Dono do restaurante BOS BBQ diz que idade mental do brasileiro é de 14 anos

Elihu Duayer
Elihu Duayer

A última edição da revista The Economist traz uma reportagem preconceituosa, xenófoba e escravocrata sobre o mercado de trabalho no Brasil e em especial à produtividade dos trabalhadores. Com o título “Soneca de 50 anos”, a reportagem diz que os brasileiros “são gloriosamente improdutivos” e que “eles devem sair de seu estado de estupor” para ajudar a acelerar a economia.

O único estupor do trabalhador brasileiro é não reclamar dos salários indignos, do banco de horas extras, dos assédio moral e sexual existentes nas empresas multinacionais.

A reportagem diz que após um breve período de aumento da produtividade vista entre 1960 e 1970, no tempo da ditadura militar, a produção por trabalhador estacionou ou até mesmo caiu ao longo dos últimos 50 anos. A paralisia da produtividade brasileira no período acontece em contraste com o cenário internacional, onde outros emergentes como Coréia do Sul, Chile e China apresentam firme tendência de melhora do indicador.

“A produtividade do trabalho foi responsável por 40% do crescimento do PIB do Brasil entre 1990 e 2012 em comparação com 91% na China e 67% na Índia, de acordo com pesquisa da consultoria McKinsey. O restante veio da expansão da força de trabalho, como resultado da demografia favorável, formalização e baixo desemprego”, diz a revista.

A reportagem adianta que uma série de fatores explicam a fraca produtividade brasileira. O baixo investimento em infraestrutura é uma das primeiras razões citadas por economistas. Além disso, apesar do aumento do gasto público com educação, os indicadores de qualidade dos alunos brasileiros não melhoraram. Esquece a revista: Principalmente depois da expansão do ensino privatizado.

Acrescenta The Economist: Um terceiro fator menos óbvio é a má gestão de parte das empresas brasileiras. Acontece que foi a propaganda dessa “má gestão” que fez Fernando Henrique convencer os trabalhadores da necessidade de privatizar as estatais.

Há ainda a legislação trabalhista. A revista diz que muitas empresas preferem contratar amigos ou familiares menos qualificados para determinadas vagas para limitar o risco de roubos na empresa ou de serem processados na Justiça trabalhista. A revista também cita que a proteção do governo aos setores pouco produtivos ajuda na sobrevivência das empresas pouco eficientes.

 

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A intenção da revista é defender privilégios colonialistas. Que as grandes e médias empresas são estrangeiras. O Brasil se tornou o país das montadoras e oficinas. Da exportação de matérias primas. E da lavoura de exportação. Quando milhões de brasileiros passam fome, e são dependentes da esmola do bolsa família.

As empresas da pirataria internacional, da globalização unilateral, recebem empréstimos dos bancos oficiais, terrenos e prédios e isenções fiscais para se instalarem no Brasil, vide o exemplo recente da Fiat em Pernambuco. E, ainda, como lucro: uma mão de obra barata e serviçal, liderada pelos sindicatos corruptos.

As internacionais prestadoras de serviços – eletricidade, internet, telefonia, planos de saúde, bancos, água, mercado de alimentos, ensino universitário, transportes etc – são fiscalizadas por prostitutas respeitosas. As agências reguladoras foram criadas para a farsa de fiscalizar a prestação de serviços públicos praticados pela iniciativa privada, e controlar a qualidade na prestação do serviço, estabelecer regras para o setor, inclusive preços sempre aumentados.

A reportagem ouviu um empresário norte-americano que é dono do restaurante BOS BBQ no Itaim Bibi, em São Paulo. Blake Watkins diz que um trabalhador brasileiro de 18 anos tem habilidades de um norte-americano de 14 anos. “No momento em que você aterrissa no Brasil você começa a perder tempo”, disse o dono do restaurante BOS BBQ, que se mudou há três anos para o País.

Que faz este colono aqui, perdendo tempo, o tempo que é ouro para ele? Pelo racismo da declaração este malandro da KKK deveria ser preso ou expulso.

Blake Watkins é o colono símbolo de um sistema escravocrata. Um trabalhador do restaurante BOS BBQ no Itaim Bibi recebe que salário mínimo do mínimo? Trabalha quantas horas por dia? Recebe horas extras?

A duração decente do trabalho precisa atender a cinco critérios, conforme recomendação da Organização Internacional do Trabalho:

• preservar saúde e segurança;
• ser favoráveis à família;
• promover a igualdade entre os sexos;
• aumentar a produtividade; e
• facilitar a escolha e a influência do trabalhador quanto à jornada de trabalho.

Nada disso acontece nas empresas internacionais que colonizam o Brasil.

Josetxo Excurra
Josetxo Excurra

Trabalho escravo na moda: os grilhões ocultos da elite brasileira

por Tiago Muniz Cavalcanti

A situação exige reflexão. Demanda colaboração da sociedade civil organizada, dos órgãos públicos responsáveis pela luta contra a escravidão e, especialmente, do Judiciário.

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Se o assunto é a transformação da realidade social, a dissimulação é a tônica dentre os detentores do poder econômico. O discurso é o mesmo e já não comove: prega-se o respeito ao meio ambiente, à concorrência leal e às leis trabalhistas. A sustentabilidade do desenvolvimento sob os aspectos ambiental, econômico e humano tornou-se lugar-comum de uso proveitoso, sem o qual não se atinge a desejável respeitabilidade da opinião pública. São palavras ao vento com interesses econômicos acaçapados.

É assim na indústria da moda. Grandes grifes hasteiam a bandeira da responsabilidade social, do respeito, do comportamento ético e do compromisso com a verdade. Criam códigos de conduta que contemplam missões, valores e princípios dignos de um Estado Democrático de Direito e, com isso, vinculam sua imagem à probidade, ao decoro e aos direitos humanos. Contam com público fiel à marca e ao estilo de vida que lhe corresponde.

Mascara-se, no entanto, uma realidade cruel e pungente: uma produção barata e degradante. Pulveriza-se intensamente a cadeia produtiva: contrata-se e subcontrata-se, dissipando-se os riscos da atividade. Negocia-se a prestação dos serviços sob o rótulo de relações estritamente comerciais. Paga-se pouco, muito pouco: o limite necessário para garantir o lucro máximo.

A consequência não é outra, senão uma tragédia social. Milhares de costureiros, brasileiros e imigrantes, homens e mulheres, socialmente vulneráveis, submetidos a condições de trabalho ofensivas à dignidade. Espremidas em um pequeno imóvel localizado na zona central da cidade de São Paulo, as famílias residem em habitações coletivas e trabalham diuturnamente em manifesta degradação, expostas a riscos iminentes de incêndio e eletrocussão.

À geração de riquezas econômicas não corresponde correlata inserção social da pessoa trabalhadora, função primária da labuta humana. Trata-se de trabalho escravo na cadeia das grifes de grande renome e indubitável solidez econômica. Uma escravidão estrutural, pautada na degradação humana. Uma escravidão perspicaz, cuja vítima desconhece seu algoz. Uma escravidão social pós-moderna, onde os grilhões não estão visíveis aos olhos da sociedade. Uma escravidão impune.

Trabalho escravo contemporâneo

Não raro, os escravagistas pós-modernos, que ditam as regras de um mercado nefasto, saem ilesos nas ações judiciais que lhes são movidas. Mais das vezes, o Judiciário afasta a responsabilidade jurídica daqueles que contribuem diretamente para o ilícito, seja por desconhecer o conceito contemporâneo de trabalho escravo, seja por aceitar as escusas defensivas das grandes grifes, que possuem notória capacidade de mobilização político-jurídica em prol dos seus interesses e invariavelmente alegam desconhecimento do fato. Seja, ainda, por pura ideologia.

Foi o que ocorreu em recente decisão do TRT da 2ª Região (São Paulo/SP) que, em sede de mandado de segurança, utilizado como via de recorribilidade interlocutória, já prejulgou o caso posto e afastou a responsabilidade da grande grife. Os fundamentos não são novos: os trabalhadores resgatados possuíam “empresa regularmente constituída”; inexistência “de qualquer forma de intimidação visando restringir a liberdade de locomoção”; e, mais grave, nas condições a que estavam submetidas as vítimas, “vive grande parte da população brasileira”. Como se vê, a decisão mostra-se conservadora sob os aspectos jurídico e social.

A primazia da realidade cedeu à roupagem do formalismo e ao tecnicismo da teoria geral dos contratos mercantis. Desconsiderou-se a robustez das provas colhidas na diligência promovida pelos órgãos públicos fiscalizadores, que não deixava margem a dúvidas quanto ao comando e logística traçados pela grife, beneficiária direta da mão de obra das vítimas que produziam exclusivamente para a marca.

Dignidade humana

Olvidou-se o emérito julgador que o bem jurídico tutelado pelo trabalho escravo se transmudou na sua acepção contemporânea. Atualmente, não mais se exige a presença de instrumentos restritivos da liberdade, como práticas usuais de outrora, mas condições aviltantes à dignidade da pessoa trabalhadora provenientes da disparidade socioeconômica entre vítima e escravocrata moderno. A dignidade humana passou a ser, portanto, o bem jurídico protegido pelo crime de redução à condição análoga à de escravo, podendo ser atingida – inclusive, e não apenas – pela restrição da liberdade de ir e vir.

O último fundamento da decisão talvez seja o mais preocupante, pois traz consigo um preconceito ínsito. Um preconceito de classe. Afastar a característica degradante pelo simples fato de que grande parte da população brasileira também vive em condições precárias, inseguras e compartilhando cômodos revela o pensamento excludente que pauta grande parte da elite brasileira. Trocando em miúdos, é dar aos pobres a pobreza; aos miseráveis, a miséria.

É mais aceitável absolver do que condenar. É mais fácil não enxergar o elo existente entre as regras impostas de cima para baixo e as condições precárias de trabalho. É mais confortável virar as costas para o necessário processo de aprimoramento contínuo de uma cadeia marcada pela escravidão pós-moderna.

É inegável que a tomadora final dos serviços prestados lá embaixo, em condições subumanas, se omitiu no seu dever social, jurídico e cívico de conhecer os métodos materiais e humanos utilizados para a confecção dos produtos que encomenda. Não se preocupou em aferir a real capacidade produtiva daqueles que lhe prestam serviços e não teve interesse, sequer, em verificar como seu produto foi fabricado. Beneficiou-se diretamente da força de trabalho de toda a cadeia produtiva, mas deliberadamente fechou os olhos para as condições da produção, pondo-se em condição de ignorância. Trata-se de uma cegueira absolutamente proposital em face daquilo que ocorre ao seu redor.

A situação exige reflexão. Demanda colaboração da sociedade civil organizada, dos órgãos públicos responsáveis pela luta contra a escravidão e, especialmente, do Judiciário. Impõe-se que os magistrados assumam um papel político proativo, tomando para si o dever de contribuir para a transformação da realidade social. É mister, em arremate, desvelar a omissão culposa da elite da moda e arrebentar os grilhões camuflados que acorrentam milhares de trabalhadores brasileiros.

Foto: pagos por produção, os trabalhadores resgatados em março deste ano continuaram costurando mesmo durante a fiscalização. Eles produziam para as grifes Emme, Cori e Luigi Bertolli (Anali Dupré).

indignados novo escravo

Tiago Muniz Cavalcanti é procurador do Trabalho em São Paulo e membro da Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conaet) do Ministério Público do Trabalho.

 

Campanha do trabalho de sol a sol

Sem tempo para descanso, sem tempo para a família, sem tempo para o lazer,  sem tempo e dinheiro para as férias, o empregado das multinacionais está sempre correndo contra o relógio, na hora de comer sem mastigar, e na rapidinha do sexo semanal. E no mais, e no mais vai aumentando o crédito no banco de horas, que o tempo é ouro, reclama o patrão ou capataz.

 

trabalho

 

consumo vida salário pobre rico indignados

pobre salário dinheiro indignados

salário divída pessoal indignados

O HOMEM COM QUEM NINGUÉM SE PREOCUPA

por Talis Andrade

 

A vida uma encenação

farsa que represento

sem a mínima vocação –

o reprisado enredo

de escapar ileso

.

A vergonha o medo

me vejam

driblando a fome

me julguem

pelos (ul)trajes

.

a bata

de professor

suja de giz

.

o lavado terno

a gravata

em que se enforca

o funcionário público

.

o engomado terno

passado a ferro

das entrevistas

solenidades e festas

dos jornalistas

.

“O trabalho enobrece”

– a frase gravada na porteira

dos campos de concentração.

.

Se Hitler estava certo

o trabalho liberta

enriquece e engrandece

.

Que aluno lembra o nome de um professor

Quem memoriza a face de um servidor

no birô de uma repartição

Quem realmente se preocupa

o ancião termine nas filas dos bancos

para receber o mínimo salário mínimo

O ancião arraste a aposentadoria

como uma humilhante penitência

O ancião espere a morte

nas filas dos hospitais

quem realmente se preocupa

Campo de Concentração, Auschwitz
Campo de Concentração, Auschwitz

campo de concentração

campo de concentração 3