Hollande quer “erradicar” os paraísos fiscais da Europa e do mundo

Está depositada nos paraísos fiscais toda a grana do tráfico (de moedas, de droga, de armas), da sonegação, do contrabando, da pirataria, da prostituição, da corrupção  de presidentes de países vendidos e colonizados.

Este o mapa dos paraísos que lavam dinheiro

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Hoje in Público, PT: O Presidente francês, François Hollande, disse nesta quarta-feira que é preciso “erradicar” os paraísos fiscais “da Europa e do mundo”, obrigando todos os bancos a um exercício de transparência nas suas filiais.

“Os paraísos fiscais têm de ser erradicados e essa é a condição para preservar o emprego. Não hesitarei em considerar como paraíso fiscal qualquer país que recuse cooperar plenamente com a França”, disse Hollande numa conferência de imprensa em Paris, a seguir a uma reunião do Conselho de Ministros.

“Os bancos franceses – prosseguiu – devem tornar público anualmente a lista de todas as suas filiais no mundo, país por país”, e devem “publicar a natureza das suas actividades”. Hollande anunciou a criação de uma “procuradoria financeira, com competência nacional, que possa agir em casos de corrupção e fraude fiscal”.

A França sofre ainda o abalo da notícia de que o ex-ministro do Orçamento Jérôme Cahuzac teve contas secretas em paraísos fiscais, primeiro na Suíça e depois em Singapura. O ministro, que mentiu ao Parlamento sobre o assunto, acabou por admitir a existência das contas e demitiu-se.

Um abalo agravado pelo trabalho de um grupo internacional de jornalistas de investigação que revelou uma extensa lista de pessoas e instituições com contas em paraísos fiscais. E pela notícia de que bancos franceses estão em paraísos fiscais, com sucursais.

O novo ministro do Orçamento, Bernard Cazeneuve, exigiu no Parlamento no dia 9 de Abril que os jornais que participaram no trabalho e publicaram a lista, entre eles o francês Le Monde, divulgassem as suas fontes para que “a Justiça possa fazer o seu trabalho”.

“REGRA FUNDAMENTAL” DO JORNALISMO: NÃO REVELAR FONTES 

Le Monde já respondeu considerando que, para o ministro, a “culpa” por este problema é dos meios de comunicação social, o que diz ser inaceitável. Assim como inaceitável é a divulgação de fontes – não revelar fontes é, lê-se neste jornal, “regra fundamental” do jornalismo. “Esse princípio, recordamos, está protegido por lei em França. (…) Enviar à Justiça documentos que fundamentam a nossa investigação significaria expor o caminho percorrido o que conduziria à identificação das nossas fontes.”

Hollande tenta quebrar o clima de suspeita que paira sobre políticos e instituições. Anunciou ainda que as regras sobre o património dos responsáveis públicos serão “revistas na íntegra” e que uma autoridade “totalmente independente controlará o património e os eventuais conflitos de interesse dos ministros, parlamentares e outros altos responsáveis políticos”.

dinheiro ilha nativo paraíso fiscal

Onde está o dinheiro sujo

por Luciano Martins Costa

 

Estado de S. Paulo e o Globo reproduzem nas edições de sexta-feira (5/4) reportagem que circulava havia dois dias na internet, com origem no Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, sobre 2,5 milhões de documentos bancários nos quais são revelados os proprietários de 250 mil contas secretas em paraísos fiscais.

Trata-se potencialmente do maior escândalo financeiro dos nossos tempos. Algumas das primeiras revelações atingem um ex-colaborador do presidente da França, François Hollande, acionista de pelo menos duas empresas que mantém contas na Ilhas Cayman. Também são citados dois filhos do ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe e um general venezuelano, além de outras autoridades e empresários de várias partes do mundo.

Mas há muito mais. Os documentos compõem um superarquivo digital de 200 gigabytes, cerca de 150 vezes maior do que o conteúdo divulgado pelo site Wikileaks.com sobre segredos diplomáticos dos Estados Unidos. A diferença entre a iniciativa do ativista Julian Assange, que tem sido tratado como terrorista internacional pelo governo americano, e o projeto do consórcio de jornalismo investigativo é que, no caso do Wikileaks, os documentos eram simplesmente postados na rede mundial de computadores, enquanto o consórcio usa as informações primárias como fontes de reportagens e verifica a veracidade delas junto aos suspeitos de serem donos do dinheiro.

Folha de S. Paulo provavelmente não teve interesse em reproduzir o relato, o que causa estranheza, pois foi o primeiro jornal brasileiro a repercutir os vazamentos do Wikileaks. O desinteresse da Folha se torna ainda mais bizarro se for considerado que a revelação dos nomes de proprietários das contas em paraísos fiscais está sendo feita com o trabalho colaborativo de 38 grandes instituições da imprensa internacional, entre as quais o jornal inglês The Guardian, o americano Washington Post, o francês Le Monde e a rede britânica de televisão BBC.(Veja aqui o texto do Guardian, em inglês e aqui a reportagem do Monde, em  francês)

E os outros?

Nem todos os dados se referem a depósitos ilegais, mas o trabalho jornalístico permitiu identificar alguns casos emblemáticos, o que inspirou o Monde a escolher como manchete uma afirmação bombástica: “Como os bancos franceses ajudam seus clientes a praticar a evasão fiscal”.

Essa é a chave-mestra para qualquer política de combate ao crime organizado e à corrupção em todo o mundo, mas até aqui a imprensa nunca tinha se atrevido a devassar a caixa-preta dos paraísos fiscais.

Benjamim Steinbruch
Benjamim Steinbruch

Na primeira lista divulgada, os únicos brasileiros citados são três membros da família Steinbruch, cujo representante mais conhecido é o empresário Benjamin, que controla o grupo Vicunha, o banco Fibra e a Companhia Siderúrgica Nacional. Procurados pelos jornalistas do consórcio investigativo, os Steinbruch explicaram que mantém uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, devidamente registrada no Banco Central do Brasil e legalizada nos órgãos fiscais brasileiros.

No entanto, as primeiras revelações são apenas uma pequena parte do imenso arquivo que está sendo analisado pelos investigadores. O problema da evasão fiscal e do trânsito de dinheiro ilegal por contas bancárias chamadas off shore é considerado por especialistas como um dos maiores problemas da economia mundial. Além de servir de abrigo para o lucro de atividades criminosas que vão desde as grandes fraudes financeiras até o contrabando de armas e o tráfico de drogas e de seres humanos, esse tipo de operação bancária tem servido para ocultar as fortunas acumuladas por tiranos e autoridades corruptas em centenas de países.

A existência dessas ilhas de impunidade e descontrole tem provocado até mesmo incidentes políticos, como o questionamento do rigor fiscal imposto pela Grã Bretanha a negócios legais enquanto o país tolera o trânsito de dinheiro suspeito pelos bancos das Ilhas Virgens, sob sua jurisdição.

O texto distribuído pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (veja aqui, em inglês) afirma que boa parte da crise na Europa é provocada ou agravada pela evasão através dos paraísos fiscais.

Os atuais habitantes do antigo paraíso tropical dos Tupiniquins esperam que a imprensa siga revelando nomes e valores, “duela a quién duela”, como diria aquele ex-presidente.

Transcrito do Observatório da Imprensa