Quem controla a notícia?

por Carlos Castilho

Não é segredo que a imprensa usou esse recurso de manipular contextos com frequência preocupante, criando uma situação em que ambos os lados têm culpa em cartório. Se as tentativas de influenciar a publicação constituem uma interferência indevida no livre fluxo de informações, por outro lado a manipulação de contextos é igualmente condenável,  porque priva o leitor de uma percepção mais objetiva da questão abordada.

Também é publico e notório que políticos, governantes, empresários e personalidades tentam influenciar a imprensa antes mesmo do contato direto com repórteres e editores. Os comunicados de imprensa (press releases) são uma forma aceita de tentar condicionar a informação dada ao jornalista.

Nos casos mais grosseiros, o profissional consegue identificar os interesses embutidos no comunicado, mas a sofisticação crescente nas técnicas de relações públicas torna cada vez mais difícil distinguir a informação do marketing. Caso o jornalista resolva não ser um “inocente útil” no marketing alheio, ele acabará gastando um bom tempo para separar o joio do trigo e provavelmente será ultrapassado pela concorrência, ficando exposto à censura de seus superiores.

(Transcrevi trechos)

Dá para acreditar nos jornalistas?

por Carlos Castilho

 

Durante muito tempo os jornalistas encararam o questionamento ético do seu trabalho como o equivalente a uma ofensa pessoal e, em alguns casos, até como uma agressão à categoria profissional. Isto contribuiu para o aumento do número dos desafetos da profissão e, pior do que isso, para consagrar uma falsa dicotomia entre bons e maus.

A avalancha informativa gerada pela internet está ajudando a relativizar a questão da verdade no jornalismo ao — paradoxalmente — consagrar a dúvida. Quase todos os participantes do evento promovido pelo Instituto Poynter concordaram que o jornalista da era digital é um profissional obrigado cada vez mais a conviver com incertezas.

Os norte-americanos se acostumaram durante 19 anos a só irem para a cama depois de ouvirem Walter Cronkite (que se aposentou em 1981) fechar o telejornal da noite da rede CBS com a icônica frase “And that’s the way it is” (em tradução livre, é assim que as coisas são). Dormiam tranquilos convencidos de que sabiam da verdade dos fatos. Hoje, a TV americana virou uma incrível cacofonia noticiosa que gera mais confusão do que convicção.

O que os jornalistas começam a se dar conta é que o custo de serem considerados os donos da verdade tornou-se alto demais e que a realidade atual é muito mais complexa do que o estipulado nas regras formais e informais da profissão. A começar pelo fato de que os conceitos de verdade e erro são hoje objeto de enormes discussões envolvendo desde filósofos e juristas até pessoas comuns.

Até a era da internet, quem determinava o justo ou injusto, o certo ou errado, o verdadeiro ou falso eram as personalidades acima de qualquer suspeita, a igreja e os tribunais. Agora, quem começa a assumir esse papel de juiz da credibilidade e confiabilidade são sistemas eletrônicos, chamados sistemas de reputação, baseados em princípios matemáticos de probabilidade e em estatísticas.

Os sistemas de reputação consagram a relatividade na definição do que é verdadeiro ou falso. Ao levarem em conta uma quantidade enorme de dados e percepções sobre um mesmo fato, os sistemas logram uma contextualização muito mais ampla do que a alcançável por um ser humano, mas nunca chegam a um veredito do tipo certo ou errado. É sempre uma afirmação relativa: tende a ser certo ou tende a ser errado.

Esses sistemas já são largamente usados na internet e podem ser vistos em ação em sites como os de comércio eletrônico, que oferecem uma avaliação de compradores e vendedores. A categorização é expressa em porcentagens e não em sentenças dicotômicas do tipo bom ou mau.

A convivência dos jornalistas com os sistemas de reputação vai mexer com valores muito entranhados na profissão. Não consigo imaginar qual o rumo que tomará a questão, mas pelo menos começamos a entender que não somos oráculos da verdade. Isto cria outra situação inédita, pois o público terá que assumir a busca de sua verdade, tarefa que ainda joga nas costas do jornalista. Os profissionais da imprensa poderão, no máximo, aconselhar.

(Transcrevi trechos)