A guerra nunca é santa

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«A guerra nunca é santa, a eliminação e a opressão do outro em nome de Deus é sempre uma blasfémia. A eliminação e a opressão do outro e da sua história, usando o nome de Deus, é um horror». É esta a firme convicção dos mais de quatrocentos líderes das grandes religiões mundiais, reunidos de 6 a 8 de Setembro em Tirana a convite da comunidade de Santo Egídio, por ocasião do encontro internacional sobre o tema «A paz é sempre possível. Religiões e culturas em diálogo», organizado em colaboração com a Conferência episcopal local e a Igreja ortodoxa albanesa.

Num momento em que a comunidade internacional tem dificuldade de encontrar soluções para os conflitos, os congressistas dirigiram aos governantes um apelo à importância do diálogo: «A guerra – lê-se no apelo – não se vence com a guerra: é um engano. A guerra sempre sai fora de controle. Não vos iludais. A guerra desumaniza povos inteiros. Recomecemos do diálogo, que é uma grande arte e uma medicina insubstituível para a reconciliação entre os povos».

Foi abordado também o tema dos refugiados, para os quais além do acolhimento é necessário e urgente trabalhar pela paz, dado que só o fim dos conflitos poderá deter o grande êxodo. Está convicto disto Andrea Riccardi, que na cerimónia final sublinhou que os crentes devem sempre estar na primeira linha para dar novamente ao mundo a esperança no futuro. Enfim, o fundador da comunidade de Santo Egídio, desejou que «das religiões possa renascer um movimento de corações e de paz que não se resigne à guerra e à dor». Transcrito do L’Osservatore Romano

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Jornalistas mineiros denunciam “ação golpista e antinacional” da imprensa conservadora

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do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, enviado por Eliara Santana

Os ares da liberdade não estão circulando de forma desimpedida no Brasil.

Há pouco fôlego para o debate de ideias e menos espaço para o exercício meticuloso, criativo e responsável da busca da verdade.

O jornalismo, com sua tarefa civilizadora de consagrar o direito à informação, vem perdendo sua força em razão do domínio empresarial de um negócio em profunda crise de identidade por razões tecnológicas, econômicas e morais.

O setor deixou de lado suas bases históricas para se definir por meio de alianças cada vez mais incontestáveis com projetos econômicos liberais e de poder político conservador. O resultado tem sido uma perda de relevância do jornalismo. De fiador da liberdade a ator interessado, com visão particular de mundo, sociedade e política, a indústria da notícia ocupa hoje um lugar estranho à sua origem e razão de ser.

A realidade da divisão social foi transformada pela mídia em ambiente de doentia confrontação, que alimenta o golpismo contra a democracia real e estimula o ódio entre as pessoas.

A imprensa, nesse contexto, vem cumprindo a triste missão de desinformar para manipular melhor.

Os jornalistas, nessa hora nebulosa, precisam trazer seu raio ordenador: o sentido da verdade, a crença na pluralidade, a força do argumento contra o nivelamento rasteiro do pensamento único. O teste vigoroso da investigação jornalística, do conhecimento fundado nos fatos, do alimento à reflexão, da sensibilidade humana aos personagens da vida real.

É urgente a defesa das conquistas democráticas, com sua pletora de ideias dissonantes em livre e saudável embate, em lugar do autoritarismo dos colunistas orgânicos, homens e mulheres servis aos patrões, das repetições acríticas das análises prontas, e do silêncio constrangido. Ações deletérias que se armam a partir das mais torpes estratégias, como a mentira, o cinismo, a venalidade e a censura.

É hora do jornalismo responsável. Contra a lógica destrutiva do quanto pior melhor; em confronto com as simplificações que personalizam os problemas estruturais; em franco embate com a defesa do privilégio, do preconceito e da exclusão.

Um jornalismo feito com força moral para combater a corrupção em toda sua extensão. Com apuro técnico que desvele as antecâmaras de uma sociedade desigual e concentradora. Com ligações com o sentimento popular e as verdadeiras expressões de aprimoramento social e humano. Uma trincheira ética que todos reconheçam.

Para isso é preciso que se enfrentem grandes inimigos e estruturas seculares que construíram um dos mais lucrativos mercados do planeta que, se hoje claudica, não é por falta de privilégios, mas pela incapacidade de competir de forma honesta, já que foi nutrido em ambiente protegido. Uma flor de estufa que apodrece em praça pública. Mais que um sistema de ampliação de vozes, a imprensa brasileira confunde a voz do dono com o dono da voz.

Um setor que defende o mercado, mas que quer se eximir de seus controles. Que não aceita regulações nem mesmo quando exerce uma concessão pública por natureza precária e sujeita a renovações. Incapaz de compreender a dimensão pública do direito à informação. Que se arvora em cantar loas à competição enquanto luta ferozmente para manter privilégios na distribuição das verbas publicitárias públicas. Que, em ato repetido de má fé, confunde regulamentação com censura.

Uma indústria eivada de estereótipos, que não gosta do povo, que criminaliza a miséria, que promove o racismo e a violência contra minorias. Que parte de noções preconcebidas, que transforma ideologias em fatos, que vai ao mundo apenas para validar sua visão menor de realidade e seu desprazer em conviver com a diferença.

E nesse quadro de capitulação da imprensa conservadora diante dos poderosos, os jornalões e as cadeias de tevê e rádio lançam-se à mais implacável campanha de descrédito e desestabilização do governo da República. Não pelos seus possíveis erros, mas pelos seus muitos acertos. Os jornalistas denunciam mais essa ação golpista e antinacional da imprensa conservadora, explorando problemas conjunturais que o Brasil enfrenta (como de resto, tantos outros países), para a defesa de seus interesses e dos setores que representam.

É contra tudo isso que os jornalistas se unem em coro com a população brasileira. Pela liberdade de expressão, pela liberdade de informação, pela defesa da riqueza brasileira, na figura de sua maior e mais valiosa empresa, a Petrobras; pelos valores democráticos, pelos direitos humanos, contra todas as formas de golpe e de fascismo.

Um jornalismo de combate.

Um jornalismo de afirmação.

Jornalistas pela verdade.

Jornalistas por uma nova narrativa pública.

Jornalistas pela igualdade.

Jornalistas por um mundo mais humano.

Jornalistas pelo Brasil.

Casa do Jornalista, 8 de abril de 2015.

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Preconceito, racismo, homofobia, abusos morais e violência sexual na Faculdade de Medicina da USP

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Sou Fernanda Luccas, doutoranda em Ciência Ambiental na USP e diretora da APG USP Capital.

A Associação de Pós-Graduandos Helenira ‘Preta’ Rezende, que representa os pós-graduandos do campus capital da USP, lançou no último dia 18/11, terça-feira, durante a 962a sessão do Conselho Universitário da USP, carta denúncia sobre os casos de estupro e discriminações de gênero, sexualidade, etnia e assédio moral, tanto na Faculdade de Medicina como em toda a universidade. Na visão da entidade, a instituição tem sido negligente e lenta em dar respostas à comunidade.

Venho aqui portanto, para pedir a divulgação desta carta e também, caso seja interessante, oportunamente gostaríamos de pedir um espaço para falarmos de nosso programa, pois entendemos que a pós graduação no Brasil tem muito a contribuir com a politização sobre diversos assuntos em pauta no Brasil. Muito Obrigada!

CARTA DENÚNCIA

Um jornal que defende a política de Alckmin na USP
Um jornal que defende a política de Alckmin na USP

 

Exmo Srs. Membros do Conselho Universitário (CO) da Universidade de São Paulo.

É com imensa preocupação que observamos nos últimos dias o nome de nossa universidade estampado nos jornais de maiores alcances regional e nacional de nosso país.

As notícias não são boas, associam o nome da Faculdade de Medicina da USP ao descaso e à completa falta de apoio frente a denúncias de preconceito, racismo, homofobia, abusos morais e violência sexual, resultando muitas vezes na perseguição das vítimas.

Isto ocorre frente à lentidão e ausência de posicionamento institucional no trato dos casos denunciados nas instâncias internas da faculdade, culminando no afastamento do Prof. Dr. Paulo Saldiva da Universidade de São Paulo, obrigando portanto, as vítimas a buscarem justiça em instâncias externas à Universidade.

Há aproximadamente dois meses o Ministério Público Estadual (MPE) solicitou à Faculdade de Medicina da USP informações sobre casos de trotes violentos e violação de direitos humanos em festas.

Somente sob os holofotes e atenção da grande mídia, o diretor da FMUSP se pronunciou, afirmando que até a próxima semana seriam tomadas todas medidas necessárias para evitar a repetição de tais violações, bem como, enviados os documentos que relatam os incidentes questionados pelo MPE.

Se não fosse o suficiente, no dia 14/11/14 (sexta feira) foi publicado pela Rede Brasil Atual a denúncia de que o mesmo diretor da FMUSP, pressionou os Deputados da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo para não realizarem a audiência pública das denúncias de abusos, tentando exaustivamente por telefone, realizar uma manobra para inviabilizá­-la por falta de quórum.

A Universidade de São Paulo têm colecionado e protagonizado, ao longo de pelo menos os últimos 5 anos, denúncias de múltiplas formas de violência e desrespeito, afetando especialmente as categorias menos prestigiadas da universidade, como alunos de graduação, pós graduação e funcionários.

Denúncias relatando violência moral, como por exemplo, o constante e velado assédio moral por parte de professores aos seus alunos graduandos e pós graduandos, sobretudo ao gênero feminino e à comunidade LGBT, como também a violência sexual, moral e de cunho preconceituoso, praticada entre alunos em festas e trotes universitários, têm sido parte da rotina desta universidade.

Aqui colocamos uma reflexão: se os próprios diretores, professores, alunos e sociedade civil concordam que qualquer tipo de violência não pode ser naturalizada e deve ser punida, então essa rotina de violência mais velada ou mais extrema, porém causadora de danos humanos profundos, deveria ser investigada, punida e prevenida.

Contudo, o discurso por parte dos gestores da USP observado na mídia está diametralmente distante da prática que encontramos em nosso cotidiano, como demonstrou a recente tentativa de esvaziamento da audiência da ALESP.

Este fato configura uma absoluta negligência de quem deveria, por obrigação, dar o melhor exemplo, seja investigando e punindo com o rigor da lei os responsáveis pelos abusos, seja pela criação de instrumentos, orgãos e políticas educacionais que evitem a ocorrência de novos casos.

Esta negligência demonstra também, os valores ultrapassados, machistas, sexistas, despotistas e antidemocráticos praticados e afirmados nesta instituição e portanto, torna seus gestores co­responsáveis e co­autores de todos os casos e práticas violentas em vigor na universidade.

O mais grave e mais estarrecedor é que, em sendo a USP uma universidade pública, sustentada pelos impostos de toda a população paulista, dos mais pobres aos mais ricos, ela têm por obrigação moral servir à sociedade e estar sempre na posição vanguarda em tudo, não apenas em sua produção acadêmica ou nos títulos de seus professores que embelezam as paredes da instituição.

Essa rotina violenta quase enraizada, institucionalizada pela negligência de seus gestores, se tornou uma importante força motriz do declínio da qualidade do ensino e de formação humanística oferecida ao corpo discente como também, do conhecimento que ultrapassa os muros da instituição e chega para a sociedade.

A negligência e porque não, a negação de todas as formas de violência moral e sexual existentes na USP é outrossim, uma faceta pouco palatável à opinião pública, de um projeto violento e segregador que vem sendo construído pelos gestores e governo do estado de São Paulo, que a cada dia torna a universidade menos pública.

Isto ocorre na medida em que se dificulta o acesso do público em geral aos acervos nas bibliotecas e de todos os espaços que poderiam ser utilizadas coletivamente, mas não o são em função das catracas, câmeras de vigilância e PM dentro de campus ­ que supostamente protegeriam o patrimônio estrutural e a integridade física das pessoas que utilizam tais espaços, o que também não procede, considerando os dados divulgados na mídia, que mostram o crescente aumento de roubos e outras formas de violência desde a instauração da PM dentro do campus.

Muitas das vezes em que vítimas denunciam os erros ocorridos no interior desta instituição, imediatamente são colocadas na posição de agentes que visam depreciar a imagem da universidade, têm suas denúncias dissolvidas sob a alegação de exagero ou pouco discernimento político, passando portanto por um processo de silenciamento e responsabilização por todos os malfeitos.

Desta forma, aqueles que violentam ou permitem a violência na instituição, sentem­-se protegidos e tudo continua como sempre, em prol de uma moral e um nome a ser zelado diante da opinião pública.

Portanto, os diretores, a reitoria, o governo do estado de São Paulo e todos os que têm vetado as investigações é que são o cerne da violência observada nesta universidade e isto precisa ser revisto, investigado, modificado e retirado.

Que se retire o cerne do mal pela raiz.

Neste contexto, viemos por meio desta carta, a denunciar a violência e negligência alertando que todas estas situações são de integral responsabilidade da instituição e que, se queremos zelar pelo nome, pela qualidade e pela credibilidade dela, investigar e punir com rigor e transparência, doa a quem doer, sendo exemplo no combate e prevenção do racismo, sexismo, machismo e homofobia é a atitude que se espera dos gestores daquela que foi por muito tempo, uma das mais importantes, conceituadas e arrojadas universidades do país.

Respeitosamente, Associação dos Pós Graduandos Helenira “Preta” Rezende (APG USP Capital)

 

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A tirania do pensamento único

O que vimos nos últimos meses foram candidatos surdos orquestrando seguidores intolerantes, que, imbuídos de fé messiânica, carregam a Verdade em estandartes

 

 

tv pensamento opinião controle indignados

por Luiz Ruffato

 

Quando domingo, no começo da noite, as urnas apontarem o nome de quem nos governará pelos próximos quatro anos, teremos chegado ao fim de um processo que demonstrou, de forma clara, quão débil é a nossa jovem democracia. Ganhe Dilma Rousseff, ganhe Aécio Neves, o novo presidente terá conquistado apenas metade do eleitorado brasileiro, ou seja, estará à frente de um país dividido por discursos maniqueístas, que colocaram de um lado “pobres”, de outro, “ricos”; de um lado “sul-sudeste”, de outro, “nordeste”; de um lado “esclarecidos”, de outro, “ignorantes”: reduzindo a vida da nação a uma luta de tribos que se odeiam.

[Óbvio ululante: se o país está dividido não existe pensamento único. Embora a imprensa tentasse impor uma única candidatura. E, infelizmente, não possuímos uma metade rica, e a outra pobre]

Democracia é o regime que busca administrar os interesses divergentes da sociedade e, para isso, vale-se da negociação entre as partes. O que vimos, no entanto, nos últimos meses, foram candidatos surdos orquestrando seguidores intolerantes, que, imbuídos de fé messiânica, carregam a Verdade (com vê maiúsculo) em estandartes, transportando perigosamente para o campo da política procedimentos típicos de torcidas de futebol, ou, pior ainda, emulando simulacros de facções religiosas, que se alimentam de ódio e ressentimento. Nesse meio tempo, amizades foram desfeitas, amores chegaram ao fim, famílias se tornaram reféns do rancor.

O processo eleitoral deveria ser o momento em que os candidatos, representando os mais diversos segmentos da sociedade, expõem suas propostas de governo para convencer-nos a dar-lhes um voto de confiança. Embora tenhamos problemas gravíssimos a serem resolvidos, não houve ninguém que, objetivamente, tenha utilizado o espaço da propaganda eleitoral e o tempo dos debates para apresentar projetos que pudessem pelo menos minimizá-los. Assistimos a uma espécie de rinha de cachorros, que, açulados pelos donos, atacam-se com o objetivo de destruírem-se.

[Os problemas gravíssimos devem ser mostrados, discutidos, sem censura eleitoral, com amor ao Brasil, com paixão partidária. O bom debate politiza o povo, democratiza o voto, liberta todos do pensamento único. Tal como acontece em todos os manifestos: pelo bem da Nação e felicidade do povo em geral]

Nós, brasileiros, confundimos adversário com inimigo. Talvez possamos atribuir essa incompreensão à nossa história política, uma sucessão de golpes de estado e ditaduras totalitárias, que moldaram o caráter nacional. Por mais que desempenhemos no dia a dia um papel de homens e mulheres cordiais, somos na essência autoritários – basta que nossa opinião seja contrariada para deixarmos cair a máscara da nossa simpatia e vestirmos o uniforme da intransigência.

As eleições de 2014 marcam uma nova época na história brasileira, a era da tirania do pensamento único. Petistas e antipetistas [ou tucanos e antitucanos] manejam seus tacapes com objetivo de enfiar na cabeça dos adversários/inimigos suas próprias ideias, tomadas como singulares, autênticas e salvacionistas. Agem como fanáticos que, nos estádios de futebol, em nome da defesa de bandeiras e escudos, espancam os torcedores de outros times, ou que nos campos de batalha degolam os combatentes, em nome da religião. Em todos os casos, são manifestações fascistas de indivíduos que sozinhos não conseguem refletir e apenas acompanham a manada, seguindo o raciocínio binário de “quem não está comigo, está contra mim”.

[Cheira a conchavo qualquer negociação em um pleito. Os acordos acontecem depois de empossado o candidato vitorioso, se for preciso formar uma maioria no Congresso Nacional.

Este conceito de voto esclarecido é do elitista Fernando Henrique. Mas não se deve esquecer que São Paulo continua a maior cidade nordestina. Nem o País está à beira de uma guerra de secessão, entre o Norte e o Sul como aconteceu nos Estados Unidos. Trata-se de chantagem da imprensa golpista. Basta um voto para eleger o presidente, a metade mais um, que será empossado com o apoio de todos os brasileiros. Governadores esquerdistas e direitistas, e uma maioria de congressistas conservadores foram eleitos no primeiro turno sem contestações]

duke gigante protesto eleição direita

Eu me recuso a participar dessa orgia de sectarismo. Tenho parentes e amigos que vão votar em Aécio Neves e tenho parentes e amigos que vão votar em Dilma Rousseff – e isso não os torna, nem uns nem outros, pessoas piores ou melhores, apenas demonstram que pensam de maneiras diferentes, por isso eu as respeito e estimo, porque são belas em sua complexidade. A verdadeira democracia é o exercício do diálogo visando à conciliação e não a imposição de opiniões calcadas em pretensas verdades irrefutáveis.

[A imprensa, e não o povo, que é fanática, preconceituosa, elitista, conservadora, golpista, entreguista, da extrema-direira, e não perdoa Lula ser nordestino, líder sindical e torneiro mecânico] 

Capa de hoje
Capa de hoje

Vale a pena votar domingo?

É preocupante e assustador o desleixo com que tratamos a nosso passado recente – e essa incapacidade de refletir sobre a história. A mudança depende somente de nós, de nosso engajamento.

 

 Menekse Cam
Menekse Cam

 

por Luiz Ruffato/ El País/ Espanha

 

Por uma dessas coincidências, as eleições de domingo ocorrem no exato dia em que comemoramos 26 anos de promulgação da Constituição vigente, cujo ordenamento jurídico pôs fim efetivo à nunca por demais execrada ditadura militar brasileira, que até hoje permanece assombrando a nossa frágil e débil democracia. Das oito da manhã às cinco da tarde, parte expressiva dos 140 milhões de eleitores aptos a votar, cerca de 70% do total da população, deverá se apresentar às urnas eletrônicas, exercendo o direito de escolher seus representantes no Poder Executivo e Legislativo estadual e federal (se o voto deve ser facultativo ou continuar obrigatório é uma discussão que não cabe aqui e agora).

O quadro que se pinta não é dos mais animadores, certamente. Em São Paulo, que, concentrando um terço do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, é tido como o estado mais parecido com o modelo econômico-social que desejamos aperfeiçoar e exportar para o resto da Federação, encontramos candidatos cujo deboche pela política aparece no próprio nome com que se apresentam ao eleitor. Eis algumas bizarrices, pinçadas ao acaso, entre postulantes a deputado federal: Obama Brasil, Toninho do Diabo, Carlão do Doce, Macaco Tião Cláudia, Rique O Tchê-Tchê, Doutor Verme, Meu Querido, Mick Jagger do Brasil, Valmir Olho de Lobo, Newton – O Homem do Chapéu, e outros, e muitos.

Também não é alentador perceber que os concorrentes, principalmente aqueles que disputam cargos executivos, ao invés de oferecer ideias e propostas para, se não resolver, pelo menos amainar problemas graves e estruturais do país, como os ligados à educação, saúde, segurança, mobilidade urbana, meio-ambiente, preferem patinar em acusações e tentativa de aniquilação uns dos outros. E é decepcionante acompanhar as notícias que dão conta de que alguns nomes, claramente identificados à corrupção, ao coronelismo e ao banditismo puro e simples, de todos os partidos e todas as ideologias, permanecerão por pelo menos mais quatro anos mandando em seus feudos com a arrogância de quem se escuda na impunidade garantida pela posição que ocupam na sociedade.

Mas, por mais frustrante que seja esse cenário, sabemos que a mudança depende somente de nós, de nosso engajamento, de nossa participação. Candidatos que debocham do processo eleitoral, como os que usam o horário partidário para promover-se egoisticamente, aproveitam-se da liberdade garantida pela legislação, e, mesmo que por acaso eleitos, rapidamente serão absorvidos pela máquina burocrática – ou se tornam políticos profissionais ou são devolvidos ao anonimato da vida comum. Também não ameaça a democracia, embora a empobreça, a falta de propostas dos candidatos. Preocupante e assustador, entretanto, é o desleixo com que tratamos a nosso passado recente – e essa incapacidade de refletir sobre a história, isso sim é algo que deveríamos temer.

Neste ano, em que completam-se 50 anos do golpe que instalou os militares no poder, temos assistido a uma profusão de manifestações autoritárias a nos lembrar que estamos longe ainda de constituirmos um sólido estado de direito. Apesar de realizarmos a sétima eleição direta consecutiva para a Presidência da República – o maior período de democracia de toda a história política do Brasil –, superando traumas (como o impeachment de Fernando Collor) e preconceitos (como a investidura de um ex-metalúrgico e de uma ex-guerrilheira), o pensamento prepotente cavalga pelas ruas e avenidas e, principalmente, pelas redes sociais.

De maneira bastante emblemática, na última sexta-feira, dia 26, o sargento reformado do Exército, Marco Pollo Giordani, relançou em Porto Alegre seu livro Brasil, sempre. Giordani, que foi membro do DOI-CODI, órgão de inteligência responsável pela repressão durante a ditadura militar, defende, nesse volume, publicado originalmente em 1985, tópicos como racismo e eugenia e acrescenta, na segunda edição, um elogio à tortura como método policial. Publicada em 1985, o sargento sentiu-se encorajado em reeditar a obra, que teve há muitos anos esgotados os 20 mil exemplares originais, possivelmente por perceber um clima propício à difusão de suas ideias despóticas – uma página de Facebook, intitulada Apoiamos Patrícia Moreira contra a hipocrisia do politicamente correto, fundada em 14 de setembro, já conta com mais de seis mil seguidores. Patrícia Moreira é a torcedora que xingou o goleiro Aranha, do Santos, de macaco…

Ainda estamos longe de viver em um país ideal – o exercício da política no Brasil chega a ser constrangedor e muitas vezes chega a causar-nos nojo. Mas somente por meio do voto, ou seja, mergulhados na dinâmica própria da democracia, mesmo em uma acanhada, como a nossa, garantiremos que pregações como as de Marco Pollo Giordani somente convençam a uma minoria ignorante. Por isso, respondo à pergunta que encabeça esse artigo com um indiscutível sim, é essencial participar do processo eleitoral no próximo domingo.

 

 

São Paulo sem água, tucano parou com as piadas sobre o voto dos nordestinos paus de arara

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Os tucanos governam São Paulo desde 1995, e trasformaram o Estado de São Paulo em um seco Sertão.

Geraldo Alckmin, reeleito com 57.31% dos votos, conseguiu secar as represas, sendo sua última façanha, conforme modelo de privataria tucana, vender as ações da Sabesp na bolsa de Nova Iorque.

 

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Falta de água em São Paulo já afeta mais de 15,6 milhões de pessoas

 

Vida de paulistano
Vida de paulistano

 

por María Martín/ El País/ São Paulo

O Estado de São Paulo vive hoje sob uma ameaça com toques apocalípticos: a água está terminando. Não se trata de uma previsão a longo prazo ou uma campanha de conscientização, é que não existe nenhuma garantia de que no próximo mês será possível abastecer a cidade, tampouco cerca de 70 municípios do Estado. Enquanto que na região metropolitana fala-se de cortes encobertos, no interior, a água já deixou de correr em muitas localidades. A empresa estatal de saneamento Sabesp, que abastece 60% dos municípios paulistas, continua negando o racionamento. Já para as prefeituras e gestoras dos recursos hídricos dos municípios menores é mais difícil ocultar a falta de previsão e de investimento. Os cortes afetam 38% da população, mais de 15,5 milhões de pessoas, segundo uma pesquisa do Instituto Ibope de setembro.

Nesta maior crise hídrica do último século, EL PAÍS percorreu quatro municípios onde a falta de chuva e a gestão dos recursos determina o cada vez mais angustiado dia a dia dos moradores. Veja vídeo 

 

 

 

 

Preconceito contra os nordestinos

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O ex-presidente Lula publicou hoje em sua conta oficial do facebook uma declaração sobre as manifestações preconceituosas que têm sido espalhadas pela internet contra os nordestinos, motivadas pelo alto índice de votação obtido pela presidenta Dilma no primeiro turno das eleições. Lula lamentou as atitudes, atribuiu-as ao “desconhecimento profundo” sobre a evolução do Nordeste desde os anos 90, e falou sobre os investimentos feitos pelo Governo Federal que descolaram a região do esteriótipo da pobreza e da miséria.

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Confira abaixo o pronunciamento na íntegra:

É lamentável o preconceito que vem à tona depois de um processo democrático tão importante, como as eleições do último domingo. É um absurdo que o nordeste e os nordestinos sejam caracterizados como ignorantes ou desinformados por seus votos. Primeiro porque isso é fruto de preconceito lastimável, segundo porque mostra um desconhecimento profundo da atual situação do nordeste brasileiro. Quem faz afirmações deste tipo imagina o nordeste da década de 90 ou de antes, onde reinavam a fome, o desemprego e a falta de oportunidade. Por isso muitos, como eu, tiveram que abandonar sua terra natal e migrar para outras regiões em busca de melhores condições de vida.

Hoje, o nordestino anda de cabeça erguida porque não é mais tratado pelo governo como cidadão de segunda categoria. Das 18 universidades criadas nos 12 anos de governo, 7 são no nordeste. A região conta hoje com 62 extensões universitárias. Mais de 16 mil estudantes dessas universidades foram estudar no exterior com o Ciência sem Fronteiras. Dos 20 milhões de empregos criados no país, quase 20% foram no nordeste. 141 escolas técnicas foram implantadas na região, representando 33% do total no país. A mortalidade infantil, que era um dos principais problemas da região caiu a menos da metade. Os nordestinos, hoje, não são mais personagens de tristes reportagens sobre as migrações para os grandes centros urbanos. Eles podem viver nas suas terras de origem com dignidade e oportunidade.

Somos todos brasileiros e temos que nos unir para continuar construindo um país mais solidário, mais justo, com mais oportunidades para todos, independente de cor, crença, religião ou região do país em que cada um tenha nascido. As pessoas deveriam ser agradecidas pela diversidade do nosso grande país. Essa é a nossa riqueza.

Lula

NORD LULA