Governo da Paraíba constrói o primeiro condomínio residencial exclusivo para idosos do Brasil

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O Governo entrega o primeiro condomínio residencial exclusivo para idosos do Brasil, e torna a Paraíba referência nacional na criação e fortalecimento de políticas públicas para a terceira idade.

O condomínio Cidade Madura, localizado no Cidade Verde, em João Pessoa, dispõe de 40 unidades habitacionais, posto médico, pista de caminhada, redário, praça e centro de vivência, tudo projetado para atender às necessidades e garantir qualidade de vida para os idosos que mais precisam.

São quase R$ 4 milhões investidos em algo que não tem preço: A dignidade e o respeito a quem precisa e merece! Campina Grande, Cajazeiras e Sousa também serão contempladas com o projeto que é pioneiro no país.

Realmente, um projeto exemplar. Com um salário mínimo de aposentadoria – compare com o vale refeição de um juiz -, ninguém consegue comer as três refeições da cada dia.

Nem pagar o aluguel de um casebre. Tem que morar de favor na casa alheia. Que é uma profunda humilhação. Que será sempre uma moradia provisória, incerta e inquietante. É uma situação terrível, extrema, nem um ser humano merece esse castigo, principalmente quem está com o pé na cova.

Bendito seja o governo que se lembra das crianças e dos velhos, neste Brasil cada vez mais cruel. De empresas escravocratas como a Contax.

 

Não há crise no mercado atacadista

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O comércio atacadista paraibano ultrapassou a marca de R$ 2 bilhões de faturamento em 2012 e registrou o terceiro maior montante do Nordeste entre as empresas do setor.

Segundo o ranking publicado pela Revista Distribuição, o faturamento do segmento na Paraíba foi de R$ 2,239 bilhões, contabilizando um crescimento real de 7,26% sobre 2011 (R$ 1,973 bi), o que representa uma taxa quase três vezes maior que a média nacional (2,5%), deflacionado pelo Índice Nacional de Preços Acumulado (IPCA). Apenas Pernambuco (R$ 3,158 bi) e a Bahia (R$ 2,743 bi) ficaram à frente da Paraíba.

O fato mais relevante é que não há crise no  mercado atacadista da Paraíba nem do país. No ano passado, a área atacadista-distribuidor no país faturou R$ 178,5 bilhões entre as 471 empresas que responderam o questionário (+2,5%), acima do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nacional de 0,9%. Segundo a associação, o mercado de consumo no ano passado gerou uma receita de R$ 344,1 bilhões.

 

 

Lei Cássio Cunha Lima de censura à internet transforma a informação em propaganda e mensagem de relações públicas. É antidemocrática e amordaça e encabresta os brasileiros

Abençoada Paraíba! Terra do poeta Augusto dos Anjos e dos maiores romancistas brasileiros: José Lins do Rego, José Américo de Almeida, Ariano Suassuna e Moacir Japiassu.

Não existe Literatura sem Liberdade. Eis que aparece um senador da Paraíba para encabrestar, primeiro os paraibanos, e depois todos os brasileiros.

Não existe Liberdade de expressão quando antigos e novos meios de comunicação são censurados. Quando os jornalistas e internautas são amordaçados.

Que teme o senador Cássio Cunha Lima?

Outro senador tucano, Eduardo Azeredo, pretende que o Brasil desconheça o Mensalão de Minas Gerais, o Mensalão do Metrô de São Paulo, a privataria tucana, a história do helicóptero do pó e outras safadezas mil do PSDB, escondidas pela TV Globo.

 
Cássio

Não há democracia onde falta o direito humano à informação

No dia em que esta edição era concluída, a Suprema Corte da Argentina encerrava mais uma batalha judicial do grupo Clarín contra a Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, conhecida como Lei de Meios, vigente no país vizinho desde 2009. A Justiça não deu razão ao maior conglomerado de mídia, comparável ao que é a Globo por aqui, e assegurou mais uma vitória ao projeto do governo da presidenta Cristina Kirchner que está revolucionando o setor audiovisual. Quem soube da notícia pelos telejornais na Globo deve ter ficado estarrecido, preocupado com a presença do “demônio da censura e da perseguição à imprensa” tão próximo de nosso território. Mas quem ler o artigo do professor Laurindo Lalo Leal Filho  entenderá que não é bem assim.

E existem tantos acontecimentos que não “são bem assim” na imprensa comercial no Brasil, como na Argentina, na Europa, nos Estados Unidos, que o único jeito de o público formar uma opinião que não seja a dos donos dos jornais, rádios e TVs é a diversidade. Diversidade de veículos, de coberturas, de regionalidades, de cultura, e até de opiniões. Só que em boa parte das democracias que se prezam já existem sistemas que regulam os meios de comunicação de modo a impedir ou dificultar o monopólio da opinião. No Brasil, existe projeto para isso, mas o governo ainda não tirou da gaveta. Quando tirar, aliás, prepare-se: os porta-vozes da Globo e afins vão cuspir veneno em seu monitor.

Enquanto isso não acontece, vamos dando nossa contribuição para que o acesso à informação seja mais democrático e para que o público tenha contato com outras ideias e outros Brasis solenemente ignorados pela imprensa chamada de “grande” por alguns. Ao que parece, estamos indo bem. Como dizem alguns dos colegas em depoimentos à reportagem de capa, ganhar três importantes e concorridos prêmios da comunicação brasileira é uma comprovação da alta qualidade. É uma homenagem a quem consegue transformar a história esquecida em história contada. E nada mais justo do que receber o prêmio que leva o nome do jornalista Vladimir Herzog, símbolo da luta pela liberdade. Porque não existe democracia onde falta informação.

 

 

VEM AÍ RICARDO, O REI DA MARACUTAIA COM O ORÇAMENTO DEMOCRÁTICO, ARAPUCA NAZISTA

por Eilzo Matos

Afirmei antes e repito: não dá para confiar num indivíduo que é indiciado como réu em centenas de investigações, inquéritos policiais, procedimentos judiciais. É irrecuperável, é um caso perdido. Esta é a situação do governador Ricardo Boca Torta. Ele passa por cima da Lei e até de verbete do Dicionário Aurélio que também define infrações legais.

Duvido que as pessoas saiam de suas casas, sem o convite para a boa alimentação, o transporte gratuito confortável, a hospedagem, o pagamento da farra animada, e da carimbada simpatia do governador. Deve a despesa chegar, como se diz popularmente, a uma grande soma, a uma “fábula”. Porque esse pessoal, ganha e recebe muito dinheiro e muitas vantagens, todos os dias, durante o ano inteiro.

Acho que vale a pena fazer um levantamento das despesas com a mídia, documentos, transporte, alimentação, hospedagem, material de expediente, diárias, etc, e, principalmente a soma em dinheiro, gasto em gratificações pagas aos articuladores e participantes das “reuniões” de qualquer tipo, como “plenárias”, “assembléias” etc, que se multiplica em todos os recantos do Estado, com a finalidade de montar a arapuca nazista – o orçamento democrático. Ali ninguém está de graça.

Ricardo Boca Torta está em plena campanha para a sua reeleição. O período para a campanha de que trata o Código Eleitoral e legislação específica, ainda não foi definido e detalhado pelo Tribunal Superior Eleitoral, sendo o procedimento do governador contrário à Lei. Falei acima o que o dicionário define como conduta ilegal. Leia: “Adj. Bras. Deprec. Diz-se dos atos e proposições emanados dos membros dos poderes públicos com vista à captação de votos em eleição próxima e não ao real interesse da comunidade; eleiçoeiro.” Transcrevi trechos

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Veja para onde irá a água do rio São Francisco após a conclusão da transposição

ÓRFÃOS DA SECA

por Mauri König

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Em Salgueiro (PE), água bombeada do reservatório passará 180 metros acima do leito do São Francisco e dali a força da gravidade vai distribuí-la para 4 estados. Alexandre Mazzo
Em Salgueiro (PE), água bombeada do reservatório passará 180 metros acima do leito do São Francisco e dali a força da gravidade vai distribuí-la para 4 estados. Alexandre Mazzo

A RESPONSABILIDADE DO VELHO CHICO

Metade da transposição do rio São Francisco está pronta, para socorrer os flagelados da seca. Vozes contrárias acham o projeto inócuo

Esvaído em seu leito minguado, ao Velho Chico caberá uma responsabilidade maior do que as riquezas dele subtraídas. A mata ciliar escasseou, os minerais sumiram, os peixes desapareceram, e ainda assim as águas amansadas pelo assoreamento terão a missão de aplacar a sede no sertão nordestino. A transposição do rio São Francisco, que transpôs governos desde d. Pedro II, há século e meio, tem conclusão prevista para 2015. É o grande orgulho do governo brasileiro no combate às secas que assolam o semiárido, mas há quem diga ser uma sangria desnecessária do Velho Chico.

INFOGRÁFICO: Veja para onde irá a água do rio São Francisco após a conclusão da transposição

FOTOS: Confira mais imagens das obras da transposição

Maior obra de infraestrutura em andamento no Brasil, a transposição se arrasta há cinco anos. Deveria ter sido concluída em 2012, mas só 45% estão prontos, em trechos que não se conectam. Em alguns deles as obras estão paradas. O projeto começou orçado em R$ 4,7 bilhões e está em R$ 8,2 bilhões. O Tribunal de Contas da União encontrou R$ 734 milhões em irregularidades. O rio corta o sertão de Minas Gerais a Alagoas, e, concluída a transposição, 600 quilômetros em canais de concreto vão levar a água para quatro estados, passando pelas regiões mais secas do Brasil.

Discrepâncias

Responsável pela transposição, o Ministério da Integração Nacional diz ter havido muita discrepância entre o projeto básico, concluído em 2001, e o projeto executivo realizado em campo. Não houve revisão ou atualização no início das obras, em 2007. Ao mesmo tempo, houve falhas no estudo geológico. Daria para ter desviado pedreiras, que encarecem a obra, ou ter evitado determinadas escavações em terreno macio, como no caso do desabamento de um túnel de 120 metros em abril de 2011. Para o ministério, esses contratempos retardaram e encareceram a obra.

Um dos pontos mais adiantados do projeto fica em Salgueiro, Pernambuco, onde está sendo construído um grande reservatório de onde a água será bombeada para o ponto mais alto da transposição. A água passará 180 metros acima do leito do São Francisco e dali para frente a força da gravidade vai fazê-la percorrer mais de 100 quilômetros, distribuindo-a por canais de concreto em dois grandes eixos (norte e leste) ao longo do território de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Ao longo do caminho, o projeto prevê a construção de nove estações de bombeamento de água.

A polêmica nasceu junto com a ideia da transposição. Para grupos contrários, o desvio das águas põe o rio em perigo, não resolve o problema da seca e só beneficiará o grande capital, em especial os carcinicultores (criadores de camarão), industriais e empreiteiras. O professor de recursos hídricos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, João Abner Guimarães Júnior, considera um erro apostar num programa de desenvolvimento regional a partir da transposição do São Francisco. “É um programa inócuo”, avalia Abner, doutor em hidráulica e saneamento pela Universidade de São Paulo.

Primeiro, a transposição terá alcance restrito, a área de influência chega a apenas 5% do semiárido. Segundo, na prática a obra só irá transferir estoques de água do rio para grandes reservatórios já abastecidos. Para o agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco João Suassuna, grandes obras não darão cabo do sofrimento imposto pela estiagem. O problema não é a falta de água, mas a má distribuição.

O governo entre obras e ações emergenciais

Além do projeto de transposição do rio São Francisco, que ambiciona levar água para 12 milhões de pessoas em quatro estados do Nordeste, o governo federal, junto com os governos estaduais, financia centenas de empreendimentos que buscam gerar soluções para a falta de água na região do semiárido. Serão R$ 26 bilhões pelo Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC 2. As obras de infraestrutura hídrica para expandir a oferta de água no semiárido incluem barragens, adutoras e canais. A meta até 2015 é ampliar a capacidade de armazenagem de água em 7 bilhões de metros cúbicos com novas barragens.

Até a conclusão das obras estruturais, o governo investe em ações emergenciais. Desde janeiro de 2012, destinou R$ 563 milhões para a Operação Carro-Pipa. Sob a coordenação do Exército, foram contratados 4.649 carros-pipa para levar água a mais de 3,5 milhões de pessoas em 763 municípios. Além disso, para a garantia de abastecimento imediato em regiões comprometidas pela seca, o governo federal autorizou um incremento de R$ 202 milhões para contratar 30% a mais de carros-pipa, totalizando 6.170 veículos. O recurso é liberado mediante solicitação dos estados.

Até dezembro do ano que vem, o governo vai instalar 750 mil cisternas para consumo no semiárido. Serão entregues 130 mil até julho deste ano e 240 mil até dezembro. As demais 750 mil serão entregues até dezembro de 2014. Serão instaladas, ainda, 91 mil cisternas para produção.

O Serviço Geológico do Brasil investirá R$ 40 milhões do Ministério da Integração Nacional na perfuração de 20 novos poços profundos de grande vazão. A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba e o Departamento Nacional de Obras contra as Secas investirão R$ 93,3 milhões na perfuração de 1,1 mil novos poços e na recuperação de 1,4 mil outros. Além disso, o Exército investirá R$ 75 milhões na aquisição de equipamentos para perfuração de 30 poços por mês.

Desigualdade
Água existe, mas falta política de distribuição para quem precisa

O problema não é a falta de água, mas a má distribuição. Não serão grandes obras que darão cabo do sofrimento imposto pela seca, diz o agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco João Suassuna. As 70 mil represas existentes no Nordeste acumulam 10 bilhões de metros cúbicos de água, com capacidade para represar 37 bilhões, o maior volume de água represada em regime semiárido do mundo. “Mas não existe uma política para captar essa água e levar para quem precisa”, observa o pesquisador.

Suassuna é contra a transposição do São Francisco porque ela foi “vendida” como a obra que vai resolver o problema da seca no Nordeste. A água chegará aonde já existe em abundância. “A população no entorno dessas represas vai continuar passando sede e sendo abastecida por caminhões-pipa mesmo depois da transposição”, avalia. Somando-se o Norte de Minas Gerais, apenas 2% do território atingido pelas secas são passíveis de irrigação. O problema é o que fazer com os 98% restantes.

Para o pesquisador, o que está claro é que a transposição vai abastecer as represas, vai abastecer o grande capital. Não está claro como a água vai chegar à população, que continuará sendo atendida por caminhões-pipa. “É aí que está a verdadeira ‘indústria da seca’”, pondera Suassuna. Em 1994, durante congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), hidrólogos reunidos em Recife alertavam para a necessidade de uma melhor distribuição da água no semiárido. “Todos os alertas já foram feitos”, diz o agrônomo.

Socorro
Agricultores atingidos pela seca terão suas dívidas renegociadas

A presidente Dilma Rousseff anunciou em abril novas medidas para apoio a produtores rurais afetados pela estiagem no semiárido brasileiro. Os investimentos totalizam R$ 9 bilhões. Somados aos R$ 7,6 bilhões já aplicados em ações estruturantes e emergenciais de enfrentamento à seca, o governo federal está investindo R$ 16,6 bilhões em medidas para mitigar os efeitos da estiagem. Uma das principais ações diz respeito à renegociação da dívida dos agricultores afetados pela seca.

Outra medida anunciada é a manutenção dos programas Garantia-Safra e Bolsa Estiagem enquanto durar o período da seca. Serão incorporados um total de 361.586 novos beneficiários ao Bolsa Estiagem, que beneficia atualmente 880 mil agricultores em 1.311 municípios. Da mesma forma, o Garantia-Safra atende hoje 769 mil agricultores em 1.015 cidades.

Revolução de Trinta: romance e memória por Nei Duclós e Moacir Japiassu

O que aconteceu no outubro de uma revolução brasileira? Um romance e as memórias de ex-combatentes trazem à tona o dia em que o Brasil começou a mudar

Nei Duclós
Especial para o Jornal Opção

Depois de meio século de histórias mal contadas, aos poucos o Brasil inaugurado pela Revolução de 1930 ganha contornos mais nítidos, livres do aparelhamento político de que foi vítima, principalmente a partir do anti-1930, o golpe de 1964. Nestes dois textos, fora da ordem canônica das abordagens, damos um mergulho no que aconteceu na hora agá da revolução nos dois Estados chave do movimento, Paraíba e no Rio Grande do Sul. Um ensaio aborda o romance maior do paraibano Moacir Japiassu e o outro é uma reconstituição do batismo de fogo da guerra que mudou o país no lugar onde a onça bebeu água: Porto Alegre.

História é tiroteio

Linguagem é território livre, mas não deveria estar aberta a certas liberdades. Se o lugar escolhido para moradia for a Paraíba, as palavras precisam seguir a orientação ditada pela sabedoria da terra, e cuidar principalmente da tocaia. Um tiro pela culatra é o que menos aguarda um índio que se aventure na seca abraçada à areia. O que mais assusta é a desventura de ver sua catedral de palha — a percepção que até o momento se alimenta do mundo — sofrer o revés de um pé de vento. Mas para quem é estrangeiro, e queira visitar essas paragens, nada mais resta do que tratar o assunto com as hipérboles do seu espanto, já que o não-nordestino sofre de escassez de entendimento quando se trata de abraçar a Terra do Sol.

Um adventício, especialmente se for criado nas lonjuras sulistas, quando lhe bate a luz excessiva na cara cai na tentação de lembrar o óbvio, de que o caminho escolhido para a criação do mundo foi o verbo, o romance do “Gênesis”. Deus, prudente, preferiu aliar o testemunho por escrito aos seus gigantescos atos. Não fosse assim, quem garantiria crédito ao seu desmesurado esforço? E, melhor: não fosse pela palavra, quem poderia garantir que a encomenda fosse entregue no endereço certo? Pois não bastava inventar, era preciso inventar escrevendo. E assim foi feito o primeiro livro, do qual todos os outros são apenas imagem e semelhança.

O viajante traz na bagagem os arquivos a que está acostumado e quando depara com a Paraíba, por exemplo, é capaz de desistir da empreitada, pois tudo o que vê não poderá amarrá-lo a semelhante paisagem, já que nada ali tem seu feitio, a não ser o idioma, termo mais apropriado do que língua, que serve para diversas licenciosidades. É agarrado ao idioma que o viajante entra na Paraíba, guiado por Moacir Japiassu, que tem, com qualquer viajante, uma identificação plena. Pois ele também, um confesso paraibano auto-exilado, serviu-se da vivência estrangeira para depurar sua criação e entrou de volta não com a curiosidade dos turistas, nem com a condescendência dos que se iludem com os grandes centros, mas com a gana do combatente que volta para algum tipo de desforra.

É bom que se diga: não se trata de vingança, pois nenhum espírito mau sobrevive ao fogo do amor pelo lugar que nos viu nascer e crescer. Mas porque o escritor está empenhado em uma missão in­transferível: a de resgatar o que perdeu, tornando essa herança tão viva para os outros como foi para ele um dia; e tão maior do que qualquer mundo presente.

Todos que estão ao redor de um possuído incorporam as razões da advertência e confidenciam a quantidade de perigos que sugere esse estado. Mas quem é possuído não pela desrazão, mas pela criação obstinada, sabe que não pode voltar atrás. Ele precisa, como Japiassu fez, colocar em ação o moto contínuo de sua febre, composto de uma biblioteca afundada no ermo; um assobiador que é misto de virtuose, intelectual e torturador; um senhor de engenho do mando e do cutelo, dono de escravaria jagunça; outro senhor de engenho solteirão e cheio de remorso; uma sogra carola e terrível; uma esposa apática; uma professorinha na flor do viço e tentada pela esperteza; mais um padre que faz cruzada contra a jogatina. O sezão de Japiassu não se contenta, porém, em dispor esses personagens entre o canavial e a choupana, entre a igreja e a varanda, entre povoados que, no escuro, como ele diz, aglomeram as casas com medo da escuridão. Seu delírio o leva para mais longe.

Ele precisa descobrir, portanto inventar, o engenho de duas guerras acavaladas e isso só pode ser feito se for um leitor compulsivo de tudo o que as armas fizeram nesta nação, onde todos pensam que sabem, mas poucos sabem o que pensam. A revolta de Princesa, no interior da Paraíba, a cavaleiro da revolução de 30, movimento nacional visto aqui pelo prisma revelador do Nordeste, são os espaços históricos da sua incursão à memória mítica do País, ao que nossos pais nos contavam e nenhum livro oficial de história dava crédito. Como as guerras, no Brasil, convivem com as versões que as negam, cabe à literatura desencavar o rebento retido nessa gravidez tardia, que envenena o corpo do Brasil disforme, prenhe de gaiatices sobre revoluções.

O paradoxo é que o material de Japiassu é exatamente essa humanidade sinistra e ao mesmo tempo galhofeira, que é protagonista nos fatos e algoz nas versões. O campo de ação de um escritor fica duplamente minado e agora podemos entender quando Japiassu fala do trabalho que deu reescrever capítulos inteiros, adaptando a linguagem do narrador à fala das personagens. Esse trabalho é fruto do exímio talento aliado à persistência sertaneja, já que Japiassu dá um boi para adiar a escrita de um livro (seus grandes romances só saíram nos últimos anos, depois de décadas de militância na imprensa) e uma boiada para sair dele com a consciência do dever cumprido. O funcionamento desse mundo, que ele resgata inventando, passa pelo cuidado extremo com o detalhe, como o levantamento minucioso de cada peça musical clássica, por exemplo; ou as pistas deixadas pelas revoluções incompreendidas, entre trechos de jornais, manchetes, documentos; ou mesmo o cruzamento entre o clima da terra e o ânimo das pessoas, a geografia e a anatomia. Faz tudo isso usando muitas vezes a linguagem dos brutos: o sexo tem tratamento frontal (mas é praticado de todos os lados), os xingamentos especializam-se na demolição das biografias, o fedor antecipa o tiroteio e assim por diante. E cuida em definir-se pelo pudor dos verdadeiros criadores — ninguém fica sabendo se Isaías, o assobiador, é filho do padre Sabaó (se Isaías não sabe, porque o autor vai lhe devassar esse segredo)? Tudo intercalado (para evitar pomposidades) pela gargalhada explícita — reação comum do leitor em várias passagens do livro.

Sua galeria de personagens inclui tantas figuras fundamentais, que elencá-las numa resenha parece ser o relatório do viajante iludido em levar o romance como lembrança. O jornalista do jornal “Impren­sa às Suas Ordens”, cúmplice do assassinato do presidente João Pessoa, ilumina as origens de um conterrâneo tornado ilustre, Assis Chateaubriand; o José Américo recriado aqui revela o lado desconhecido da Revolução de 30, com suas contradições no bojo da luta; o conde cafetão e a soprano lírica amante do político poderoso são um ensaio sobre os bastidores de um movimento que ainda guarda vários enigmas. Não satisfeito, Japiassu ainda brinda o leitor com os antecedentes de toda a situação política e social do Nordeste ao colocar as origens da República por meio de ilustres figuras da transição, vindas do Império. Parece um confeito no bolo da noiva, mas é mais uma bala nesse rifle recheado.

Estamos longe de ver no concerto de Japiassu apenas uma obra didática, já que ele compartilha do caos que representa sem dó. Mas ele mantém a majestade do maestro que ensina ao impor sua regência. Seu romance reinventa a importância do seu autor, assim como estabelece um novo parâmetro na terra calcinada da literatura brasileira. O autor, imbuído da sua missão e do seu destino, avisa que os mortos não foram enterrados, nem o serão tão cedo. Que os enterrados vivos mordem. Que os excluídos da história sempre voltam. Que Deus, mesmo para os anticlericais, está vendo tudo. E que a punição será severa se tentarem ignorar mais este acontecimento cultural, que reforça a necessidade de o Brasil criar grandes livros, e não apenas literatura descartável.

Diante de um homem como Moacir Japiassu, ungido pelo dom da criação e apoiado pela cavalaria andante do talento, é prudente não exceder-se na conversa, já que se trata de um soldado marcado pela guerra. Diante de um escritor como ele, quem tem juízo cala e escuta. E quem tiver respeito, apresenta armas.

Disfarça que lá vem bala

Na manhã de 3 de outubro de 1930, o tenente-coronel Pedro Aurélio de Góis Monteiro foi passear em trajes civis na rua da Praia e ficou chocado: todo mundo citava seu nome como chefe militar da revolução que iria rebentar em poucas horas. Abatido com a indiscrição dos gaúchos, que faziam os comentários abertamente nos cafés e rodinhas na calçada, foi sentar-se, desolado, num dos bancos da praça da Alfândega.

Aproximou-se então um amigo, oficial do Estado-Maior da Região e ofereceu-se para participar do movimento. O paraibano Góis Monteiro, que confessava não ter vocação militar, disfarçou: “Minha presença aqui na praça já é um desmentido. Mas se isso que estão falando realmente acontecer, o senhor deve ficar ao lado do seu general”.

A tensa volta para casa aumentou seu nervosismo: já estavam assaltando as lojas de armas, os colégios encerravam as aulas e o comércio fechava as portas. Almoçou com a família e despediu-se da mulher e dos filhos: não sabia se tornaria a vê-los. Quando chegou na residência da irmã de Oswaldo Aranha para os últimos preparativos, fez um desabafo contra a “indiscrição da gente gaúcha”. Mas não tinha jeito: o “baile” tinha hora marcada e ele dirigiu-se ao Palácio do Governo para a cartada final.

Oswaldo Aranha também deu seu passeio na rua da Praia naquele dia, junto com o mineiro Virgílio de Mello Franco, um dos principais articuladores da revolução, que conta como foi: “Nosso propósito era despistar, pela nossa aparente despreocupação, o espiões do comandante da Região Militar, que andavam em grande atividade”.

Aranha estava preocupado: já passava do meio dia e o general Gil de Almeida, que tinha saído muito cedo, ainda não estava no Quartel General. Alguém o teria avisado e a pessoa mais importante do inimigo já estaria recolhido a algum outro quartel, esperando os acontecimentos? De repente, um “secreta” a serviço da causa passou por perto e sussurrou: “O home já está em casa”.

Quem não gostou daquela movimentação foi a filha do presidente do Estado, Alzira Vargas. Quando voltou do colégio, às quatro da tarde, a mãe, Darcy, avisou que não dormiriam no palácio pois a revolução iria rebentar depois das cinco horas. “Você precisa ir para tomar conta dos irmãos”, disse para a filha, que tentou reclamar, oferecendo-se para lutar. O irmão, Lutero, estava furioso: “Uns caras entraram no meu quarto e estão trocando de roupa sem pedir licença”. Era Góis e seu Estado Maior, que colocava a farda para assumir a luta. “Desde 25 de setembro a revolução ficara marcada para 3 de outubro”, conta Barbosa Lima Sobrinho. “A necessidade de comunicar a hora certa para um número enorme de pessoas, em todos os cantos do país, fez com que se divulgasse a combinação. Mas quem se atreveria a comunicar a informação ao sr. Washington Luiz, no receio de pilhérias desdenhosas que acolheriam a notícia inacreditada? Assim, ninguém se preveniu para a Revolução, que foi uma surpresa para o governo, muito embora andasse há muito entre os segredos de polichinelo”.

Uma das pessoas que ignoravam tudo era João Simplício, secretário da Fazenda do presidente do Estado, Getúlio Vargas. Os dois despachavam calmamente no Palácio, quanto às 17h30 ouviu-se o primeiro silvo vindo dos lados do Quartel General, seguido de mais um. Segundos depois, era um tiroteio cerrado, que em pouco tem se estendeu à cidade inteira. Diante do susto do seu auxiliar, Getúlio foi muito objetivo: “Calma, João Sim­plício. É a revolução”.

“Foi uma coisa brutal”, lembrou Flores da Cunha num depoimento sobre o assalto ao Quartel General. “Aquilo foi um ato que não se re­produz muitas vezes no mundo. Eu e o Oswaldo Aranha no comando de trinta guardas-civis, que saíram, numa marcha de rotina de policiamento. Quando fronteamos aquele ângulo morto do quartel, um dos guardas gritou: à carga! Eles se atiraram dentro do quartel e arrancaram as armas dos soldados, praticamente com as mãos limpas. Que coisa, que gesto! Morreram três ali mesmo. O que gritou à carga levou um tiro na cara.”

O QG estava situado, naquela época, numa esquina da rua dos Andradas, o quartel do 2º Exército ficava quase defronte e o da Brigada Militar na mesma rua. Vinte dias antes, Oswaldo Aranha selecionou 200 homens e determinou que diariamente, entre cinco e seis da tarde, marchassem em volta do quarteirão, passando sempre mais próximo das calçadas dos quartéis, recomendando que não aceitassem provocações de ninguém, por mais pesadas que fossem. Várias vezes os soldados do Exército provocaram os brigadianos, chamando-os de soldados de brinquedo, bonecos. Assim, no dia 3, o desfile já tinha se transformado em rotina e isso foi fatal.

A filha do general Gil, que morava num dos apartamento que existia no QG, veio direto a Flores da Cunha e advertiu: “Não deixe ninguém entrar no quarto do meu pai, que ele vai se matar”. Flores tranquilizou: “Ninguém vai entrar lá. Tira o revólver da mão dele, que ninguém vai invadir”. A oficialidade da Brigada Militar, segundo Flores, ficou só olhando o tiroteio, da calçada em frente. “Tive que saltar por cima dos miolos de um guarda morto e cheguei a gritar para os oficiais da Brigada: tragam uma padiola para levar este homem e eles me responderam: não existe nenhuma padiola aqui.”

“Exatamente na porta de entrada do Quartel jazia morto, com a cabeça estourada por uma granada de mão, de braços abertos em cruz, um pobre guarda civil”, conta Virgílio de Melo Franco. No meio da rua, no saguão e nas escadas, outros mortos. Seis tinham morrido imediatamente e cinco morreram mais tarde. Ao todo, entre mortos e feridos, 25 tinham sido postos fora de combate. Às 11 da noite, já estavam dominados o QG, o Arsenal de Guerra, o 8º e 9º Batalhão de Caçadores, o Es­quadrão da Região, o Curso de Preparação Militar, o Contingente de Carta Geral e mais a Com­panhia de Estabelecimentos, situado no Parque da Redenção. Só o 7º B.C. resistia.

“A obstinada resistência durava já mais de quatro horas”, conta Góis, “sem qualquer sinal de esmorecimento, sem atender a nenhuma intimidação para capitular. Não tive outro recurso naquela emergência: mandei bombardear o quartel com lança-chamas”. Logo aos primeiros disparos, foi incendiado um pavilhão que alojava uma companhia do Batalhão. A pedido de Flores, Góis fez uma trégua de uma hora para negociar a rendição. Enquanto conversava com o emissário, restabeleceu-se o tiroteio, já que o prazo da trégua tinha esgotado. Foi uma longa negociação, que terminou na rendição do 7ºB.C e a vitória da revolução em Porto Alegre.

O gaúcho Cordeiro de Farias, que estava em Minas naquela época, fez pouco da fuzilaria do sul: “O papel do Rio Grande do Sul não foi preponderante nem na fase conspiratória nem no levante revolucionário. Examinando com cuidado o aspecto militar do movimento, veremos que os gaúchos tiveram uma participação pequena. Para eles foi um ‘dolce far niente’. Em Minas foi diferente. As unidades estacionadas no interior não ofereceram grande resistências, mas o fato é quer em Belo Ho­rizonte a luta foi dramática e prolongada”. Minas, como se sabe, é sempre outra história.

Reinventando o conceito de pobreza escondida

por Abel Coentrão

Habituámo-nos [em Portugal] nos últimos anos a chamar às pessoas da classe média que caem na armadilha do desemprego os “novos pobres”. Falamos, a propósito de muitas dessas situações, desconhecidas às vezes de familiares, amigos ou vizinhos, de “pobreza escondida”.

Os velhos pobres – de número engrossado, diz quem anda no terreno, pela situação do país – são então a novíssima face da pobreza escondida, porque a outra, a envergonhada, sempre existiu.

Escondidas em fábricas ou prédios abandonados, alojadas transitoriamente em casas-abrigo, centenas de pessoas ficaram, então, de fora [do censo]. Porque o conceito internacional usado pelo INE implica que elas estejam em jardins, estações de metro, paragens de autocarro, pontes, viadutos ou arcadas de edifícios. No Porto, bastaria entrar em algumas fábricas abandonadas de Campanhã, para perceber como o conceito, de tão redutor, acaba por falhar. Redundando numa outra forma de exclusão.

Transcrevi trechos.

No Brasil, podemos incluir nesta lista milhões de favelados. Na televisão, nos programas policiais podemos entrar nas moradias dos pobres brasileiros pobres. Nas favelas, que têm o mesmo traçado de becos e vielas das construções medievais fora do muro dos castelos. Nos cortiços. Nas pensões. Nos casebres levantados: em áreas de risco; em invasões de fazendas (pelos movimentos dos sem terra) no campo; em terrenos baldios nas cidades (pelos movimentos dos sem teto). Nas favelas, grande parte das moradias, são de propriedade dos moradores. Não são sem teto. São moradores de tocas, quartinhos, gaiolas, cubículos, celas sem janelas – o ar se renova quando se abre a porta de entrada.

Sem teto é quem paga aluguel. Acontece com a classe média. Que paga preço exorbitante para morar em apartamento de um ou dois quartos.

O Brasil é o país da especulação imobiliária. As vilas do programa Minha Casa, Minha Vida só faz enriquecer construtoras de gananciosos bandidos, apadrinhados de governadores e prefeitos.