A VIA SACRA DO MENOR MARCELO

OS QUE LAVARAM AS MÃOS, OS QUE RECEBERAM 30 MOEDAS, OS QUE O FLAGELARAM E EM SEGUIDA O EXECUTARAM. UMA ANALOGIA COM A VIA SACRA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

 

Não foi o Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini. Cartazete de campanha na internet
Não foi o Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini. Cartazete de campanha na internet

por George Sanguinetti

 

Nesta Semana Santa, onde todos recordamos o sofrimento do nosso Salvador, a Via Sacra até a décima quarta estação, não posso também deixar de estabelecer uma analogia do sofrimento de um menor, executado com os pais e familiares, trazendo as marcas no corpo, não só do tiro que o matou, mas de violências que se traduziram por “lesões de defesa”.

Analisando as diligências, a condução do inquérito policial, lembra uma das encenações da Paixão de Cristo, que são mostradas em diversas cidades do Brasil, sendo até atração turística, pelo bom desempenho dos atores e do conjunto.

Consigo identificar por semelhança Pôncio Pilatos, Judas, os soldados de Herodes que na época O flagelaram e crucificaram.

Jesus Cristo, o Filho de Deus para nos salvar; e Marcelinho por ser parte da família, objeto de vingança, que também deveria ser executado e que receberia a culpa da chacina.

Os algozes tiraram sua vida e macularam sua memória.

Exposto como alienado, serial killer, um vingador errante como Don Quixote, segundo um dos “doutores da lei”.

Sua via sacra, conduzida pela mídia, insuflada por informações equívocas (não foi assim no solta Barrabás) tem sido diária, semanal, mensal; dura até hoje.

Como Cristão, nesta época de sentimento e reflexão, ao rezar, fitando o Crucificado, pela salvação do homem, não posso deixar de lembrar o calvário da Família Pesseghini, trucidada com tamanha brutalidade e do menor Marcelo, executado também e com a memória maculada para proteger “soldados de Herodes”.

Rezo ao Senhor meu DEUS, comungo do sofrimento do Filho, para salvação do homem, nesta Semana Santa, mas oro também, clamo por justiça que virá de Deus e se manifestará nos homens, comprovando a inocência do menor Marcelo.

“Depois de O terem escarnecido, tiraram-lhe a clâmide, vestiram-lhe as Suas roupas e levaram para ser crucificado.” Mateus 27:31

A verdade é a poesia

por Sebastião Nery

 

A Grécia é filha de Homero. Nasceu do ventre da Ilíada e da Odisséia. Sócrates, Platão, Aristóteles, germinaram a filosofia. Ésquilo, Sófocles, Eurípides, sangraram a tragédia. Mas foi a poesia de Homero que gerou e plasmou a alma eterna da Grécia.

Roma foi de César, de Augusto, de Adriano. Mas sem a Eneida de Virgilio, as Odes de Horácio, as Metamorfoses de Ovídio, Roma teria sido um Império mas não teria sido uma civilização.

A Itália é Dante e o depois dele. A Inglaterra é Shakespeare e o sempre. Como a Alemanha é sobretudo Goethe, Portugal Camões.

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A PALAVRA

Por quê? Porque a poesia é o Genesis. “In principio erat verbum”. No princípio era a palavra. No início era a poesia. E “o poeta é um pequeno Deus”.

Platão sabia disso: – “O poeta é um ser alado, sagrado, todo leveza, e somente capaz de criar quando saturado de Deus”.

Shakespeare também: – “O olhar do poeta, girando em delírio, vai do céu para a terra, da terra pára o céu. Quando a imaginação toma corpo, captura a essência das coisas”.

E Goethe: – “Poetas não podem calar-se. Quem vai confessar-se em prosa? Abrimo-nos como rosa, no calmo bosque das musas”.

E Victor Hugo: – “Um poeta é o mundo dentro de um homem”.

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PILATOS

Impalpável, intangível, só ela, a poesia, é a verdade. Etérea. A verdade alada de Platão, a verdade ensangüentada do Cristo.

Pontius Pilatus ganhou de Tiberius, imperador de Roma, o governo da Judéia e da Samaria, quando exilou Arquelau, filho de Herodes, o Grande, e irmão de Herodes, o antipático Antipas, que deu a Salomé o pescoço de João Batista.

Philo Judaeus e Josephus, historiadores judeus, contemporâneos de Pilatus, disseram que ele era “ríspido e intratável”.

Mas não queria matar Jesus Cristo.

Quando aquele homem de olhos mansos, coberto de sangue, chegou preso ao palácio, trazendo na cabeça a coroa sarcástica – “Jesus Nazarenus Rex Judeorum” –, Pontius Pilatos lhe perguntou quem ele era:

– “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

O caminho Pilatos sabia o que era. A vida, também. Mas a verdade, não. Pilatos outra vez lhe perguntou:

– O que é a verdade?

Jesus não respondeu. E foi levado para morrer.

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CRISTO

Beletristas medievais, monges e poetas, diziam que Jesus não respondeu porque a resposta já estava na pergunta, em latim:

– “Quid est veritas”? (O que é a verdade?).

Com as mesmas 14 letras da pergunta, escreve-se a resposta:

– “Est vir qui adest”. (É o homem que está aqui).

Nem a verdade disse o que é a verdade, porque indefinível.

Como a poesia. Ninguém a definirá. Sentida, vivida, sofrida ou gargalhada, mas indizível. Nasce e morre no mistério. Como as gaivotas, levita e mergulha. Aflora e submerge. É feita de luz e sombra, flor e cacto, carne e sangue. A poesia é o mágico encontro entre a beleza e a pedra, o sonho e a dor, a vida e a morte.

Na impossível busca da verdade, só a poesia é a verdade.

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GUEVARA

Para finalizar, um pequeno, belo, talvez anônimo poema. Consta, embora jamais comprovado, que seria de Che Guevara.

No Natal de 1966, em Nancahuazu, na Bolívia, nas derradeiras trincheiras da inviável guerrilha, cercado de solidão e da certeza do sonho perdido, ele o teria escrito:

– “Cristo, te amo / não porque desceste de uma estrela /mas porque me revelaste / que o homem tem lágrimas, angustias /e chaves para abrir as portas fechadas da luz. / Tu me ensinaste que o homem é Deus / um pobre deus crucificado como tu./ E aquele que está a tua direita no Gólgota / o bom ladrão / também é um Deus”.