Assaltantes treinados pela indústria do espetáculo

EXPLOSÃO OCULTA
por Nei Duclós

 

nei paisagem

Sem a literatura, o espírito acaba
entrando para as gangs de rua
quadrilhas da religião e da política
assaltantes treinados pela indústria
do espetáculo. ladrões do dinheiro
público, fundamentalistas crônicos
burros com pose de malandros
idiotas em cargos importantes

Sem a literatura, o coração seca
antes do corpo e afunda no mar
da mediocridade explícita, a falta
do amor expressa em cegueira
Não que os livros nos salvem
do destino humano de perder
todas as batalhas ou nos circundem
de uma aura santa, nada disso

A sintonia com almas mediúnicas
nos transporta para outro mundo
este mesmo, mas sem as camadas
que nos tolhem a vista. Revela o sol
que há na lua, a seiva com espuma
a flor de milagrosa cura, a arte
que teus olhos contemplam, musa
e geram a explosão oculta, a poesia

 

.


Dos verdadeiros e grandes poetas, o dom da linguagem profética de Nei Duclós

 

nei

O texto televisivo

por Nei Duclós

Juan Soto
Juan Soto
Foi preciso que um  jornalista veterano, Fernando Gabeira, fizesse a pauta óbvia: qual o impacto da liberação da maconha no Uruguai e quais seus principais aspectos, do ponto de vista das autoridades, dos consumidores e do povo em geral? No seu programa na Globo News, Gabeira faz como no noticiário europeu, sem a obrigatória passagem do repórter, focando o principal, deixando a fonte falar sem interferência, só quando for necessário aparecer a pergunta. Gabeira “some” ao longo do programa e só no final senta-se em frente à sua câmara (ele mesmo produz as imagens) numa espécie de assinatura visual do trabalho. Elegante, preciso, discreto, eficiente, informativo.
O texto televisivo assim ganha credibilidade e não se esgarça na aparição reincidente das mesmas figuras carimbadas seguradoras de microfone. Com os novos recursos digitais, microfone ficou obsoleto. Ainda é usado porque não sabem fazer de outra maneira. O gesto mais artificial que existe e o que sobra em programas de auditório: alguém dirigi o microfone que está em sua mão para a boca gargalhando de maneira cretina. No noticiário, o que temos é a realidade atrás dos ombros dos seguradores, que pontificam sem parar, entre alguém que está no link para outro que está no estúdio.
Certa vez trabalhei em televisão e fiquei impactado com o estrelismo de todos, até do office boy. Todos protagonistas de um ego demolidor, impermeável a qualquer observação ou crítica. O chefe de reportagem mandava cobrir todos os dias o sindicato para o qual fazia a assessoria. O apresentador (que também fazia propaganda no varejão dos eletrodomésticos) se achava o editor chefe, e, apaixonado pela própria voz, entrava na redação para dar ordens. O repórter esportivo fazia merda e se garantia porque ganhava mal e se você pedisse mais qualidade batia na mesa com suas enormes manoplas. O correspondente no Exterior selecionava imagens das TVs estrangeiras e ficava pontificando, jamais fazia uma única reportagem, nunca saía à rua. Quando pautei algumas saídas teve um faniquito.
Fiquei impressionado com a quantidade gigantesca de pessoas numa redação de TV para produzir um noticiário ruim e ridículo. A pauta era feita com recortes de jornal (hoje devem chupar da internet). A matéria era derrubada em dominó: quando passava por um dançava na etapa seguinte. Assim uma pauta boa morria nos pauteiros, ou no chefe de reportagem, ou no repórter , ou no editor de ilha e finalmente no apresentador. Quando furava o bloqueio ficavam impressionados com a repercussão. Esse foi o mundo da televisão que conheci, onde eu era execrado por ser “da escrita”, pecador, portanto.
Eu mandava reescrever “cabeças”, as aberturas de matérias, pois achava uma bosta. Eles diziam que isso não existia em televisão e que eu não entendia nada porque era da escrita. Replicava que eu não entendia, mas tinha que reescrever senão não ia ao ar. Ficaram muito, mas muito putos. Aproveitaram a reengenharia, a eliminação de intermediários para sentarem diretamente no colo dos patrões acusando o diretor de redação. Conseguiram. É preciso intervir nas TVs, desde as concessões até o estrelismo, que é conivente com os sucessivos poderes. O ego substitui a reportagem. A publicidade paga todos os espaços e você paga TV a cabo para ver anúncios.
Gabeira vai para a rua. Mostra o Uruguai da maconha liberada, as apreensões, os ataques, as defesas, as perspectivas. Uma situação que tem tudo a ver com o Brasil, pois é um país da nossa fronteira que agora atrai comércio e consumidores da erva. Ele fez também um excelente programa sobre os andarilhos das estradas brasileiras. Vários programas da Globo News são idênticos. Todos sentados em suas poltronas pontificando. Aprendam com o repórter veterano. Tirem a bunda da cadeira e parem de fazer gestos com as mãos falando abobrinhas.

Um Sábado em Trinta dos jornalistas de Pernambuco

O bom de fazer jornalismo: a possibilidade de conhecer pessoas geniais.

Nas entrevistas e reportagens, no final da década de Cinquenta, várias personalidades citavam o cientista e o artista Reinaldo de Oliveira.

Até que uma dia conheci Reinaldo, o professor de médicos, teatrólogos e atores hoje famosos.

Estava no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco, para votar, no dia 17 último, nas eleições sindicais. Na inquietação de matar o tempo, e levado pela saudade, entrei no Teatro Valdemar de Oliveira, prédio vizinho. Pura sorte e alegria, um grupo de jovens ensaiava a peça Um Sábado em Trinta de Luiz Marinho.

1 em 30

2 em 30

3 em 30

Em 1960, Luiz Marinho entregou a Valdemar de Oliveira Um Sábado em Trinta. Parece escrita para os dias de hoje. Particularmente para os jornalistas, que acabam de realizar uma votação bico-de-pena, com urnas prenhas, capangada da CUT, e o mando do coronelismo. Tudo no jeitinho da República Velha.

O Brasil fez uma Revolução, em Trinta, para acabar com a corrupção política, e  mudar uma sociedade, cujos costumes, e comportamento, Luiz Marinho transformou em comédia; e Moacir Japiassu, em romance.

Nei Duclós, poeta de primeira, e crítico literário, escreve sobre Concerto Para Paixão e Desatino, de Japiassu:

“Sua galeria de personagens inclui tantas figuras fundamentais, que elencá-las numa resenha parece ser o relatório do viajante iludido em levar o romance como lembrança. O jornalista do jornal Imprensa às Suas Ordens, cúmplice do assassinato do presidente João Pessoa, ilumina as origens de um conterrâneo tornado ilustre, Assis Chateaubriand; o José Américo recriado aqui revela o lado desconhecido da Revolução de 30, com suas contradições no bojo da luta; o conde cafetão e a soprano lírica amante do político poderoso são um ensaio sobre os bastidores de um movimento que ainda guarda inúmeros enigmas. Não satisfeito, Japiassu ainda brinda o leitor com os antecedentes de toda a situação política e social do Nordeste ao colocar em praticamente dois parágrafos (páginas 185 e 186) as origens da República por meio de ilustres figuras da transição, vindas do Império. Parece um confeito no bolo da noiva, mas é mais uma bala nesse rifle recheado”.

Diz mais Duclós: Wagner Carelli define o livro como um épico “capaz de ser poderoso como um sinfonia de Mahler – mas que se lê rápida, clara e deliciosamente como uma partitura de Mozart”.

Relatei para Moacir Japiassu que, nas eleições do Sinjope, nem parece que o Brasil fez uma revolução em Trinta.

Jornalistas metidos a intelectuais votam encabrestados, sim. Votam do jeito que o governo de Eduardo Campos manda.

Eu, que fui barrado na cancela do Jornal do Comércio que dirigi, revivi as redações eternizadas noutro romance de Moacir Japiassu: Quando Alegre Partiste, “Melodrama de um Delirante Golpe Militar”.

Fico imaginando se o título Quando Alegre Partiste é uma referência a uma época, o Brasil de antes de 1964; um tempo do Nunca Mais, a juventude; uma profissão, o jornalista sonhador e desprendido; uma mulher, talvez Vera, personagem do romance.

O que se foi na alegria, não significa que deixou a tristeza, a solidão, a desesperança de nunca escrever a Carta a uma Paixão Definitiva, título de um livro de crônicas de Japiassu, que considero o maior romancista brasileiro da atualidade. Gosto de repetir, como um mantra, que Moacir Japiassu é o maior romancista brasileiro da atualidade.

Certamente que nunca vou perder a esperança de um Brasil melhor, e este Brasil, que sonho, depende muito dos jornalistas.

Parece paradoxal, a salvação do jornalismo advirá do jornal que se fazia antigamente: o jornalismo opinativo, escrito na primeira pessoa: o jornalismo de opinião, que a rádio informa instantaneamente; e a televisão mostra; e o jornalismo on line consegue ser estas três mídias.

Não quer dizer que o jornalismo impresso esteja morto. Nem o livro. Mauri König mostra que não. E por fazer jornalismo, o verdadeiro, Mauri pena no exílio.

Vizinha à sede do Sindicato, estudantes ensaiavam a peça Um Sábado em Trinta. Que gostoso de ouvir: Falavam de Luiz Marinho, de Valdemar de Oliveira, do TAP – Teatro de Amadores de Pernambuco, de Reinaldo de Oliveira.

Estavam em um ensaio, prova de conclusão do Curso Theatros&Cia, sem esquecer a realidade, de que eram jovens viventes deste ano de 2013, que o Papa Francisco pede para os jovens ir para as ruas do povo.

No Sindicato, os jornalistas viajavam na máquina do tempo, e viviam a farsa de um eleição em Trinta.  (Continua)

5 em 30

4 em 30

6 em 30

CARTA AO AMIGO

por Nei Duclós

chamado Roland Heydes, n


Embora não acredites

estou tão habitado

que pareço um mar



Não só pelos peixes que possuo

das mais variadas espécies

não só pelas aves que me sobrevoam

Mas também pelas ilhas de corais

pelos arrecifes, pelos icebergs que em silêncio

navegam seus volumes submersos

E principalmente

pela quantidade de rios

que deságuam em mim



Estás longe

e lembrei teus olhos

cheios de medo e desconfiança

Hoje está chovendo



Quando chover

sei que vais sentar um pouco

reler teus manuscritos do tempo do colégio

e tentar fazer coisa nova

ou pior, sonhar com eles

até que um vazio incômodo

te derrube por terra



Quando chover, em vez de chorar

lembra de mim

que não cedi um palmo


Ilustração Roland Heydes

Revolução de Trinta: romance e memória por Nei Duclós e Moacir Japiassu

O que aconteceu no outubro de uma revolução brasileira? Um romance e as memórias de ex-combatentes trazem à tona o dia em que o Brasil começou a mudar

Nei Duclós
Especial para o Jornal Opção

Depois de meio século de histórias mal contadas, aos poucos o Brasil inaugurado pela Revolução de 1930 ganha contornos mais nítidos, livres do aparelhamento político de que foi vítima, principalmente a partir do anti-1930, o golpe de 1964. Nestes dois textos, fora da ordem canônica das abordagens, damos um mergulho no que aconteceu na hora agá da revolução nos dois Estados chave do movimento, Paraíba e no Rio Grande do Sul. Um ensaio aborda o romance maior do paraibano Moacir Japiassu e o outro é uma reconstituição do batismo de fogo da guerra que mudou o país no lugar onde a onça bebeu água: Porto Alegre.

História é tiroteio

Linguagem é território livre, mas não deveria estar aberta a certas liberdades. Se o lugar escolhido para moradia for a Paraíba, as palavras precisam seguir a orientação ditada pela sabedoria da terra, e cuidar principalmente da tocaia. Um tiro pela culatra é o que menos aguarda um índio que se aventure na seca abraçada à areia. O que mais assusta é a desventura de ver sua catedral de palha — a percepção que até o momento se alimenta do mundo — sofrer o revés de um pé de vento. Mas para quem é estrangeiro, e queira visitar essas paragens, nada mais resta do que tratar o assunto com as hipérboles do seu espanto, já que o não-nordestino sofre de escassez de entendimento quando se trata de abraçar a Terra do Sol.

Um adventício, especialmente se for criado nas lonjuras sulistas, quando lhe bate a luz excessiva na cara cai na tentação de lembrar o óbvio, de que o caminho escolhido para a criação do mundo foi o verbo, o romance do “Gênesis”. Deus, prudente, preferiu aliar o testemunho por escrito aos seus gigantescos atos. Não fosse assim, quem garantiria crédito ao seu desmesurado esforço? E, melhor: não fosse pela palavra, quem poderia garantir que a encomenda fosse entregue no endereço certo? Pois não bastava inventar, era preciso inventar escrevendo. E assim foi feito o primeiro livro, do qual todos os outros são apenas imagem e semelhança.

O viajante traz na bagagem os arquivos a que está acostumado e quando depara com a Paraíba, por exemplo, é capaz de desistir da empreitada, pois tudo o que vê não poderá amarrá-lo a semelhante paisagem, já que nada ali tem seu feitio, a não ser o idioma, termo mais apropriado do que língua, que serve para diversas licenciosidades. É agarrado ao idioma que o viajante entra na Paraíba, guiado por Moacir Japiassu, que tem, com qualquer viajante, uma identificação plena. Pois ele também, um confesso paraibano auto-exilado, serviu-se da vivência estrangeira para depurar sua criação e entrou de volta não com a curiosidade dos turistas, nem com a condescendência dos que se iludem com os grandes centros, mas com a gana do combatente que volta para algum tipo de desforra.

É bom que se diga: não se trata de vingança, pois nenhum espírito mau sobrevive ao fogo do amor pelo lugar que nos viu nascer e crescer. Mas porque o escritor está empenhado em uma missão in­transferível: a de resgatar o que perdeu, tornando essa herança tão viva para os outros como foi para ele um dia; e tão maior do que qualquer mundo presente.

Todos que estão ao redor de um possuído incorporam as razões da advertência e confidenciam a quantidade de perigos que sugere esse estado. Mas quem é possuído não pela desrazão, mas pela criação obstinada, sabe que não pode voltar atrás. Ele precisa, como Japiassu fez, colocar em ação o moto contínuo de sua febre, composto de uma biblioteca afundada no ermo; um assobiador que é misto de virtuose, intelectual e torturador; um senhor de engenho do mando e do cutelo, dono de escravaria jagunça; outro senhor de engenho solteirão e cheio de remorso; uma sogra carola e terrível; uma esposa apática; uma professorinha na flor do viço e tentada pela esperteza; mais um padre que faz cruzada contra a jogatina. O sezão de Japiassu não se contenta, porém, em dispor esses personagens entre o canavial e a choupana, entre a igreja e a varanda, entre povoados que, no escuro, como ele diz, aglomeram as casas com medo da escuridão. Seu delírio o leva para mais longe.

Ele precisa descobrir, portanto inventar, o engenho de duas guerras acavaladas e isso só pode ser feito se for um leitor compulsivo de tudo o que as armas fizeram nesta nação, onde todos pensam que sabem, mas poucos sabem o que pensam. A revolta de Princesa, no interior da Paraíba, a cavaleiro da revolução de 30, movimento nacional visto aqui pelo prisma revelador do Nordeste, são os espaços históricos da sua incursão à memória mítica do País, ao que nossos pais nos contavam e nenhum livro oficial de história dava crédito. Como as guerras, no Brasil, convivem com as versões que as negam, cabe à literatura desencavar o rebento retido nessa gravidez tardia, que envenena o corpo do Brasil disforme, prenhe de gaiatices sobre revoluções.

O paradoxo é que o material de Japiassu é exatamente essa humanidade sinistra e ao mesmo tempo galhofeira, que é protagonista nos fatos e algoz nas versões. O campo de ação de um escritor fica duplamente minado e agora podemos entender quando Japiassu fala do trabalho que deu reescrever capítulos inteiros, adaptando a linguagem do narrador à fala das personagens. Esse trabalho é fruto do exímio talento aliado à persistência sertaneja, já que Japiassu dá um boi para adiar a escrita de um livro (seus grandes romances só saíram nos últimos anos, depois de décadas de militância na imprensa) e uma boiada para sair dele com a consciência do dever cumprido. O funcionamento desse mundo, que ele resgata inventando, passa pelo cuidado extremo com o detalhe, como o levantamento minucioso de cada peça musical clássica, por exemplo; ou as pistas deixadas pelas revoluções incompreendidas, entre trechos de jornais, manchetes, documentos; ou mesmo o cruzamento entre o clima da terra e o ânimo das pessoas, a geografia e a anatomia. Faz tudo isso usando muitas vezes a linguagem dos brutos: o sexo tem tratamento frontal (mas é praticado de todos os lados), os xingamentos especializam-se na demolição das biografias, o fedor antecipa o tiroteio e assim por diante. E cuida em definir-se pelo pudor dos verdadeiros criadores — ninguém fica sabendo se Isaías, o assobiador, é filho do padre Sabaó (se Isaías não sabe, porque o autor vai lhe devassar esse segredo)? Tudo intercalado (para evitar pomposidades) pela gargalhada explícita — reação comum do leitor em várias passagens do livro.

Sua galeria de personagens inclui tantas figuras fundamentais, que elencá-las numa resenha parece ser o relatório do viajante iludido em levar o romance como lembrança. O jornalista do jornal “Impren­sa às Suas Ordens”, cúmplice do assassinato do presidente João Pessoa, ilumina as origens de um conterrâneo tornado ilustre, Assis Chateaubriand; o José Américo recriado aqui revela o lado desconhecido da Revolução de 30, com suas contradições no bojo da luta; o conde cafetão e a soprano lírica amante do político poderoso são um ensaio sobre os bastidores de um movimento que ainda guarda vários enigmas. Não satisfeito, Japiassu ainda brinda o leitor com os antecedentes de toda a situação política e social do Nordeste ao colocar as origens da República por meio de ilustres figuras da transição, vindas do Império. Parece um confeito no bolo da noiva, mas é mais uma bala nesse rifle recheado.

Estamos longe de ver no concerto de Japiassu apenas uma obra didática, já que ele compartilha do caos que representa sem dó. Mas ele mantém a majestade do maestro que ensina ao impor sua regência. Seu romance reinventa a importância do seu autor, assim como estabelece um novo parâmetro na terra calcinada da literatura brasileira. O autor, imbuído da sua missão e do seu destino, avisa que os mortos não foram enterrados, nem o serão tão cedo. Que os enterrados vivos mordem. Que os excluídos da história sempre voltam. Que Deus, mesmo para os anticlericais, está vendo tudo. E que a punição será severa se tentarem ignorar mais este acontecimento cultural, que reforça a necessidade de o Brasil criar grandes livros, e não apenas literatura descartável.

Diante de um homem como Moacir Japiassu, ungido pelo dom da criação e apoiado pela cavalaria andante do talento, é prudente não exceder-se na conversa, já que se trata de um soldado marcado pela guerra. Diante de um escritor como ele, quem tem juízo cala e escuta. E quem tiver respeito, apresenta armas.

Disfarça que lá vem bala

Na manhã de 3 de outubro de 1930, o tenente-coronel Pedro Aurélio de Góis Monteiro foi passear em trajes civis na rua da Praia e ficou chocado: todo mundo citava seu nome como chefe militar da revolução que iria rebentar em poucas horas. Abatido com a indiscrição dos gaúchos, que faziam os comentários abertamente nos cafés e rodinhas na calçada, foi sentar-se, desolado, num dos bancos da praça da Alfândega.

Aproximou-se então um amigo, oficial do Estado-Maior da Região e ofereceu-se para participar do movimento. O paraibano Góis Monteiro, que confessava não ter vocação militar, disfarçou: “Minha presença aqui na praça já é um desmentido. Mas se isso que estão falando realmente acontecer, o senhor deve ficar ao lado do seu general”.

A tensa volta para casa aumentou seu nervosismo: já estavam assaltando as lojas de armas, os colégios encerravam as aulas e o comércio fechava as portas. Almoçou com a família e despediu-se da mulher e dos filhos: não sabia se tornaria a vê-los. Quando chegou na residência da irmã de Oswaldo Aranha para os últimos preparativos, fez um desabafo contra a “indiscrição da gente gaúcha”. Mas não tinha jeito: o “baile” tinha hora marcada e ele dirigiu-se ao Palácio do Governo para a cartada final.

Oswaldo Aranha também deu seu passeio na rua da Praia naquele dia, junto com o mineiro Virgílio de Mello Franco, um dos principais articuladores da revolução, que conta como foi: “Nosso propósito era despistar, pela nossa aparente despreocupação, o espiões do comandante da Região Militar, que andavam em grande atividade”.

Aranha estava preocupado: já passava do meio dia e o general Gil de Almeida, que tinha saído muito cedo, ainda não estava no Quartel General. Alguém o teria avisado e a pessoa mais importante do inimigo já estaria recolhido a algum outro quartel, esperando os acontecimentos? De repente, um “secreta” a serviço da causa passou por perto e sussurrou: “O home já está em casa”.

Quem não gostou daquela movimentação foi a filha do presidente do Estado, Alzira Vargas. Quando voltou do colégio, às quatro da tarde, a mãe, Darcy, avisou que não dormiriam no palácio pois a revolução iria rebentar depois das cinco horas. “Você precisa ir para tomar conta dos irmãos”, disse para a filha, que tentou reclamar, oferecendo-se para lutar. O irmão, Lutero, estava furioso: “Uns caras entraram no meu quarto e estão trocando de roupa sem pedir licença”. Era Góis e seu Estado Maior, que colocava a farda para assumir a luta. “Desde 25 de setembro a revolução ficara marcada para 3 de outubro”, conta Barbosa Lima Sobrinho. “A necessidade de comunicar a hora certa para um número enorme de pessoas, em todos os cantos do país, fez com que se divulgasse a combinação. Mas quem se atreveria a comunicar a informação ao sr. Washington Luiz, no receio de pilhérias desdenhosas que acolheriam a notícia inacreditada? Assim, ninguém se preveniu para a Revolução, que foi uma surpresa para o governo, muito embora andasse há muito entre os segredos de polichinelo”.

Uma das pessoas que ignoravam tudo era João Simplício, secretário da Fazenda do presidente do Estado, Getúlio Vargas. Os dois despachavam calmamente no Palácio, quanto às 17h30 ouviu-se o primeiro silvo vindo dos lados do Quartel General, seguido de mais um. Segundos depois, era um tiroteio cerrado, que em pouco tem se estendeu à cidade inteira. Diante do susto do seu auxiliar, Getúlio foi muito objetivo: “Calma, João Sim­plício. É a revolução”.

“Foi uma coisa brutal”, lembrou Flores da Cunha num depoimento sobre o assalto ao Quartel General. “Aquilo foi um ato que não se re­produz muitas vezes no mundo. Eu e o Oswaldo Aranha no comando de trinta guardas-civis, que saíram, numa marcha de rotina de policiamento. Quando fronteamos aquele ângulo morto do quartel, um dos guardas gritou: à carga! Eles se atiraram dentro do quartel e arrancaram as armas dos soldados, praticamente com as mãos limpas. Que coisa, que gesto! Morreram três ali mesmo. O que gritou à carga levou um tiro na cara.”

O QG estava situado, naquela época, numa esquina da rua dos Andradas, o quartel do 2º Exército ficava quase defronte e o da Brigada Militar na mesma rua. Vinte dias antes, Oswaldo Aranha selecionou 200 homens e determinou que diariamente, entre cinco e seis da tarde, marchassem em volta do quarteirão, passando sempre mais próximo das calçadas dos quartéis, recomendando que não aceitassem provocações de ninguém, por mais pesadas que fossem. Várias vezes os soldados do Exército provocaram os brigadianos, chamando-os de soldados de brinquedo, bonecos. Assim, no dia 3, o desfile já tinha se transformado em rotina e isso foi fatal.

A filha do general Gil, que morava num dos apartamento que existia no QG, veio direto a Flores da Cunha e advertiu: “Não deixe ninguém entrar no quarto do meu pai, que ele vai se matar”. Flores tranquilizou: “Ninguém vai entrar lá. Tira o revólver da mão dele, que ninguém vai invadir”. A oficialidade da Brigada Militar, segundo Flores, ficou só olhando o tiroteio, da calçada em frente. “Tive que saltar por cima dos miolos de um guarda morto e cheguei a gritar para os oficiais da Brigada: tragam uma padiola para levar este homem e eles me responderam: não existe nenhuma padiola aqui.”

“Exatamente na porta de entrada do Quartel jazia morto, com a cabeça estourada por uma granada de mão, de braços abertos em cruz, um pobre guarda civil”, conta Virgílio de Melo Franco. No meio da rua, no saguão e nas escadas, outros mortos. Seis tinham morrido imediatamente e cinco morreram mais tarde. Ao todo, entre mortos e feridos, 25 tinham sido postos fora de combate. Às 11 da noite, já estavam dominados o QG, o Arsenal de Guerra, o 8º e 9º Batalhão de Caçadores, o Es­quadrão da Região, o Curso de Preparação Militar, o Contingente de Carta Geral e mais a Com­panhia de Estabelecimentos, situado no Parque da Redenção. Só o 7º B.C. resistia.

“A obstinada resistência durava já mais de quatro horas”, conta Góis, “sem qualquer sinal de esmorecimento, sem atender a nenhuma intimidação para capitular. Não tive outro recurso naquela emergência: mandei bombardear o quartel com lança-chamas”. Logo aos primeiros disparos, foi incendiado um pavilhão que alojava uma companhia do Batalhão. A pedido de Flores, Góis fez uma trégua de uma hora para negociar a rendição. Enquanto conversava com o emissário, restabeleceu-se o tiroteio, já que o prazo da trégua tinha esgotado. Foi uma longa negociação, que terminou na rendição do 7ºB.C e a vitória da revolução em Porto Alegre.

O gaúcho Cordeiro de Farias, que estava em Minas naquela época, fez pouco da fuzilaria do sul: “O papel do Rio Grande do Sul não foi preponderante nem na fase conspiratória nem no levante revolucionário. Examinando com cuidado o aspecto militar do movimento, veremos que os gaúchos tiveram uma participação pequena. Para eles foi um ‘dolce far niente’. Em Minas foi diferente. As unidades estacionadas no interior não ofereceram grande resistências, mas o fato é quer em Belo Ho­rizonte a luta foi dramática e prolongada”. Minas, como se sabe, é sempre outra história.

A beleza de dançar Nei Duclós e Kafka


Espetáculo aborda a excessiva preocupação do homem com a imagem física

 
Nos próximos dias 16 e 17 de setembro (sexta e sábado), a Cia. Excaravelhas de Dança apresenta, no Teatro Municipal, o espetáculo “O Canto da Sereia”, no 11º Festival de Dança de Araraquara, numa realização da Prefeitura de Araraquara, por meio da Secretaria Municipal da Cultura e Fundart.

Inspirado nas interpretações da “Lenda do canto das sereias”, de Nei Duclós e Franz Kafka, a proposta coreográfica do espetáculo “O Canto da Sereia” reflete sobre o conceito de imagem, sobre a vaidade, e seu potencial de manipulação do poder instintivo feminino, através da excessiva preocupação com a imagem física do ser humano.

O espetáculo – que tem como público alvo: adultos e jovens a partir de 14 anos – aborda o conceito do ter ao invés do ser, que aniquila a identidade, e o da obrigatoriedade de uma beleza padrão, de uma estética contemporânea construída artificialmente, cheia de enxertos, plásticas, artimanhas; onde as diversidades são anuladas modificando-as, e mascarando-as, aceitando a imposição social que nos diz que ninguém deve ser diferente.

Fazer parte desta humanidade primordial é entregar-se nestas águas infinitas, é a simbologia do entregar-se a este mar dos encantos e ilusões que aniquila nossa expressão de vida, nossa personalidade única, nossa essência. É a pasteurização do ser humano, onde diferenças e divergências não são aceitas.

GRUPO DAS EXCAREVELHAS
Com sua sede em Campinas há 11 anos, o Grupo das Excaravelhas vem circulando com seus espetáculos e workshops por diversas regiões do Brasil e já recebeu diversos prêmios importantes no cenário da dança, como o Funarte de Dança Klauss Vianna 2009, o FICC – Fundo de Investimentos Culturais de Campinas – 2004, VAI – Valorização de Iniciativas Culturais – 2004, 8° Cultura Inglesa Festival – entre outros.

Formado por Juliana Couto, Ló Guimarães e Milena Machado, essa companhia independente tem como principal característica de criação o humor crítico, apresentando situações cênicas que possibilitam envolvimento e proximidade da dança contemporânea com vários tipos de público, bem como explorando diversos tipos de espaço.

O espetáculo “O Canto da Sereia” dá continuidade ao desenvolvimento dessa descoberta do público junto à dança contemporânea, proporcionando uma oportunidade direta de reflexão através de um bate-papo conduzido pelo grupo ao fim de cada apresentação.

Além do espetáculo gratuito, a companhia oferece uma Oficina de Dança com foco no desenvolvimento da criatividade dos participantes, através da improvisação e da composição coreográfica em dança contemporânea. Com 25 vagas, o workshop será realizado na Escola Municipal de Dança Iracema Nogueira, às 14 horas, na sexta-feira (16).

FICHA TÉCNICA
Direção/concepção: Ló Guimarães
Interpretação: Juliana M. Couto, Ló Guimarães e Milena Machado
Sonoplasta/operador de som: Isabela Razera e Katharine Diniz
Operador de luz/Desenho de luz: Darko Magalhães
Figurinista: Fernando Delabio
Consultoria de Produção: Cassiane Tomilhero
Produção Executiva e local: Isabela Razera e Katharine Diniz
Núcleo de Produção: Isabela Razera e Katharine Diniz