Vale a pena votar domingo?

É preocupante e assustador o desleixo com que tratamos a nosso passado recente – e essa incapacidade de refletir sobre a história. A mudança depende somente de nós, de nosso engajamento.

 

 Menekse Cam
Menekse Cam

 

por Luiz Ruffato/ El País/ Espanha

 

Por uma dessas coincidências, as eleições de domingo ocorrem no exato dia em que comemoramos 26 anos de promulgação da Constituição vigente, cujo ordenamento jurídico pôs fim efetivo à nunca por demais execrada ditadura militar brasileira, que até hoje permanece assombrando a nossa frágil e débil democracia. Das oito da manhã às cinco da tarde, parte expressiva dos 140 milhões de eleitores aptos a votar, cerca de 70% do total da população, deverá se apresentar às urnas eletrônicas, exercendo o direito de escolher seus representantes no Poder Executivo e Legislativo estadual e federal (se o voto deve ser facultativo ou continuar obrigatório é uma discussão que não cabe aqui e agora).

O quadro que se pinta não é dos mais animadores, certamente. Em São Paulo, que, concentrando um terço do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, é tido como o estado mais parecido com o modelo econômico-social que desejamos aperfeiçoar e exportar para o resto da Federação, encontramos candidatos cujo deboche pela política aparece no próprio nome com que se apresentam ao eleitor. Eis algumas bizarrices, pinçadas ao acaso, entre postulantes a deputado federal: Obama Brasil, Toninho do Diabo, Carlão do Doce, Macaco Tião Cláudia, Rique O Tchê-Tchê, Doutor Verme, Meu Querido, Mick Jagger do Brasil, Valmir Olho de Lobo, Newton – O Homem do Chapéu, e outros, e muitos.

Também não é alentador perceber que os concorrentes, principalmente aqueles que disputam cargos executivos, ao invés de oferecer ideias e propostas para, se não resolver, pelo menos amainar problemas graves e estruturais do país, como os ligados à educação, saúde, segurança, mobilidade urbana, meio-ambiente, preferem patinar em acusações e tentativa de aniquilação uns dos outros. E é decepcionante acompanhar as notícias que dão conta de que alguns nomes, claramente identificados à corrupção, ao coronelismo e ao banditismo puro e simples, de todos os partidos e todas as ideologias, permanecerão por pelo menos mais quatro anos mandando em seus feudos com a arrogância de quem se escuda na impunidade garantida pela posição que ocupam na sociedade.

Mas, por mais frustrante que seja esse cenário, sabemos que a mudança depende somente de nós, de nosso engajamento, de nossa participação. Candidatos que debocham do processo eleitoral, como os que usam o horário partidário para promover-se egoisticamente, aproveitam-se da liberdade garantida pela legislação, e, mesmo que por acaso eleitos, rapidamente serão absorvidos pela máquina burocrática – ou se tornam políticos profissionais ou são devolvidos ao anonimato da vida comum. Também não ameaça a democracia, embora a empobreça, a falta de propostas dos candidatos. Preocupante e assustador, entretanto, é o desleixo com que tratamos a nosso passado recente – e essa incapacidade de refletir sobre a história, isso sim é algo que deveríamos temer.

Neste ano, em que completam-se 50 anos do golpe que instalou os militares no poder, temos assistido a uma profusão de manifestações autoritárias a nos lembrar que estamos longe ainda de constituirmos um sólido estado de direito. Apesar de realizarmos a sétima eleição direta consecutiva para a Presidência da República – o maior período de democracia de toda a história política do Brasil –, superando traumas (como o impeachment de Fernando Collor) e preconceitos (como a investidura de um ex-metalúrgico e de uma ex-guerrilheira), o pensamento prepotente cavalga pelas ruas e avenidas e, principalmente, pelas redes sociais.

De maneira bastante emblemática, na última sexta-feira, dia 26, o sargento reformado do Exército, Marco Pollo Giordani, relançou em Porto Alegre seu livro Brasil, sempre. Giordani, que foi membro do DOI-CODI, órgão de inteligência responsável pela repressão durante a ditadura militar, defende, nesse volume, publicado originalmente em 1985, tópicos como racismo e eugenia e acrescenta, na segunda edição, um elogio à tortura como método policial. Publicada em 1985, o sargento sentiu-se encorajado em reeditar a obra, que teve há muitos anos esgotados os 20 mil exemplares originais, possivelmente por perceber um clima propício à difusão de suas ideias despóticas – uma página de Facebook, intitulada Apoiamos Patrícia Moreira contra a hipocrisia do politicamente correto, fundada em 14 de setembro, já conta com mais de seis mil seguidores. Patrícia Moreira é a torcedora que xingou o goleiro Aranha, do Santos, de macaco…

Ainda estamos longe de viver em um país ideal – o exercício da política no Brasil chega a ser constrangedor e muitas vezes chega a causar-nos nojo. Mas somente por meio do voto, ou seja, mergulhados na dinâmica própria da democracia, mesmo em uma acanhada, como a nossa, garantiremos que pregações como as de Marco Pollo Giordani somente convençam a uma minoria ignorante. Por isso, respondo à pergunta que encabeça esse artigo com um indiscutível sim, é essencial participar do processo eleitoral no próximo domingo.

 

 

ANTINOMIA

por Mariana Rocha

Mariana Rocha
Mariana Rocha

Encontro-me no fim,
no vício pelo abstrato
Na obsessão pelo passado,
na fuga contínua de quem me quer bem
Comigo não permito levar nada,
além do orgulho de ser independente
Com a perda proposital
do que o Onipotente poderia me dar
Traço eu mesma meu fadário, meu porvir
Não possuo pudores ou covardia da vida
Não me interesso pelo interessante
E a pura autodestruição me satisfaz
Não imploro por piedade,
não almejo paciência,
Anseio o puro caos,
babel, discórdia
Desconhecedores me chamam
de muitos nomes
Lunática, Boderline, Paradoxo
Mas eu prefiro me intitular: Livre

Papa Francisco: “A religião tem o direito de expressar suas próprias opiniões a serviço das pessoas, mas Deus na criação nos fez livres: não é possível uma ingerência espiritual na vida pessoal”

Francisco no Rio de Janeiro
Francisco no Rio de Janeiro

 

O Papa Francisco concedeu uma entrevista, de aproximadamente seis horas, dividia em três dias, para Antonio Spadaro, padre jesuíta, diretor da revista Civiltà Cattolica. Ele entrevistou o Papa, representando o conjunto de 15 revistas diriigidas por jesuítas. Trata-se de revistas centenárias, como a própria Civiltà (Itália), Razón y Fe (Espanha), America (EUA), Études (França), Stimmen der Zeit (Alemanha), Thinking Faith (Grã-Bretanha),Mensaje (Chile).

A integra da entrevista foi publicada hoje, 19-09-2013, por este conjunto de revistas. A tradução brasileira da íntegra da entrevista pode ser lida aqui.

IHU On-Line selecionou algumas frases do Papa Francisco proferidas durante a entrevista.

– “Não podemos reduzir o seio da Igreja universal a um ninho protetor da nossa mediocridade.”

– “Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. Não tem sentido perguntar a um ferido se seu colesterol é alto ou o açúcar. É preciso curar as feridas. Depois falaremos do resto. Curar feridas, curar feridas… E é preciso começar pelo mais elementar”.

– “O povo de Deus necessita de pastores e não funcionários ‘clérigos de gabinete”

– “A religião tem o direito de expressar suas próprias opiniões a serviço das pessoas, mas Deus na criação nos fez livres: não é possível uma ingerência espiritual na vida pessoal”

– “Fui repreendido por isso (por não falar sobre aborto e contracepção). Mas, quando falamos sobre essas questões, temos que fazê-lo em um contexto. O ensinamento da igreja quanto a isso é claro, e eu sou um filho da igreja, mas não é necessário falar sobre esses assuntos o tempo inteiro”.

– “Uma vez uma pessoa, para me provocar, me perguntou se eu aprovava a homossexualidade. Eu então lhe respondi com outra pergunta: “Diga-me, Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou a rechaça e a condena?” Sempre é preciso ter em conta a pessoa. E aqui entramos no mistério do ser humano. Nesta vida, Deus acompanha as pessoas e é nosso dever acompanhá-las a partir de sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Quando isto acontece, o Espírito Santo inspira ao sacerdote a palavra oportuna”.

– “Não podemos seguir insistindo somente em questões referentes ao aborto, ao casamento homossexual ou uso de anticoncepcionais. É impossível.”

– “Se alguém tem respostas para todas as perguntas, estamos ante uma prova de que Deus não está com ele. Trata-se de um falso profeta que usa a religião para o seu próprio bem. Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre deram espaço para a dúvida.”

– “Um cristão restauracionista, legalista, que quer tudo claro e seguro, não vai encontrar nada. A tradição e a memória do passado têm que nos ajudar a abrir espaços novos a Deus. Aquele que busca sempre soluções disciplinares, o que tende a “segurança” doutrinal de modo exagerado, o que busca obstinadamente recuperar o passado perdido, possui uma visão estática e involutiva. E assim a fé se converte numa ideologia entre outras. Para mim, tenho uma certeza dogmática: Deus está na vida de cada pessoa. Deus está na vida de cada um”

“El sistema ha instaurado la moral del esclavo feliz”

 

 

 

¿Cuál es el discurso político hoy hegemónico?, el que ha calado en la mayoría de la población. Siguiendo los mecanismos de manipulación al uso, responde Julio Anguita, “el carcelero ha conseguido que el esclavo esté calentito en la prisión; que, aunque la puerta esté abierta, el prisionero no se escape ni pretenda hacerlo; es ésta la dominación perfecta”. En otras palabras, “el sistema ha conseguido instaurar la moral del esclavo feliz”. Por eso, añade el promotor del Frente Cívico Somos Mayoría, la gente repite expresiones como “hemos vivido por encima de nuestras posibilidades”, “hemos de arrimar el hombro” o “con una huelga no se consigue nada”.

Anguita ha presentado en la Facultat de Filologia de Valencia –en una sala abarrotada, con más de 500 personas- su libro “Combates de este tiempo” (Ed. El Páramo). El acto ha sido organizado por Esquerra Unida del País Valencià (EUPV-IU), el sindicato AContracorrent y la editorial El Paramo.

Puede que en la moral del esclavo feliz estén surgiendo grietas o portillos de esperanza. Algo así, al menos, pudo apreciarse en la huelga general del 14-N y las manifestaciones posteriores. “La gente está llenando las calles y enfrentándose a la policía”, explica Anguita. Y agrega una fotografía cercana que ilustra esta idea: “una señora en Córdoba le espetó el día de la huelga a un policía: Tú número; y si no me lo das eres un terrorista, al que manda otro como tú”. Explica el excoordinador general de Izquierda Unida que, cívicamente, “hemos de doblegar la moral de las fuerzas de orden público y, también, recordarles que son hijos del pueblo; ahora bien, para ello es necesaria mucha fortaleza de ánimo y contención”.

Anguita habla claro. Es algo que siempre le ha reconocido hasta el enemigo. Con él no va el discurso políticamente correcto ni el circunloquio postmoderno. Por eso, afirma rotundo, “esto es una guerra”, que, además, “viene de hace siglos: de la Revolución Francesa, de las Internacionales obreras y otros hitos”. En resumen, se trata, a juicio de Julio Anguita, de la eterna lucha entre la razón y la barbarie, entendida la razón como “el uso de la ciencia y la técnica para que el ser humano viva mejor”. Siempre se ha considerado esto como la modernidad, heredera –por lo demás- del renacimiento y la ilustración. “Pero hoy le han dado la vuelta al concepto”, critica el autor de “Combates de este tiempo”. “Llaman modernidad a la ofimática y a los móviles; es ésta una sociedad anticuada y embrutecida con aparatitos, para nada moderna”.

“Combates de este tiempo” es presente y es pasado. Es memoria. “El mayor acto revolucionario que conozco, es recuperar la memoria”, subraya Anguita. Hoy, explica, “por el exceso de medios de comunicación, el consumo y la cultura de lo banal, hemos perdido la memoria; igual que cuando a alguien le practican la lobotomía, se intenta que las poblaciones no sean pueblos sino meros consumidores; y sin memoria, no existen pueblos ni seres humanos; nos convertimos en peleles del último pastor que gobierna televisión española”, explica.

 

#NOSINCULTURA: Manifiesto en defensa de la Cultura

 

El desempleo es sin duda el problema fundamental de nuestra sociedad. No se
entiende que todas las medidas adoptadas para combatir la crisis económica
que padecemos estén más preocupadas por controlar el déficit y solucionar los
problemas de los bancos que por la creación de puestos de trabajo.

Confundir la cultura con el rostro de algunos nombres famosos significa
desconocer de un modo demagógico la realidad humana, económica y laboral
de la música, el cine, el teatro, la literatura y el arte.

La confusión de la cultura con una idea insustancial del entretenimiento es una
operación neoliberal para separar a los ciudadanos de la educación intelectual
y sentimental, un derecho imprescindible para la formación de las conciencias
críticas. Educación y cultura son el fundamento de un contrato social de
carácter democrático.

La operación de considerar los productos culturales como objetos de lujo y su
abandono posterior a los mecanismo exclusivos del mercado y de los intereses
privados supone un intento elitista de rebajar la educación de la ciudadanía,
impedir su formación colectiva y facilitar un panorama en el que triunfen la
demagogia, los instintos bajos y las manipulaciones mediáticas de los poderes
financieros. Sin la educación de las sensibilidades individuales resultan
imposibles el respeto y las voluntades solidarias que crean los vínculos de una
comunidad. El desprecio a la cultura provoca la incapacidad de comprensión
mutua, porque implica el desmantelamiento del pasado común, la falta de
diálogo en el presente y la cancelación del futuro. Leer más