O menino que persiste em Fagner Moura

Pablo-Picasso-Boy-leading-a-horse

 

 

A cada instante,
um instante cada,
um momento,
um modesto
momento
me encanta
a cada modesto
encanto
um menino
de momento
me espanta,
encanta,
canta,um modesto
moderno instante,
inevitável,
amável menino
de instantes
e momentos
modestos.

 

 

Texto Poesia de Fagner Moura

Ilustração Menino conduzindo um Cavalo (Picasso/1906)

NEWTON NAVARRO: O HORIZONTE EM TELAS

por Sírlia Sousa de Lima

Newton Navarro
Newton Navarro

Tudo o que eu admiro
Encanta-me e eu narro
Vou falar desse artista
Que foi Newton Navarro
Imortalizado na Ponte
Que não foi feita de barro

Poeta bem Nascido
Em Natal, no Grande Ponto
Na Avenida Rio Branco
Pra você agora eu conto
Foi um artista completo
Eu não te desaponto

Desde que era criança
Já se podia notar
Os irmãos com velocípedes
E ele o chão a riscar
As impressões de sua arte
Que iria desabrochar

Elpídio Soares Bilro
Foi seu incentivador
Além de ser seu pai
Também era escultor
Seja em ferro ou madeira
Ele era criador

Sua mãe pela arte
Também tinha admiração
Professora primária
Era a sua profissão
A arte é companheira
De quem faz educação

A arte de Navarro
Poucos sabem de onde vinha
Desde a sua infância
Visitava a Redinha
Onde passava as férias
Brincava de manhãzinha

Newton ficava quieto
Sempre a observar
O belo da natureza
Que ele iria pintar
Achou tudo perfeito
E quis logo registrar

Porém Newton Navarro
Pintava fazendo cortes
Seus traços bem marcantes
Suas cores eram fortes
Eram quadros muito belos
Da natureza recortes

Newton era um artista
Com grande capacidade
Trilhou muitos caminhos
Da arte com liberdade
E por meio da pintura
Representou a realidade

Como todo artista
Newton tinha seu diferencial
Via no ser nordestino
Algo fenomenal
Era um ser vitorioso
Um lutador sem igual

Nas telas de Navarro
Tinha algo marcante
Pintava sempre o Sol
Amarelo, forte, brilhante
A brilhar na pele do povo
Com seu calor escaldante

O sol representava a vida
Do nordestino radiante
Que não foge do trabalho
Que não acha entediante
E em busca do sustento
Por isso é um ser marcante

Pintava os lugarejos
Da cidade de onde vinha
Pintava os gatos na rua
Casa, prédio, igrejinha
Tudo foi captado
Em seu traço e linha

Navarro em outros lugares
Não achou inspiração
Somente a cidade Natal
Inspirou seu coração
Olhando as jangadas no mar
Ouvindo do vento, a canção
Os quadros de Navarro
Causam-nos encantamento
Sobressaltam nosso olhar
Com tanto desprendimento
De fazer representar
Vida, arte, movimento.

navarro2trbalhor

Sem perceber com Pedrinho
Navarro fez um elo
Amava o Rio Potengi
Um visual muito belo
De um quadro da Natureza
Estabeleceram paralelo

Ele era apaixonado
Por sua cidade Natal
Pintava ruas e becos
Pescador, mulher, animal,
Ele era muito simples
Não queria ser o tal

A cultura popular
Em suas telas retratou
Desde as danças populares
O futebol também pintou
Sua obra é vasta
E é belo o que criou

Quando a arte surge
Dentro de nós é assim
Navarro usava aquarelas
Tinta guache, nanquim
A memória visual
Despertava-se enfim

O Talento de Navarro
Ninguém pode apagar
Se retirarem as cores
Muita arte vai restar
Não vai ter diferença
O grafismo vai durar

 

Newton Navarro, Bilro

Newton Navarro, Bilro (14)

Clique para ampliar
Clique para ampliar

O artista plástico potiguar Francinaldo Moura

Por Antonio Nelson

Ele vira a mãe sempre trabalhar com pinturas de pano! Ela pintava verduras, frutas… No pano de prato e em fraudas de crianças. Aos 15 anos teve o primeiro contato para confeccionar a arte. Seus principais ícones são Van Gogh,Tarsila do Amaral e Portinari. Mas tem um prazer especial na pintura de Pablo Picasso. De Currais Novos, Rio Grande do Norte (RN), Francinaldo Moura afirma que seu trabalho é a junção de vários estilos dos artistas citados. “A arte para mim é um complemento da vida, que faz o homem representar aquilo o que ele não pode falar das maiorias das vezes com palavras. A arte é um signo”, declara.  Francinaldo conversou comigo por celular e expõe suas obras com exclusividade no site do Luis Nassif. Confira abaixo!

panô 1

panô 2

panô 3

panô 4

panô 5

Viva Antonio Nelson! Bom descobrir e apresentar novos artistas. Uma pintura bem brasileira. Bem nordestina. Ou melhor, bem potiguar.

No início, todo artista “sofre” influências. Sinto a presença de Newton Navarro, meu amigo de redação e boêmia, mestre na arte de panô. Mas o verdadeiro artista encontra seu estilo próprio. E universal. É o caso de Francinaldo.

 

OPERAÇÃO CONDOR

por Talis Andrade

 

Cavani Rosas
Cavani Rosas

 

1

Em uma ceia demoníaca

os generais do Cone Sul

aprovaram a Operação Con

dor cujas asas agourentas

selam a noite com chumbo

 

O conúbio dos generais

arranca do calor dos lares

artistas e intelectuais

para os interrogatórios imbecis

de cegos vampiros

as cabeças lavadas

nas apostilas da CIA

os cérebros curetados

pelas palavras-ônibus

dos pastores eletrônicos

 

2

 

Em sombrios porões

os massagistas atestam

os instrumentos de suplício

os massagistas adestram

os toques de fogo

arrancando unhas e gritos

espicaçando as últimas palavras

os nomes e codinomes

de um exército de fantasmas

um exército apenas existente

nas doentias mentes dos agentes

 

3

 

Em refrigerados gabinetes

os técnicos em interrogatórios

e informações estratégicas

trabalham noite e dia

na burocracia cívica

de selecionar os copiosos

relatórios dos espias

decifrar os depoimentos

tomados sob tortura

depoimentos escarnificados

na escuridão dos cárceres

depoimentos cantados

no limiar do medo

confissões soluçadas

nas convulsões da morte

40 Anos de Pintura – Uma dissertação de vida e superação

 
Desde os já longínquos dias da minha infância em Sertânia até o presente, tentei e talvez tenha conseguido traçar, isto é, desenhar, pintar e, posteriormente, escrever parte do meu testemunho de vida e superação da minha condição de migrante do sertão pernambucano no Recife.
Egresso de uma região eminentemente agrícola, em 1958, desembarquei pela primeira vez do trem da Great Western na Estação Central da reservada e elitista capital da Civilização do Açúcar, naquele tempo ainda a 3ª Capital do Brasil, para estudar no Colégio Salesiano onde cursei a 2ª e a 3ª séries do curso Ginasial.
Em 1960 retornei para Sertânia onde terminei o Curso Ginasial. Munido dos conhecimentos adquiridos no Ginásio Olavo Bilac de Sertânia e no Colégio Salesiano, voltei para o Recife trazendo na bagagem a vontade de continuar aprendendo tudo o que fosse possível e estivesse a meu alcance.
Munido de uma curiosidade inata e da carga genética herdada do meu pai, para as artes. Além de poeta notável, foi dramaturgo, ator, cantor, compositor e músico. Tudo isso influenciava a minha curiosidade e coragem para ir, se possível, além. Isto é, tentando a aventura de penetrar e conquistar o território fascinante das Artes Plásticas.
Esse desejo originou-se, creio eu, ainda na infância quando auxiliava a minha mãe no mister de traçar riscos nos papéis de seda para os seus bordados admiráveis. Com minha mãe eu iniciava uma parceria, que perdura até hoje, com lápis, papéis e carbonos para tornar mais bela e prazerosa a aventura da vida de muitas daquelas pessoas que encomendavam belos bordados para seus enxovais, ou vestidos das festas do América ou do dia 8 de dezembro, Natal e Ano Novo.
Tudo isso na pequena e conservadora cidade que até a véspera do meu nascimento se chamava Alagoa de Baixo. Minutos após a adoção do novo nome de Sertânia, cheguei ao vale do Rio Moxotó no dia 1º de janeiro de 1944, nascido do poeta Waldemar de Sousa Cordeiro e de Iraci Gomes Raphael de Sousa Cordeiro.
Iraci Gomes Raphael de Souza Cordeiro
Iraci Gomes Raphael de Souza Cordeiro
Waldemar de Souza Cordeiro
Waldemar de Souza Cordeiro
Nesse dia 1º de janeiro de 1944, eu e João Bezerra Cordeiro, meu futuro amigo de adolescência, fomos as duas primeiras crianças nascidas na cidade batizada de Sertânia, pelo admirável poeta e memorialista Ulisses Lins de Albuquerque.
Após os estudos fundamentais em Sertânia e secundário e superior no Recife onde residia em pensões da Boa Vista e na Casa do Estudante de Pernambuco no Derby, fixei-me definitivamente em Olinda. Ainda na Faculdade de Odontologia como pintor amador, curioso e enxerido, participei pela primeira vez de uma mostra de pintura, no Diretório Acadêmico. Posteriormente participei de várias outras exposições, sempre como pintor autodidata.
Pernambuco tal e qual a maioria dos outros Estados brasileiros, cultiva, até hoje, traços fortes de uma sociedade conservadora e elitista, principalmente nas áreas da política e da cultura. Esse elitismo se confirma como: Elite artística, Elite política, Elite econômica, Elite jurídica, Elite acadêmica, Elite científica, Elite musical, Elite teatral, Elite social, Elite futebolística, Elite médica, Elite odontológica, Elite comercial e outras elites…
Ser pintor ou escritor, hoje é bastante “chic”, mas, naquela época, eram profissões esnobadas pelas elites, a não ser que o candidato tivesse um sobrenome tradicional, engenho, fazenda, usina ou uma boa conta bancária, quando então as mesmas profissões eram endeusadas, e os possíveis gênios artísticos iam para a Europa realizar seus estudos e conhecer o mundo da mais alta cultura.
Com o modismo da filosofia marxista ou esquerdista adotada por revoltados, contestadores, estudantes e intelectuais, uma nova elite estabeleceu-se na sociedade pernambucana. A elite de esquerda. Quem não fosse da elite econômica, oriunda da cultura açucareira, teria que ser da elite intelectual de esquerda. Ambas muito fechadas e discriminatórias. Para a maioria dos “cultos”, quem não fosse de esquerda era “burro”. E como tudo que envolve poder, muitos abraçaram essa causa não por ideologia, mas, porque era vantajoso sob vários aspectos…
Para um matuto desconfiado como eu, que não me filiei ativamente a nenhum grupo ou “clã”, não foi muito fácil conseguir penetrar nesse meio, altamente fechado, das Artes de Pernambuco. Essa situação, por incrível que pareça, parece persistir, em parte, até hoje. Durante esses quarenta anos participei de muitas exposições e salões oficiais em Pernambuco, em outros Estados brasileiros e no Exterior.
Apesar das inúmeras dificuldades consegui alguns prêmios, para mim importantes, nessas décadas e nesse contexto. Com o modesto reconhecimento advindo dos prêmios conquistados, apesar do desdém de alguns, dei continuidade a minha paixão e fidelidade às artes plásticas até o presente.
No acervo exposto no MAC de Pernambuco em Olinda, pode-se observar o meu caminhar por diversos estilos e fases.
Ao observar os trabalhos em exposição nessa modesta mostra comemorativa dos meus 40 anos de pintura e literatura, posso dizer para a memória dos meus pais, meus filhos, netos, familiares e amigos, que foi positiva, que VALEU a minha incursão nessas áreas do conhecimento humano.
 Cartazete

Sertânia sem Marcos Cordeiro não existe

Lá onde nasce o vento,
Homens e brisas
Não deixam nomes.
Marcos Cordeiro

mc

 

Nunca mais vi falar de Sertânia. Me parece uma cidade imaginária. Como tantas outras que a Literatura consagrou.

Foi em uma conversa com Marcos Cordeiro que descobri a real Sertânia:

– Como sertaniense sinto muito prazer em homenagear a minha cidade nos seus 140 anos. Infelizmente, em nenhum momento em soube dos festejos que aconteceram em Sertânia. Seria o momento oportuno para fazer o lançamento do meu livro com o meu premiado Auto O Pasmoso e Travesso Cão do Piutá, que se passa em Sertânia. Mas nada. Não recebi nenhum convite dos responsáveis ou irresponsáveis pelos festejos do aniversário da minha pobre cidade. Estou muito decepcionado com os responsáveis pelo destino cultural, se ele existe, da cidade. Espero que num “futuro” não muito distante, Sertânia tenha uma melhor política cultural e que venha a ter um pouco de consideração com os verdadeiros escritores da terra.

 

Capa Romançal

Fica, fica comigo

Goethe 

Tradução de João Alexandre Sartorelli

Fica, fica comigo,
Novelos estrangeiro, doce amor,
Propício doce amor,
E não deixes a alma não!
Ah, como outros, como bem
Vive o céu, vive a Terra,
Oh como sinto, como sinto
Esta paixão primeira.

 

Louis Jean Francoise Lagrenée (1724-1805), Eros y Psique
Louis Jean Francoise Lagrenée (1724-1805), Eros y Psique

Bleibe, bleibe bei mir,
Holder Fremdling, süße Liebe,
Holde süße Liebe,
Und verlasse die Seele nicht!
Ach, wie anders, wie schön
Lebt der Himmel, lebt die Erde,
Ach, wie fühl ich, wie fühl ich
Dieses Leben zum erstenmal!

A pernambucanidade de Clarice Lispector, Leonhard Duch e Carlos Pena Filho

De Berlim, o jornalista e pintor Leonhard Frank Duch veio para o Brasil, não sei se menino de colo ou de pé, e virou pernambucano.

Aconteceu com a jornalista e romancista Clarice Lispector, que nasceu em Tchetchelnik , mas nunca esqueceu seus tempos de criança no Recife, na Praça Maciel Pinheiro.

Clarice Lispector: "O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco do mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele"
Clarice Lispector: “O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco do mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele”

Clarice foi naturalizada brasileira. Quanto ao Estado pertencente, se declarava pernambucana.

Chegou ao Brasil quando tinha um ano e dois meses de idade, e sempre que questionada de sua nacionalidade, afirmava não ter nenhuma ligação com a Ucrânia. “Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo” – e que sua verdadeira pátria era o Brasil.

É a mesma pernambucanidade de Leonhard Duch:

“Vivi 43 anos no Recife, tive cinco filhos, e todos brasileiros. É uma sensação de ser um nordestino sem ser; ou sem ser, me sentir nordestino”.

E acrescentou: “Tenho não só duas culturas e idiomas em mim, tenho duas vidas inteiras numa só”.

Leonhard Frank Duch:  "Sou mais um tipo de saborear a vida. Que sensação boa a cultura e os usos (e abusos) dos nordestinos".
Leonhard Duch: “Sou mais um tipo de saborear a vida. Que sensação boa a cultura e os usos (e abusos) dos nordestinos”.

Fernando Pena me disse que o irmão, jornalista e poeta Carlos Pena Filho, era português de nascimento.

“Fui feito lá”, foi a resposta, com duplo sentido, de Carlos Pena que, em 1937, com a separação dos pais, mudou-se para Portugal, com sua mãe e irmãos, Fernando e Mário, indo morar na casa dos avós paternos.  Lá viveu dos oito aos doze anos, quando retornou.

Carlos Pena Filho: Recife, cruel cidade,
águia sangrenta, leão.
Ingrata para os da terra,
boa para os que não são.
Amiga dos que a maltratam,
inimiga dos que não
este é o teu retrato feito
com tintas do teu verão
e desmaiadas lembranças
do tempo em que também eras
noiva da revolução
Carlos Pena Filho: “Recife, cruel cidade, / 
águia sangrenta, leão./ 
Ingrata para os da terra, /
boa para os que não são. /
Amiga dos que a maltratam, /
inimiga dos que não /
este é o teu retrato feito /
com tintas do teu verão /
e desmaiadas lembranças/ 
do tempo em que também eras
 /noiva da revolução”

O pai e a mãe de Pena viveram o namoro, noivado e o começo do casamento em uma casa portuguesa, com certeza.

Leonhard Frank Duch:  "Pinto por puro prazer e sensualidade"
Leonhard Frank Duch: “Pinto por puro prazer e sensualidade”. Clique para ampliar