“O sentimento que está no coração do jovem é de tempos melhores. E boa parte deles, por mídias sociais, se movimentaram. E foram às ruas”

O NOVO CARDEAL BRASILEIRO, NOMEADO PELO PAPA FRANCISCO, VÊ PARALELOS NA POPULAÇÃO QUE SE MANIFESTA NAS RUAS E NA NOVA POSTURA DA IGREJA, DE TRATAR DE TEMAS QUE ANTES NÃO VINHAM A PÚBLICO

O cardeal Dom Orani João Tempesta. / RAFAEL FABRES
O cardeal Dom Orani João Tempesta. / RAFAEL FABRES

UMA GRANDE MAIORIA SE MANTEVE SILENCIOSA SE MANTEVE SILENCIOSA POR MUITO TEMPO

por Carla Jiménez/ El País/ Espanha

Dom Orani João Tempesta, o novo cardeal do Rio de Janeiro, nomeado pelo papa Francisco no dia 12 de janeiro passado, começou a entrevista para o EL PAÍS, fazendo uma confissão. Ele ainda não conseguiu abrir as correspondências que chegaram de Roma nos últimos dias, portanto desconhece a pauta que será tratada na reunião do consistório, no próximo dia 22. Na ocasião, ele deve estar com o Papa, para a nomeação de outros cardeais.
Natural de São José do Rio Pardo, cidade no interior de São Paulo, dom Orani, de 63 anos, tem a responsabilidade de suceder Dom Eugênio Salles, falecido há dois anos, uma das lideranças mais importantes do país, que teve forte atuação na defesa dos direitos humanos durante a ditadura militar brasileira (1964-1985). O lado altruísta de Salles, porém, guardava nuances conservadoras, mais dogmático para com a Igreja.
“Cada época tem suas bandeiras, suas necessidades”, diz Dom Orani, que foi das comunidades eclesiais de base, e capitaneou a organização da Jornada da Juventude, no ano passado, em meio aos protestos de junho. “Uma grande maioria se manteve silenciosa por muito tempo”, disse ele, no sexto andar da sede de arquidiocese do Rio, no bairro da Glória.

 

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Pergunta. O Papa tem falado muito sobre a corrupção. Isso pode influenciar algumas posturas da Igreja, especificamente do Brasil, em temas como a corrupção na política, por exemplo?

Resposta. Ele tem trabalhado, primeiro, pelo lado interno da Igreja no sentido de reorganizar o Vaticano, e também tem assumido posições muito claras em relação ao mundo de hoje, como a economia, capitalismo, riqueza, pobreza, fome. E desvios, tem colocado isso com muita clareza, chamando o mundo a mudar de posição, e pensar diferente. Além de líder da Igreja, ele acaba tendo liderança mundial.

P. O Brasil está num momento de bastante tensão, num ano eleitoral. Começamos com mensalão do PT, e agora, o de Minas Gerais. Qual é a sua avaliação sobre este momento?

R. Aquilo que faz parte dos bens comuns, os bens do povo, devem ser aplicados para que exista uma vida mais justa. Então essa diferença social enorme, que ainda é muito grande, clama aos céus, e deveríamos fazer de tudo para que aquelas pessoas que não têm uma habitação, alimentação, escolaridade, com dignidade, possam ter. E muitas vezes isso não acontece em função de desvios e situações assim. Essas questão devem ser apuradas, e reencaminhadas. Agora, não podemos ser tão ingênuos. Sabemos que há forças políticas das mais variadas, e em ano de eleições, há situações concretas, outras são criadas. Criar uma reforma política, seria um sonho de um país latino-americano.

P. Como seria essa reforma política?

R. Um caminho para ter mais transparência. Conforme vai passando, e se tomando consciência, do que é o pais, a gente vê que certos tipos de reformas são necessárias. A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tem uma proposta, aprofundada, para colaborar nesse pensamento. Precisamos lutar para que social, culturalmente, este país possa dar passos nesse sentido. Lamentar o que esteja ruim, mas ver os desafios novos. Cada geração tem de ter a responsabilidade e tentar fazer sua parte.

P. A geração anterior dos representantes da Igreja no Brasil foi muito clara no apoio à redemocratização deste país. Quais são as bandeiras desta nova geração, da qual o senhor faz parte?

R. Cada época tem suas bandeiras, suas necessidades. Temos de ter princípios para nos nortear, e aplicá-los, para que as pessoas vivam com qualidade, no lazer, transporte, educação, tudo que faz parte do ser humano. Sei, porém, que existe outra questão, que não depende de lei nem decreto. Que é o coração humano, que tem muita violência. As pessoas não vivem bem e acabam cometendo barbaridades com o outro. Temos de anunciar, mesmo para quem não tem fé e religião, que fazer o bem ao outro é uma coisa boa. Isso não é tão simples, num mundo cheio de egoísmo. Isso extrapola Governo, leis, mas creio também que é um sonho, propor sempre um upgrade.

P. Esses jovens que estão na rua, que saíram em junho, estão ávidos por alguma coisa. O que o senhor enxerga no coração deles?

R. É uma insatisfação com relação a alguns assuntos. Não apenas um aspecto, é um movimento multifacetado, mas que numa parte demonstra insatisfação com representantes, com conchavos políticos que não resolvem os problemas da condução do país. E na fronteira disso, há também aproveitadores, um certo anarquismo, que não respeita o bem do povo. Se eu quero o bem do outro, não vou destruir minha cidade. Mas, ainda estamos dentro de toda essa manifestação, não é fácil enxergar de dentro, mas se percebe um desejo de que as coisas mudem, e que sejam melhor utilizadas.

P. Não existe aqui uma massa mais bem intencionada do que mal intencionada?

R. Difícil equacionar quantias. Às vezes a minoria fala mais alto que a maioria. Mas não há dúvida, o sentimento que está no coração do jovem, é de tempos melhores. E boa parte deles, por mídias sociais, se movimentaram. E foram às ruas. Creio que os grupos menores que fazem barulho, podem aparecer mais, que são o foco do noticiário. Mas não tenho como quantificar. A insatisfação mundial é muito grande.

P. É legítima?

R. É claro, o Papa tem colocado, as pessoas têm que se manifestar, colocar sua opinião.

P. Ele usou a frase “Não gosto dos jovens que não saem de casa”. O senhor concorda com ele?

R. Exatamente, é necessário que digamos as coisas, que falemos. E cada um com a sua consciência. Tivemos uma grande maioria que foi por muito tempo silenciosa, nunca expôs suas opiniões. Reclamava, mas de outro jeito. Hoje as pessoas amadurecem mais rapidamente, a mídia leva mais conhecimento, mais notícias – elas tomam consciência com mais rapidez. Hoje, é claro, já tem outro nível de cultura, próprio dos tempos que mudam. (Transcrevi trechos. Leia mais)

 

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