Federalização já de crimes contra jornalistas

Ilustração Mohamed Sabra
Ilustração Mohamed Sabra

Todo assassinato de jornalista, no exercício da profissão, tem sempre um policial ou ex-policial envolvido. Sem falar do stalking policial e ameaças de morte. E legenda de medo e terrorismo dos casos dos dois jornalistas que viveram o começo deste ano de 2013 no exílio. Um ameaçado pelos delegados de polícia do Paraná, e o outro, pela bancada da bala de São Paulo.

Informa o Portal da Imprensa: Na última segunda-feira, o Conselho de Comunicação Social do Congresso aprovou o texto final da moção pedindo rapidez e ampliação do projeto de lei que federaliza crimes contra jornalistas.

O órgão consultivo do Senado solicitou ainda que fossem incluídas no projeto outras categorias, como radialistas e blogueiros. O grupo irá pedir rapidez na tramitação do projeto (PL 1.078/2011), de autoria do deputado Delegado Protógenes Queiróz.

“Com essa ampliação, procuramos contemplar outros grupos que atuam na área jornalística. Pedimos para abrir para outras categorias e recomendamos a federalização para que haja melhor apuração dos crimes cometidos contra comunicadores. Isso ajudará a garantir a liberdade de expressão”, afirmou o presidente do conselho, Dom Orani Tempesta.

 
O representante dos trabalhadores no conselho, Nascimento Silva, é fundamental a entrada da Polícia Federal nas investigações.
 
“Se depender da polícia local, as dificuldades serão grandes, porque em alguns casos há conluios com o poder público que está sendo denunciado pelo jornalista ou radialista, e outros problemas, como a falta de efetivo. Todos que exercem o trabalho de informar têm de ser incluídos nessa lei. Não caberia deixar de fora os radialistas e blogueiros, por exemplo”, disse.
 
Ilustração Ramses Morales Izquierdo
Ilustração Ramses Morales Izquierdo
 
 [Falta de efetivo é conversa mole. Polícia nunca faltou.  Colocar os assassinos na cadeia, sim, e que os crimes denunciados pelos jornalistas trucidados sejam investigados, para que o martírio não seja em vão, que os mandantes, na maioria dos casos, são ladrões do dinheiro público, com envolvimento na prática de outros crimes: lavagem de dinheiro, agiotagem, sonegação, abuso de autoridade, tráfico, inclusive outros assassinatos. T.A.]
 
 
 
 

Mauri König solidariedade internacional no exílio e saudades da Pátria nossa e de Vinicius de Moraes

Mauri König está exilado. A saudade do Brasil dói. Para mandar a tristeza ir embora, amigas jornalistas brincam com o mais premiado jornalista brasileiro.

Giannina Segnini
Giannina Segnini
  • Giannina Segnini
    Milagros Salazar
    Milagros Salazar
    Milagros Salazar


    El trío que no sabe decir “no” y vive apasionado por lo que hace.  Me encantó verlos Giannina Segnini y Mauri König, conectarme con sus energías y sus historias de seres honestos, entregados y maravillosos. Qué rica conversa!  Próxima estación: Río de Janeiro con samba de gafieira! Porque aquí el que baila gana 

    Milagros Salazar

    Milagros Salazar com Mauri

    Mar Cabra Me apunto!!!!
  • Milagros Salazar Esoooo Mar, a sambar desde ahorita 
  • Mauri König Giannina yá comenzo el entreinamiento de samba de gafieira. Ahora solo falta usted, Milagros, hehe. Abrazos desde Brasil (apesar de yo todavia estar en Perú).
  • Milagros Salazar Yo también! Eso va a estar tremendo…preparate Mauri que seremos dos chicas expertas en samba de gafieira! De aquí de frente al carnaval
    .
    [Mauri, os delegados de polícia de Beto Richa transformaram o Paraná de hoje o mesmo de 1964.
    Que vergonhosa realidade. T.A.]

    Pátria minha

    .
    por Vinicius de Moraes
    .

    A minha pátria é como se não fosse, é íntima
    Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
    É minha pátria. Por isso, no exílio
    Assistindo dormir meu filho
    Choro de saudades de minha pátria.

    Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
    Não sei. De fato, não sei
    Como, por que e quando a minha pátria
    Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
    Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
    Em longas lágrimas amargas.

    Vontade de beijar os olhos de minha pátria
    De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
    Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
    De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
    E sem meias, pátria minha
    Tão pobrinha!

    Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
    Pátria, eu semente que nasci do vento
    Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
    Em contato com a dor do tempo, eu elemento
    De ligação entre a ação e o pensamento
    Eu fio invisível no espaço de todo adeus
    Eu, o sem Deus!

    Tenho-te no entanto em mim como um gemido
    De flor; tenho-te como um amor morrido
    A quem se jurou; tenho-te como uma fé
    Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
    Nesta sala estrangeira com lareira
    E sem pé-direito.

    Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
    Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
    E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
    Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
    À espera de ver surgir a Cruz do Sul
    Que eu sabia, mas amanheceu…

    Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
    Amada, idolatrada, salve, salve!
    Que mais doce esperança acorrentada
    O não poder dizer-te: aguarda…
    Não tardo!

    Quero rever-te, pátria minha, e para
    Rever-te me esqueci de tudo
    Fui cego, estropiado, surdo, mudo
    Vi minha humilde morte cara a cara
    Rasguei poemas, mulheres, horizontes
    Fiquei simples, sem fontes.

    Pátria minha…  A minha pátria não é florão, nem ostenta
    Lábaro não; a minha pátria é desolação
    De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
    E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
    Que bebe nuvem, come terra
    E urina mar.

    Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
    Uma quentura, um querer bem, um bem
    Um libertas quae sera tamen
    Que um dia traduzi num exame escrito:
    “Liberta que serás também”
    E repito!

    Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
    Que brinca em teus cabelos e te alisa
    Pátria minha, e perfuma o teu chão…
    Que vontade me vem de adormecer-me
    Entre teus doces montes, pátria minha
    Atento à fome em tuas entranhas
    E ao batuque em teu coração.

    Não te direi o nome, pátria minha
    Teu nome é pátria amada, é patriazinha
    Não rima com mãe gentil
    Vives em mim como uma filha, que és
    Uma ilha de ternura: a Ilha
    Brasil, talvez.

    Agora chamarei a amiga cotovia
    E pedirei que peça ao rouxinol do dia
    Que peça ao sabiá
    Para levar-te presto este avigrama:
    “Pátria minha, saudades de quem te ama…
    Vinicius de Moraes.”

     Vídeo

Para um jornalista brasileiro, a dura realidade após o exílio

CPJ

 

por Mauri König/ CPJ

 

Sempre fui convicto de que o jornalismo é um instrumento transformador de pessoas e de realidades. Creio nesse ofício como um meio de mudanças, ainda que isso implique em algum risco. Já fui espancado quase à morte e tive de mudar de cidade em outra ocasião por ir ao limite de minhas possibilidades em busca da verdade em que acredito. Mas nada é mais triste do que o terror psicológico imposto por um inimigo onisciente e onipresente. Um inimigo invisível que se esconde no anonimato e é capaz de nos tirar o convívio da família e a liberdade de movimentos.

Não imaginei chegar a esse nível de tortura psicológica ao coordenar a equipe da Gazeta do Povo que revelou a corrupção na Polícia Civil do Paraná, um dos estados mais ricos do Brasil. As ameaças de metralhar minha casa se estenderam à minha família. Durante cinco dias tivemos de mudar de hotel várias vezes, protegidos por guarda-costas. Meu filho de 3 anos foi quem mais sofreu com a rotina de tensão e medo. Minha mulher se recusou a ir comigo para o exílio no Peru. Preferiu ficar distante de mim, o alvo das ameaças. Não a julgo. Ela pensou antes na segurança do nosso filho.

Durante dois meses fui acolhido em Lima graças à generosidade do Comitê de Proteção aos Jornalistas e do Instituto Prensa y Sociedad, com apoio da Gazeta do Povo. Esse exílio forçado me levou a mil reflexões. Como é difícil tomar decisões quando se está sozinho, longe de casa. Mas era preciso tomar decisões, ainda que por e-mail ou pelo Skype. Foi assim, à distância, que recebi de minha mulher a notícia de que ela ficaria de vez na cidade onde se refugiou após as ameaças. De volta ao Brasil, tento aceitar a distância de mais de mil quilômetros do meu filho.

Vejo com uma boa dose de angústia a repetição de um drama pessoal. Em 2003, tive de me mudar de Foz do Iguaçu para Curitiba por causa de ameaças após uma reportagem revelando o consórcio do crime formado por policiais e ladrões de carros na fronteira do Brasil com o Paraguai. A mudança me impôs uma distância de 700 quilômetros dos meus dois filhos mais velhos, do primeiro casamento. Nada mais triste do que um pai não poder desfrutar do convívio com os filhos, não poder acompanhar seu crescimento. Uma história que agora se repete com meu filho mais novo.

A intenção com essas reportagens era revelar o que as pessoas têm o direito de saber, de forma a plantar uma semente de indignação em cada uma delas, para que cada uma, dentro de suas possibilidades, pudesse fazer algo para melhorar a realidade de todos à sua volta. Eu só não imaginava que isso fosse impactar de forma tão negativa a realidade das pessoas mais próximas a mim. Espero, sinceramente, que ninguém mais precise pagar um preço tão alto por acreditar que o jornalismo é um instrumento para melhorar nossa realidade, por revelar injustiças, delatar governos corruptos, expor uma polícia arbitrária.

 

Oleg Dergachov
Oleg Dergachov