Como é a vida, a censura e a autocensura dentro de uma redação

por Paulo Nogueira

Ela não está segurando um rottweiler
Ela não está segurando um rottweiler

Leitores gostam de saber como são as entranhas das redações. Muitas vezes, eles têm uma ideia distante da realidade.

Então vou escrever mais um texto sobre isso, baseado numa troca de tuítes que tive hoje com Barbara Gancia, colunista da Folha e integrante do grupo do programa Saia Justa.

Barbara disse algo mais ou menos assim: “A pergunta não é por que Dirceu está preso, mas por que Palocci não está.”

Eu retruquei: “A pergunta é por que a Folha não cobre a sonegação da Globo.”

Falei isso, mas poderia ter dito centenas de coisas.

Para lembrar, fiz a mesma pergunta para o editor executivo da Folha, Sérgio Dávila, pelo Facebook. A Globo acabara de admitir, em nota, um problema extraordinário com a Receita Federal, depois que o site Cafezinho publicou documentos vazados que mostravam que a empresa fora flagrada ao trapacear na compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002.

Repito: trapaça. Golpe. A Receita viu que a Globo tentara passar por investimentos no exterior – num paraíso fiscal, aliás – a compra para sonegar o imposto devido.

A multa da Receita, em dinheiro de 2006, era de 615 milhões de reais. São, apenas para efeitos de comparações, seis Mensalões. Em dinheiro de hoje, seria mais ou menos 1 billhão, ou 10 M, se adotarmos a moeda do mensalão como equivalente a 100 milhões.

Vi que o UOL fora atrás da Globo e extraíra uma admissão do caso. E perguntei a Dávila se aquilo não era assunto para Folha, “um jornal a serviço do Brasil”.

Não me lembro o teor de sua resposta precisamente, mas, como bom jornalista, ele reconheceu que sim. Um ou dois dias depois, saiu uma nota na Folha, motivada pela minha pergunta, provavelmente.

E depois não saiu mais nada. Nem mesmo quando se soube que uma funcionária da Receita fora presa – e liberada por Gilmar Mendes, por coincidência – por tentar destruir fisicamente as evidências da dívida.

Veja: só a Globo lucrava com a destruição. (Fora, é verdade, a destruidora, que dificilmente estaria agindo por amor irrestrito à família Marinho.)

Tudo isso não bastou para convencer a Folha – ou a Veja, ou outras mídias amigas – a investigar um caso de enorme interesse nacional.

Na internet, depois que a Globo alegou ter pagado a dívida, algo que a fonte da Receita negou perempetoriamente, surgiu uma campanha: “Mostra a Darf”. Mostre o recibo, em linguagem corrente.

A Globo jamais mostrou.

O que aconteceu? Dávila – que por alguns anos foi colega meu de Abril – provavelmente recebeu um aviso de seu chefe, Frias. Que, muito provavelmente, recebeu um aviso de seus sócios, os Marinhos. (Eles dividem a propriedade do jornal Valor Econômico.)

Melhor não pedir a Dávila que fale da sonegação da Globo
Melhor não pedir a Dávila que fale da sonegação da Globo

É assim que as coisas funcionam, e é por isso que a sociedade tem que abençoar a aparição da internet, como forma de ter acesso a informações que os amigos proprietários das empresas de jornalismo não querem que se tornem públicas.
Na troca de tuítes de hoje, perguntei a Barbara Gancia por que ela, sendo uma colunista tão destemida, jamais falara no caso.
E então ela se saiu com essa: “Em 30 anos de coluna JAMAIS fui censurada.”
Pausa para rir.
Jamais é censurado quem jamais escreve alguma coisa que incomode o patrão. No próprio Twitter, alguém fez a analogia: “Reinaldo Azevedo diz que jamais foi censurado na Veja. É porque ele jamais escreveu algo que os Civitas não queriam que fosse escrito.”
Disse a Barbara que sabia como eram as coisas, uma vez que trabalhara anos na Abril e na Globo. “Deve ter sido no almoxarifado”, disse ela.
Bem, no almoxarifado que me coube como diretor de redação da Exame, nos anos 1990, encomendei a um excelente repórter, José Fucs, uma capa sobre os Safras.
Era uma capa estritamente jornalística. Falava dos bastidores de um dos bancos mais falados – para o bem ou para o mal – do mundo.
Fucs realizou um trabalho brilhante. Entrevistou, ao longo de meses, dezenas de executivos e ex-executivos do Safra.
A matéria já estava pronta para ir para a gráfica quando Roberto Civita pediu para lê-la. Era algo que ele nunca fazia, na Exame.
O texto jamais retornou. Os Safras eram credores da Abril, e um deles ligou para Roberto Civita pedindo que a matéria não saísse.
Não saiu.
Na Globo, onde trabalhei no almoxarifado da diretoria editorial das revistas, encomendei certa vez uma matéria sobre Jorge Paulo Lemann para a revista Época Negócios.
O repórter estava fazendo as entrevistas quando João Roberto Marinho, que cuida da parte editorial das Organizações Globo, me procurou. Ele recebera um telefonema de Lemann, que queria garantias de que a reportagem seria positiva.
É assim que funcionam as coisas nas empresas de mídia. Você só não é censurado quando não escreve nada que incomode.
Barbara Gancia terminou a conversa avisando que iria fazer massagem. Me acusou, antes, de ser “esquerdista radical”.
Fora Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo, e agora Barbara Gancia, ninguém me chamou de “esquerdista radical” em minha carreira.
Sou radical na defesa de um Brasil Escandinavo, sabem os que me conhecem.

Mas vinda a acusação de onde vem, tomo-a com alegria: estou combatendo o bom combate.

Pena leve para “O Estado de Minas”

 
 Escrito por Kiyomori Mori 

Vou começar esse texto com o trecho do depoimento judicial de uma testemunha, em uma das raras condenações da Justiça do Trabalho por assédio moral.

A decisão dos desembargadores da 1ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais, publicada há quase uma década, é considerada até hoje uma das principais jurisprudências sobre assédio nas redações, justamente porque a situação ocorreu dentro de um do notório “O Estado de Minas”.

Eu substituí o nome da chefe por “editora” e do repórter por “jornalista”. Sim, isso mesmo, a assediadora era uma mulher. E eu aposto que serão poucos os leitores do Comunique-se, que passaram alguma parte da vida profissional em redações, que não tenham se deparado ao vivo com situações semelhantes:

“a EDITORA humilhava os repórteres dizendo que não sabiam escrever, que eram antiprofissionais; a EDITORA gritava quando se dirigia aos repórteres e, em muitas vezes, a redação parou assustada com os seus gritos;… a EDITORA, por exemplo, em relação ao JORNALISTA, já ligou para a fonte a fim de confirmar informações em matéria redigida pelo JORNALISTA; que a depoente jamais viu atitude semelhante em editor de jornais onde trabalhou; que faz parte da ética do jornalismo a preservação da fonte; que a fonte quando declara informação ao repórter, demonstra confiança neste profissional;… que a depoente jáouviu a EDITORA chamar o JORNALISTA de incompetente assim como a outros repórteres; que isso era feito comumente na redação na presença de outros repórteres” (depoimento da testemunha, f. 262/263 no processo 00253-2003-003-03-00-7)

No caso acima, os desembargadores condenaram o jornal a pagar R$ 20 mil para o jornalista, o que em valores de hoje daria cerca de R$ 50 mil.

Os julgadores, de forma unânime, ressaltaram que o valor, além de ressarcir o jornalista, “atende à finalidade pedagógica da condenação, atraindo a atenção da reclamada para que fatos como este não mais ocorram, estimulando-a a propiciar aos seus funcionários ambiente de trabalho saudável, também do ponto de vista psíquico”.

A jurisprudência acima é isolada, isso porque são poucos os casos que chegam à Justiça do Trabalho. Dos que são levados a julgamento, a maioria termina em acordo, antes mesmo de ouvir as testemunhas – e deixa-se tudo por isso mesmo em troca de alguns trocados.

Recentemente, após o caso da estagiária da CBN de Curitiba que denunciou ter sido vítima de assédio sexual e acabou ela mesma perdendo o emprego (leia aqui), perguntei a um amigo do Ministério Público do Trabalho por que não havia mais fiscalização de assédio moral nas redações (o assédio sexual é modalidade de assédio moral).

Ele me explicou que em um país, onde a maior capital da América ainda é possível encontrar trabalhadores em condições análogas à escravidão, o Ministério Público, com quadro reduzido, não podia se dar ao luxo de fiscalizar condição de trabalho nas redações, onde há pessoas instruídas, com formação educacional privilegiada e com acesso fácil à Justiça.

Será que ele não está certo?

A liberdade de imprensa é propriedade dos meios de comunicação de massa

O jornalista é empregado pela sua crença, obediência e confiabilidade. Todo redação tem regras. Todo repórter tem pauta. E deve obediência aos editores e ao chefe de reportagem, que são cargos de confiança, da máxima confiança. Que, por sua vez, são comandados pelo chefe de redação e/ou diretor responsável, que pode ser o patrão ou um Menecma. Idem os colunistas, noticiaristas, editiorialistas… que o jornalismo é uma profissão hierarquizada.

 
El National Press Club suspende a un periodista por hacer preguntas incómodas a un príncipe saudí

Amy Goodman
Democracy Now!

Un veterano periodista acusa al National Press Club de censura por suspenderlo a consecuencia de las preguntas formuladas a un miembro de la familia real saudí durante una conferencia de prensa esta semana. El periodista, Sam Husseini del Institute for Public Accuracy, interrogó al Príncipe Turki al-Faisal al-Sa’ud.
Sam Husseini dijo: “Mucho se ha hablado acerca de la legitimidad del régimen sirio, quisiera saber qué legitimidad tiene su régimen señor. Usted se presenta ante nosotros representando a uno de los regímenes más autocráticos y misóginos sobre la faz de la Tierra. Human Rights Watch y otros grupos informan sobre la tortura y detención de activistas, ustedes aplastaron el levantamiento democrático en Bahréin, intentaron echar por tierra el levantamiento democrático en Egipto y de hecho continúan oprimiendo a su propio pueblo. ¿Qué legitimidad tiene su régimen además de miles de millones de dólares y armas?”.

Peter Hickman, del National Press Club, dijo: “Sam, déjalo responder”.

El príncipe Turki al-Faisal al-Sa’ud dijo: [Haciendo señas a Husseini para que se acercara al podio] “¿Quiere venir y hablar aquí? ”.

Husseini dijo: “Quisiera que usted intentara responder a esa pregunta”.

El príncipe dijo: “Lo haré lo mejor que pueda, señor. Bien señor, no sé si ha estado usted en el reino o no”.

Husseini dijo: “¿Qué legitimidad tienen, señor?”.

El príncipe dijo: “¿Estuvo en el reino?”.

Husseini dijo: “¿Qué legitimidad tiene su régimen que no sea la de oprimir a su propio pueblo?”

William McCarren, Director Ejecutivo del National Press Club, dijo: “Plantee su pregunta y permítale responder. El salón está lleno de personas”.

Husseini [a McCarren]: “Él [refiriéndose al príncipe] me hizo una pregunta. Él me preguntó y yo respondí”

El príncipe dijo: “No, usted no respondió”.

Hickman dijo: “Continúe [al príncipe]”

El príncipe dijo: “Como sea señoras y señores, recomiendo a cualquiera que se plantee esas preguntas que vaya al reino y vea por sí mismo. No necesito justificar la legitimidad de mi país”

Días después del intercambio, Husseini recibió una carta del National Press Club informándole de le suspenderían durante dos semanas. En respuesta, Husseini afirmó: “Me embarqué en periodismo directo y sin rodeos con un poderoso oficial de gobierno de un régimen autocrático que es aliado del gobierno de Estados Unidos. Y eso aparentemente amerita la suspensión en el National Press Club”. (Rebelión)