos. Italianos e espanhóis comandam a pouca-vergonha, a safadeza. Até aí, nada contra. Mas sacanagem mesmo foi não ter convidado a gente pra festa!

É claro que outros aspectos me incomodam, como por exemplo, alguns desses senhores terem sérios distúrbios a ponto de preferirem meninas de 13 anos a mulheres adultas. Mas o problema é maior e bem mais sério do que se pensa. Não adianta só combater com rigor esses pedófilos do além-mar, mas é preciso distribuir renda para, a longo prazo, essas garotas não precisem recorrer a tais expedientes para ganhar a vida. Por Carlos Fialho. Leia a proposta dele. Acrescento na lista de donos da noite: noruegueses e tanzanenses.

Em Natal, a situação chegou ao ponto de alguns comerciantes colocarem avisos em inglês: “Aqui não há turismo sexual”.
À noite, muitos estrangeiros procuram diversão em um centro comercial, cheio de bares. Fica a 500 metros da praia de Ponta Negra, a mais famosa de Natal. Está lotado.
Assim que nosso produtor chega, simulando novamente ser estrangeiro, uma prostituta se aproxima.
O lugar é aberto. Qualquer um entra, sai. Funciona como se fosse uma feira do sexo.
Mais um flagrante. Do lado de fora, bem na saída dos frequentadores, há venda de cocaína. Os traficantes chegam a parar os turistas e oferecem a droga. Veja vídeo
Durante o dia, voltamos ao ponto de encontro das prostitutas. Encontramos uma mulher que se diz funcionária do local. Simulamos interesse em alugar um quiosque. A mulher diz que o dono é o espanhol Salvador Arostegui.

Segundo o Ministério Público Federal, ele é acusado de tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

“Salvador é dono de todo complexo, o Salvador é dono de todo esse quarteirão aqui”, diz uma funcionária sem se identificar.

“Está identificado como um dos estabelecimentos que o senhor Salvador usou para a lavagem de dinheiro”, diz a procuradora da Republica, Clarisier Morais.

Segundo as investigações, o espanhol usou dinheiro do tráfico para comprar R$ 28,5 milhões em imóveis, no Rio Grande do Norte.

Salvador Arostegui chegou a ser preso na Espanha.

O Coletivo Leila Diniz (CLD) vem a público manifestar o seu repúdio à forma criminalizante com a qual a opinião pública vêm tratando as mulheres que exercem o trabalho da prostituição em Ponta Negra. Após reportagem com cunho de denúncia veiculada pelo Fantástico/Rede Globo, jornais locais como Diário de Natal e Tribuna do Norte repercutiram matérias de mesma natureza. No entanto, a abordagem dado, para nós do CLD dá um tratamento tão simplista e estigmatizador a uma questão social tão complexa.
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Nesse sentido, chamamos atenção das autoridades de governo e Justiça para ao fato de que medidas de coerção as mulheres terão baixíssimo grau de resolutividade. Pois antes de tais ações,precisa ser feita uma análise crítica da realidade da vida das mulheres em Natal , e, do nordeste brasileiro, para compreender um contexto social e  histórico  que não se sustenta em análises inacabadas e de senso comum, onde o fato subsiste sem sua própria origem.
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Em 1994, a Casa Renascer era a secretaria executiva de uma Campanha Nacional de Enfrentamento à exploração sexual e o turismo sexual, que já questionava o modelo de desenvolvimento econômico do Nordeste, baseado no turismo, prevendo os impactos negativos que seriam gerados sobre a população feminina a partir da massificação da atividade. Inúmeros documentos comprovam este esforço.
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Desde então, todo o esforço que a gestão pública e a elite governante do estado e da cidade têm feito é uma atuação pulverizada, ocasional, e moralista centrada na repressão às mulheres. O que esses gestores e gestoras esquecem é que esse problema tem a ver com as escolhas por políticas frágeis de enfrentamento à pobreza dos jovens e das mulheres em Natal; com os equívocos dos investimentos nos processos de produção cultural, com o não – investimento para uma educação pública de qualidade; com o abandono da prática de planejamento participativo; com a pouca firmeza da gestão na condução do uso e ocupação do solo.
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Nesse sentido, dizer não à criminalização da prostituição é exigir que políticas de enfretamento à desigualdade de gênero sejam implantadas, com compromisso e seriedade que os problemas relacionados à especificidade das mulheres sejam reconhecidos pela sociedade.