O esquecido impeachment de Arraes

 

A propaganda do mito Arraes criou várias lendas.

1 – Uns dizem que Arraes recebeu convite dos militares para permanecer no governo, mas recusou.

2 – Outros, que foi deposto.

A verdade: Era repórter setorista do Diário de Pernambuco no Palácio das Princesas e, inclusive, escrevia a tradicional coluna “Ontem, em Palácio”.

O golpe militar estava previsto para ter início após uma senha que seria anunciada pelo deputado federal Costa Cavalcanti, em discurso na Câmara dos Deputados. Aconteceu do general Mourão Filho antecipar o movimento armado. Que, em Pernambuco, era do conhecimento dos coronéis ligados a Costa Cavalcanti, sendo ainda articuladores, no Nordeste, os generais Muricy e Golbery. Entre os civis, apenas Cid Sampaio. Costa Cavalcanti foi secretário de Segurança Pública no governo de Cid. Arraes sucedeu Cid no governo, e eleito com o apoio não declarado de Cid, de quem era concunhado.

A antecipação de Mourão possibilitou que o golpe não fosse certeiro, permitindo dúvidas sobre quem assumiria a presidência da República, e impossibilitando a conquista dos governos estaduais pelos coronéis do Exército, com ou sem autorização do comando revolucionário.

Sim, o termo certo era revolução. Esperada desde que Jango, via plebiscito, fez retornar o presidencialismo. O improvisado parlamentarismo não passou de uma condição negociada pelos ministros militares, após a renúncia de Jânio, que não puderam evitar a posse de Jango, imposta pelo movimento de Brizola no Rio Grande do Sul.

Era esperada uma revolução, um confronto dos camponeses de Francisco Julião (brigado com Arraes), a Polícia Militar do Rio Grande do Sul, mais o Exército do Sul, inclusive Kruel em São Paulo, e governadores aliados de Jango contra os militares golpistas. Uma revolução que não aconteceu.

No começo da tarde passei no Diário de Pernambuco para pegar um vale, que estava decidido gazetear um cinema com a namorada. Na redação, na caixa de correspondência havia uma telegrama da Meridional. Abri. Informava: “O general Moura Filho deslocou tropas em direção da Região da Mantiqueira, para treinamento…”. Este o primeiro telegrama da Meridional. O jornalista Moacir Japiassu, no célebre romance “Quando Alegre Partiste”, publica o texto de um segundo telegrama. A narrativa demonstra a preocupação dos jornalistas aliados de Jango quanto ao desconhecimento do golpe, pelo povo e autoridades civis. Era a crença de que o povo iria para as ruas combater o golpe.

Fui correndo para o Palácio das Princesas para entrevistar Arraes, mas não consegui.

Quando apareceu o deputado Aderbal Jurema. Mostrei o telegrama. Não entendeu. Tive que argumentar, para conseguir o encontro com Arraes.

– Aderbal, você foi jornalista. Treinamento de tropas não é notícia nacional. E a Meriodional jamais gastaria dinheiro para mandar um telegrama com esta informação sem nenhuma importância: de que Mourão está treinando soldados…

Aderbal levou o telegrama para Arraes. Esperei inquieto, nada de Aberbal descer da ala residencial do Palácio.

Decidi telefonar para a casa do vice-governador Paulo Guerra. Atendeu a esposa, que revelou que o marido estava na fazenda. Recomendei: Mande avisar que a revolução estourou. Pura loucura o recado. Mas quem me conhece sabe que sou capaz de tais riscos. Sempre confiei no meu “faro” de jornalista.

Nada de Aderbal descer. Era a hora do crepúsculo. Paulo Guerra telefonou. Falei do telegrama e da demora de Aderbal.

Cobri para o Diário de Pernambuco, no Rio de Janeiro, a convenção do PSD, e foi manchete minha: Paulo Guerra lançou as candidaduras de Juscelino presidente, e Arraes vice. Nos bastidores da convenção o assunto cochichado era a revolução, que ninguém acreditava. A imprensa estava voltada para as articulações das candidaturas para presidente de Juscelino e Carlos Lacerda, sendo que, sem chances, Brizola e Arraes buscavam o apoio de Jango. E para as marchas golpistas da Tradição, Família e Propriedade, TFP, e as procissões do povo que reza unido permanece unido.

Finalmente apareceu Aderbal, e pressenti que alguma coisa de sério estava acontecendo. Justificou: – Arraes não pode lhe receber. Está com uma forte alergia nos olhos. Demorei porque estávamos tentando falar com Brasília. Só agora conseguimos, pelo rádio amador. Abelardo (Jurema, irmão de Aderbal, ministro da Justiça de Jango) confirmou que havia um quisto revolucionário em Minas Gerais, mas que seria debelado até às 18 horas. E que Arraes telefonou para Justino. O comandante do IV Exército garantiu que desconhecia qualquer movimentação de tropas, e que em Pernambuco tudo estava em paz.

Acredito que, no momento do telefonema de Arraes, Justino estava por fora. Nesta mesma noite, Edmundo Moraes, chefe de reportagem do Diário de Pernambuco, e ex-secretário de Imprensa de Cid, e amigo de Costa Cavalcanti, me confidenciava que os coronéis estiveram no gabinete do comandante do IV Exército, para comunicar  a quartelada, e cobrar um posicionamento.

Falei para Aderbal, que Paulo Guerra se encontrava na casa do deputado estadual Osvaldo Coelho. Quando passamos pelo prédio do comando do IV Exército, perto da Faculdade de Direito, um tanque de guerra posicionado.

Na casa de Osvaldo, além do anfitrião, Paulo, João Roma, ex-secretário de Segurança de Agamenon Magalhães, e Barreto Guimarães, ex-prefeito de Olinda. Foi uma reunião rápida. Paulo acertou com Aderbal ele se esconder. E Roma assegurou que as delegacias de polícia estavam sob o comando dos delegados da confiança de Costa Cavalcanti, adversário político e inimigo de Paulo Guerra.

Paulo Guerra: – Talis, queria um favor seu. Que presenciasse a minha ida ao IV Exército. Caso seja preso você avisa para Osvaldo na Assembléia Legislativa. Não questionei por que na AL.

Nunca vi coisa mais fácil. Na porta, apenas um sentinela. E próximo, outro soldado ou cabo. Paulo Guerra entrou, depois eu. Sem dar a impressão de que estávamos juntos. Ouvi quando Paulo disse andando, e incisivo: – Justino está me esperando. Onde ele está?

Um terceiro praça, talvez um sargento, apontou com um dedo a escada e orientou: – Na primeira sala. Paulo Guerra abriu a porta e estava Justino falando, pelo rádio amador, com Mourão. Junto, a surpresa da presença de Cid Sampaio.

Voz de Mourão: – Quem vai assumir o governo de Pernambuco?

Justino: – Está chegando aqui Paulo Guerra, vice-governador.

Mourão: – Deve ser gente fina. Minha mulher é da família Guerra. Todos os Guerra são boas pessoas.

Ouvindo esta conversa, Paulo solicitou: Diz para João Domingos que decidi pela segunda votação. João, filho primogênito de Paulo Guerra, estava esperando num carro estacionado no Hotel 13 de Maio. Pedi explicação para João Domigos. Primeira votação: o afastamento; segunda era a votação do impeachement de Arraes: 45 votos a favor, 17 contra, e um voto em branco.

Assim entendi o motivo da reunião na casa de Osvaldo, porque desconhecia a convocação extraordinária da Assembleia. E dei o recado porque Paulo Guerra perguntou: você quer que um coronel ou um general assuma o governo de Pernambuco?

Fui para o Diário de Pernambuco escrever o que testemunhei. Beirando a madrugada, Edmundo escalou: – Vai para o Palácio cobrir a posse do governador.

Durante a solenidade, Paulo Guerra fez um sinal que queria falar comigo. Era para um encontro às 7 horas.

Nem todas as minhas reportagens foram publicadas.

Passei o resto da madrugada acordado, e às 7 horas estava esperando Paulo Pessoa Guerra, que chegou com Barreto Guimarães, que seria seu secretário de Governo.

A porta principal do Palácio das Princesas estava fechada, e só havia uma passagem livre, pelo portão da Casa de Guarda, ocupada por soldados do Exército.

Quando Paulo Guerra ia entrando, uns milicos tentaram barrar. Paulo Guerra falou alto: – Sou o governador de Pernambuco, se quiser me prender estou no meu gabinete.

Do gabinete telefonou que estava convocando uma guarda da Polícia Militar. E disse para mim: – Não vou iniciar o governo com tropa do Exército.

Era o começo da articulação de uma política para manter nos cargos todos os governadores nordestinos. Só não teve tempo de evitar o afastamento de Seixas Dória em Sergipe.

Em Pernambuco, os golpistas não cuidaram da política, apenas da estratégia militar de uma guerra interna.  Preferiram, primeiro,  assumir o comando da Secretaria de Segurança e delegacias, o antigo reinado de Costa Cavalcanti, que Paulo Guerra teve que combater.

Arraes negociar com os militares, não aconteceu. Seria confirmar a versão de Samuel Wainer, fundador do Última Hora, de que ele conspirou pela queda de Jango.

 

 

Moacir Japiassu fala sobre “Concerto Para Paixão e Desatino”

Moacir Japiassu
Moacir Japiassu

 

1. O livro “Concerto Para Paixão e Desatino – Romance de Uma Revolução Brasileira”, de que forma está estruturado, basicamente?

Moacir Japiassu– Narrado na terceira pessoa, com 45 capítulos, o livro tem 383 páginas. Tremendo calhamaço, né mesmo? Porém, acredito que é de fácil leitura, apesar da linguagem um pouco “trabalhada”, como se diz. Mantive apenas (e aqui discordo do meu Mestre José Américo, que gostava do português com todos os rr e ss, independentemente de classe social), mantive o linguajar do povo. Não o considero como algo desprezível, anti-literário. Pelo contrário, entendo-o como uma espécie de dialeto, riquíssimo em suas epênteses e prosopopéias. No meu livro, creio que existe harmonia entre o português clássico, às vezes arcaico, posto que fui buscar alguma coisa das Cantigas d’Amigo, e o dialeto a que me referi. Convivem “pacificamente”.

Confesso que, em princípio, fui assaltado pela disposição de escrever um roman à clef, mas mudei de idéia ao verificar que não teria o menor sentido dar nomes falsos a alguns personagens reais. Por que eu iria, por exemplo, descrever Zé Américo, expor fases de sua biografia e chamá-lo de Joaquim? Ou dar à Paraíba o nome de Felipéia, governada em 1930 por Baltazar Esteves Mejia? Não, de modo algum; prefiro correr os riscos da intolerância, da incompreensão. E tais riscos são enormes, haja vista a forma como o público encara os atores de telenovelas; alguns são agredidos na rua porque são confundidos com os perversos personagens que interpretam… Você pode argumentar que um livro como o meu, com uma linguagem às vezes rebuscada, não iria interessar ao público das telenovelas; sei não, sei não. Como dizia minha Tia Cota, que o Senhor a tenha, a gente nunca sabe. Principalmente na Paraíba, onde ainda inflamam-se as paixões políticas.

Todavia, como disse, prefiro enfrentar os riscos a me esconder junto com meus personagens, que são muitos, muitíssimos. Gosto de trabalhar com “grande elenco”, como ficou claro no meu romance anterior, “A Santa do Cabaré”, que reúne figuras de minha infância, em João Pessoa e no interior de Pernambuco, terra de minha mãe. Os mais jovens talvez não conheçam a figura, mas os veteranos, os sessentões, sabem muitíssimo bem quem foi Doutor Meira no “folclore sexual” da Paraíba. Pois Doutor Meira é personagem importante de “A Santa do Cabaré”; ele rouba as cenas alheias; chupa-as, melhor dizendo…

Bom, desculpe estar fazendo propaganda da “Santa”, porque o assunto aqui é o “Concerto”. Abundam personagens nessas 383 páginas, mais ou menos agrupados em “núcleos” que se interligam e se confundem no decorrer da narrativa. Não consigo escrever romances que fujam dessa “estratégia”, numa linha que apaixonava escritores como Roger Martin du Gard (Os Thibault) e John Steinbeck (A Leste do Éden), dentre muitos que apreciavam trabalhar pesadamente suas tramas e cenários. As telenovelas costumam usar e abusar dos “núcleos” e por termos esse parentesco é que acredito no interesse do grande público por um romance como o meu. Tudo depende, porém, de divulgação. A divulgação das editoras costuma ser muito ruim, se você não é um autor famoso. Aí, caímos num lamentável círculo vicioso: não se divulga porque o escritor não é famoso; e sem divulgação ele jamais ficará conhecido…

2. “Concerto Para Paixão e Desatino” é um romance que tem como base os episódios que culminaram com a Revolução de 30, inclusive o assassinato de João Pessoa. Como os fatos históricos são transpostos para o terreno da ficção nesta sua obra?

Há uma serena e “natural” interação entre os personagens criados e os da vida real. Se estamos em 1930 (embora o romance tenha início em 1920, durante o Governo de Solon de Lucena) e alguém procura uma autoridade, esta pode ser o Presidente do Estado ou o Secretário de Segurança Pública. Surgem, então, João Pessoa ou Zé Américo. Ou Juarez Távora, nos dias que antecedem a Revolução. Entretanto, faço este imperioso, fundamental esclarecimento: meu livro não é, de modo algum, um compêndio de historiografia paraibana; trata-se de um romance. É ficção, ficção que tem como cenário, como “pano de fundo”, os acontecimentos de 1930. João Pessoa, Zé Américo e os demais são tratados como personagens literários. O autor não mente; procura acompanhar de perto as ações da vida real, da História, mas se reserva o direito de criar roteiros diversos para cada uma dessas vidas tão importantes e tão conhecidas. O recurso do flashback permite ao autor reconstruir o passado que interessa à trama e a ele recorro porque sempre achei de profunda beleza imaginar alguém que se chega à janela, observa a paisagem e esta o remete a um passado feliz, ou infeliz, ou trágico. A solidão do personagem está, no meu livro, sempre recheada de passado.

Há uma cena, da qual gosto sobremaneira, que apresenta Zé Américo no papel de Secretário de Segurança, a fazer uma devassa no escritório que João Pessoa mantinha em sua casa da Praça da Independência. Ora, eu vivi ali naquele cenário, a jogar as peladas de minha infância, quando os moleques saíamos do Colégio Pio X para a liberdade das ruas. Passávamos defronte à mansão em que vivera o Presidente. Observávamos as janelas sempre fechadas, a resguardar que mistérios? Pois eu tive a petulância de abrir uma dessas janelas, por onde Zé Américo nos observa com seus olhos míopes e seu rosto severo…

José Américo e Juarez Távora
José Américo e Juarez Távora

3. Na obra você faz uma advertência ao leitor, situando a presença de José Américo de Almeida (então secretário de Segurança do Governo João Pessoa) nas páginas do romance. Por que a necessidade dessa advertência em relação ao autor de “A Bagaceira”, se outros personagens históricos também são inseridos em sua ficção?

R – O político e escritor José Américo de Almeida talvez seja a maior admiração de minha vida. Quando eu era menino, na João Pessoa do final dos anos 40, meu pai me levava para os comícios dele e eu ficava fascinado com aquela oratória que hipnotizava. É claro que eu não entendia nada do que ele falava, porém era impressionante a forma como dominava a multidão, como emocionava meu pai. “Esse Zé Américo é o cão!”, festejava ele.

Quando, na adolescência, li “A Bagaceira”, entendi melhor por que aquele era um homem especial. Eu estava no tempo das descobertas literárias, morava em Belo Horizonte com a família, meu pai fora transferido (era funcionário do DNOCS) e foi ele quem me deu de presente o romance de Zé Américo.

Agora, já sexagenário, quando fazia as pesquisas necessárias à composição do “Concerto Para Paixão e Desatino”, reli mais uma vez “A Bagaceira” e também as memórias do Mestre e, como revelo na “advertência ao leitor”, assaltou-me crudelíssima dúvida: eu deveria reescrever os trechos que gostaria de aproveitar, apropriando-me disfarçadamente do trabalho de Zé Américo, ou seria mais honesto mantê-lo intacto, já que se trata de texto brilhante, a dispensar reparos? Escolhi este caminho; onde foi possível, mantive os trechos entre aspas; e as dispensei, naqueles parágrafos que pediam mudança de tratamento, da primeira para a terceira pessoa. Quem conhece as memórias de Zé Américo identificará claramente os enxertos. Gostei do resultado; o que poderia ser uma apropriação indébita se transformou na homenagem que eu gostaria de prestar.

4. Em determinado trecho desta advertência, o senhor cita José Américo como personagem fundamental da Revolução. O mesmo se aplica em relação ao papel de José Américo em “Concerto Para Paixão e Desatino”?

R – José Américo é, como todos sabem, personagem fundamental da Revolução de 30 e, como personagem do meu romance, mantém tal excelência, como detalhei acima. Aliás, os leitores do Correio das Artes hão de concordar comigo: a figura de José Américo, sua autoridade expressa no olhar de míope, que transmitia certo distanciamento do interlocutor, é muito literário. O cargo de Secretário de Segurança Pública numa época tão conturbada; o papel dele na campanha de Princesa; a amizade tão estreita com João Pessoa, fazem-no perfeito para um desempenho marcante nas páginas do livro.

5. No posfácio à obra, José Nêummane Pinto faz uma comparação entre “Concerto Para Paixão e Desatino” e “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Com certeza, são duas obras que remontam a fatos históricos da política brasileira, mas onde o romance de Japiassu se aproxima da narrativa de Euclides da Cunha?

R – Nêumanne, intelectual brilhante, versejador de escol, não encontrou no “Concerto” algum terreno onde pudesse semear licenças poéticas, como, por exemplo, semelhanças com o universo euclidiano. É claro que meu romance, por mais pretensioso que seja, jamais poderia ser comparado a “Os Sertões” nem foi isso o que o posfaciador escreveu; Nêumanne se referiu ao comportamento do sertanejo João Dantas, o qual, nas páginas do livro, planeja com necessária minudência o assassinato de João Pessoa com tiros à queima-roupa, quanto mais não seja porque a arma, um revólver calibre 32 de cano curto, não se prestaria ao tiro à média ou longa distância. Nêumanne “jogou” com a imperícia do autor de “Os Sertões”, improvisado pistoleiro que morreu ao enfrentar de peito aberto o amante de sua mulher, num episódio pra lá de conhecido. Se fosse um sertanejo, como os personagens do sertão que dizia conhecer tão bem, Euclides teria feito o que Dantas fez, 21 anos mais tarde: planejaria o atentado ou então descansaria o rifle na paciência da tocaia pura e simples, porém de eficácia garantida. Se houve “licença poética” Nêumanne a situou entre os exemplos pessoais de Euclides e João Dantas, não entre o “Concerto” e “Os Sertões”. Quem me dera que meu humilde romance pudesse ser comparado a umas duas páginas da obra-prima de Euclides!

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João Dantas assassinado na Casa da Detenção do Recife
João Dantas assassinado na Casa da Detenção do Recife

 

Poetisa Anayde Beiríz, amante de João Dantas, suicidada e enterrada no Recife como indigente
Poetisa Anayde Beiríz, amante de João Dantas, suicidada e enterrada no Recife como indigente

6. Nêumanne destaca, ainda, a “forma musical” utilizada no romance, fato também mencionado pelo senhor na advertência ao leitor. Gostaria de saber um pouco mais sobre essa cadência da prosa de seu romance.

R – Um dos personagens que dão sustentação ao romance é um padre, Argemiro Sabaó, pároco de São Miguel de Taipu (ele e José Américo foram colegas de seminário). Sabaó é um grande estudioso da língua portuguesa, colaborador de filólogos como os mestres José Joaquim Nunes e Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Os estudiosos do idioma conhecem a dupla. Assim, como homenagem à cultura desse homem tão simples e tão sacrificado, achei de bom alvitre e de excelso respeito ornamentar o texto com frases de inspiração camoniana sempre que Sabaó aparece em cena. Ele bem merece um refrigério d’alma nos instantes em que se agrava o isolamento ante tão desditosa liça (esta última frase é um exemplo da linguagem à qual se refere o Nêumanne). E em nenhum momento, creio, me descuidei da musicalidade da língua portuguesa. Não apenas porque sempre fui um cultor dessa musicalidade como também para ser fiel ao próprio romance, entremeado de óperas, sinfonias, concertos, etc. Aliás, o “Concerto” está dividido em três partes, que são chamadas de “movimentos”, como nos concertos musicais: Allegro, Andante e Vivace.

7. Você inclui, no livro, uma bibliografia, onde se misturam textos históricos sobre os episódios de 30 com obras de autores clássicos como Luiz Vaz de Camões e Padre Antônio Vieira. Claro está, que nem todas as obras citadas na bibliografia foram consultadas, mas fica a curiosidade de saber qual a contribuição de Camões e Padre Vieira num livro sobre a Revolução de 30…

R – A contribuição camoniana já está respondida; e a de Vieira explica-se pela grande admiração que o padre Sabaó mantinha por sua obra. Sabia de cor os Sermões e um deles, aquele no qual o Senhor penitencia-se por ter criado o homem, é “declamado” aos fiéis, na missa que o pároco de São Miguel oferece ao Presidente assassinado.

8. Em um dos capítulos do livro (o 11), você narra com riqueza de detalhes os preparativos para o assassinato de João Pessoa. Na narrativa, é mencionado o affair entre João Pessoa e a cantora lírica Carina Malfitani, assunto ainda tabu na Paraíba. Você não teme reações da família do ex-presidente paraibano ao tocar no assunto?

R – Bom, já disse e repito que meu livro é um romance, é ficção, e assim deve ser visto. Troquei o nome da cantora, para não causar nenhum tipo de constrangimento a parentes próximos e distantes. Afinal, há, em flashback, cenas de sexo entre ela e o Presidente da Paraíba, cenas revividas pela “diva” após o assassinato do amante. São, todavia, momentos que escrevi com muito cuidado, escolhendo e sopesando as palavras. É sexo “quente”, porém digno, respeitoso. Não há vulgaridade no meu romance, isso eu posso garantir. No romance anterior, “A Santa do Cabaré”, há lesbianismo e incesto e eu tenho absoluta certeza de que não chocaram nem o mais pudico leitor. Não é possível que, aos 60 anos e depois de uma vida inteira em contato com as palavras, eu não saiba tratar de sexo com um mínimo de respeito ao leitor, não é mesmo? Todavia, se depois de todos os meus cuidados, houver alguma reclamação, poderei responder como Carlos Drummond de Andrade, quando saiu publicado o seu poema “O Sátiro”, em Lição de Coisas. É assim: Hildebrando insaciável comedor de galinha./Não as comia propriamente — à mesa./Possuía-as como se possuem e se matam mulheres./Era mansueto e escrevente de cartório. Dizem que em Itabira existia realmente um Hildebrando, funcionário de cartório e dado àquele feio hábito. Pois o homem procurou os jornais e meteu a boca no mundo; o poeta respondeu-lhe: “retire-se do meu poema!”. É claro que eu não faria isso com a surpreendente veemência do poeta, meu estilo é mais sossegado; eu pediria, encarecidamente, que o(a) atingido(a) deixasse as páginas do meu “Concerto”. Ora, poemas são poemas, romances são romances. É tudo ficção – ou quase tudo. A intimidade do Presidente João Pessoa no meu livro é, obviamente, peça de ficção. Não creio que amigos da família, ou mesmo parentes, reclamem de algo. Não há motivo para tanto.

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João Pessoa assassinado por João Dantas
João Pessoa assassinado por João Dantas

9. A propósito, apesar de ser um romance, seu livro toca fogo num vespeiro, já que até hoje a simples menção ao episódio traz de volta os radicalismos de perrepistas e liberais da política paraibana. Qual a sua expectativa para a leitura que possa se fazer da obra, principalmente na Paraíba?

R – Como me estendi um pouco na resposta acima, creio que esta já está respondida; posso adiantar que o romance também apresenta uma versão, bastante possível, embora improvável, de que João Pessoa talvez tenha sido assassinado a mando de um amigo, um correligionário, companheiro de campanha política, insatisfeito porque o Presidente mostrou-se (e esse fato é verdadeiro, está nas memórias de Zé Américo) contrário à revolução. Se é verdade que toco fogo num vespeiro, não me surpreenderia que fosse nesse trecho do romance. Porém, seria até bom uma polêmica a respeito; as polêmicas acendem o espírito, alumiam a alma…
10. Recentemente, o jornalista paraibano Fernando Melo lançou um livro resgatando a história de João Dantas, o assassino de João Pessoa. No seu livro há alguma tentativa de redimir João Dantas, transformando-o de algoz em vítima?

R – Não, de modo algum. O meu João Dantas, se posso falar assim do personagem do romance, aparece como uma pessoa capaz de ser influenciada por um jornalista, seu amigo dos tempos de Liceu, figura sórdida que deseja a morte do Presidente para aproveitar-se do caos e disseminar a corrução pela Paraíba e o Nordeste. Todas as versões são válidas quando a realidade se perde na obscuridade.
11. A licença poética foi fundamental para transpor personagens históricos como João Pessoa, João Dantas, Ademar Vidal e José Américo de Almeida para as páginas de um texto de ficção?

R – Já me referi a licenças poéticas e disse acima que todas as versões são válidas quando a realidade se perde na obscuridade. Isto é rigorosamente verdadeiro. O que não se pode, em hipótese alguma, é mentir descaradamente sobre um personagem da vida real que se transpôs para a ficção. Eu não poderia dizer, por exemplo, que Zé Américo traiu João Pessoa. Eu teria que provar isso – ou então, deveria mudar o nome do personagem, o que seria um absurdo, conforme já disse.

12. Foi o que você fêz com Ernâni Satyro, que no seu romance aparece com o nome de Libânio?

R – O Libânio do romance é um importador de gado indiano, que percorre inúmeros estados, conhece Deus e o mundo e é um leva-e-traz, um mexeriqueiro, boateiro. O personagem não tem nada de Ernâni Satyro, que era um intelectual, um escritor talentoso, um político de primeiríssimo time. Eu o conheci bem, nos encontramos na Paraíba, quando eu era repórter da revista IstoÉ, e também, por diversas vezes, em Brasília. Certa vez, em Brasília, eu contei a ele a história de um sertanejo dado ao onanismo, autor de uma frase engraçadíssima que não posso, infelizmente, repetir aqui, por respeito às famílias que lêem o Correio das Artes. Ernâni escutou a frase e riu a noite inteira; quanto mais goles de uísque bebíamos, mais ele me pedia para contar a história. E caía na gargalhada. A frase é realmente muito engraçada. Bem. Quando resolvi “rabiscar” o personagem Libânio, o qual, no romance, assume a frase como sua, eu ria e me lembrava de Ernâni. E Libânio acabou ficando, fisicamente – repito: fi-si-ca-men-te – parecido com Ernâni: baixo, “torado no grosso”, óculos de fundo de garrafa de cerveja Teutônia (a Brahma da época), voz tonitruante. Foi por isso que Nêumanne e outros leitores especiais do romance disseram: mas você retratou o Ernâni Satyro! Respondi: fisicamente, sim; o resto, não. Ernâni era, por acaso, vendedor de gado em 1930?!?!?!?!?

13. O Presidente Solon de Lucena também virou seu personagem e, segundo consta, é muito maltratado no romance.
R – Isso é boato de quem não leu o “Concerto”; Solon de Lucena aparece pouco, no início do livro, com os problemas do seu governo, a crise do café, principalmente. Outro personagem, o Senhor-de-Engenho Deba Coutinho, perrepista histórico, tem um entrevero com Solon, porém não é um entrevero político e sim sentimental; Deba “acha” que o Presidente lhe tomou a amante. Todas as dores do corno são atribuídas ao Presidente, porém o narrador em nenhum momento concorda com o personagem. Deba é um neurótico e nada mais.

 

Velório de João Pessoa (em João Pessoa ou Rio de Janeiro) foi a propaganda fúnebre da revolução de Trinta
Velório de João Pessoa (em João Pessoa ou Rio de Janeiro) foi a propaganda fúnebre da revolução de Trinta
Funeral de João Pessoa na Paraíba
Funeral de João Pessoa na Paraíba

14. Apesar de tantos personagens históricos circulando pelas páginas do livro, o personagem principal chama-se Isaías. Quem é esse Isaías e qual o seu papel na trama?

R – Isaías é um menino pobre, morador de um dos engenhos da várzea do Paraíba. Aquele também é cenário de minha infância, ali passei temporadas, no engenho Oiteiro e no Taipu; meu pai foi concebido e criado nos engenhos. Eu sou Moacir Japiassu Lins; quer dizer, tenho raízes fincadas nos bangüês; sou, para minha honra, aparentado com José Lins do Rego. Meu pai, Severino Lins Falcão, era, segundo a memória de todos, “filho natural” de um Senhor-de-Engenho daquele baixo curso do Paraíba. Esse Senhor-de-Engenho, “Seu Lôla”, como era chamado, e também meu pai, são personagens do romance. Volto a Isaías. Este foi criado por Sabaó; diziam que era, na verdade, filho do padre. Quando aparece no livro, logo no início, Isaías tem oito anos de idade, aparenta muito mais, porque é grandalhão, e acaba de perder o pai – o homem que vivia com a mãe dele. Diante da penúria da família, Sabaó aceita criar o menino, que se transforma em seu braço direito, desde as missas, que ajudava a rezar como coroinha e assobiador das músicas sacras, até pesquisador de seu anunciado livro em parceria com o filólogo português José Joaquim Nunes. Isaías, que é também balconista da farmácia, faz o serviço militar no Tiro de Guerra de Itabaiana, utiliza seu tamanho para prestar serviços a um Exército que desconhecia, é óbvio, os direitos humanos fundamentais e, em pleno fulgor da revolução de 30, conhece José Américo por vias transversas. É, modéstia à parte, um bom personagem; um personagem de ficção por excelência e eu me orgulho bastante de o ter concebido.

15. Saindo um pouco do romance, como jornalista e paraibano, qual a sua visão da Revolução de 30 e do assassinato de João Pessoa? Os livros lançados até hoje sobre o assunto conseguiram dar a dimensão correta do episódio, como ocorreu com Canudos através das páginas de Euclides da Cunha?

R – É muito difícil, quase impossível, ter-se a “dimensão correta” da Revolução de 30 na Paraíba; há muitas testemunhas, inúmeros textos apaixonados, e sabe-se que a paixão não é a melhor conselheira de um historiador. Há, sobre os acontecimentos, muitos “desabafos”, assim os podemos chamar; personagens glorificados numa obra são impiedosamente execrados noutra. Entretanto, é exatamente esse espetacular desencontro de opiniões e idéias que transformam aqueles dias num excepcional cenário de romance. Em Canudos, que rendeu uma das maiores obras da literatura brasileira, a única testemunha ocular (e com olhos de escritor) foi Euclides da Cunha. Quando escreveu A Guerra do Fim do Mundo, Mario Vargas Llosa confessou ter-se baseado n’Os Sertões. Tudo o que se fez e venha a ser feito sobre Canudos terá como ponto de partida a obra de Euclides. E olhe que os historiadores têm apontado inúmeras falhas em Os Sertões, falhas que devem existir realmente, pois Euclides não era um historiador e sim o enviado especial do jornal O Estado de S. Paulo. E, definitivamente, não se pode exigir de um escritor e jornalista a precisão metodológica do historiador. Eu embarco nessa canoa e esclareço que também sou jornalista e escritor, mereço tanta indulgência quanto Euclides, e talvez mais, porque não sou testemunha ocular de coisa alguma e as pessoas que assim se apresentam são, como disse, movidas pelo envolvimento pessoal, a emoção.

16. E a Revolta de Princesa? Não é um tema pouco explorado por historiadores, pesquisadores e até ficcionistas?

R – Em meu romance há inúmeras cenas da Revolta de Princesa, através dos depoimentos de Zé Américo, aos quais me refiro na tal “Advertência ao Leitor”. Preferi caminhar pela mão do Mestre porque o texto literário me oferecia beleza e facilidades. Poderia ter bebido doutras cacimbas, como os trabalhos de Inês Caminha Lopes Rodrigues, Ademar Naziazene, José Gastão Cardoso, José Leal, dentre outros, mas me convenci de que acabaria me confundindo, sem nenhum refrigério; afinal, eu não estava escrevendo História, simplesmente utilizava acontecimentos históricos como cenário de ficção. Sinto falta, como jornalista e, principalmente, como leitor, de uma obra que esgotasse o assunto. Isso é tarefa para um historiador com o nível do José Octávio de Arruda Melo, por exemplo. O livro dele A Revolução Estatizada – Um Estudo Sobre a Formação do Centralismo em 30, brilhantíssimo estudo acadêmico (tese de Mestrado na Universidade Federal de Pernambuco), é base natural de uma obra maior que está pedindo para ser escrita. José Octávio é o profissional talhado para desempenhar tal missão; tem todos os recursos do moderno historiador e ainda escreve muito bem.

 

Um belo presente de Natal. OS PRINCIPAIS ROMANCES DE MOACIR JAPIASSU E O JORNAL DA IMPRENçA

Moacir Japiassu
Moacir Japiassu

 

Toda semana dedico um dia para ler o Jornal da ImprenÇa de Moacir Japiassu, que tem o humor fino de Machado de Assis (que, por sua vez, no apreciar dos críticos, possuía o humor inglês de Swift a Sterne).

A coluna do mestre Japi está sempre repleta de preciosidades. Veja algumas pérolas deste semana:

 

Tu és o quelso do pental ganírio,

saltando as rimpas do fermim calério

carpindo as taipas do furor salírio

nos rúbios calos do pijom sidério.

(Luís Lisboa, poeta maranhense, inA Uma Santa. A íntegra está no Blogstraquis.)

 

Passado corrigido

Comentário que o considerado Carlos Alberto Sardenberg, velho amigo e companheiro na Istoé dos anos 1970, fez no Jornal da Globo:

A presidente deu uma informação errada quando, na semana passada, disse que o PIB de 2012 seria corrigido de crescimento de 0,9% para 1,5%. Na terça, o IBGE de fato corrigiu, mas para 1%, quase nada.

Comenta o jornalista João Borges, da GloboNews:

‘O governo, que já errava as previsões sobre o futuro, agora também erra as previsões sobre o passado.’

Premonição

Do considerado Fernando Gabeira, outro que não precisa de apresentação, velho amigo e companheiro no Correio de Minas de 1962,  em artigo no Estadão:

(…) Nunca me esquecerei de um homem da minha cidade conhecido como “Antônio me abraça”. Ele entrou numa casa de apostas que irradiava uma corrida de cavalos e disse sobre o tordilho que liderava a prova: “Só perde se quebrar a perna”. Pois quebrou.

Pisam na língua

língua

O considerado Luiz Fernando Perez, um dos melhores jornalistas do Brasil, velho amigo e companheiro no Correio de Minas de 1962, remete de seu escritório na Praça da Savassi, em Belo Horizonte:

Veja, na notícia divulgada nesta quinta-feira pelo portal do Estadão, como os redatores ignoram a concordância verbal, no título e no texto:

‘Apenas 2,5% dos paulistanos vive em locais com índice de urbanismo máximo

TV Estadão  — Um estudo feito pelo Estadão Dados com base nos dados do Censo 2010 do IBGE, mostram que os sortudos que vivem em locais com taxa de urbanismo máxima estão espalhados pela cidade, mas a maioria está no centro expandido e em bairros mais ricos, como Consolação e Jardim Paulista.’

Estão sempre pisando na língua: num curto espaço, ‘2,5% dos paulistanos vive’ e ‘Um estudo… mostram’…

Sinistras

O considerado Armando Salém, jornalista do mais alto nível, amigo e companheiro na Istoé dos anos 1970, despacha de seu escritório na região da Av.Paulista, esta, como se diz, coletânea de “frases sinistras”. Algumas percorrem a internet há algum tempo e outras são novíssimas. Experimente algumas e conheça as demais no Blogstraquis:

… Liquidação de Muletas – Aproveite, venha correndo!

… Mamãe, por que você bateu naquela mulher que a gente viu chorando no túmulo do papai?

… O amor é a gasolina da vida. Custa caro, acaba rápido e pode ser substituída pelo álcool…

… Ex-namorado é que nem vestido: você vê em foto antiga e não acredita que teve coragem de um dia sair com aquilo!

… Eu sempre quis ter o corpo de um atleta. Graças ao Ronaldo Fenômeno isso já é possível!

… Espermatozóides se cumprimentando: e aí, seu porra?!

… Troque seu coração por um fígado, assim você se apaixona menos e bebe mais…

 ***** 

Nota do redator do blogue: Minha adjetivação arriba visa provocar o mestre Japiassu, o maior romancista brasileiro da atualidade.

Sei que ele detesta o jornalismo apressado, tipo meus improvisos.

Neste Natal, dê um romance de Moacir Japiassu de presente.

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Nossas livrarias não vendem autores brasileiros. Compre aqui, ou solicite informações.

 

 

 

Eles têm medo da Comissão da Verdade

Comissão Nacional da Verdade, informa a Wikipedia, é o nome de uma comissão brasileira que visa investigar violações de direitos humanos ocorridas entre os anos de 1946 e 1988 no Brasil. Também identificará os locais, estruturas, instituições e circunstâncias relacionadas à prática de violações de direitos humanos e também eventuais ramificações na sociedade e nos aparelhos estatais.A lei que a institui foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff em 18 de novembro de 2011.

Essa comissão será formada por sete membros nomeados pela presidente do Brasil, que atuarão durante dois anos, sendo que no final desse período, publicarão um relatório dos principais achados, que poderá ser público ou poderá ser enviado apenas para o presidente da república ou o ministro da defesa. A comissão terá o direito de convocar vítimas ou acusados das violações para depoimentos, ainda que a convocação não tenha caráter obrigatório e também a ver todos os arquivos do poder público sobre o período, mas não terá o poder de punir ou recomendar que acusados de violar direitos humanos sejam punidos.

A comissão, proposta em 2010, passou por diversas mudanças, principalmente para atender as queixas dos militares. O termo “repressão política” foi retirado do texto, a comissão atual prevê o “exame” de violações de direitos humanos, diferente da versão de 2010, que previa a “apuração” e além de englobar fatos ocorridos durante o regime militar no Brasil, que ocorreu ente 1964 e 1985, englobará fatos que ocorreram entre os anos de 1946 e 1988.

A COMISSÃO DA VERDADE NÃO PUNE

Aprovação da Comissão da Verdade no Senado ocorreu de forma simbólica, sem alterações de mérito no texto enviado pela Câmara
Aprovação da Comissão da Verdade no Senado ocorreu de forma simbólica, sem alterações de mérito no texto enviado pela Câmara

 A Comissão não terá poderes para punir agentes da ditadura. As investigações incluem a apuração de autoria de crimes como tortura, mortes, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres, perdoados com a Lei da Anistia, de 1979.
Segundo o relator da proposta no Senado, senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), a comissão terá como objetivo “efetivar o direito à memória e à verdade histórica” e “promover a reconciliação nacional“. 
A Comissão da Verdade é moleza. Vai apurar o que todo mundo já sabe. Vários livros foram publicados. De história, inclusive romances como o clássico “Quando Alegre Partiste – Melodrama de um delirante golpe militar”, de Moacir Japiassu. Existem inclusive filmes. Até novelas foram exibidas na televisão.
Apesar da brandura da Comissão da Verdade, eis que surgem os clubes militares com protestos inconsequentes, que quebram princípios que as Forças Armadas consideram sagrados: a ordem, a disciplina, a hierarquia.
Escreve Wilson Tosta no Estadão:
“Oficiais das Forças Armadas aposentados – alguns veteranos das ações de repressão à guerrilha e também à oposição desarmada, nas quais oposicionistas morreram, desapareceram ou foram torturados – se preocupam com a possível nomeação apenas de pessoas ligadas ao ‘outro lado’ ou que não sejam neutras em relação aos episódios”.