Advogado, termos antigos e novos. O caso Celso Daniel

Prefeito Celso Daniel
Prefeito Celso Daniel

Estão registrados nos dicionários: advogado de porta de xadrez e advogado da corda.

Criei o termo advogado de porta de palácio. Que ganha milhões para defender corruptos, e nunca pergunta a origem do dinheiro. Quem defende bandido é bandido. Certamente ninguém deve ficar sem defesa. Que o juiz indique um advogado de ofício. Assim como ninguém deve ficar sem socorro médico. Que o doente seja atendido em um hospital público. Como acontece com 99% da população brasileira.

No julgamento dos sequestradores e assassinos do prefeito Celso Daniel, afirmou Lago Júnior: “Não sou advogado cadeieiro, não sou advogado vagabundo que passa nome de testemunha para bandido ir lá matar”.

A morte encomendada de Celso Daniel,  o crime político que mais causou assassinatos de testemunhas na história recente do Brasil.

Celso morreu em 2002. Após o início do processo,

15 testemunhas assassinadas.

1 –  Três meses depois da morte do prefeito, o detento Dionísio Severo foi morto na cadeia, apenas dois dias depois de ter dito que teria informações sobre o caso. Era apontado como o contato entre o empresário Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, acusado pelo Ministério Público do Estado de São Paulo de ser o mandante do crime, e os autores do assassinato.

Dionísio Severo saiu da cadeia, de helicóptero, dois dias antes da morte de Celso Daniel, sendo depois recapturado.

2 – O homem que abrigou o foragido Dionísio Severo, neste meio tempo, Sérgio “Orelha”, também foi morto.

3 – Otávio Mercier, investigador de polícia que ligou para Severo na véspera do sequestro de Celso Daniel, levou dois tiros dentro de sua casa.

4 – Antonio Palácio de Oliveira, garçom que na noite do sequestro do prefeito serviu a mesa de uma churrascaria em São Paulo em que estavam Celso Daniel e Sérgio Sombra, foi morto em fevereiro de 2003. Portava documentos falsos e tinha recebido um depósito de R$ 60 mil em sua conta corrente.

5 – Vinte dias depois foi a vez de Paulo Henrique Brito, única testemunha da morte do garçom Antonio Palácio de Oliveira.

6 – Em dezembro de 2003, o agente funerário Ivan Moraes Rédua levou dois tiros pelas costas. Ele havia sido o primeiro a reconhecer o corpo de Celso Daniel, ainda jogado na estrada, e a chamar a polícia.

7 – O médico-legista Carlos Delmonte Printes, que examinou o cadáver de Celso Daniel,  foi encontrado morto em seu escritório na Zona Sul de São Paulo, no dia 12 de outubro de 2005. O laudo oficial sobre a morte do legista concluiu que ele cometeu suicídio. Carlos Delmonte dizia que o prefeito de Santo André foi brutalmente torturado antes de ser assassinado.

Pesquise na internet os oito nomes restantes desta lista macabra.

O “Sombra”

Sérgio Gomes da Silva era segurança, daí o apelido “Sombra”.  Segurança de Lula,  que indicou “Sombra” para Celso Daniel.

Fazer campanha eleitoral com seguranças é necessário, e eles são indicações sempre de pessoas amigas.

O estranho na relação Celso e Sérgio é que o “Sombra” passou de segurança a motorista particular; e de motorista a amigo íntimo, íntimo demais. Tanto que os dois passavam fins de semana juntos em São Paulo, para jantares solitários.

Sérgio virou empresário rico, uma riqueza que Celso desconhecia quanto.

Também é pouco comentado pela imprensa: Depois do sequestro, Sérgio ficou hospedado na residência da esposa de Celso Daniel. Os dois estavam separados, mas ela continou secretária da Prefeitura de Santo André.

Atualmente “Sombra” anda escondido, ameaçado de morte.

Julgamento do crime  

O Tribunal do Júri do Fórum de Itapecerica da Serra (Grande São Paulo) condenou nesta quinta-feira três réus pela morte de Celso Daniel. Seguindo a tese do Ministério Público (MP), os jurados consideraram que o assassinato do ex-prefeito de Santo André (SP) foi feito sob encomenda, mediante pagamento de recompensa, e não um crime comum. O julgamento durou mais de 12 horas.

Ivan Rodrigues da Silva, conhecido como “Monstro”, foi condenado a 24 anos de prisão; José Edison da Silva, a 20 anos; e Rodolfo Rodrigo dos Santos Oliveira, o “Bozinho”, a 18 anos. Antes deles, Marcos Bispo dos Santos já havia sido condenado pelo crime. Em novembro de 2010,  ele foi sentenciado a 18 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado.

A pena de Ivan foi maior porque ele teve como agravantes o fato de ser reincidente e de ter coordenado a quadrilha no crime contra Celso Daniel. Já a pena de Rodrigo foi reduzida em dois anos por conta do princípio da menoridade relativa – ele tinha menos de 21 anos na época do crime.

ENTENDA O CASO

Celso Daniel foi encontrado morto em 20 de janeiro de 2002, em uma estrada de terra de Juquitiba, após receber 11 tiros. A morte ocorreu dois dias depois de ter sido sequestrado.