A prostituição sagrada e o bom ladrão tucano

Di Cavalcanti
Di Cavalcanti

 

O mito do Brasil cordial faz de toda brasileira uma puta. E todo brasileiro um  ladrão. O bom ladrão, reconhecido por Jesus na cruz, e lembrado no sermão de Padre Antônio Vieira (vide link).

 

O ladrão cordial motivou as privatizações das estatais, por Fernando Henrique. O berço esplêndido renderia mais  nas mãos dos piratas estrangeiros que, desde a conquista de 1500, demonstram um desinteressado amor à nossa mãe gentil, Pátria amada.

 

A fama de melhor puta do mundo apareceu com o primeiro navio negreiro.

 

Da sensualidade da mulata brasileira, no deitar com o branco, para Gilberto Freyre, o milagre de uma orgástica miscigenação.

 

A açucarada doçura das relações do branco e a negra, promoveu a ascensão da senzala para a casa grande. Embora Lula blasone que foi o criador dessa inclusão.

 

A nova classe média brasileira, uma das maiores e melhores heranças do governo Lula, disse a presidente Dilma Rousseff. “Sabemos que o País avançou muito. Há uma população que entrou na classe média levada por uma integração produtiva e educativa. Essa nova classe média é uma das grandes conquistas e das maiores e melhores heranças que tenho do governo Luiz Inácio Lula da Silva”. Na avaliação de especialistas, 29 milhões de pessoas pobres, nos últimos seis anos, subiram da classe D para a C.

 

O brasileiro não é racista. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de 2011, apontam que há 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento.

 

Para reforçar o mito do Brasil cordial, aparece o bom ladrão tucano de  Mario G. Shapiro, prometendo o paraíso para José Serra e Geraldo Alckmin.

 

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Negócios cordiais

 

A denúncia de cartel nas licitações do metrô de São Paulo e de Brasília é mais uma evidência do capitalismo de compadrio que subsiste entre nós

 

por Mario G. Schapiro*

Em meados dos anos 1930, na sala de parto da sociologia brasileira, Sérgio Buarque de Holanda atribuía à cordialidade um papel de destaque nas Raízes do Brasil. Não descrevia com isso uma suposta docilidade do brasileiro, mas um comportamento com consequências potencialmente predatórias. A cordialidade resumia nossa manifesta confusão entre o público e o privado, entre os cargos e os apelidos e entre a regra e o particular. Uma espécie de subversão da impessoalidade nas relações públicas.

Esse tipo de entrelaçamento transbordava também para outras arenas da vida nacional. Afinal, se havia um “homem cordial”, era de se esperar que seus contratos viessem também na forma de negócios cordiais, de um capitalismo de compadrio. A certa altura de seu registro, Buarque relata que “é tão característica entre nós essa maneira de ser que não desaparece sequer nos tipos de atividade que devem alimentar-se normalmente da concorrência”.

Assim fomos. Mas assim somos. A acalorada investigação de um suposto cartel nas licitações do metrô de São Paulo e de Brasília é somente a evidência da vez, que permite revisitar a anatomia do capitalismo brasileiro. As informações já publicadas, e as referências de casos semelhantes, apontam para elementos bem conhecidos dessa dinâmica econômica: concertações privadas, atividades coordenadas fora dos mercados e alta participação do Estado como agente econômico. No caso do metrô, especula-se também o envolvimento de agentes de governo na organização do cartel, fazendo assim uma possível ligação do acerto privado com o sistema político. Enfim, um padrão de funcionamento que destoa dos modos de uma economia liberal, que é assentada em relações impessoais, regras jurídicas previsíveis e um mercado competitivo.

Se assim éramos e se assim somos, o difícil é dizer como seremos. Desatar o nó desse capitalismo de compadrio não é fácil e requer habilidade, para que não se erre na dose e o remédio não vire veneno. Se os cartéis e a corrupção são evidentemente tóxicos, a participação do Estado na indução do desenvolvimento e a constituição de um padrão peculiar de capitalismo podem ser funcionais para certas economias, aqui e acolá.

Assim como a cordialidade nada tinha de amistosa, ela também não é um traço essencialmente brasileiro. A ausência da impessoalidade, de um mercado amplamente concorrencial e de uma sociedade regida pela lei são traços comuns a muitos dos países em desenvolvimento – bem e malsucedidos. O que se sabe como referência anedótica é confirmado pelos dados. O índice de governança do Banco Mundial aponta que países como Brasil, Rússia, Índia e China estão situados a meio caminho na construção de um padrão ocidental de Estado de Direito. Daí se conclui que há um certo tipo organizacional nesses países que chegaram depois na corrida do capitalismo. Esse padrão passa por arranjos institucionais que destoam das referências liberais, consagradas nos países avançados da Europa e da América do Norte. E, embora essa variedade institucional tenha implicações e efeitos colaterais, a China é mais do que uma evidência de que essa divergência de modelos não conduz necessariamente ao fracasso econômico.

O desafio, portanto, é desatar o nó do compadrio sem romper o elo do desenvolvimento. Se há um tipo de capitalismo cordial nas economias situadas abaixo do equador, a tarefa dos formuladores de política é garantir funcionalidade a esses arranjos. No caso brasileiro, isso passa menos pelos recorrentes e malsucedidos transplantes de instituições dos países desenvolvidos, como a criação de um capitalismo liberal a fórceps, e mais pelo combate a certas doenças locais – como é o caso dos cartéis e da corrupção. Trata-se de condutas ilegais, injustificáveis e sem ganhos públicos. Apenas promovem a ineficiência e atrapalham o crescimento.

Por isso, tem sido correta a orientação da política brasileira de defesa da concorrência, que nas últimas décadas tem priorizado o combate aos cartéis. Contando com importantes ferramentas, como o acordo de leniência, que estimula as empresas a delatarem acordos ilícitos, o Cade tem aplicado multas que ultrapassam os bilhões de reais em um universo de algumas dezenas de casos já condenados.

Nesse cenário, o caso do metrô pode abrir caminho para um passo adicional no aperfeiçoamento dos negócios cordiais: a perseguição aos cartéis nas licitações públicas. Afinal, se o Estado é um agente econômico de peso, as autoridades concorrenciais, o Ministério Público e os tribunais de contas devem centrar a sua atuação nos negócios celebrados entre o público e o privado. Com isso, ministram o remédio correto: o combate à corrupção e à ineficiência econômica no grande mercado das compras públicas. Auxiliam ainda na difícil tarefa de se reinventar um modelo institucional capaz de oferecer uma coordenação legítima e efetiva para as relações econômicas entre o Estado e o mercado.

(Transcrito do Estadão)

Começou Operação Pega Ladrão Rico em 12 Estados. Desviaram mais de um bilhão. Se vasculharem bem: tem mais dinheiro e sobram bandidos de colarinho branco

A Operação pegou centenas de prefeitos na campanha nacional para afastar os promotores das investigações e inquéritos que envolvam funcionários em crime de peculato – termo jurídico para definir o “bom ladrão”  (veja tag).

De ontem para hoje, 150 promotores e  1. 300 policiais prenderam almas sebosas em 12 Estados:

espírito santo café

Informa Veja:

Sonegação – A operação também pretende desarticular a atuação de uma organização criminosa que age na comercialização do café nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Só no Espírito Santo, as ações do grupo levaram à sonegação de mais de 130 milhões de reais em impostos nos últimos três anos. Nesse estado, os promotores têm para cumprir onze mandados de busca e apreensão, dez de prisão temporária, além de ordens judiciais de sequestro de bens, ativos e valores supostamente desviados – que servirão para a futura restituição do dinheiro sonegado aos cofres públicos.

De acordo com as investigações, que começaram pela Receita Estadual e foram levadas ao conhecimento do MP, há provas do envolvimento de empresas capixabas que, mediante a utilização de notas fiscais falsas, simulavam compra de café de empresas de fachadas em Minas Gerais e Rio de Janeiro, com a finalidade de não pagar ICMS.

Festas superfaturadas – No Rio Grande do Norte foram descobertos esquemas de contratação fraudulenta de shows musicais e estrutura para eventos realizados nos municípios de Macau e Guamaré entre os anos de 2008 a 2012. Só no ano passado, Guamaré gastou mais de seis milhões de reais em festas. Segundo o MP do estado, prefeitos e agentes públicos teriam desviado cerca de três milhões de reais para empresários do ramo artístico, a pretexto de fomento da economia local. Os shows contratados pelas prefeituras eram intermediados por empresas de produção de eventos da Bahia e Pernambuco, estados onde também houve a operação.

Na Bahia, os promotores também descobriram um esquema de superfaturamento de shows pelas prefeituras de Salvador e Serrinha. Até agora, foram enviados cinco mandados de busca e apreensão nas empresas produtoras de eventos, mas ninguém foi preso. O MP não informou em que época ocorreram as fraudes. [Os jornais da Bahia estão escondendo os bandidos que estão na frente do trio elétrico]

Corrupção na prefeitura – Em Rondônia, o ex-prefeito de Porto Velho Roberto Sobrinho foi preso por comandar fraudes em licitações. Segundo o MP estadual, o esquema operou entre 2006 e 2012 dentro da prefeitura e contava com a participação do ex-vereador e presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano (EMDUR) Mário Sergio Leiras Teixeira, que também foi preso, e de mais vinte suspeitos. A quadrilha desviava dinheiro através de convênios com a EMDUR, e os valores eram usados em contratos superfaturados ou com empresas fantasmas. Quando era prefeito, Sobrinho repassou 27 milhões de reais à empresa presidida por Teixeira a pretexto de melhorias de infraestrutura e urbanismo na cidade.

Relata G1 com vários vídeos:

Corrupção no Noroeste de SP
Batizada de “Fratelli”, a ação investiga contratos suspeitos de fraude firmados com prefeituras de 80 municípios da região, no total de mais de R$ 1 bilhão, segundo o Ministério Público.
O estado de São Paulo concentra a maior parte da operação nacional. São cumpridos 13 mandados de prisão contra empresários, funcionários públicos e políticos e 160 mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em Jales (SP) e pela Justiça Estadual em Fernandópolis (SP).
Equipes do Gaeco cumprem mandados de busca nas prefeituras de Urupês, Catiguá, Paulo de Faria, Palestina, Guapiaçu, Ibirá, Uchoa, Monte Aprazível, Ariranha, Novo Horizonte, Potirendaba, Catanduva, Fernandópolis, Jales, Votuporangae também de Cafelândia. Muitas delas estão com as portas fechadas por conta da operação.
Os agentes ainda cumprem mandados de busca e apreensão em Cafelândia, na região Centro-Oeste do Estado. A prefeitura também está fechada e só deve reabrir para expediente normal depois das 14 horas.
Agentes federais também fazem buscas nas casas de empresários e nas sedes de empresas que estariam envolvidas com o esquema de fraudes.

Venda de sentença em MT
Agentes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) devem cumprir cinco mandados de prisão e outros cinco de busca e apreensão em Mato Grosso contra acusados de envolvimento na venda de decisões judiciais em favor de traficantes de drogas, conforme apontam investigações do Ministério Público Estadual (MPE).
Os mandados devem ser cumpridos contra um advogado, um estagiário de direito e um servidor do Poder Judiciário mato-grossense. Por meio das investigações foi descoberta uma suposta negociação de compra de decisão por mais de R$ 1 milhão para que fossem colocados em liberdade traficantes presos pela Polícia Federal em Porto Esperidião, a 358 km da capital.
Além disso, foi constatada duas tentativas de suborno de um assessor jurídico da Vara Especializada contra o Crime Organizado, Ordem Tributária e Econômica e Administração Pública (leia mais sobre a ação).

O prefeito de Quixeramobim, a 210 quilômetros de Fortaleza, Cirilo Pimenta (PSD) e o vice Tarso Borges estão entre os procurados pela Polícia Federal, em operação deflagrada pelo Ministério Público para investigar denúncias de corrupção na cidade. São suspeitos de envolvimento e tiveram mandados de prisão decretados o procurador-geral do município, Ricardo Alexander Cavalcante, dez secretários municipais e diretores de autarquias.

Em Juazeiro do Norte. O Ministério Público Federal no Ceará (MPF-CE) apresentou denúncia e entrou com ação de improbidade administrativa contra do ex-secretário de Infraestrutura de Juazeiro do Norte, Mário Bem Filho.

Outras 4 pessoas estão envolvidas em fraude na execução de convênio entre o Município e o Ministério da Educação (MEC), por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Os denunciados são acusados de burlar o processo licitatório que escolheria a empresa responsável pela construção de 3 creches.

Em março deste ano, o ex-secretário Mário Bem Filho foi denunciado também por fraude nas licitações e na execução de contratos para obras de escolas públicas em Juazeiro do Norte.

***

Peculato. Delito praticado por funcionário público. Quando o funcionário aproveita o acesso que tem a dinheiro ou valores públicos e tira proveito dessa “acessibilidade” para roubar ou desviar dinheiro público.

O Peculato é um dos tipos penais próprios de funcionário público contra a administração em geral, isto é, só pode ser praticado por servidor público, embora admita participação de terceiros.

Robar

por Manuel Martínez Llaneza
El DRAE define ‘robar’ en sus dos primeras acepciones como “Quitar o tomar para sí con violencia o con fuerza lo ajeno” y “Tomar para sí lo ajeno, o hurtar de cualquier modo que sea”. Para entender lo que significa el ‘para sí’, concepto esencial común a ambas, pondremos algunos ejemplos:

  • ROBAR es, por parte de un capitalista, apropiarse del producto del trabajo ajeno pagándolo miserablemente.
  • ROBAR es, por parte de un concejal de Urbanismo, recalificar terrenos o autorizar su uso en beneficio suyo y de su banda.
  • ROBAR es, por parte de una consejera de Educación, dejar en la calle a cientos de profesores para subsidiar a los colegios de su secta.
  • ROBAR es, por parte del gobierno, privar del mínimo sustento a los ciudadanos para dárselo a los bancos
  • ROBAR es, para un banquero, colocar preferentes a personas que le pedían abrir un depósito.
     (Transcrevi de Rebelión)

Pedido de empréstimo para plantar extenso “maconhal”

por Moacir Japiassu

De gatos&lebres

Do considerado Roberto Pompeu de Toledo na Veja:

“(…) Pois todo esse acervo de cuidado e elegância no momento mobiliza-se em favor do bicheiro Carlos Cachoeira. Fica bem, para Márcio Thomaz Bastos, atender tal cliente? Fica mal? Fica bem, para o país, ter um antigo ministro da Justiça sentado ao lado da figura central do maior escândalo do ano, a zelar, na CPI, para que o pupilo se mantivesse calado? Ficaria bem, para um ex-ministro da Justiça na Itália, ter um chefe mafioso como cliente? A justificativa-padrão é que todo réu tem direito a um advogado. Sem dúvida, mas este advogado?”

Liberou geral!

Como o mundo inteiro já sabe, a comissão de juristas (repito: juristas) que discute modificações no Código Penal brasileiro aprovou sensacional proposta para descriminalizar o porte e plantio da maconha.

Embora tenha ficado perplexo com a licenciosidade, Janistraquis logo apresentou emenda à constituição do Sítio Maravalha e vai encaminhar à carteira de crédito agrícola do Banco do Brasil um pedido de empréstimo para plantar extenso “maconhal” aqui perto, pois o mandiocal só nos tem dado prejuízo.

Grande vocação

“Minha vida é ser ladrão”, declarou o bandido ao ser preso num shopping em São Paulo. Curioso, Janistraquis, que jamais confundiu Berlim com Betim, sugere que algum repórter investigativo tente saber a qual partido é filiado o elemento ou em quem tem votado nos últimos anos.

Transcrevi trechos 

XIV – Sermão do Bom Ladrão (1655), de Padre António Vieira

Rei dos reis e Senhor dos senhores (…) ensinai com vosso exemplo, e inspirai com vossa graça a todos os reis, que, não elegendo, nem dissimulando, nem consentindo, nem aumentando ladrões, de tal maneira impidam os furtos futuros, e façam restituir os passados

Tenho acabado, senhores, o meu discurso, e parece-me que demonstrado o que prometi, de que não estou arrependido. Se a alguém pareceu que me atrevi a dizer o que fora mais reverência calar, respondo com Santo Hilário: Quae loqui non audemus, silere non possumus: O que se não pode calar com boa consciência, ainda que seja com repugnância, é força que se diga. — Ouvinte coroado era aquele a quem o Batista disse: Non licet tibi (33), e coroado também, posto que não ouvinte, aquele a quem Cristo mandou dizer: Dicite vulpi illi (34). Assim o fez animosamente Jeremias, porque era mandado por pregador Regibus Juda, et Principibus ejus (35). E se Isaías o tivera feito assim, não se arrependera depois, quando disse: Vae mihi, quia tacui (36). Os médicos dos reis com tanta e maior liberdade lhes devem receitar a eles o que importa à sua saúde e vida, como aos que curam nos hospitais. Nos particulares, cura-se um homem; nos reis, toda a República.

Resumindo pois o que tenho dito, nem os reis, nem os ladrões, nem os roubados se podem molestar da doutrina que preguei, porque a todos está bem. Está bem aos roubados, porque ficarão restituídos do que tinham perdido; está bem aos reis, porque sem perda, antes com aumento da sua fazenda, desencarregarão suas almas. E, finalmente, os mesmos ladrões, que parecem os mais prejudicados, são os que mais interessam. Ou roubaram com tenção de restituir, ou não: se com tenção de restituir, isso é o que eu lhes digo, e que o façam a tempo. Se o fizeram sem essa tenção, fizeram logo conta de ir ao inferno, e não podem estar tão cegos que não tenham por melhor ir ao Paraíso. Só lhes pode fazer medo haverem de ser despojados do que despojaram aos outros, mas, assim como estes tiveram paciência por força, tenham-na eles com merecimento. Se os esmoleres compram o céu com o próprio, por que se não contentarão os ladrões de o comprar com o alheio? A fazenda alheia e a própria toda se alija ao mar, sem dor, no tempo da tempestade. E quem há que, salvando-se do naufrágio a nado e despido, não mande pintar a sua boa fortuna, e a dedique aos altares com ação de graças? Toda a sua fazenda dará o homem de boa vontade por salvar a vida, diz o Espírito Santo, e quanto de melhor vontade deve dar a fazenda, que não é sua, por salvar, não a vida temporal, senão a eterna? O que está sentenciado à morte e à fogueira, não se teria por muito venturoso, se lhe aceitassem por partido a confiscação só dos bens? Considere-se cada um na hora da morte, e com o fogo do inferno à vista, e verá se é bom partido o que lhe persuado. Se as vossas mãos e os vossos pés são causa de vossa condenação, cortai-os, e se os vossos olhos, arrancai-os, diz Cristo, porque melhor vos está ir ao Paraíso manco, aleijado e cego, que com todos os membros inteiros ao inferno. É isto verdade, ou não? Acabemos de ter fé, acabemos de crer que há inferno, acabemos de entender que sem restituir ninguém se pode salvar. Vede, vede, ainda humanamente, o que perdeis, e por quê. Nesta restituição, ou forçosa, ou forçada, que não quereis fazer, que é o que dais e o que deixais? O que dais, é o que não tínheis; o que deixais é o que não podeis levar convosco, e por isso vos perdeis. Nu entrei neste mundo, e nu hei de sair dele, dizia Jó, e assim saíram o bom e o mau ladrão. Pois, se assim há de ser, queirais ou não queirais, despido por despido, não é melhor ir com o bom ladrão ao Paraíso, que com o mau ao inferno?

Rei dos reis e Senhor dos senhores, que morrestes entre ladrões para pagar o furto do primeiro ladrão, e o primeiro a quem prometestes o Paraíso foi outro ladrão, para que os ladrões e os reis se salvem, ensinai com vosso exemplo, e inspirai com vossa graça a todos os reis, que, não elegendo, nem dissimulando, nem consentindo, nem aumentando ladrões, de tal maneira impidam os furtos futuros, e façam restituir os passados, que em lugar de os ladrões os levarem consigo, como levam, ao inferno, levem eles consigo os ladrões ao Paraíso, como vós fizestes hoje: Hodie mecum eris in Paradiso.


(33) Não te é lícito (Mc. 6,18).
(34) Dizei a esse raposo (Lc. 13,32).
(35) Aos reis de Judá e aos seus príncipes (Jer. 1,18).
(36) Ai de mim, porque me calei (Is. 6,5).


Editoração eletrônica: Verônica Ribas Cúrcio

XIII – Sermão do Bom Ladrão (1655), de Padre António Vieira

(…) cuidar que satisfazem ao zelo e obrigação da justiça, com mandar prender em um castelo o que roubou a cidade, a província, o estado. Que importa que por alguns dias ou meses se lhe dê esta sombra de castigo, se passados eles se vai lograr do que trouxe roubado, e os que padeceram os danos não são restituídos.

(…) a restituição é ato de justiça, e a justiça consiste em igualdade, argumenta contra a mesma resolução, com a lei do capítulo vinte e dois do Êxodo, em que Deus mandava que quem furtasse um boi restituísse cinco

A restituição que igualmente se deve fazer aos particulares parece que não pode ser tão pronta nem tão exata, porque se tomou a fazenda a muitos e a províncias inteiras. Mas como estes pescadores do alto usaram de redes varredouras, use-se também com eles das mesmas. Se trazem muito, como ordinariamente trazem, já se sabe que foi adquirido contra a lei de Deus, ou contra as leis e regimentos reais, e por qualquer destas cabeças, ou por ambas, injustamente. Assim se tiram da Índia quinhentos mil cruzados, de Angola duzentos, do Brasil trezentos, e até do pobre Maranhão mais do que vale todo ele. E que se há de fazer desta fazenda? Aplicá-la o rei à sua alma e às dos que a roubaram, para que umas e outras se salvem. Dos governadores que mandava a diversas províncias o Imperador Maximino, se dizia com galante e bem apropriada semelhança, que eram esponjas. A traça ou astúcia com que usava destes instrumentos era toda encaminhada a fartar a sede da sua cobiça, porque eles, como esponjas, chupavam das províncias que governavam tudo quanto podiam, e o imperador, quando tornavam, espremia as esponjas, e tomava para o fisco real quanto tinham roubado, com que ele ficava rico, e eles castigados. Uma coisa fazia mal este imperador, outra bem, e faltava-lhe a melhor. Em mandar governadores às províncias homens que fossem esponjas fazia mal; em espremer as esponjas quando tornavam, e lhes confiscar o que traziam, fazia bem, e justamente;mas faltava-lhe a melhor, como injusto e tirano que era, porque tudo o que espremia das esponjas não o havia de tomar para si, senão restituí-lo às mesmas províncias donde se tinha roubado. Isto é o que são obrigados a fazer em consciência os reis que se desejam salvar, e não cuidar que satisfazem ao zelo e obrigação da justiça, com mandar prender em um castelo o que roubou a cidade, a província, o estado. Que importa que por alguns dias ou meses se lhe dê esta sombra de castigo, se passados eles se vai lograr do que trouxe roubado, e os que padeceram os danos não são restituídos.

Há nesta, que parece justiça, um engano gravíssimo, com que nem o castigado, nem o que castiga se livram da condenação eterna; e para que se entenda ou queira entender este engano, é necessário que se declare. Quem tomou o alheio fica sujeito a duas satisfações: à pena da lei e à restituição do que tomou. Na pena, pode dispensar o rei como legislador; na restituição não pode, porque é indispensável. E obra-se tanto pelo contrário, ainda quando se faz ou se cuida que se faz justiça, que só se executa a pena, ou alguma parte da pena, e a restituição não lembra, nem se faz dela caso. Acabemos com Santo Tomás. Põe o Santo doutor em questão: Utrum sufficiat restituere simplim quod injuste ablatum est: Se, para satisfazer à restituição, basta restituir outro tanto quanto foi o que se tomou? — E depois de resolver que basta, porque a restituição é ato de justiça, e a justiça consiste em igualdade, argumenta contra a mesma resolução, com a lei do capítulo vinte e dois do Êxodo, em que Deus mandava que quem furtasse um boi restituísse cinco; logo, ou não basta restituir tanto por tanto, senão muito mais do que se furtou; ou, se basta, como está resoluto, de que modo se há de entender esta lei? Há-se de entender, diz o santo, distinguindo na mesma lei duas partes: uma enquanto lei natural, pelo que pertence à restituição, e outra enquanto lei positiva, pelo que pertence à pena. A lei natural, para guardar a igualdade do dano, só manda que se restitua tanto por tanto; a lei positiva, para castigar o crime do furto, acrescentou em pena mais quatro anos, e por isso manda pagar cinco por um. Há-se porém de advertir, acrescenta o santo Doutor, que entre a restituição e a pena há uma grande diferença, porque à satisfação da pena não está obrigado o criminoso antes da sentença, porém à restituição do que roubou, ainda que o não sentenciem nem obriguem, sempre está obrigado.

Daqui se vê claramente o manifesto engano ainda dessa pouca justiça, que poucas vezes se usa. Prende-se o que roubou, e mete-se em livramento. Mas que se segue daí? O preso, tanto que se livrou da pena do crime, fica muito contente; o rei cuida que satisfez à obrigação da justiça, e ainda se não tem feito nada, porque ambos ficam obrigados à inteira restituição dos mesmos roubos, sob pena de se não poderem salvar. O réu porque não restitui, e o rei porque o não faz restituir. Tire, pois, o rei executivamente a fazenda a todos os que a roubaram, e faça as restituições por si mesmo, pois eles as não fazem, nem hão de fazer, e deste modo — que não há, nem pode haver outro — em vez de os ladrões levarem os reis ao inferno, como fazem, os reis levarão os ladrões ao Paraíso, como fez Cristo: Hodie mecum eris in Paradiso.

XII – Sermão do Bom Ladrão (1655), de Padre António Vieira

Os ladrões, os quais não costumam restituir, restituam efetivamente tudo o que roubaram. (…) Como nenhum a faz, nem na vida, nem na morte; mande-a, pois, fazer executivamente

Grande lástima será naquele dia, senhores, ver como os ladrões levam consigo muitos reis ao inferno; e para que esta sorte se troque em uns e outros, vejamos agora como os mesmos reis, se quiserem, podem levar consigo os ladrões ao Paraíso. Parecerá a alguém, pelo que fica dito, que será coisa muito dificultosa, e que se não pode conseguir sem grandes despesas, mas eu vos afirmo, e mostrarei brevemente, que é coisa muito fácil, e que sem nenhuma despesa de sua fazenda, antes com muitos aumentos dela, o podem fazer os reis. E de que modo? Com uma palavra, mas palavra de rei. Mandando que os mesmos ladrões, os quais não costumam restituir, restituam efetivamente tudo o que roubaram. Executando-o assim, salvar-se-ão os ladrões e salvar-se-ão os reis. Os ladrões salvar- se-ão, porque restituirão o que têm roubado, e os reis salvar-se-ão também, porque restituindo os ladrões, não terão eles obrigação de restituir. Pode haver ação mais justa, mais útil e mais necessária a todos? Só quem não tiver fé, nem consciência, nem juízo, o pode negar.

E porque os mesmos ladrões se não sintam de haverem de perder por este modo o fruto das suas indústrias, considerem que, ainda que sejam tão maus como o mau ladrão, não só deviam abraçar e desejar esta execução, mas pedi-la aos mesmos reis. O bom ladrão pediu a Cristo, como a rei, que se lembrasse dele no seu reino, e o mau ladrão, que lhe pediu? Si tu es Christus, salvum fac temetipsum et nos (Lc. 23,39): Se sois o rei prometido, como crê meu companheiro, salvai-vos a vós e a nós. — Isto pediu o mau ladrão a Cristo, e o mesmo devem pedir todos os ladrões a seu rei, posto que sejam tão maus como o mau ladrão. Nem Vossa Majestade, Senhor, se pode salvar, nem nós nos podemos
salvar sem restituir: nós não temos ânimo nem valor para fazer a restituição, como nenhum a faz, nem na vida, nem na morte; mande-a, pois, fazer executivamente Vossa Majestade, e, por este modo, posto que para nós seja violento, salvar-se-á Vossa Majestade a si, e mais a nós: Salvum fac temetipsum et nos. Creio que nenhuma consciência haverá cristã, que não aprove este meio. E para que não fique em generalidade, que é o mesmo que no ar, desçamos à prática dele, e vejamos como se há de fazer. Queira Deus que se faça!

O que costumam furtar nestes ofícios e governos os ladrões de que falamos, ou é a fazenda real, ou a dos particulares, e uma e outra têm obrigação de restituir depois de roubada, não só os ladrões que a roubaram, senão também os reis, ou seja porque dissimularam e consentiram os furtos quando se faziam, ou somente — que isto basta — por serem sabedores deles depois de feitos. E aqui se deve advertir uma notável diferença — em que se não repara — entre a fazenda dos reis e a dos particulares. Os particulares, se lhes roubam a sua fazenda, não só não são obrigados à restituição, antes terão nisso grande merecimento, se o levarem com paciência, e podem perdoar o furto a quem os roubou. Os reis são de muito pior condição nesta parte, porque, depois de roubados, têm eles obrigação de restituir a própria fazenda roubada, nem a podem dimitir ou perdoar aos que a roubaram. A razão da diferença é porque a fazenda do particular é sua: a do rei não é sua, senão da República. E assim como o depositário, ou tutor, não pode deixar alienar a fazenda que lhe está encomendada e teria obrigação de a restituir,assim tem a mesma obrigação o rei, que é tutor e como depositário dos bens e erário da República, a qual seria obrigado a gravar com novos tributos, se deixasse alienar ou perder as suas rendas ordinárias.

O modo pois com que as restituições da fazenda real se podem fazer facilmente, ensinou aos reis um monge, o qual, assim como soube furtar, soube também restituir. Refere o caso Mayolo, Crantzio e outros. Chamava-se o monge frei Teodorico, e porque era homem de grande inteligência e indústria, cometeu-lhe o imperador Carlos Quinto algumas negociações de importância, em que ele se aproveitou de maneira que competia em riquezas com os grandes senhores. Advertido o imperador, mandou-o chamar à sua presença, e disse-lhe que se aparelhasse para dar contas. Que faria o pobre, ou rico monge? Respondeu sem se assustar que já estava aparelhado, que naquele mesmo ponto as daria, e disse assim: — Eu, César, entrei no serviço de Vossa Majestade com este hábito, e dez ou doze tostões na bolsa, da esmola das minhas Missas; deixe-me Vossa Majestade o meu hábito e os meus tostões, e tudo o mais que possuo, mande-o Vossa Majestade receber, que é seu, e tenho dado contas. — Com tanta facilidade como isto fez a sua restituição o monge, e ele ficou guardando os seus votos, e o imperador a sua fazenda. Reis e príncipes mal servidos, se quereis salvar a alma e recuperar a fazenda, introduzi, sem exceção de pessoas, as restituições de frei Teodorico. Saiba-se com que entrou cada um; o de mais torne para donde saiu, e salvem-se todos.

XI – Sermão do Bom Ladrão (1655), de Padre António Vieira

São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões, porque os consentem; são companheiros dos ladrões, porque lhes dão os postos e os poderes

Assim o fez Deus com o primeiro homem do mundo, e assim o devem executar com todos os que estão em lugar de Deus. Mas que seria se não só víssemos os ladrões conservados nos lugares onde roubam, senão, depois de roubarem, promovidos a outros maiores? Acabaram-se-me aqui as Escrituras, porque não há nelas exemplo semelhante. De reis que mandassem conquistar inimigos, sim, mas de reis que mandassem governar vassalos, não se lê tal coisa. Os Assueros, os Nabucos, os Ciros, que dilatavam por armas os seus impérios, desta maneira premiavam os capitães, acrescentando em postos os que mais se sinalavam em destruir cidades e acumular despojos, e daqui se faziam os Nabusardões, os Holofernes, e os outros flagelos do mundo. Porém os reis, que tratam os vassalos como seus, e os Estados, posto que distantes, como fazenda própria, e não alheia, lede o Evangelho, e vereis quais são os sujeitos, e quão úteis a quem encomendam o governo deles.

Um rei, diz Cristo, Senhor nosso, fazendo ausência do seu reino à conquista de outro, encomendou a administração da sua fazenda a três criados. O primeiro acrescentou-a dez vezes mais do que era, e o rei, depois de o louvar, o promoveu ao governo de dez cidades: Euge bone serve, quia in modico fuisti fidelis, eris potestatem habens super decem civitates (29). O segundo também acrescentou à parte que lhe coube cinco vezes mais, e com a mesma proporção o fez o rei governador de cinco cidades: Et tu esto super quinque civitates (30). De sorte que os que o rei acrescenta e deve acrescentar nos governos, segundo a doutrina de Cristo, são os que acrescentam a fazenda do mesmo rei, e não a sua. Mas vamos ao terceiro criado. Este tornou a entregar quanto o rei lhe tinha encomendado, sem diminuição alguma, mas também sem melhoramento, e no mesmo ponto, sem mais réplica, foi privado da administração: Auferte ab illo mnam (31). Oh! que ditosos foram os nossos tempos, se as culpas por que este criado foi privado do ofício foram os serviços e merecimentos por que os dagora são acrescentados! Se o que não tomou um real para si, e deixou as coisas no estado em que lhas entregaram, merece privação do cargo, os que as deixam destruídas e perdidas, e tão diminuídas e desbaratadas, que já não têm semelhança do que foram, que merecem? Merecem que os despachem, que os acrescentem e que lhes encarreguem outras maiores, para que também as consumam e tudo se acabe? Eu cuidava que, assim como Cristo introduziu na sua parábola dois criados que acrescentaram a fazenda do rei, e um que a não acrescentou, assim havia de introduzir outro que a roubasse, com que ficava a divisão inteira. Mas não introduziu o divino Mestre tal criado, porque falava de um rei prudente e justo, e os que têm estas qualidades — como devem ter, sob pena de não serem reis — nem admitem em seu serviço, nem fiam a sua fazenda a sujeitos que lha possam roubar: a algum que não lha acrescente, poderá ser, mas um só; porém a quem lhe roube, ou a sua, ou a dos seus vassalos — que não deve distinguir da sua — não é justo, nem reis quem tal consente. E que seria se estes, depois de roubarem uma cidade, fossem promovidos ao governo de cinco, e, depois de roubarem cinco, ao governo de dez?

Que mais havia de fazer um príncipe cristão, se fora como aqueles príncipes infiéis, de quem diz Isaías: Principes tui infideles, socii furum (Is. 1, 23): Os príncipes de Jerusalém não são fiéis, senão infiéis, porque são companheiros dos ladrões. — Pois saiba o profeta que há príncipes fiéis e cristãos, que ainda são mais miseráveis e mais infelizes que estes, porque um príncipe que entrasse em companhia com os ladrões: Socii furum, havia de ter também a sua parte no que se roubasse; masestes estão tão fora de ter parte no que se rouba, que eles são os primeiros, os mais roubados. Pois, se são os roubados estes príncipes, como são ou podem ser companheiros dos mesmos ladrões: Principes tui socii furum? Será porventura porque talvez os que acompanham e assistem aos príncipes são ladrões? Se assim fosse, não seria coisa nova. Antigamente os que assistiam ao lado dos príncipes, chamavam-se laterones. E depois, corrompendo-se este vocábulo, como afirma Marco Varro, chamaram-se latrones. E que seria se assim, como se corrompeu o vocábulo, se corrompessem também os que o mesmo vocábulo significa? Mas eu nem digo nem cuido tal coisa. O que só digo e sei, por ser teologia certa, é que em qualquer parte do mundo se pode verificar o que Isaías diz dos príncipes de Jerusalém: Principes tui socii furum: Os teus príncipes são companheiros dos ladrões. — E por quê? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões, porque os consentem; são companheiros dos ladrões, porque lhes dão os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões porque talvez os defendem, e são, finalmente, seus companheiros, porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo.

Ouvi a ameaça e sentença de Deus contra estes tais: Si videbas furem, currebas cum eo (32); o hebreu lê concurrebas, e tudo é, porque há príncipes que correm com os ladrões e concorrem com eles. Correm com eles, porque os admitem à sua familiaridade e graça, e concorrem com eles, porque, dando-lhes autoridade e jurisdições, concorrem para o que eles furtam. E a maior circunstância desta gravíssima culpa consiste no Si videbas. Se estes ladrões foram ocultos, e o que corre e concorre com eles não os conhecera, alguma desculpa tinha; mas se eles são ladrões públicos e conhecidos, se roubam sem rebuço e à cara descoberta, se todos os vêem roubar, e o mesmo que os consente e apóia o está vendo: Si videbas furem, que desculpa pode ter diante de Deus e do mundo? Existimasti inique quod ero tui similis (Sl. 49, 21): Cuidas tu, ó injusto — diz Deus — que hei de ser semelhante a ti — e que, assim como tu dissimulas com estes ladrões, hei eu de dissimular contigo? — Enganas-te. Arguam te, et statuam contra faciam tuam: Dessas mesmas ladroíces, que tu vês e consentes, hei de fazer um espelho em que te vejas — e quando vires que és tão réu de todos esses furtos, como os mesmos ladrões, porque os não impedes, e mais que os mesmos ladrões, porque tens obrigação jurada de os impedir, então conhecerás que tanto, e mais justamente que a eles, te condeno ao inferno. Assim o declara com última e temerosa sentença a paráfrase caldaica do mesmo texto: Arguam te in hoc saeculo, et ordinabo judicium Gehennae in futuro coram te: Neste mundo argüirei a tua consciência, como agora a estou argüindo, e no outro mundo condenarei a tua alma ao inferno, como se verá no dia do Juízo.


(29) Está bem, servo bom: porque foste fiel no pouco, serás governador de dez cidades (Lc. 19,17).
(30) Sê tu também governador de cinco cidades (Lc. 19,19).
(31) Tirai-lhe o marco de prata (Lc. 19,24).
(32) Se vias um bom ladrão, corrias com ele (Sl. 49,18).

X – Sermão do Bom Ladrão (1655), de Padre António Vieira

Oh! como está o inferno cheio dos que (…), por adularem os grandes e os supremos, não reparam em os condenar!

Esta doutrina em geral, pois é de Cristo, nenhum entendimento cristão haverá que a não venere. Haverá, porém, algum político tão especulativo que a queira limitar a certo gênero de sujeitos, e que funde as exceções no mesmo texto. O sujeito em que se fez esta execução, chama-lhe o texto villico: logo, em pessoas vis, ou de inferior condição, será bem que se executem estes e semelhantes rigores, e não em outras de diferente suposição, com as quais, por sua qualidade e outras dependências, é lícito e conveniente que os reis dissimulem. Oh! como está o inferno cheio dos que com estas e outras interpretações, por adularem os grandes e os supremos, não reparam em os condenar! Mas, para que não creiam a aduladores, creiam a Deus, e ouçam. Revelou Deus a Josué que se tinha cometido um furto nos despojos de Jericó, depois de lho ter bem custosamente significado, com o infeliz sucesso do seu exército. E mandou-lhe que, descoberto o ladrão, fosse queimado. Fez-se diligência exata, e achou-se que um, chamado Acã tinha furtado uma capa de grã, uma regra de ouro, e algumas moedas de prata, que tudo não valia cem cruzados. Mas quem era este Acã? Era porventura algum homem vil, ou algum soldadinho da fortuna, desconhecido e nascido das ervas? Não era menos que do sangue real de Judá, e por linha masculina, quarto neto seu. Pois, uma pessoa de tão alta qualidade, que ninguém era ilustre em todo Israel, senão pelo parentesco que tinha com ele, há de morrer queimado por ladrão? E por um furto, que hoje seria venial, há de ficar afrontada para sempre uma casa tão ilustre? Vós direis que era bem se dissimulasse; mas Deus, que o entende melhor que vós, julgou que não. Em matéria de furtar não há exceção de pessoas, e quem se abateu a tais vilezas, perdeu todos os foros. Executou-se com efeito a lei, foi justiçado e queimado Acã, ficou o povo ensinado com o exemplo, e ele foi venturoso no mesmo castigo, porque, como notam graves autores, comutou-lhe Deus aquele fogo temporal pelo que havia de padecer no inferno, felicidade que impedem aos ladrões os que dissimulam com eles.

E quanto à dissimulação que se diz devem ter os reis com pessoas de grande suposição, de quem talvez depende a conservação do bem público, e são mui necessárias a seu serviço, respondo com distinção. Quando o delito é digno de morte, pode-se dissimular o castigo e conceder-se às tais pessoas a vida; mas quando o caso é de furto, não se lhes pode dissimular a ocasião, mas logo logo devem ser privadas do posto. Ambas estas circunstâncias concorreram no crime de Adão. Pôs-lhe Deus preceito que não comesse da árvore vedada, sob pena de que morreria no mesmo dia: In quocumque die comederis, morte morieris (27). Não guardou Adão o preceito, roubou o fruto, e ficou sujeito, ipso facto, à pena de morte. Mas, que fez Deus neste caso? Lançou-o logo do Paraíso, e concedeu-lhe a vida por muitos anos. Pois, se Deus o lançou do Paraíso pelo furto que tinha cometido, por que não executou também nele a pena de morte a que ficou sujeito? Porque da vida de Adão dependia a conservação e propagação do mundo, e quando as pessoas são de tanta importância, e tão necessárias ao bem público, justo é que, ainda que mereçam a morte, se lhes permita e conceda a vida. Porém, se juntamente são ladrões, de nenhum modo se pode consentir nem dissimular que continuem no posto e lugar onde o foram, para que não continuem a o ser. Assim o fez Deus, e assim o disse. Pôs um querubim com uma espada de fogo à porta do Paraíso, com ordem que de nenhum modo deixasse entrar a Adão. E por quê? Porque assim como tinha furtado da árvore da ciência, não furtasse também da árvore da vida: Ne forte mittat manum suam, et sumat etiam de ligno vitae(28), Quem foi mau uma vez, presume o Direito que o será outras, e que o será sempre. Saia pois Adão do lugar onde furtou, e não torne a entrar nele, para que não tenha ocasião de fazer outros furtos, como fez o primeiro. E notai que Adão, depois de ser privado do Paraíso, viveu novecentos e trinta anos. Pois, a um homem castigado e arrependido, não lhe bastaram cem anos de privação do posto, não lhe bastarão duzentos ou trezentos? Não. Ainda que haja de viver novecentos anos, e houvesse de viver nove mil, uma vez que roubou, e é conhecido por ladrão, nunca mais deve ser restituído, nem há de entrar no mesmo posto.

(27) Em qualquer dia que comeres dele, morrerás de morte (Gên. 2,17).
(28) Para que não suceda que ele lance a sua mão, e tome também da árvore da vida (Gên. 3,22).

IX – Sermão do Bom Ladrão (1655), de Padre António Vieira

Quem furtou e se desonrou no pouco, muito mais facilmente o fará no muito.

 

Dos que obram o contrário com singular inteireza de justiça e limpeza de interesse, alguns exemplos temos, posto que poucos. Mas folgara eu saber quantos exemplos há, não digo já dos que fossem justiçados como tão insignes ladrões, mas dos que fossem privados do governo por estes roubos. Pois, se eles furtam com os ofícios, e os consentem e conservam nos mesmos ofícios, como não hão de levar consigo ao inferno os que os consentem? O meu Santo Tomás o diz, e alega com o texto de São Paulo: Digni sunt morte,
non solum qui faciunt, sed etiam qui consentiunt facientibus (21). E porque o rigor deste texto se entende não de qualquer consentidor, senão daqueles que, por razão de seu ofício ou estado, tem obrigação de impedir, faz logo a mesma limitação o santo Doutor, e põe o exemplo nomeadamente nos príncipes: Sed solum quando incumbit alicui ex officio, sicut principibus terrae (22). Verdadeiramente não sei como não reparam muito os príncipes em matéria de tanta importância, e como os não fazem reparar os que no foro exterior, ou no da alma, têm cargo de descarregar suas consciências. Vejam uns e outros como a todos ensinou Cristo, que o ladrão que furta com o oficio, nem um momento se há de consentir ou conservar nele.

Havia um senhor rico, diz o divino Mestre, o qual tinha um criado, que com ofício de ecônomo ou administrador, governava as suas herdades — tal é o nome no original grego, que responde ao villico da Vulgata. — Infamado pois o administrador de que se aproveitava da administração e roubava, tanto que chegou a primeira notícia ao Senhor, mandou-o logo vir diante de si, e disse-lhe que desse contas, porque já não havia de exercitar o ofício. Ainda a resolução foi mais apertada, porque não só disse que não havia, senão que não podia: Jam enim non poteris villicare (23). Não tem palavra esta parábola que não esteja cheia de notáveis doutrinas a nosso propósito. Primeiramente diz que este senhor era um homem rico: Homo quidem erat dives (Lc. 16,1), porque não será homem quem não tiver resolução, nem será rico, por mais herdades que tenha, quem não tiver cuidado, e grande cuidado, de não consentir que lhas governem ladrões. Diz mais que, para privar a este ladrão do ofício, bastou somente a fama, sem outras inquirições: Et hic diffamatus est apud illum (24), porque se em tais casos houverem de mandar buscar informações à Índia ou ao Brasil, primeiro que elas cheguem, e se lhes ponha remédio, não haverá Brasil nem Índia. Não se diz, porém, nem se sabe quem fossem os autores ou delatores desta fama, porque a estes há-lhes de guardar segredo o senhor inviolavelmente, sob pena de não haver quem se atreva a o avisar, temendo justamente a ira dos poderosos. Diz mais, que mandou vir o delatado diante de si: Et vocavit eum, porque semelhantes averiguações, se se cometem a outros, e não as faz o mesmo senhor por sua própria pessoa, com dar o ladrão parte do que roubou, prova que está inocente. Finalmente, desengana-o e notifica-lhe que não há de exercitar jamais o ofício, nem pode: Jam enim non poteris villicare, porque nem o ladrão conhecido deve continuar o ofício em que foi ladrão, nem o senhor, ainda que quisesse, o pode consentir e conservar nele, se não se quer condenar.

Com tudo isto ser assim, eu ainda tenho uns embargos que alegar, por parte deste ladrão, diante do Senhor e autor da mesma parábola, que é Cristo. Provará que nem o furto, por sua quantidade, nem a pessoa, por seu talento, parecem merecedores de privação do ofício para sempre. Este homem, Senhor, posto que cometesse este erro, é um sujeito de grande talento, de grande indústria, de grande entendimento e prudência, como vós mesmo confessastes, e ainda louvastes, que é mais: Laudavit Dominus villicum iniquitatis, quia prudenter fecisset (25); pois, se é homem de tanto préstimo, e tem capacidade e talentos para vos tornardes a servir dele, por que o haveis de privar para sempre do vosso serviço: Jam enim non poteris villicare? Suspendei-o agora por alguns meses, como se usa, e depois o tomareis a restituir, para que nem vós o percais, nem ele fique perdido. -Não, diz Cristo. Uma vez que é ladrão conhecido, não só há de ser suspenso ou privado do ofício ad tempus, senão para sempre e para nunca jamais entrar ou poder entrar: Jam enim non poteris, porque o uso ou abuso dessas restituições, ainda que parece piedade, é manifesta injustiça. De maneira que, em vez de o ladrão restituir o que furtou no ofício, restitui-se o ladrão ao ofício, para que furte ainda mais? Não são essas as restituições pelas quais se perdoa o pecado, senão aquelas por que se condenam os restituídos, e também quem os restitui. Perca-se embora um homem já perdido, e não se percam os muitos que se podem perder e perdem na confiança de semelhantes exemplos.

Suposto que este primeiro artigo dos meus embargos não pegou, passemos a outro. Os furtos deste homem foram tão leves, e a quantidade tão limitada, que o mesmo texto lhes não dá nome de furtos absolutamente, senão de quase furtos: Quasi dissipasset bona ipsius (26). Pois em um mundo, Senhor, e em um tempo em que se vêm tolerados nos ofícios tantos ladrões, e premiados, que é mais, os plus quam ladrões, será bem que seja privado do seu ofício, e privado para sempre, um homem que só chegou a ser quase ladrão? — Sim, torna a dizer Cristo, para emenda dos mesmos tempos, e para que conheça o mesmo mundo quão errado vai. Assim como nas matérias do sexto Mandamento teologicamente não há mínimos, assim os deve não haver politicamente nas matérias do sétimo, porque quem furtou e se desonrou no pouco, muito mais facilmente o fará no muito. E se não, vede-o nesse mesmo quase ladrão. Tanto que se viu notificado para não servir o ofício, ainda teve traça para se servir dele e furtar mais do que tinha furtado. Manda chamar muito à pressa os rendeiros, rompe os escritos das dívidas, faz outros de novo com antedatas, a uns diminui a metade, a outros a quinta parte, e por este modo, roubando ao tempo os dias, às escrituras a verdade, e ao amo o dinheiro, aquele que só tinha sido quase ladrão, enquanto encartado no ofício, com a opinião que só tinha de o ter, foi mais que ladrão depois. Aqui acabei de entender a ênfase com que disse a pastora dos Cantares: Tulerunt pallium meum mihi (Cânt. 5,7): Tomaram-me a minha capa a mim — porque se pode roubar a capa a um homem, tomando-a não a ele, senão a outrem. Assim o fez a astúcia deste ladrão, que roubou o dinheiro a seu amo, tomando-o não a ele senão aos que lho deviam. De sorte que o que dantes era um ladrão, depois foi muitos ladrões, não se contentando de o ser ele só, senão de fazer a outros. Mas vá ele muito embora ao inferno, e vão os outros com ele, e os príncipes imitem ao Senhor, que se livrou de ir também, com o privar do ofício tão prontamente.


(21) São dignos de morte, não somente os que estas coisas fazem, senão também os que consentem aos que as fazem (Rom. 1,32).
(22) Somente, porém, quando obriga a alguém ex officio, como aos príncipes da terra.
(23) Pois já não poderais ser meu feitor (Lc. 16,2).
(24) E este foi acusado diante dele (Lc. 16,1).
(25) E o amo louvou este feitor iníquo, por haver obrado como homem de juízo (Lc. 16,8).
(26) Como quem havia dissipado os seus bens (Lc. 16,1).