Revista Veja: “Onde estão os mortos do Pinheirinho, que estão vivos?”

Escreve Reinaldo Azevedo:

As ONGs Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência e Justiça Global divulgaram na tarde desta quinta-feira os nomes de cinco pessoas supostamente desaparecidas durante a reintegração de posse no bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, interior de São Paulo. De acordo com as organizações, um menino de 8 anos, um idoso e uma família de três pessoas teriam desaparecido. O comandante da Polícia Militar no Estado afirmou considerar “muito difícil” o sumiço de pessoas na ação.
(…)

O menino desaparecido seria Matheus da Silva, que de acordo com o relato de moradores entrou em estado de choque quando a PM invadiu a área. Sua família relatou que policiais teriam levado o menor para atendimento médico e, desde então, não se saberia mais notícias do garoto. Pedro Ivo Teles dos Santos, 75 anos, teria sido espancado pela PM e levado para um posto de saúde. Quem relatou foi a ex-mulher de Pedro Ivo, que desde então não tem qualquer informação sobre ele.

A família que teria desaparecido seria composta por Gilmara Costa do Espírito Santo, seu marido identificado apenas como “Beto” e o filho, Lucas. O advogado dos despejados diz que a busca vai abranger um raio de 100 km da ação policial. “Vamos solicitar registros de ocorrências em todas as cidades num raio de 100 km de distância de São José dos Campos. Se essas pessoas não aparecerem num prazo de 48 horas, vamos exigir que as autoridades sejam responsabilizadas”, disse Aristeu Pinto Neto.

Volto com a verdade
1) O Menino Matheus da Silva – Está internado no Hospital Municipal de São José dos Campos. Teve uma crise de apendicite e foi operado no dia 26 de janeiro.

2) Gilmara Costa do Espírito Santos, marido e filho – 
A família está hospedada, sã e salva, em casa de parentes, no bairro Satélite.

3) Pedro Ivo Teles dos Santos – Ainda não foi localizado, mas a Prefeitura e Polícia têm em mãos uma entrevista concedida por ele ao jornal “O Vale” depois da desocupação do Pinheirinho. Como morto não fala… O texto está aqui.

Transcrevi trechos. Leia o texto na íntegra. Reinaldo Azevedo esqueceu de defender a polícia do Estado de São Paulo e a guarda muncipal de São José dos Campos.

Este serviço fez a juíza Marcia Loureiro: a

 “PM foi admirável”

Veja o vídeo

Este o título do artigo de Reinaldo Azevedo:

Canalha esquerdopata institui a prova negativa, coisa típica das tiranias que eles admiram

Testemunhal dos “canalhas”. Clique

A revista Veja considera a Operação Pinheirinho um exemplo de justiça social.

Mas esqueceu a louvação dos responsáveis.

A jornalista Gabriela Moncau escreve:

“Em meio à desocupação, uma oficial de Justiça ainda entregou decisão do juiz federal Samuel de Castro Barbosa Melo de suspensão do despejo. Destinada aos comandantes das polícias Militar, Civil e Guarda Municipal, o documento foi recebido pelo desembargador Rodrigo Capez. Sob a alegação de “conflito de competências”, a ordem não foi acatada. Rodrigo Capez, coincidentemente, é irmão do deputado estadual Fernando Capez, do mesmo PSDB do prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, e do governador de São Paulo (em última instância chefe da PM), Geraldo Alckmin. Quem manteve a decisão de reintegração, mesmo depois de acordo firmado com o próprio proprietário da área, foi a juíza da 6ª Vara Cívil de São José, Márcia Mathey Loureiro”.

Mas o principal “responsável” é pouco citado pela imprensa “esquerdopata” e pelos jornalões direitistas:

O desembargador Ivan Sartori publicou a seguinte comunicado no portal do Tribunal de Justiça de São Paulo:

“Tendo em vista o noticiário sobre o episódio do Pinheirinho, o presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo informa:

1 – Toda mobilização policial na data de 22/1/12 se deu por conta e responsabilidade da Presidência do Tribunal de Justiça, objetivando o cumprimento de ordem judicial;

2 – O efetivo da Polícia Militar em operação esteve sob o comando da Presidência do Tribunal de Justiça até o cumprimento da ordem;

3 – O Executivo do Estado, como era dever constitucional seu, limitou-se à cessão do efetivo requisitado pelo Tribunal de Justiça”.

Operação Pinheirinho. “Há mortos e feridos, mas estão escondendo”

Por Gabriela Moncau

 

A maioria dos moradores da ocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos, dormia às 6h da manhã do domingo (22), quando as bombas da Polícia Militar levaram gás lacrimogêneo dentro dos barracos. As 1700 famílias, cerca de 6 mil pessoas, mal puderam pegar seus pertences quando a operação militar – com o ostensivo contingente de 2 mil policiais, além dos dois helicópteros águia – os colocou para fora de casa embaixo de tiro de borracha.

Mais:

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O que aconteceu lá dentro?

“Motivos de segurança”. Foi essa a justificativa da PM para impedir que qualquer pessoa passasse a barreira da Tropa de Choque para entrar na área do Pinheirinho. No máximo a TV Globo, com coletinho à prova de balas, pôde se aproximar um pouco do trator. De nada adiantou os moradores insistirem para pegar seus pertences, ou ao menos os documentos que não tiveram tempo de apanhar.  Tampouco os apelos da imprensa ou os esperneios dos parlamentares que tentavam fazer alguma coisa. Moradores chegaram a relatar que tiveram seus celulares recolhidos para impedir que registrassem a ação. Que tipo de abusos aconteceram lá dentro? O que fez a polícia quando a maioria dos moradores já estava do lado de fora? Ninguém sabe, ninguém viu.

Parte da população resistia como podia. Montavam barricadas e queimavam carros para dificultar os ataques policiais, atiravam pedras e pedaços de paus. O Estado, no entanto, era desproporcionalmente mais forte: com cavalaria, carros blindados, bombas, gás, tiros de borracha e de arma letal. “Meu marido foi baleado pelas balas da Guarda Municipal. A gente não estava confrontando, a gente estava indo embora para proteger o nosso bebê de 10 meses”, ouvia-se no dia da desocupação da mulher de um homem que teria sido levado para o Hospital Municipal de São José dos Campos em estado grave. Há inúmeros vídeos que flagram policiais militares e da Guarda Civil Municipal (GCM) apontando seus revólveres contra a população. Muitos tiros eram disparados para cima e em direção ao chão.

 

Mortos e desaparecidos

O número de feridos, desaparecidos e os muitos relatos de mortes permanecem nebulosos. Além da falta da transparência na operação em si, o fato de a repressão ter sido constante fez com que, na correria, muitas pessoas se perdessem umas das outras, principalmente crianças de seus pais. “Veja quantas crianças estavam correndo sozinhas na rua embaixo de bomba, botei pra dentro de casa”, contou uma senhora, moradora de uma casa há 3 quadras do Pinheirinho, mãe de três filhas que moravam na ocupação, apontando para três pequenos. Os hospitais não podem informar sobre feridos e possíveis mortos. O que se quer esconder?

pinheirinho-i3O movimento tenta agora fazer um levantamento de informações e cadastros para ter em mãos os nomes e a quantidade de pessoas que estão desaparecidas. Herbert Claros, vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, está participando dessa coleta de dados e afirma que por enquanto já chega a 7 o número de desaparecidos. Em assembleia realizada na terça-feira (24), foi criada uma comissão para procurá-los.

Antonio Carlos dos Santos, um servidor público de 63 anos, deixou o município de Caçapava para ir atrás da irmã e de seus três sobrinhos, dos quais não tem notícias desde a desocupação. “Estou desesperado, não temos mais família em São José, ela teria ido me encontrar em Caçapava”, afirma.

Recém desalojados, os moradores do Pinheirinho foram encaminhados para três abrigos: dois organizados pela prefeitura e um pelo próprio movimento em contato com um padre, na igreja do Campo dos Alemães. “Estamos enfrentando dificuldades para levantar as informações de quem está faltando, pois nos abrigos da prefeitura a polícia não nos deixa entrar”, informou Claros, com preocupação.

Letícia Rabello, professora de São José que apoia a ocupação do Pinheirinho e vem atuando no local em ajuda às famílias, afirma que “há mortos e feridos, mas estão escondendo”. “As famílias de mortos não estão falando porque estão recebendo ameaças”, diz.

Nenhum órgão do Estado ou Município publicou até agora nenhuma lista oficial com número de feridos

Transcrevi trechos. É a reportagem mais completa da chacina de Pinheirinho.  In Caros Amigos

Prefeito Eduardo Cury serve comida estragada para os sobreviventes de Pinheirinho

Filipe Rodrigues
São José dos Campos

Ex-moradores do Pinheirinho alojados no poliesportivo do Vale do Sol fizeram um protesto ontem à tarde contra a qualidade das refeições servidas pela prefeitura.
Os desalojados acusam a administração de ter servido comida estragada no almoço. Algumas pessoas teriam sofrido mal-estar após ingerir a refeição (frango ao molho).

Confusão. O protesto começou por volta das 12h30, horário que a refeição normalmente é servida.
Após algumas pessoas receberem o frango e notarem que o alimento estava ‘azedo’, os desabrigados decidiram se reunir em uma árvore em frente ao local onde é servido o almoço.


Os pratos de comida foram reunidos no local e as travessas com frango foram retiradas do buffet e colocadas junto com os demais pratos.
“Isso aqui é uma porcaria. Nem os cachorros estão querendo comer esse frango. Só porque não temos condições, eles acham que podem dar comida estragada”, disse Célia Regina da Costa Barreiro Félix, 34 anos, recicladora.
Cerca de 50 pessoas começaram a cantar e bater garrafas de plástico. Por volta das 14h, Marrom compareceu ao local para se reunir com moradores.
“É humilhante. Não deixaram eu pegar meus móveis e minhas roupas. Se recusam a nos dar roupas novas e agora, estão mandando lavagem, que nem animal merece”, afirmou Gabriela Gomes da Silva, 20 anos, dona de casa.

Mal-estar. Os desabrigados afirmam que crianças que comeram o frango passaram mal. Segundo eles, além de estragado, o alimento foi mal cozido.
Enquanto esteve no abrigo, O VALE presenciou a dona de casa Ocineia Silva de Almeida, 28 anos, ter um mal-estar.
Ela foi levada a uma ambulância, onde foi constatado que estava com a pressão alta. A desalojada foi, então, levada a uma UBS (Unidade Básica de Saúde) para receber atendimento médico.
“Minha mulher sempre foi forte. O problema é que não tem comido direito devido à gororoba que servem aqui. Também temos um filho que ainda mama. Isso prejudicou a saúde dela”, disse o pintor Lucas Gonçalves de Matos, 26 anos, marido de Ocineia.

 

Abrigo.A alimentação é apenas uma das reclamações de quem está abrigado no poliesportivo do Vale do Sol.
“É um calor infernal no ginásio. Mal tem espaço para dormir e nos deram colchões que parecem lixas, de tão fino”, diz Jonathan Ondor Monteiro da Silva, 23 anos, pedreiro.
O local também fica constantemente sem água, segundo os sem-teto. 

Pinheirinho de Sartori não é o Egito. Mulher brutalmente agredida lança onda de revolta

por Paula Cosme Pinto

As imagens são brutais. Uma mulher é arrastada no chão por militares, que lhe aplicam bastonadas e pontapés. O peito, já semi desnudo, é golpeado com toda a violência. No fim, descarregado o ódio, há um soldado que hesita por uma fração de segundos, quando os colegas seguem em busca de outros manifestantes, e cobre o ventre despido da mulher com o que sobra do seu casaco.

Egito
Egito

Estas imagens, e outras de violentas agressões a mulheres que se manifestavam este fim de semana no Cairo, foram captadas em vídeo e estão a correr mundo levantando ondas de indignação. Não que as agressões a mulheres nesta luta contra a repressão no mundo árabe sejam novidade. Mas, desta vez, as imagens são um testemunho da violência desmedida aplicada, sem dó nem piedade, pelos militares.

O Conselho Supremo das Forças Armadas disse “lamentar profundamente” o sucedido. Um dos membros do conselho militar, o general Adil Emara, afirmou depois que as agressões a mulheres foram um “incidente isolado”. Hipocrisia, meus senhores, é a única palavra que me ocorre.

“A nossa honra é inviolável”

E, pelos vistos, não foi só a mim. Contra todas as expectativas do mundo ocidental (e do próprio mundo árabe, diria eu), as mulheres egípcias saíram mais uma vez à rua para deixar clara um mensagem: “A nossa honra é inviolável”.

Mais de duas mil mulheres manifestaram-se ontem contra a violência das autoridades nos confrontos, que já se prolongam há cinco dias e que já fizeram 13 mortos. E fizeram-no com e sem burqa. Já uma vez o disse por aqui, mas volto a dizer: para mim, estas são verdadeiras mulheres-coragem. Tal como Aliaa Elmahdy , que publicou fotos suas nua, em protesto contra a violência, o racismo e o sexismo árabe.

Todas as mulheres que se atrevem a sair da redoma de uma sociedade de extremos, onde as mulheres ainda estão – e estarão – muito abaixo dos homens nos seus direitos, merecem um aplauso. Mulheres que, tal como disse ontem Hillary Clinton, foram “humilhadas nas mesmas ruas onde arriscaram a vida pela revolução”. E é por elas, e pelos seus gritos de revolta, que divulgo aqui estas imagens. Incómodas, é certo. Mas que o mundo não pode ver e ficar, simplesmente, indiferente:

ATENÇÃO: imagens com elevado grau de violência

Veja vídeo e galeria de fotos

Pinheirinho, Brasil
Pinheirinho, Brasil

Na destruição de Canudos, digo de Pinheirinho, a justiça PPV apenas permitiu a entrada dos repórteres da Globo, conhecidos espias dos sem terra e dos sem teto.

Mas sobram testemunhais de mulheres que foram espancadas e baleadas. Inclusive o relato do martírio de uma criança de colo. Uma investigação internacional já!

O mito do Brasil cordial não engana mais. É um país que metade da população tem uma rendimento mensal inferior a 370 reais. A fome, por si só, já é uma violência.

Vídeo

MASSACRE DO PINHEIRINHO: PSDB DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS RECEBEU R$427 MIL DO RAMO IMOBILIÁRIO EM 2008


Por Felipe Prestes, do portal Sul21
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O comitê municipal único do PSDB em São José dos Campos recebeu R$ 427 mil de doações declaradas de 22 empresas do ramo imobiliário nas eleições de 2008. O valor representa aproximadamente 20% dos R$ 2.109.475 recebidos pelo comitê. Destes mais de R$ 2 milhões do comitê, cerca de R$ 630 mil foram destinados à campanha vitoriosa do atual prefeito Eduardo Cury (PSDB).

O deputado estadual Fernando Capez (PSDB), irmão do desembargador do TJ-SP Rodrigo Capez, que coordenou a ação policial em Pinheirinho, também recebeu bastante apoio do ramo imobiliário nas eleições de 2010. Quinze empresas do ramo doaram um total de R$ 424.462,02 para a campanha de Capez, 38% de tudo o que ele arrecadou (R$ 1.114.443,90).

o desembargador Rodrigo Capez esteve no local representando o TJ-SP e ordenou a continuidade das ações — mesmo que liminares da Justiça Federal colocassem um impasse jurídico, só resolvido pelo STJ no dia seguinte à reintegração de posse.
As informações foram extraídas do site do TSE. Clique para conferir

Chacina de Pinheirinho.Entrevista de juíza complica Alckmin e Cury

by André de Paiva Toledo

Em entrevista a’O Vale de São José dos Campos/SP, a juíza Márcia Faria Mathey Loureiro da 6a. Vara Cível daquela cidade, tentando defender os métodos utilizados pela Polícia Militar quando do cumprimento do mandado de reintegração de posse do Pinheirinho, deu algumas informações que complicam ainda mais a situação política do governador Geraldo Alckmin e do prefeito Eduardo Cury.

Nos seis minutos do vídeo, ela afirma que a Polícia Militar se planejou durante mais de quatro meses para desocupar o bairro. Então, toda a negociação, todas as discussões organizadas pelo poder público com os representantes do moradores da ocupação tinha o propósito tão somente de dar tempo para que o governo paulista organizasse a gigantesca operação policial.

Houve uma tentativa frustrada da polícia estadual na terça-feira, 17 de janeiro de 2012, de desocupar a área. Embora nunca mencionada, a resistência à operação do dia 17 não foi suficiente para que o poder público mudasse de planos. Muito pelo contrário, tornou-se questão de honra para Alckmin repelir qualquer óbice ao cumprimento do mandado de reintegração de posse da juíza Márcia, conforme o texto do despacho do presidente do TJSP de 21 de janeiro, o desembargador Ivan Sartori. Foi por honra que a Polícia Militar agiu no dia seguinte. Ela “agiu com competência e honra”, diria a juíza na entrevista.

Ela admite que houve agressão a ex-moradores do Pinheirinho no centro de triagem do Estado para onde foram levados depois de esvaziado o Pinheirinho. Com essa confissão, a juíza involuntariamente reforça a informação de que houve agressão a civis dentro do Pinheirinho, pois é inimaginável que alguém que é expulso de sua moradia só vá apanhar quando chega ao abrigo de refugiados.

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Raquel Rolnik, relatora especial da ONU: “Pinheirinho não é um caso isolado”

Pinheirinho, antes das demolições comandadas pelo TJ-SP
Pinheirinho, antes das demolições comandadas pelo TJ-SP

– O grande pano de fundo é que não se remove pessoas de suas casas sem que uma alternativa de moradia adequada seja previamente equacionada, discutida em comum acordo com a comunidade envolvida. Não pode haver remoção sem que haja essa alternativa. Aqui se tem uma responsabilização muito grave do Judiciário, que não poderia ter emitido uma reintegração de posse sem ter procurado, junto às autoridades, verificar se as condições do direito à moradia adequada estavam dadas. E não estavam.

– O Judiciário brasileiro, particularmente do Estado de São Paulo, não obedeceu à legislação internacional. A cena que vimos das pessoas impedidas de entrar nas suas casas e de pegar seus pertences antes que eles fossem removidos para outro local –isso também é uma clara violação. Isso não existe! Nenhuma remoção pode deixar a pessoa sem teto. Nenhuma remoção pode impor à pessoa uma condição pior do que onde ela estava. São duas coisas básicas.

– Nenhuma remoção pode ser feita sem que a comunidade tenha sido informada e tenha participado de todo o processo de definição do dia da hora e da maneira como isso vai ser feito e do destino de cada uma das famílias.

– Tudo isso foi violado. Já violado tudo isso, de acordo com a legislação da moradia adequada, tem que fazer a relação dos bens. Remoção só deve acontecer em último caso. Isso foi absolutamente falho.

– Não pode haver uso da violência nas remoções, especialmente com crianças, mulheres, idosos e pessoas com dificuldade de locomoção. Vimos cenas de bombas de gás lacrimogêneo sendo jogadas onde tinham mulheres com crianças e cadeirantes. Coisa absolutamente inadmissível.
A justa contra o povo em Pinheirinho
A justa contra o povo em Pinheirinho
– Aquela terra é da massa falida da Selecta (…). Recebi informações, que não sei se estão confirmadas, de que os maiores credores são os próprios poderes públicos, prefeitura municipal, Estado e governo federal, dívidas de INSS e impostos com o governo federal, principalmente dívidas com o município e governo federal. Não tenho certeza. Faz todo o sentido o equacionamento dessa terra para os poderes públicos e a posterior regularização fundiária para os moradores.
– A questão fundiária do Brasil é politizada integralmente. Não só nesse caso. Há presença dos partidos também no momento que se muda o zoneamento da cidade para atender os anseios de determinados grupos imobiliários que vão doar para determinadas campanhas. Não tem processo decisório sobre a terra no Brasil que não esteja atravessado por questões econômicas e políticas.
– Independentemente disso, atender plenamente aos direitos dos cidadãos tem que ser cobrado por nós, cidadãos brasileiros. Não quero saber se o PT, o PSDB, o PSTU estão querendo tirar dividendos disso. Como cidadã, isso não interessa. O que interessa é que o cidadão, as pessoas têm que ser tratadas como cidadãos, independentemente da sua renda, independente se são ocupantes formais ou informais da terra que ocupam, independentemente da sua condição de idade, gênero.

– Não pode haver diferença e nesse caso houve claramente um tratamento discriminatório. E isso a lei brasileira impede que seja feito. Então há uma violação.- Não é só no Pinheirinho que estão acontecendo violações. Tenho denunciado como relatora que as remoções que estão acontecendo também violações no âmbito dos projetos de infraestrutura para a Copa e para as Olimpíadas. Menos dramáticas, talvez, do que no Pinheirinho, mas igualmente não obedecendo o que tem que ser obedecido.- Infelizmente tenho a sensação de que estamos indo para trás. Porque nós –e a minha geração fez parte disso– lutamos pelo Estado democrático de direito, pela questão da igualdade do tratamento do cidadão, pela questão dos direitos humanos. Para nós, a partir da Constituição isso virou um valor fundamental.

– Nesta mesma Constituição se reconheceu o direito dos ocupantes de terra com moradia, que ocuparam por não ter outra alternativa.

– Está na Constituição e, agora que o Brasil está virando gente grande do ponto de vista econômico, estamos voltando para trás no que diz respeito a esses direitos. Estamos assistindo a remoções sendo feitas sem respeitar [esses direitos]. Estamos assistindo um discurso totalmente absurdo –de que eles, que ocupam áreas, que não tiveram outra alternativa, são invasores. Como eles não obedeceram a lei, não temos que obedecer lei nenhuma com eles.

– É um discurso pré-Constituinte. Isso foi amplamente reconhecido na Constituição. Tem artigo sobre isso. Estamos tratando essas questões não só aí [no Pinheirinho]. Veja como isso está sendo tratado na cracolândia. Vemos isso em várias remoções nos casos da Copa e das Olimpíadas. Simplesmente há um discurso: eles são invasores, não obedeceram a lei, para eles não vale nada da lei. Estamos picando a Constituição.

Incêndio na favela do Moinho, no Centro de São Paulo, com duas mortes na contagem dos bombeiros
Incêndio na favela do Moinho, no Centro de São Paulo, com duas mortes na contagem dos bombeiros

– Que favelas pegam fogo em São Paulo? As favelas melhor localizadas. Não vejo notícia de favela pegando fogo na extrema periferia na região metropolitana, que é onde mais tem favela.

ncêndio na favela Real Parque
Incêndio na favela Real Parque

– A hipótese tem a ver com a importância estratégica de uma parte da terra ocupada por favelas –a importância estratégica para o mercado imobiliário de uma parte da terra ocupada por favelas. Trata-se de uma espoliação: uma terra valiosa em que você tira a favela e pode atualizar o seu valor. Dentro de um modelo em que o único valor que importa é o valor econômico e os outros valores não importam, tirar essa terra valiosa de uma ocupação de baixa renda faz sentido.

– Acho fundamental que esses incêndios sejam investigados. Por que esses incêndios estão ocorrendo agora exatamente nessas favelas?

Bairro da Luz
Bairro da Luz

– Estamos fazendo um Apelo Urgente também sobre a cracolândia, conjuntamente com o relator para direitos da saúde e com o relator sobre tratamento desumano e tortura. Devemos enviar brevemente.

Bairro da Luz
Bairro da Luz

– Estamos numa situação em que um projeto urbanístico, que é o da Nova Luz, tem como principal instrumento a concessão dessa área integralmente para a iniciativa privada. A viabilização para a concessão dessa área é entregar essa área “limpinha”. “Limpinha” significa sem nenhuma população vulnerável, marginal, ambígua sobre ela. E, no máximo possível, com imóveis demolidos, para permitir que se faça um desenvolvimento imobiliário com coeficiente de aproveitamento muito maior, prédios mais altos etc. E, portanto, com muito mais potencial de valor no mercado. Isso está diretamente relacionado ao modelo da concessão urbanística.

Vila dos Ingleses, Bairro da Luz
Vila dos Ingleses, Bairro da Luz

– No plano urbanístico da Nova Luz, um dos principais princípios é liberar áreas dos imóveis e das pessoas que ocupam hoje, para permitir que essas áreas sejam incorporadas pelo mercado imobiliário com potenciais de aproveitamento maiores.

– Tenho uma crítica do ponto de vista dos direitos humanos, da forma como tem sido feito. Como no caso do Pinheirinho: uso da violência policial e incapacidade de diálogo com a população. Mas também como urbanista tenho uma enorme crítica a esse plano da Nova Luz, que desrespeita o patrimônio material e imaterial ali presente. O bairro da Santa Ifigênia é o bairro mais antigo de São Paulo. É o único que ainda tem uma morfologia do século 18. Uma parte dos imóveis que está sendo demolida, supostamente interditada, deveria ser restaurada e reocupada. A ação é duplamente equivocada –do ponto de vista urbanístico e dos diretos humanos.

– Eu me recuso a chamar aquele local de cracolândia, porque foi um termo forjado pela Prefeitura de São Paulo. O fato de essa área estar ocupada por pessoas viciadas, que estão no limite da inumanidade, foi produto da ação da prefeitura, que entrou nessa área demolindo, largando a área, não cuidando da área, deixando acumular lixo e transformando essa área em terra de ninguém.

Cartaz ironizando o nome pejorativo Cracolândia (cracia exprime a noção de pode, força, governo. Exemplo aristocracia, meritocracia
Cartaz ironizando o nome pejorativo Cracolândia (cracia exprime a noção de poder, força, governo. Exemplo aristocracia, meritocracia

– Isso é fruto da ação da prefeitura e não da falta de ação da prefeitura. Para depois chamar de cracolândia e depois constituir um motivo para entrar dentro dessa área derrubando tudo, prendendo todo mundo e limpando aquela área como terra arrasada para que uma ação no mercado imobiliário possa acontecer.
Transcrevi trechos da entrevista concedida à Leonora de Lucena da Folha de S. Paulo. Leia mais  in

http://raquelrolnik.wordpress.com/2012/01/27/pinheirinho-nao-e-um-caso-isolado/ 

“A vida e a dignidade humana estão acima de qualquer outro valor”, afirma Dom Moacir Silva, bispo de Pinheirinho

Área ocupada do Pinheirinho é três vezes maior que o Vaticano

Terreno na periferia rica da cidade de São José dos Campos estava ocupado há uma década.


Com uma área 1,3 milhão de metros quadrados – equivalente a três veres a área total do Vaticano – o Pinheirinho, em São José dos Campos, a 93 km de São Paulo, era o endereço de 6 mil pessoas até o último domingo (22). Ocupado há quase uma década, o terreno na periferia da rica cidade do Vale do Paraíba foi palco de umenfrentamento entre policiais e moradores, durante uma operação para reintegração de posse.

Paula Miraglia: Sem solução, apenas violência

Famílias despejadas: Moradores têm dificuldades para reaver pertences

O local foi fotografado antes e depois da operação. Segundo as lideranças locais, 80% das construções do Pinheirinho são de alvenaria. A comunidade tem ruas, igrejas e comércio, em situação irregular. Um censo da Prefeitura de São José dos Campos mostra que 73,7% dos moradores vivem no local há mais de dois anos.

A reintegração de posse foi alvo de criticas de ativistas de direitos humanos.

Veja as imagens do Pinheirinho em São José dos Campos: clique aqui

O coronel da Polícia Militar (PM) Manoel Messias Mello, comandado pelo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, afirmou, em entrevista coletiva, que 40% dos barracos serão demolidos. Segundo ele, são cerca de 1,7 mil barracos no total. Isso porque há muitos terrenos em que há casas conjugadas umas nas outras.

Tesstemunho do notícias Terra: “Com a área cercada, nem mesmo a imprensa tem acesso ao que realmente está acontecendo. De tempos em tempos, a polícia forma grupos e leva fotógrafos e cinegrafistas para locais pré-determinados. Quando algum morador se aproxima para falar, logo todos são convidados a se retirar“.

Bispo de SJC fala sobre ação da polícia no “Pinheirinho”

Mensagem de Dom Moacir Silva sobre o “Pinheirinho”

Desde antes da reintegração de posse do terreno denominado “Pinheirinho”, em São José dos Campos-SP, venho afirmando que “a vida e a dignidade humana estão acima de qualquer outro valor, e por isso necessitam ser respeitadas e promovidas. Tudo o que atenta contra a vida e a dignidade humana precisa ser rejeitado”.

Neste tempo de negociações e ações efetivas dos Poderes judiciário e municipal, a Diocese de São José dos Campos sempre esteve atenta a cada passo e a cada decisão, sempre tendo o cuidado de lembrar a todos os envolvidos que a vida está acima de tudo, que cada ser humano é um filho amado do Deus.

Por meio da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e seu pároco, Padre Ronildo Aparecido da Rosa, toda a comunidade é acompanhada bem de perto. Junto à comunidade sempre foi desenvolvido um trabalho evangelizador e pastoral.

Num primeiro momento, famílias ainda confusas com a rápida saída de suas casas, procuraram abrigo na paróquia, que mesmo sem a estrutura necessária, esteve de portas abertas para cada irmão e irmã que buscou ali um repouso e uma resposta sobre seu futuro.

Esperamos agora que as famílias continuem a receber a assistência necessária para restabelecerem suas vidas e sejam alojadas dignamente.

Neste momento de sofrimento, manifesto minha solidariedade e minha proximidade espiritual às pessoas da comunidade do Pinheirinho. Estou acompanhando bem de perto a atual situação e asseguro minha oração por todos.

Desembargador Ivan Sartori comandou invasão de Pinheirinho contra decisão da Justiça Federal

Existe um bordão absolutista e ditatorial no Brasil: Ordem judicial não se discute.

Mas entre os poderes do judiciário isso não vale.

O  Comando do Policiamento do Interior da  PM  recebeu a ordem para que não cumpra a reintegração de posse de Pinheirinho. Terreno grilado por Naji Nahas. Em entrevista coletiva, o coronel Manoel Messias Mello afirmou que a possibilidade de que a reintegração de posse aconteça está descartada. ” A ação requer um planejamento especial e não tem condições para que isso ocorra”. Mentiu. Já estava tudo preparado.

A  liminar foi concedida em reposta à ação cautelar ajuizada pela Associação dos Sem-Teto, pedindo que a Polícia Militar, a Polícia Civil e a Guarda Municipal se abstenham de efetivar qualquer desocupação.

O despacho foi expedido pela juíza de plantão Roberta Chiari.

De acordo com o documento, entre os principais aspectos considerados para a suspensão da reintegração está a defesa da integridade física das famílias.

Isso aconteceu na terça-feira. Na madrugada de domingo último (despejo dominical, que sacrilégio), o coronel Manoel Messias Mello começou a Operação Pinheiro, um massacre comandado pelo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Assim, o impossível acontece. Quem comanda a polícia é o governador de São Paulo que, impedido, é substituído pelo vice- governador. Este também impedido, pelo presidente da Assembléia Legislativa. Mas com que poderes constitucionais o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo assume o comando da Polícia Militar?

A nota que o desembargador Ivan Sartori publicou, sem assinar, no portal do TJ-SP é um absurdo:

“Tendo em vista o noticiário sobre o episódio do Pinheirinho, o presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo informa:

1 – Toda mobilização policial na data de 22/1/12 se deu por conta e responsabilidade da Presidência do Tribunal de Justiça, objetivando o cumprimento de ordem judicial;

2 – O efetivo da Polícia Militar em operação esteve sob o comando da Presidência do Tribunal de Justiça até o cumprimento da ordem;

3 – O Executivo do Estado, como era dever constitucional seu, limitou-se à cessão do efetivo requisitado pelo Tribunal de Justiça”.

Assinalo: “O efetivo da Polícia Militar em operação esteve sob o comando da Presidência do Tribunal de Justiça“.

Qual ordem judicial o presidente do TJ-SP, desembargador Ivan Sartori, mandou cumprir? A da juíza Roberta Chiari não foi.

Finalmente três perguntas para o desembargador Ivan Sartori?

– Quantas pessoas morreram na Operação Pinheirinho?

– A quem pertence o terreno de Pinheirinho, ora ocupado pelo  coronel Manoel Messias Mello?

– “O efetivo da Polícia Militar esteve em operação sob o comando da Presidência do Tribunal de Justiça” ou continua sob seu comando?

Quantos sem teto trucidaram em Pinheirinho?

Ditadura militar de 64 criou cemitérios clandestinos.

Chacina de Pinheirinho. Onde o Tribunal de Justiça de São Paulo e o Governo do Estado de São Paulo estão escondendo os cadáveres da Ocupação de Pinheirinhos?

OAB de São José dos Campos diz que houve mortos em operação no Pinheirinho

por Bruno Bocchini e Flávia Albuquerque – Repórteres da Agência Brasil

São Paulo – O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São José dos Campos, Aristeu César Pinto Neto, disse hoje (23) que houve mortos na operação de reintegração de posse do terreno conhecido como Pinheirinho, na periferia da cidade. De acordo com ele, crianças estão entre as vítimas.

“O que se viu aqui é a violência do Estado típica do autoritarismo brasileiro, que resolve problemas sociais com a força da polícia. Ou seja, não os resolve. Nós vimos isso o dia inteiro. Há mortes, inclusive de crianças. Nós estamos fazendo um levantamento no Instituto Médico-Legal [IML], e tomando as providências para responsabilizar os governantes que fizeram essa barbárie”, disse, em entrevista à TV Brasil.

Segundo Neto, a Polícia Militar (PM) e a Guarda Municipal chegaram a atacar moradores que se refugiavam dentro de uma igreja próxima ao local. “As pessoas estavam alojadas na igreja e várias bombas foram lançadas ali, a esmo”, declarou.

O representante da OAB disse ter ficado surpreso com o aparato de guerra que foi montado em prol de uma propriedade pertencente à massa falida de uma empresa do especulador Naji Nahas. “O proprietário é um notório devedor de impostos, notório especulador, proibido de atuar nas bolsas de valores de 40 países. Só aqui ele é tratado tão bem”.

(…) PM cumpre uma ordem da Justiça Estadual para retirar cerca de 9 mil pessoas que vivem no local há sete anos e 11 meses. O terreno integra a massa falida da empresa Selecta, do investidor Naji Nahas. A Justiça Federal decidiu contra a desocupação do terreno, mas a polícia manteve a reintegração obedecendo ordem da Justiça Estadual.

A moradora Cassia Pereira manifestou sua indignação com a maneira como as famílias foram retiradas de suas casas sem que ao menos pudessem levar seus pertences. “A gente está lutando por moradia. Aqui ninguém quer guerra, ninguém quer briga, a gente quer casa, nossa moradia. Todo mundo tinha suas casas aqui construídas, e tiraram de nós, sem direito a nada. Pegamos só o que dava para carregar na mão”, disse.

 (Transcrevi trechos)