Moacir Japiassu fala sobre “Concerto Para Paixão e Desatino”

Moacir Japiassu
Moacir Japiassu

 

1. O livro “Concerto Para Paixão e Desatino – Romance de Uma Revolução Brasileira”, de que forma está estruturado, basicamente?

Moacir Japiassu– Narrado na terceira pessoa, com 45 capítulos, o livro tem 383 páginas. Tremendo calhamaço, né mesmo? Porém, acredito que é de fácil leitura, apesar da linguagem um pouco “trabalhada”, como se diz. Mantive apenas (e aqui discordo do meu Mestre José Américo, que gostava do português com todos os rr e ss, independentemente de classe social), mantive o linguajar do povo. Não o considero como algo desprezível, anti-literário. Pelo contrário, entendo-o como uma espécie de dialeto, riquíssimo em suas epênteses e prosopopéias. No meu livro, creio que existe harmonia entre o português clássico, às vezes arcaico, posto que fui buscar alguma coisa das Cantigas d’Amigo, e o dialeto a que me referi. Convivem “pacificamente”.

Confesso que, em princípio, fui assaltado pela disposição de escrever um roman à clef, mas mudei de idéia ao verificar que não teria o menor sentido dar nomes falsos a alguns personagens reais. Por que eu iria, por exemplo, descrever Zé Américo, expor fases de sua biografia e chamá-lo de Joaquim? Ou dar à Paraíba o nome de Felipéia, governada em 1930 por Baltazar Esteves Mejia? Não, de modo algum; prefiro correr os riscos da intolerância, da incompreensão. E tais riscos são enormes, haja vista a forma como o público encara os atores de telenovelas; alguns são agredidos na rua porque são confundidos com os perversos personagens que interpretam… Você pode argumentar que um livro como o meu, com uma linguagem às vezes rebuscada, não iria interessar ao público das telenovelas; sei não, sei não. Como dizia minha Tia Cota, que o Senhor a tenha, a gente nunca sabe. Principalmente na Paraíba, onde ainda inflamam-se as paixões políticas.

Todavia, como disse, prefiro enfrentar os riscos a me esconder junto com meus personagens, que são muitos, muitíssimos. Gosto de trabalhar com “grande elenco”, como ficou claro no meu romance anterior, “A Santa do Cabaré”, que reúne figuras de minha infância, em João Pessoa e no interior de Pernambuco, terra de minha mãe. Os mais jovens talvez não conheçam a figura, mas os veteranos, os sessentões, sabem muitíssimo bem quem foi Doutor Meira no “folclore sexual” da Paraíba. Pois Doutor Meira é personagem importante de “A Santa do Cabaré”; ele rouba as cenas alheias; chupa-as, melhor dizendo…

Bom, desculpe estar fazendo propaganda da “Santa”, porque o assunto aqui é o “Concerto”. Abundam personagens nessas 383 páginas, mais ou menos agrupados em “núcleos” que se interligam e se confundem no decorrer da narrativa. Não consigo escrever romances que fujam dessa “estratégia”, numa linha que apaixonava escritores como Roger Martin du Gard (Os Thibault) e John Steinbeck (A Leste do Éden), dentre muitos que apreciavam trabalhar pesadamente suas tramas e cenários. As telenovelas costumam usar e abusar dos “núcleos” e por termos esse parentesco é que acredito no interesse do grande público por um romance como o meu. Tudo depende, porém, de divulgação. A divulgação das editoras costuma ser muito ruim, se você não é um autor famoso. Aí, caímos num lamentável círculo vicioso: não se divulga porque o escritor não é famoso; e sem divulgação ele jamais ficará conhecido…

2. “Concerto Para Paixão e Desatino” é um romance que tem como base os episódios que culminaram com a Revolução de 30, inclusive o assassinato de João Pessoa. Como os fatos históricos são transpostos para o terreno da ficção nesta sua obra?

Há uma serena e “natural” interação entre os personagens criados e os da vida real. Se estamos em 1930 (embora o romance tenha início em 1920, durante o Governo de Solon de Lucena) e alguém procura uma autoridade, esta pode ser o Presidente do Estado ou o Secretário de Segurança Pública. Surgem, então, João Pessoa ou Zé Américo. Ou Juarez Távora, nos dias que antecedem a Revolução. Entretanto, faço este imperioso, fundamental esclarecimento: meu livro não é, de modo algum, um compêndio de historiografia paraibana; trata-se de um romance. É ficção, ficção que tem como cenário, como “pano de fundo”, os acontecimentos de 1930. João Pessoa, Zé Américo e os demais são tratados como personagens literários. O autor não mente; procura acompanhar de perto as ações da vida real, da História, mas se reserva o direito de criar roteiros diversos para cada uma dessas vidas tão importantes e tão conhecidas. O recurso do flashback permite ao autor reconstruir o passado que interessa à trama e a ele recorro porque sempre achei de profunda beleza imaginar alguém que se chega à janela, observa a paisagem e esta o remete a um passado feliz, ou infeliz, ou trágico. A solidão do personagem está, no meu livro, sempre recheada de passado.

Há uma cena, da qual gosto sobremaneira, que apresenta Zé Américo no papel de Secretário de Segurança, a fazer uma devassa no escritório que João Pessoa mantinha em sua casa da Praça da Independência. Ora, eu vivi ali naquele cenário, a jogar as peladas de minha infância, quando os moleques saíamos do Colégio Pio X para a liberdade das ruas. Passávamos defronte à mansão em que vivera o Presidente. Observávamos as janelas sempre fechadas, a resguardar que mistérios? Pois eu tive a petulância de abrir uma dessas janelas, por onde Zé Américo nos observa com seus olhos míopes e seu rosto severo…

José Américo e Juarez Távora
José Américo e Juarez Távora

3. Na obra você faz uma advertência ao leitor, situando a presença de José Américo de Almeida (então secretário de Segurança do Governo João Pessoa) nas páginas do romance. Por que a necessidade dessa advertência em relação ao autor de “A Bagaceira”, se outros personagens históricos também são inseridos em sua ficção?

R – O político e escritor José Américo de Almeida talvez seja a maior admiração de minha vida. Quando eu era menino, na João Pessoa do final dos anos 40, meu pai me levava para os comícios dele e eu ficava fascinado com aquela oratória que hipnotizava. É claro que eu não entendia nada do que ele falava, porém era impressionante a forma como dominava a multidão, como emocionava meu pai. “Esse Zé Américo é o cão!”, festejava ele.

Quando, na adolescência, li “A Bagaceira”, entendi melhor por que aquele era um homem especial. Eu estava no tempo das descobertas literárias, morava em Belo Horizonte com a família, meu pai fora transferido (era funcionário do DNOCS) e foi ele quem me deu de presente o romance de Zé Américo.

Agora, já sexagenário, quando fazia as pesquisas necessárias à composição do “Concerto Para Paixão e Desatino”, reli mais uma vez “A Bagaceira” e também as memórias do Mestre e, como revelo na “advertência ao leitor”, assaltou-me crudelíssima dúvida: eu deveria reescrever os trechos que gostaria de aproveitar, apropriando-me disfarçadamente do trabalho de Zé Américo, ou seria mais honesto mantê-lo intacto, já que se trata de texto brilhante, a dispensar reparos? Escolhi este caminho; onde foi possível, mantive os trechos entre aspas; e as dispensei, naqueles parágrafos que pediam mudança de tratamento, da primeira para a terceira pessoa. Quem conhece as memórias de Zé Américo identificará claramente os enxertos. Gostei do resultado; o que poderia ser uma apropriação indébita se transformou na homenagem que eu gostaria de prestar.

4. Em determinado trecho desta advertência, o senhor cita José Américo como personagem fundamental da Revolução. O mesmo se aplica em relação ao papel de José Américo em “Concerto Para Paixão e Desatino”?

R – José Américo é, como todos sabem, personagem fundamental da Revolução de 30 e, como personagem do meu romance, mantém tal excelência, como detalhei acima. Aliás, os leitores do Correio das Artes hão de concordar comigo: a figura de José Américo, sua autoridade expressa no olhar de míope, que transmitia certo distanciamento do interlocutor, é muito literário. O cargo de Secretário de Segurança Pública numa época tão conturbada; o papel dele na campanha de Princesa; a amizade tão estreita com João Pessoa, fazem-no perfeito para um desempenho marcante nas páginas do livro.

5. No posfácio à obra, José Nêummane Pinto faz uma comparação entre “Concerto Para Paixão e Desatino” e “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Com certeza, são duas obras que remontam a fatos históricos da política brasileira, mas onde o romance de Japiassu se aproxima da narrativa de Euclides da Cunha?

R – Nêumanne, intelectual brilhante, versejador de escol, não encontrou no “Concerto” algum terreno onde pudesse semear licenças poéticas, como, por exemplo, semelhanças com o universo euclidiano. É claro que meu romance, por mais pretensioso que seja, jamais poderia ser comparado a “Os Sertões” nem foi isso o que o posfaciador escreveu; Nêumanne se referiu ao comportamento do sertanejo João Dantas, o qual, nas páginas do livro, planeja com necessária minudência o assassinato de João Pessoa com tiros à queima-roupa, quanto mais não seja porque a arma, um revólver calibre 32 de cano curto, não se prestaria ao tiro à média ou longa distância. Nêumanne “jogou” com a imperícia do autor de “Os Sertões”, improvisado pistoleiro que morreu ao enfrentar de peito aberto o amante de sua mulher, num episódio pra lá de conhecido. Se fosse um sertanejo, como os personagens do sertão que dizia conhecer tão bem, Euclides teria feito o que Dantas fez, 21 anos mais tarde: planejaria o atentado ou então descansaria o rifle na paciência da tocaia pura e simples, porém de eficácia garantida. Se houve “licença poética” Nêumanne a situou entre os exemplos pessoais de Euclides e João Dantas, não entre o “Concerto” e “Os Sertões”. Quem me dera que meu humilde romance pudesse ser comparado a umas duas páginas da obra-prima de Euclides!

joao-dantas morto

João Dantas assassinado na Casa da Detenção do Recife
João Dantas assassinado na Casa da Detenção do Recife

 

Poetisa Anayde Beiríz, amante de João Dantas, suicidada e enterrada no Recife como indigente
Poetisa Anayde Beiríz, amante de João Dantas, suicidada e enterrada no Recife como indigente

6. Nêumanne destaca, ainda, a “forma musical” utilizada no romance, fato também mencionado pelo senhor na advertência ao leitor. Gostaria de saber um pouco mais sobre essa cadência da prosa de seu romance.

R – Um dos personagens que dão sustentação ao romance é um padre, Argemiro Sabaó, pároco de São Miguel de Taipu (ele e José Américo foram colegas de seminário). Sabaó é um grande estudioso da língua portuguesa, colaborador de filólogos como os mestres José Joaquim Nunes e Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Os estudiosos do idioma conhecem a dupla. Assim, como homenagem à cultura desse homem tão simples e tão sacrificado, achei de bom alvitre e de excelso respeito ornamentar o texto com frases de inspiração camoniana sempre que Sabaó aparece em cena. Ele bem merece um refrigério d’alma nos instantes em que se agrava o isolamento ante tão desditosa liça (esta última frase é um exemplo da linguagem à qual se refere o Nêumanne). E em nenhum momento, creio, me descuidei da musicalidade da língua portuguesa. Não apenas porque sempre fui um cultor dessa musicalidade como também para ser fiel ao próprio romance, entremeado de óperas, sinfonias, concertos, etc. Aliás, o “Concerto” está dividido em três partes, que são chamadas de “movimentos”, como nos concertos musicais: Allegro, Andante e Vivace.

7. Você inclui, no livro, uma bibliografia, onde se misturam textos históricos sobre os episódios de 30 com obras de autores clássicos como Luiz Vaz de Camões e Padre Antônio Vieira. Claro está, que nem todas as obras citadas na bibliografia foram consultadas, mas fica a curiosidade de saber qual a contribuição de Camões e Padre Vieira num livro sobre a Revolução de 30…

R – A contribuição camoniana já está respondida; e a de Vieira explica-se pela grande admiração que o padre Sabaó mantinha por sua obra. Sabia de cor os Sermões e um deles, aquele no qual o Senhor penitencia-se por ter criado o homem, é “declamado” aos fiéis, na missa que o pároco de São Miguel oferece ao Presidente assassinado.

8. Em um dos capítulos do livro (o 11), você narra com riqueza de detalhes os preparativos para o assassinato de João Pessoa. Na narrativa, é mencionado o affair entre João Pessoa e a cantora lírica Carina Malfitani, assunto ainda tabu na Paraíba. Você não teme reações da família do ex-presidente paraibano ao tocar no assunto?

R – Bom, já disse e repito que meu livro é um romance, é ficção, e assim deve ser visto. Troquei o nome da cantora, para não causar nenhum tipo de constrangimento a parentes próximos e distantes. Afinal, há, em flashback, cenas de sexo entre ela e o Presidente da Paraíba, cenas revividas pela “diva” após o assassinato do amante. São, todavia, momentos que escrevi com muito cuidado, escolhendo e sopesando as palavras. É sexo “quente”, porém digno, respeitoso. Não há vulgaridade no meu romance, isso eu posso garantir. No romance anterior, “A Santa do Cabaré”, há lesbianismo e incesto e eu tenho absoluta certeza de que não chocaram nem o mais pudico leitor. Não é possível que, aos 60 anos e depois de uma vida inteira em contato com as palavras, eu não saiba tratar de sexo com um mínimo de respeito ao leitor, não é mesmo? Todavia, se depois de todos os meus cuidados, houver alguma reclamação, poderei responder como Carlos Drummond de Andrade, quando saiu publicado o seu poema “O Sátiro”, em Lição de Coisas. É assim: Hildebrando insaciável comedor de galinha./Não as comia propriamente — à mesa./Possuía-as como se possuem e se matam mulheres./Era mansueto e escrevente de cartório. Dizem que em Itabira existia realmente um Hildebrando, funcionário de cartório e dado àquele feio hábito. Pois o homem procurou os jornais e meteu a boca no mundo; o poeta respondeu-lhe: “retire-se do meu poema!”. É claro que eu não faria isso com a surpreendente veemência do poeta, meu estilo é mais sossegado; eu pediria, encarecidamente, que o(a) atingido(a) deixasse as páginas do meu “Concerto”. Ora, poemas são poemas, romances são romances. É tudo ficção – ou quase tudo. A intimidade do Presidente João Pessoa no meu livro é, obviamente, peça de ficção. Não creio que amigos da família, ou mesmo parentes, reclamem de algo. Não há motivo para tanto.

joap pessoa

João Pessoa assassinado por João Dantas
João Pessoa assassinado por João Dantas

9. A propósito, apesar de ser um romance, seu livro toca fogo num vespeiro, já que até hoje a simples menção ao episódio traz de volta os radicalismos de perrepistas e liberais da política paraibana. Qual a sua expectativa para a leitura que possa se fazer da obra, principalmente na Paraíba?

R – Como me estendi um pouco na resposta acima, creio que esta já está respondida; posso adiantar que o romance também apresenta uma versão, bastante possível, embora improvável, de que João Pessoa talvez tenha sido assassinado a mando de um amigo, um correligionário, companheiro de campanha política, insatisfeito porque o Presidente mostrou-se (e esse fato é verdadeiro, está nas memórias de Zé Américo) contrário à revolução. Se é verdade que toco fogo num vespeiro, não me surpreenderia que fosse nesse trecho do romance. Porém, seria até bom uma polêmica a respeito; as polêmicas acendem o espírito, alumiam a alma…
10. Recentemente, o jornalista paraibano Fernando Melo lançou um livro resgatando a história de João Dantas, o assassino de João Pessoa. No seu livro há alguma tentativa de redimir João Dantas, transformando-o de algoz em vítima?

R – Não, de modo algum. O meu João Dantas, se posso falar assim do personagem do romance, aparece como uma pessoa capaz de ser influenciada por um jornalista, seu amigo dos tempos de Liceu, figura sórdida que deseja a morte do Presidente para aproveitar-se do caos e disseminar a corrução pela Paraíba e o Nordeste. Todas as versões são válidas quando a realidade se perde na obscuridade.
11. A licença poética foi fundamental para transpor personagens históricos como João Pessoa, João Dantas, Ademar Vidal e José Américo de Almeida para as páginas de um texto de ficção?

R – Já me referi a licenças poéticas e disse acima que todas as versões são válidas quando a realidade se perde na obscuridade. Isto é rigorosamente verdadeiro. O que não se pode, em hipótese alguma, é mentir descaradamente sobre um personagem da vida real que se transpôs para a ficção. Eu não poderia dizer, por exemplo, que Zé Américo traiu João Pessoa. Eu teria que provar isso – ou então, deveria mudar o nome do personagem, o que seria um absurdo, conforme já disse.

12. Foi o que você fêz com Ernâni Satyro, que no seu romance aparece com o nome de Libânio?

R – O Libânio do romance é um importador de gado indiano, que percorre inúmeros estados, conhece Deus e o mundo e é um leva-e-traz, um mexeriqueiro, boateiro. O personagem não tem nada de Ernâni Satyro, que era um intelectual, um escritor talentoso, um político de primeiríssimo time. Eu o conheci bem, nos encontramos na Paraíba, quando eu era repórter da revista IstoÉ, e também, por diversas vezes, em Brasília. Certa vez, em Brasília, eu contei a ele a história de um sertanejo dado ao onanismo, autor de uma frase engraçadíssima que não posso, infelizmente, repetir aqui, por respeito às famílias que lêem o Correio das Artes. Ernâni escutou a frase e riu a noite inteira; quanto mais goles de uísque bebíamos, mais ele me pedia para contar a história. E caía na gargalhada. A frase é realmente muito engraçada. Bem. Quando resolvi “rabiscar” o personagem Libânio, o qual, no romance, assume a frase como sua, eu ria e me lembrava de Ernâni. E Libânio acabou ficando, fisicamente – repito: fi-si-ca-men-te – parecido com Ernâni: baixo, “torado no grosso”, óculos de fundo de garrafa de cerveja Teutônia (a Brahma da época), voz tonitruante. Foi por isso que Nêumanne e outros leitores especiais do romance disseram: mas você retratou o Ernâni Satyro! Respondi: fisicamente, sim; o resto, não. Ernâni era, por acaso, vendedor de gado em 1930?!?!?!?!?

13. O Presidente Solon de Lucena também virou seu personagem e, segundo consta, é muito maltratado no romance.
R – Isso é boato de quem não leu o “Concerto”; Solon de Lucena aparece pouco, no início do livro, com os problemas do seu governo, a crise do café, principalmente. Outro personagem, o Senhor-de-Engenho Deba Coutinho, perrepista histórico, tem um entrevero com Solon, porém não é um entrevero político e sim sentimental; Deba “acha” que o Presidente lhe tomou a amante. Todas as dores do corno são atribuídas ao Presidente, porém o narrador em nenhum momento concorda com o personagem. Deba é um neurótico e nada mais.

 

Velório de João Pessoa (em João Pessoa ou Rio de Janeiro) foi a propaganda fúnebre da revolução de Trinta
Velório de João Pessoa (em João Pessoa ou Rio de Janeiro) foi a propaganda fúnebre da revolução de Trinta
Funeral de João Pessoa na Paraíba
Funeral de João Pessoa na Paraíba

14. Apesar de tantos personagens históricos circulando pelas páginas do livro, o personagem principal chama-se Isaías. Quem é esse Isaías e qual o seu papel na trama?

R – Isaías é um menino pobre, morador de um dos engenhos da várzea do Paraíba. Aquele também é cenário de minha infância, ali passei temporadas, no engenho Oiteiro e no Taipu; meu pai foi concebido e criado nos engenhos. Eu sou Moacir Japiassu Lins; quer dizer, tenho raízes fincadas nos bangüês; sou, para minha honra, aparentado com José Lins do Rego. Meu pai, Severino Lins Falcão, era, segundo a memória de todos, “filho natural” de um Senhor-de-Engenho daquele baixo curso do Paraíba. Esse Senhor-de-Engenho, “Seu Lôla”, como era chamado, e também meu pai, são personagens do romance. Volto a Isaías. Este foi criado por Sabaó; diziam que era, na verdade, filho do padre. Quando aparece no livro, logo no início, Isaías tem oito anos de idade, aparenta muito mais, porque é grandalhão, e acaba de perder o pai – o homem que vivia com a mãe dele. Diante da penúria da família, Sabaó aceita criar o menino, que se transforma em seu braço direito, desde as missas, que ajudava a rezar como coroinha e assobiador das músicas sacras, até pesquisador de seu anunciado livro em parceria com o filólogo português José Joaquim Nunes. Isaías, que é também balconista da farmácia, faz o serviço militar no Tiro de Guerra de Itabaiana, utiliza seu tamanho para prestar serviços a um Exército que desconhecia, é óbvio, os direitos humanos fundamentais e, em pleno fulgor da revolução de 30, conhece José Américo por vias transversas. É, modéstia à parte, um bom personagem; um personagem de ficção por excelência e eu me orgulho bastante de o ter concebido.

15. Saindo um pouco do romance, como jornalista e paraibano, qual a sua visão da Revolução de 30 e do assassinato de João Pessoa? Os livros lançados até hoje sobre o assunto conseguiram dar a dimensão correta do episódio, como ocorreu com Canudos através das páginas de Euclides da Cunha?

R – É muito difícil, quase impossível, ter-se a “dimensão correta” da Revolução de 30 na Paraíba; há muitas testemunhas, inúmeros textos apaixonados, e sabe-se que a paixão não é a melhor conselheira de um historiador. Há, sobre os acontecimentos, muitos “desabafos”, assim os podemos chamar; personagens glorificados numa obra são impiedosamente execrados noutra. Entretanto, é exatamente esse espetacular desencontro de opiniões e idéias que transformam aqueles dias num excepcional cenário de romance. Em Canudos, que rendeu uma das maiores obras da literatura brasileira, a única testemunha ocular (e com olhos de escritor) foi Euclides da Cunha. Quando escreveu A Guerra do Fim do Mundo, Mario Vargas Llosa confessou ter-se baseado n’Os Sertões. Tudo o que se fez e venha a ser feito sobre Canudos terá como ponto de partida a obra de Euclides. E olhe que os historiadores têm apontado inúmeras falhas em Os Sertões, falhas que devem existir realmente, pois Euclides não era um historiador e sim o enviado especial do jornal O Estado de S. Paulo. E, definitivamente, não se pode exigir de um escritor e jornalista a precisão metodológica do historiador. Eu embarco nessa canoa e esclareço que também sou jornalista e escritor, mereço tanta indulgência quanto Euclides, e talvez mais, porque não sou testemunha ocular de coisa alguma e as pessoas que assim se apresentam são, como disse, movidas pelo envolvimento pessoal, a emoção.

16. E a Revolta de Princesa? Não é um tema pouco explorado por historiadores, pesquisadores e até ficcionistas?

R – Em meu romance há inúmeras cenas da Revolta de Princesa, através dos depoimentos de Zé Américo, aos quais me refiro na tal “Advertência ao Leitor”. Preferi caminhar pela mão do Mestre porque o texto literário me oferecia beleza e facilidades. Poderia ter bebido doutras cacimbas, como os trabalhos de Inês Caminha Lopes Rodrigues, Ademar Naziazene, José Gastão Cardoso, José Leal, dentre outros, mas me convenci de que acabaria me confundindo, sem nenhum refrigério; afinal, eu não estava escrevendo História, simplesmente utilizava acontecimentos históricos como cenário de ficção. Sinto falta, como jornalista e, principalmente, como leitor, de uma obra que esgotasse o assunto. Isso é tarefa para um historiador com o nível do José Octávio de Arruda Melo, por exemplo. O livro dele A Revolução Estatizada – Um Estudo Sobre a Formação do Centralismo em 30, brilhantíssimo estudo acadêmico (tese de Mestrado na Universidade Federal de Pernambuco), é base natural de uma obra maior que está pedindo para ser escrita. José Octávio é o profissional talhado para desempenhar tal missão; tem todos os recursos do moderno historiador e ainda escreve muito bem.

 

Um Sábado em Trinta

Dia 3 próximo, Um Sábado em Trinta, de Luiz Marinho, volta a ser encenado no Teatro Valdemar de Oliveira, no Recife.

Luiz Marinho escreveu 14 peças, e Um Sábado em Trinta foi a primeira, e encenada em várias cidades do Brasil e no exterior. Antes mesmo de sua estréia, Luís Marinho recebeu em 1963, dois importantes prêmios: um no concurso da União Brasileira de Escritores, secção Pernambuco; outro no concurso da Escola de Belas Artes, da Universidade do Recife. Outra premiação significativa deu-se em 1974, quando o teatrólogo foi contemplado com o prêmio Molière, de melhor autor, pela obra Viva o Cordão Encarnado, dirigida por Luís Mendonça, no Rio de Janeiro.

Um Sábado em Trinta tem duas montagens famosas. A primeira de Valdemar de Oliveira. A segunda de Reinaldo de Oliveira. Valdemar tornou o nome de Luiz Marinho nacionalmente conhecido.

Reinaldo seguiu os passos do pai. Em 22 de setembro de 2012, publicou o jornal O Globo:

“Além de dirigir a montagem, Oliveira é ator e concilia a carreira da arte com a medicina, inclusive professor. “Às vezes as pessoas me perguntam: como é que você como médico, cirurgião, consegue ajustar o seu tempo com o teatro? É muito fácil, de manhã, quando eu estou operando, estou pensando na peça que vou representar à noite. E de noite, quando estou representando a peça, estou pensando na operação que vou fazer no dia seguinte! É uma maneira um pouco grotesca e graciosa ao mesmo tempo, de justificar essa minha vida, tanto na arte da medicina quanto na arte teatral”, comentou.

Um Sábado em Trinta com o genial Reinaldo Oliveira, que também é compositor, autor de frevos do Carnaval de Pernambuco
Um Sábado em Trinta com o genial Reinaldo Oliveira, que também é compositor, autor de frevos do Carnaval de Pernambuco

Uma mudança que certamente será sentida pelo público é a troca dos atores, entre eles, a dama do teatro pernambucano, Geninha da Rosa Borges, que encenou Dona Mocinha durante anos. Quem assume o papel é a atriz Renata Phaelante, que diz se sentir honrada. “É emocionante, porque vem de Geninha para mim, e eu trouxe para a minha carreira esse senso de responsabilidade que ela tem com os personagens. Ela cuida do figurino dela, das coisas dela, da meinha, do sapato, ela leva para casa, ajeita, compõe o personagem. E eu acho que eu trouxe isso dela para mim”, contou.

Outros atores que estavam no elenco original e serão substituídos são Fernando de Oliveira e Lano Lins. No lugar deles, entram, respectivamente, os atores Adelson Simões e Alderico Costa Melo. Além disso, o elenco recebe também a jovem Sophya Costa.

O texto da nova montagem também não é o mesmo de 1963, ano em que estreou o espetáculo. De acordo com a companhia, a mudança foi feita porque algumas coisas que faziam sentido na época não seriam tão engraçadas atualmente. No entanto, o grupo afirma que as alterações não afetam a direção ou o rumo da peça, que sofreu apenas pequenos cortes e acréscimos”.

Temos agora uma terceira montagem. Cenas:

Sábado em 30

2 Sábado em 30

3 sábado em 30

3 sabado em 30
Luís Marinho, além do Molière, foi premiado pela Academia Brasileira de Letras,  Academia Pernambucana de Letras e o Estadual de Teatro (do então Estado da Guanabara).

Suas principais obras foram:
Um sábado em trinta.
A promessa.
Viva o cordão encarnado.
A derradeira ceia.
A incelença.
A afilhada de Nossa Senhora da Conceição.
A valsa do diabo.
A estrada.
Foi um dia.
A família Ratoplan.
As aventuras do capitão Flúor.
O último trem para os igarapés.
Corpo corpóreo.
As três graças.

Em sua dramaturgia, suas memórias do interior de Pernambuco, de sua cidade natal,  Timbaúba, a partir de um universo de crendices, violeiros, vaqueiros, cangaceiros e outros tipos locais. Muito embora tenha sido reconhecido como um autor regionalista, ele acreditava que sua obra transcendia a esta categorização.

“Apenas procuro defender e valorizar o que amo. Que viva o teatro maior, de todas as regiões e pátrias”, ressaltou Luís Marinho.

No elenco de Um Sábado em Trinta:

Anayra Bandeira
Anayra Bandeira
Kackeline Villarim
Kackeline Villarim

Reserve seu ingresso

Sindicato dos jornalistas de Pernambuco quer fazer eleição bico de pena com urnas volantes prenhas

Eleicoes-Voto-Censitario

Bico de pena. Forma de eleição praticada na República Velha antes de 1930, cujo voto era aberto e não secreto, e havia controle dos caciques políticos sobre os eleitores. Para acabar com essa manipulação, o Brasil fez a Revolução de Trinta.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco, prefere o voto bico de pena, o voto marmita das urnas volantes.

VOCÊ ACREDITA EM URNA VOLANTE?
VOCÊ ACREDITA EM URNA VOLANTE?

Eleições de Bico de Pena


Era um tipo de eleição realizado durante o período da chamada política do “café-com-leite”, através de listas de votação com os nomes daqueles que eram aptos a votar, listas que a chapa governista ainda não divulgou, nem entregou – como manda a lei – para os participantes da chapa oposicionista Você Sabe Porquê.

Mas eleições da República Velha, essas listas sofriam alterações de assinaturas e os votos eram falsificados para que os resultados fossem manipulados. Este tipo de prática refletia um modo de política feita com cartas marcadas pelos interesses das alianças, que garantiam a estabilidade vigente. No caso do Sinjope, o continuísmo do mando dos jornalistas secretários de imprensa de Eduardo Campos e Geraldo Júlio, que possuem os mesmos interesses dos barões da mídia.

O voto bico de pena e o voto marmita: a história das eleições no Brasil

por Janaína Botelho

O voto no Brasil tem uma historicidade. No período colonial, os políticos eram escolhidos através da declaração oral dos eleitores e a cédula eleitoral surgiu apenas no Império. Com o fim da eleição indireta dos pelouros, os vereadores passaram a ser eleitos diretamente, através de um sistema que dividia a sociedade politicamente ativa em “votantes” e “eleitores”. Votantes eram os homens com determinada renda anual, excluídos os menores de 25 anos (exceto os casados, os oficiais militares, os clérigos e os bacharéis); os filhos-famílias que vivessem em companhia dos pais (exceto os que exerciam ofícios públicos); os criados (em cuja classe não se incluíam os guarda-livros e os caixeiros); os administradores de fazendas rurais e fábricas e os religiosos que viviam em regime de reclusão. Eleitores eram os homens escolhidos pelos votantes nas Assembleias Paroquiais e que deveriam possuir uma renda anual bem superior a dos votantes. Os eleitores compunham os colégios eleitorais que elegiam os deputados provinciais e gerais e os senadores, estes últimos em uma lista tríplice para ulterior escolha do imperador. Logo, a cada quatro anos, no dia 7 de setembro, os votantes se reuniam nas igrejas locais e elegiam, por sufrágio direto, os sete vereadores, os juízes de paz e indiretamente, por intermédio dos eleitores, os parlamentares provinciais e gerais.
capa_livro_bico_pena_ue
Mas o processo eleitoral brasileiro já ganhou bizarras denominações, como a eleição “a bico de pena” e o voto “marmita”. Na República Velha, o voto era facultativo e “a descoberto”, embora a constituição determinasse o voto secreto. Nesse período, como era comum se forjar o resultado, as eleições ficaram conhecidas como eleições “a bico de pena”, alterando-se com a caneta, que era de bico de pena, os votos a favor de um determinado candidato. Mas não era suficiente ser eleito através de fraude. A Comissão de Verificação de Poderes do Senado deveria ratificar ou não a eleição de deputados e senadores. Controlada pela elite governista, a comissão impedia que a oposição tivesse sua eleição reconhecida. Essa prática ficou conhecida como “degola”.
quanto_seu_voto
A Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder, instituiu a Justiça Eleitoral, com a promulgação do Código Eleitoral, pois uma das reclamações contra o sistema político da República Velha era a facilidade com que se manipulavam as eleições. Mas nesse período, as cédulas eleitorais eram impressas e distribuídas pelos partidos ou pelo próprio eleitor. Era o denominado “voto marmita”, pois o eleitor trazia o voto pronto de casa em um envelope contendo as cédulas dos seus candidatos. Para proteger o sigilo do voto, foram adotados alguns mecanismos: embora as cédulas continuassem individuais, foi exigido o envelope oficial no qual o eleitor inseria sua cédula, sendo o envelope rubricado pelo mesário antes de ser depositado na urna. Igualmente foi introduzida a cabine para garantir a privacidade do eleitor. Surgiu finalmente um projeto de cédula oficial, impressas e distribuídas pela Justiça Eleitoral e a cédula única foi transformada em lei e utilizada nas eleições presidenciais de 1955. O último avanço foi a partir das eleições de 1996, com a adoção das urnas eletrônicas.
Até 1985, o analfabeto era proibido de votar no Brasil. A Lei Saraiva, de 9 de janeiro de 1881, proibira o voto aos analfabetos. O direito do voto só será permitido ao analfabeto com a promulgação da Emenda Constitucional número 25, de 15 de maio de 1985, e regulamentada pela Lei 7.332, de 1º de junho de 1985. Se considerarmos que o analfabetismo só foi erradicado na segunda metade do século XX, a maioria da população estava alijada da participação política.
JORNALISTA NÃO TEM MEDO DE CARETA. TODO JORNALISTA VERDADEIRO DEFENDE A LIBERDADE DE IMPRENSA E O VOTO LIVRE
JORNALISTA NÃO TEM MEDO DE CARETA. TODO JORNALISTA VERDADEIRO DEFENDE A LIBERDADE DE IMPRENSA E O VOTO LIVRE
Concluindo, na história das eleições, o povo brasileiro sempre ficou à margem do processo eleitoral. O voto censitário, um sistema em que somente poderia votar quem tivesse uma renda mínima, foi abolido com a constituição republicana de 1891. No entanto, a exclusão dos analfabetos do voto, que abrangia a maior parcela da população brasileira, colocava-os fora da participação política. Vale lembrar ainda que o voto feminino só foi admitido no governo Vargas. Atualmente, discute-se a não obrigatoriedade do voto para evitar a manipulação por parte da classe política. Observando a historicidade do voto no Brasil, chegamos à conclusão que a maior parte do povo brasileiro foi muito tardiamente convidada a participar da mesa dos “senhores”.
voto marmita

Armaram um esquema para transportar jornalistas aposentados. Jornalista não é burro velho. A recomendação da Chapa Você Sabe Porquê é aceitar a carona.

Todo mundo sabe quem paga o transporte direta ou indiretamente.

Agora, na hora de votar, do jornalista a lembrança da aposentadoria que recebe.

Jornalista explica por que a imprensa chama bandido perigoso de “suspeito”

por Moacir Japiassu (*)

A mania idiota de se chamar de “suspeito” todo aquele que comete um crime (mesmo que seja flagrado cometendo-o) tem origem na língua inglesa. Nos EUA, todo mundo é chamado de “suspect” porque ainda não foi condenado, além de um outro detalhe: como a sociedade norte-americana é movida a processos judiciais, os jornalistas adotaram as palavras “suposto”, “suspeito” etc

Um dia, no Paraíso,
Na velha casa de Adão,
Jesus, que fez um sermão,
Foi um Dia do Juízo
São Pedro, que tava liso,
Ali vendeu um jumento
Por vinte e quatro e quinhento,
Pra comprá cumiduria…
Foi muito pão nesse dia,
Diz o Novo Testamento
(Mote glosado por Zé Limeira, “poeta do absurdo”.)

 

 

 

Jornalista explica por que a imprensa chama bandido perigoso de “suspeito”
O considerado Claudio Lessa, que no seu blog se apresenta como jornalista, tradutor, narrador, escritor, comentarista, colunista, músico, cantor, videógrafo, mecânico de automóveis, curioso sobre informática, cético e provocador, envia de seu escritório em Brasília:

Essa charada foi muito fácil de matar (claro, vivi durante 20 anos nos EUA e aprendi certas manhas da tradução do Inglês para o Português, mas isso é outra história).

 

A mania idiota de se chamar de “suspeito” todo aquele que comete um crime (mesmo que seja flagrado cometendo-o) tem origem na língua inglesa. Nos EUA, todo mundo é chamado de “suspect” porque ainda não foi condenado, além de um outro detalhe: como a sociedade norte-americana é movida a processos judiciais, os jornalistas adotaram as palavras “suposto”, “suspeito” etc. como forma de escapar de possíveis processos. Os macaquinhos de imitação daqui perceberam o esquema e o adotaram rapidamente, ignorando o idioma pátrio.

 

É mais ou menos o mesmo que aconteceu com “estimar”, por exemplo. Nos EUA, você escreve “officials estimate the earthquake left ten thousand dead”, por exemplo (autoridades calculam que o terremoto deixou dez mil mortos) Por aqui, a preguiça dos “tradutores” que não abrem dicionário acabou ficando no “estima” (autoridades estimam…), quando a primeira acepção de estimar em Português é querer bem.

 

Do mesmo modo, alguns tentaram (acho que sem sucesso) dizer que a pessoa estava “constipada”para descrever o clássico nariz entupido, já que constipação é prisão de ventre…

 

Essa turma não descansa, meu caro!

 

(Visite o Blog do Lessa.)

bandido_-_coluna_-_japi

“Os jornalistas adotaram as palavras ‘suposto’, ‘suspeito’ etc. como forma de escapar de possíveis processos”, diz o jornalista Claudio Lessa (Imagem: Reprodução/Frutilau.com)

***** ***** ***** ***** *****

 

Incêndio


O considerado Eliakim Araújo, a mais bela voz do Brasil, vive hoje em Miami mas sempre a torcer pelo Vasco. Na segunda-feira, 4/3, foi conferir a situação do nosso time e tropeçou nesta surpresa:

Foram duas frases que encontrei em apenas uma matéria no Globo online (a única que li) sobre a morte do casal do Leblon:

 

— O casal começou a gritar por socorro, pois não estaria conseguindo abrir as portas.

 

–Amanhã e depois vão morrer mais gente e ninguém se importa.

***** ***** ***** ***** *****

Impunidade


Os magistrados estão putíssimos com o ministro Joaquim Barbosa porque ele disse aos jornalistas estrangeiros que “os juízes brasileiros têm mentalidade mais conservadora, pró status quo, pró impunidade.”

Janistraquis, que não entende do assunto mas está longe de ser burro, meteu a colher de cabra enxerido:

“O problema pode não ser de mentalidade, mas de incompetência pura e simples. Eu já disse aqui nesta coluna que juiz não pode seguir a lei ao pé da letra, pois se assim for, a gente faz o mesmo e não cobra nada. Juiz precisa interpretar a lei.

 

Ora, se um bandido perigoso está ‘pronto para obter livramento condicional’, por exemplo, porque a lei diz que é assim, Sua Excelência examina a ficha do sujeito e diz que ele vai permanecer na cadeia e pronto. Soltar porque a lei manda é um absurdo!!!”

(Se você não leu, leia aqui a entrevista do ministro.)

 

___

Transcrevi trechos.

(*) Moacir Japiassu é um dos principais romancistas da atualidade. Escreveu Quando Alegre Partiste, Melodrama de um delirante golpe militar, o de 64. Que historia a vida boêmia e jornalística e literária dos anos sessenta no Rio de Janeiro e Minas Gerais. A véspera e o dia do golpe. Uma visão de dentro de uma redação, e nas ruas. Um tempo que terminou com a chegada dos militares ao poder. Algozes e vítimas são personagens: o general, o conspirador, o espia, o torturador, o jornalista, o poeta (um Jorge de Lima que poucos conhecem), o banqueiro, o empresário, a menina virgem, a amante, a prostituta, a beata das procissões pela Pátria, Família e Propriedade. Em Concerto Para Paixão e Desatino, Romance de uma Revolução  Brasileira, a de 30, narra toda a trama revolucionária tendo como cenário a Paraíba dos Dantas, de João Pessoa, de José Américo, e o Recife conquistado pelos paraibanos. São dois livros que agradam qualquer tipo de leitor. E de leitura obrigatória, principalmente, para quem estuda Literatura, História, Jornalismo, Ciência Política, Comportamento e Costumes do brasileiro. Um livro para todos. Esta a magia, o toque de mestre de quem sabe escrever. De quem, verdadeiramente, é um escritor. Um contador de histórias. Eu, que fui treze anos professor de Jornalismo, recomendava, para os alunos, a leitura de Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos. Acrescento Concerto Para Paixão e Desatino e Quando Alegre Partiste.

 

Revolução de Trinta: romance e memória por Nei Duclós e Moacir Japiassu

O que aconteceu no outubro de uma revolução brasileira? Um romance e as memórias de ex-combatentes trazem à tona o dia em que o Brasil começou a mudar

Nei Duclós
Especial para o Jornal Opção

Depois de meio século de histórias mal contadas, aos poucos o Brasil inaugurado pela Revolução de 1930 ganha contornos mais nítidos, livres do aparelhamento político de que foi vítima, principalmente a partir do anti-1930, o golpe de 1964. Nestes dois textos, fora da ordem canônica das abordagens, damos um mergulho no que aconteceu na hora agá da revolução nos dois Estados chave do movimento, Paraíba e no Rio Grande do Sul. Um ensaio aborda o romance maior do paraibano Moacir Japiassu e o outro é uma reconstituição do batismo de fogo da guerra que mudou o país no lugar onde a onça bebeu água: Porto Alegre.

História é tiroteio

Linguagem é território livre, mas não deveria estar aberta a certas liberdades. Se o lugar escolhido para moradia for a Paraíba, as palavras precisam seguir a orientação ditada pela sabedoria da terra, e cuidar principalmente da tocaia. Um tiro pela culatra é o que menos aguarda um índio que se aventure na seca abraçada à areia. O que mais assusta é a desventura de ver sua catedral de palha — a percepção que até o momento se alimenta do mundo — sofrer o revés de um pé de vento. Mas para quem é estrangeiro, e queira visitar essas paragens, nada mais resta do que tratar o assunto com as hipérboles do seu espanto, já que o não-nordestino sofre de escassez de entendimento quando se trata de abraçar a Terra do Sol.

Um adventício, especialmente se for criado nas lonjuras sulistas, quando lhe bate a luz excessiva na cara cai na tentação de lembrar o óbvio, de que o caminho escolhido para a criação do mundo foi o verbo, o romance do “Gênesis”. Deus, prudente, preferiu aliar o testemunho por escrito aos seus gigantescos atos. Não fosse assim, quem garantiria crédito ao seu desmesurado esforço? E, melhor: não fosse pela palavra, quem poderia garantir que a encomenda fosse entregue no endereço certo? Pois não bastava inventar, era preciso inventar escrevendo. E assim foi feito o primeiro livro, do qual todos os outros são apenas imagem e semelhança.

O viajante traz na bagagem os arquivos a que está acostumado e quando depara com a Paraíba, por exemplo, é capaz de desistir da empreitada, pois tudo o que vê não poderá amarrá-lo a semelhante paisagem, já que nada ali tem seu feitio, a não ser o idioma, termo mais apropriado do que língua, que serve para diversas licenciosidades. É agarrado ao idioma que o viajante entra na Paraíba, guiado por Moacir Japiassu, que tem, com qualquer viajante, uma identificação plena. Pois ele também, um confesso paraibano auto-exilado, serviu-se da vivência estrangeira para depurar sua criação e entrou de volta não com a curiosidade dos turistas, nem com a condescendência dos que se iludem com os grandes centros, mas com a gana do combatente que volta para algum tipo de desforra.

É bom que se diga: não se trata de vingança, pois nenhum espírito mau sobrevive ao fogo do amor pelo lugar que nos viu nascer e crescer. Mas porque o escritor está empenhado em uma missão in­transferível: a de resgatar o que perdeu, tornando essa herança tão viva para os outros como foi para ele um dia; e tão maior do que qualquer mundo presente.

Todos que estão ao redor de um possuído incorporam as razões da advertência e confidenciam a quantidade de perigos que sugere esse estado. Mas quem é possuído não pela desrazão, mas pela criação obstinada, sabe que não pode voltar atrás. Ele precisa, como Japiassu fez, colocar em ação o moto contínuo de sua febre, composto de uma biblioteca afundada no ermo; um assobiador que é misto de virtuose, intelectual e torturador; um senhor de engenho do mando e do cutelo, dono de escravaria jagunça; outro senhor de engenho solteirão e cheio de remorso; uma sogra carola e terrível; uma esposa apática; uma professorinha na flor do viço e tentada pela esperteza; mais um padre que faz cruzada contra a jogatina. O sezão de Japiassu não se contenta, porém, em dispor esses personagens entre o canavial e a choupana, entre a igreja e a varanda, entre povoados que, no escuro, como ele diz, aglomeram as casas com medo da escuridão. Seu delírio o leva para mais longe.

Ele precisa descobrir, portanto inventar, o engenho de duas guerras acavaladas e isso só pode ser feito se for um leitor compulsivo de tudo o que as armas fizeram nesta nação, onde todos pensam que sabem, mas poucos sabem o que pensam. A revolta de Princesa, no interior da Paraíba, a cavaleiro da revolução de 30, movimento nacional visto aqui pelo prisma revelador do Nordeste, são os espaços históricos da sua incursão à memória mítica do País, ao que nossos pais nos contavam e nenhum livro oficial de história dava crédito. Como as guerras, no Brasil, convivem com as versões que as negam, cabe à literatura desencavar o rebento retido nessa gravidez tardia, que envenena o corpo do Brasil disforme, prenhe de gaiatices sobre revoluções.

O paradoxo é que o material de Japiassu é exatamente essa humanidade sinistra e ao mesmo tempo galhofeira, que é protagonista nos fatos e algoz nas versões. O campo de ação de um escritor fica duplamente minado e agora podemos entender quando Japiassu fala do trabalho que deu reescrever capítulos inteiros, adaptando a linguagem do narrador à fala das personagens. Esse trabalho é fruto do exímio talento aliado à persistência sertaneja, já que Japiassu dá um boi para adiar a escrita de um livro (seus grandes romances só saíram nos últimos anos, depois de décadas de militância na imprensa) e uma boiada para sair dele com a consciência do dever cumprido. O funcionamento desse mundo, que ele resgata inventando, passa pelo cuidado extremo com o detalhe, como o levantamento minucioso de cada peça musical clássica, por exemplo; ou as pistas deixadas pelas revoluções incompreendidas, entre trechos de jornais, manchetes, documentos; ou mesmo o cruzamento entre o clima da terra e o ânimo das pessoas, a geografia e a anatomia. Faz tudo isso usando muitas vezes a linguagem dos brutos: o sexo tem tratamento frontal (mas é praticado de todos os lados), os xingamentos especializam-se na demolição das biografias, o fedor antecipa o tiroteio e assim por diante. E cuida em definir-se pelo pudor dos verdadeiros criadores — ninguém fica sabendo se Isaías, o assobiador, é filho do padre Sabaó (se Isaías não sabe, porque o autor vai lhe devassar esse segredo)? Tudo intercalado (para evitar pomposidades) pela gargalhada explícita — reação comum do leitor em várias passagens do livro.

Sua galeria de personagens inclui tantas figuras fundamentais, que elencá-las numa resenha parece ser o relatório do viajante iludido em levar o romance como lembrança. O jornalista do jornal “Impren­sa às Suas Ordens”, cúmplice do assassinato do presidente João Pessoa, ilumina as origens de um conterrâneo tornado ilustre, Assis Chateaubriand; o José Américo recriado aqui revela o lado desconhecido da Revolução de 30, com suas contradições no bojo da luta; o conde cafetão e a soprano lírica amante do político poderoso são um ensaio sobre os bastidores de um movimento que ainda guarda vários enigmas. Não satisfeito, Japiassu ainda brinda o leitor com os antecedentes de toda a situação política e social do Nordeste ao colocar as origens da República por meio de ilustres figuras da transição, vindas do Império. Parece um confeito no bolo da noiva, mas é mais uma bala nesse rifle recheado.

Estamos longe de ver no concerto de Japiassu apenas uma obra didática, já que ele compartilha do caos que representa sem dó. Mas ele mantém a majestade do maestro que ensina ao impor sua regência. Seu romance reinventa a importância do seu autor, assim como estabelece um novo parâmetro na terra calcinada da literatura brasileira. O autor, imbuído da sua missão e do seu destino, avisa que os mortos não foram enterrados, nem o serão tão cedo. Que os enterrados vivos mordem. Que os excluídos da história sempre voltam. Que Deus, mesmo para os anticlericais, está vendo tudo. E que a punição será severa se tentarem ignorar mais este acontecimento cultural, que reforça a necessidade de o Brasil criar grandes livros, e não apenas literatura descartável.

Diante de um homem como Moacir Japiassu, ungido pelo dom da criação e apoiado pela cavalaria andante do talento, é prudente não exceder-se na conversa, já que se trata de um soldado marcado pela guerra. Diante de um escritor como ele, quem tem juízo cala e escuta. E quem tiver respeito, apresenta armas.

Disfarça que lá vem bala

Na manhã de 3 de outubro de 1930, o tenente-coronel Pedro Aurélio de Góis Monteiro foi passear em trajes civis na rua da Praia e ficou chocado: todo mundo citava seu nome como chefe militar da revolução que iria rebentar em poucas horas. Abatido com a indiscrição dos gaúchos, que faziam os comentários abertamente nos cafés e rodinhas na calçada, foi sentar-se, desolado, num dos bancos da praça da Alfândega.

Aproximou-se então um amigo, oficial do Estado-Maior da Região e ofereceu-se para participar do movimento. O paraibano Góis Monteiro, que confessava não ter vocação militar, disfarçou: “Minha presença aqui na praça já é um desmentido. Mas se isso que estão falando realmente acontecer, o senhor deve ficar ao lado do seu general”.

A tensa volta para casa aumentou seu nervosismo: já estavam assaltando as lojas de armas, os colégios encerravam as aulas e o comércio fechava as portas. Almoçou com a família e despediu-se da mulher e dos filhos: não sabia se tornaria a vê-los. Quando chegou na residência da irmã de Oswaldo Aranha para os últimos preparativos, fez um desabafo contra a “indiscrição da gente gaúcha”. Mas não tinha jeito: o “baile” tinha hora marcada e ele dirigiu-se ao Palácio do Governo para a cartada final.

Oswaldo Aranha também deu seu passeio na rua da Praia naquele dia, junto com o mineiro Virgílio de Mello Franco, um dos principais articuladores da revolução, que conta como foi: “Nosso propósito era despistar, pela nossa aparente despreocupação, o espiões do comandante da Região Militar, que andavam em grande atividade”.

Aranha estava preocupado: já passava do meio dia e o general Gil de Almeida, que tinha saído muito cedo, ainda não estava no Quartel General. Alguém o teria avisado e a pessoa mais importante do inimigo já estaria recolhido a algum outro quartel, esperando os acontecimentos? De repente, um “secreta” a serviço da causa passou por perto e sussurrou: “O home já está em casa”.

Quem não gostou daquela movimentação foi a filha do presidente do Estado, Alzira Vargas. Quando voltou do colégio, às quatro da tarde, a mãe, Darcy, avisou que não dormiriam no palácio pois a revolução iria rebentar depois das cinco horas. “Você precisa ir para tomar conta dos irmãos”, disse para a filha, que tentou reclamar, oferecendo-se para lutar. O irmão, Lutero, estava furioso: “Uns caras entraram no meu quarto e estão trocando de roupa sem pedir licença”. Era Góis e seu Estado Maior, que colocava a farda para assumir a luta. “Desde 25 de setembro a revolução ficara marcada para 3 de outubro”, conta Barbosa Lima Sobrinho. “A necessidade de comunicar a hora certa para um número enorme de pessoas, em todos os cantos do país, fez com que se divulgasse a combinação. Mas quem se atreveria a comunicar a informação ao sr. Washington Luiz, no receio de pilhérias desdenhosas que acolheriam a notícia inacreditada? Assim, ninguém se preveniu para a Revolução, que foi uma surpresa para o governo, muito embora andasse há muito entre os segredos de polichinelo”.

Uma das pessoas que ignoravam tudo era João Simplício, secretário da Fazenda do presidente do Estado, Getúlio Vargas. Os dois despachavam calmamente no Palácio, quanto às 17h30 ouviu-se o primeiro silvo vindo dos lados do Quartel General, seguido de mais um. Segundos depois, era um tiroteio cerrado, que em pouco tem se estendeu à cidade inteira. Diante do susto do seu auxiliar, Getúlio foi muito objetivo: “Calma, João Sim­plício. É a revolução”.

“Foi uma coisa brutal”, lembrou Flores da Cunha num depoimento sobre o assalto ao Quartel General. “Aquilo foi um ato que não se re­produz muitas vezes no mundo. Eu e o Oswaldo Aranha no comando de trinta guardas-civis, que saíram, numa marcha de rotina de policiamento. Quando fronteamos aquele ângulo morto do quartel, um dos guardas gritou: à carga! Eles se atiraram dentro do quartel e arrancaram as armas dos soldados, praticamente com as mãos limpas. Que coisa, que gesto! Morreram três ali mesmo. O que gritou à carga levou um tiro na cara.”

O QG estava situado, naquela época, numa esquina da rua dos Andradas, o quartel do 2º Exército ficava quase defronte e o da Brigada Militar na mesma rua. Vinte dias antes, Oswaldo Aranha selecionou 200 homens e determinou que diariamente, entre cinco e seis da tarde, marchassem em volta do quarteirão, passando sempre mais próximo das calçadas dos quartéis, recomendando que não aceitassem provocações de ninguém, por mais pesadas que fossem. Várias vezes os soldados do Exército provocaram os brigadianos, chamando-os de soldados de brinquedo, bonecos. Assim, no dia 3, o desfile já tinha se transformado em rotina e isso foi fatal.

A filha do general Gil, que morava num dos apartamento que existia no QG, veio direto a Flores da Cunha e advertiu: “Não deixe ninguém entrar no quarto do meu pai, que ele vai se matar”. Flores tranquilizou: “Ninguém vai entrar lá. Tira o revólver da mão dele, que ninguém vai invadir”. A oficialidade da Brigada Militar, segundo Flores, ficou só olhando o tiroteio, da calçada em frente. “Tive que saltar por cima dos miolos de um guarda morto e cheguei a gritar para os oficiais da Brigada: tragam uma padiola para levar este homem e eles me responderam: não existe nenhuma padiola aqui.”

“Exatamente na porta de entrada do Quartel jazia morto, com a cabeça estourada por uma granada de mão, de braços abertos em cruz, um pobre guarda civil”, conta Virgílio de Melo Franco. No meio da rua, no saguão e nas escadas, outros mortos. Seis tinham morrido imediatamente e cinco morreram mais tarde. Ao todo, entre mortos e feridos, 25 tinham sido postos fora de combate. Às 11 da noite, já estavam dominados o QG, o Arsenal de Guerra, o 8º e 9º Batalhão de Caçadores, o Es­quadrão da Região, o Curso de Preparação Militar, o Contingente de Carta Geral e mais a Com­panhia de Estabelecimentos, situado no Parque da Redenção. Só o 7º B.C. resistia.

“A obstinada resistência durava já mais de quatro horas”, conta Góis, “sem qualquer sinal de esmorecimento, sem atender a nenhuma intimidação para capitular. Não tive outro recurso naquela emergência: mandei bombardear o quartel com lança-chamas”. Logo aos primeiros disparos, foi incendiado um pavilhão que alojava uma companhia do Batalhão. A pedido de Flores, Góis fez uma trégua de uma hora para negociar a rendição. Enquanto conversava com o emissário, restabeleceu-se o tiroteio, já que o prazo da trégua tinha esgotado. Foi uma longa negociação, que terminou na rendição do 7ºB.C e a vitória da revolução em Porto Alegre.

O gaúcho Cordeiro de Farias, que estava em Minas naquela época, fez pouco da fuzilaria do sul: “O papel do Rio Grande do Sul não foi preponderante nem na fase conspiratória nem no levante revolucionário. Examinando com cuidado o aspecto militar do movimento, veremos que os gaúchos tiveram uma participação pequena. Para eles foi um ‘dolce far niente’. Em Minas foi diferente. As unidades estacionadas no interior não ofereceram grande resistências, mas o fato é quer em Belo Ho­rizonte a luta foi dramática e prolongada”. Minas, como se sabe, é sempre outra história.

O poder pelo poder. E o pobre povo pobre de Minas?

Reclama o jornal conservador Estado de Minas:

Levantamento do EM comprova: nunca antes na história deste estado foi tão baixa – e pífia – a representatividade mineira nos ministérios e nos altos escalões do governo federal Segundo maior colégio eleitoral do país, Minas Gerais ocupa apenas dois dos 38 ministérios no governo Dilma Rousseff, embora ela tenha nascido em BH. Ainda assim, os dois ministros mineiros – Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, e Eleonora Menicucci de Oliveira, da Secretaria de Políticas para as Mulheres – lá estão por terem relações pessoais de amizade com a presidente. Já o Rio Grande do Sul, onde Dilma construiu sua carreira política, controla nove pastas, ficando atrás apenas de São Paulo (10). A representação mineira se equipara às do Maranhão, Bahia e Paraná. Mas não era assim. A partir da redemocratização do Brasil, Minas chegou a ter 17% dos ministros. Dos 285 nomeados entre os governos Sarney e Lula, 46 eram mineiros. Para analistas, o estado vive um momento de esvaziamento político. E um sintoma é que já teve 11 entre os 100 congressistas mais influentes e hoje tem apenas quatro.   (Quinho)

Nunca antes na história foi tão baixa – e pífia – a representatividade mineira nos ministérios e nos altos escalões do governo federal

Segundo maior colégio eleitoral do país, Minas Gerais ocupa apenas dois dos 38 ministérios no governo Dilma Rousseff, embora ela tenha nascido em BH. Ainda assim, os dois ministros mineiros – Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, e Eleonora Menicucci de Oliveira, da Secretaria de Políticas para as Mulheres – lá estão por terem relações pessoais de amizade com a presidente. Já o Rio Grande do Sul, onde Dilma construiu sua carreira política, controla nove pastas, ficando atrás apenas de São Paulo (10). A representação mineira se equipara às do Maranhão, Bahia e Paraná. Mas não era assim. A partir da redemocratização do Brasil, Minas chegou a ter 17% dos ministros. Dos 285 nomeados entre os governos Sarney e Lula, 46 eram mineiros. Para analistas, o estado vive um momento de esvaziamento político. E um sintoma é que já teve 11 entre os 100 congressistas mais influentes e hoje tem apenas quatro.

Sem memória histórica, o Estado de Minas não relembra que o Brasil fez uma Revolução para valer, a de Trinta, para acabar com a política café com leite, do mando de Minas Gerais e São Paulo.
Porque era assim: ora um presidente mineiro, ora um paulista. O Estado de Minas esquece: quem tem o presidente tem tudo.
Em 1964, o governador Magalhães Pinto foi o chefe civil do golpe dos militares, e fez a maioria dos vice-presidentes dos governos militares.