Papa Francisco: Arcebispo Romero assassinado pela ditadura será beato

Promulgação do decreto relativo ao martírio

 

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Oscar Arnolfo Romero Galdámez será beato. Decidiu o Papa Francisco, que na segunda-feira, 3 de Fevereiro – durante a audiência concedida ao prefeito da Congregação para as causas dos santos – autorizou a promulgar o decreto relativo ao martírio do arcebispo de San Salvador, assassinado a 24 de Março de 1980 enquanto celebrava a missa. Na mesma circunstância foram autorizados os decretos relativos ao martírio de dois franciscanos conventuais e de um sacerdote assassinados em 1991 no Peru, e às virtudes heróicas do servo de Deus Giovanni Bacile.

Eis o texto dos decretos:

A 3 de Fevereiro o Santo Padre recebeu em audiência particular o Cardeal Angelo Amato, S.D.B, prefeito da Congregação para as causas dos santos, durante a qual autorizou a Congregação a promulgar os decretos relativos:

— ao martírio do Servo de Deus Oscar Arnolfo Romero Galdámez, arcebispo de San Salvador; nascido a 15 de Agosto de 1917 em Ciudad Barrios (El Salvador) e assassinado, por ódio à fé, no dia 24 de Março de 1980, em San Salvador (El Salvador);

— ao martírio dos servos de Deus Miguel Tomaszek e Sbigneo Strzałkowski, sacerdotes professos da Ordem dos frades menores conventuais, e Alessandro Dordi, sacerdote diocesano; assassinados, por ódio à Fé, a 9 e a 25 de Agosto de 1991, em Pariacoto e em Rinconada, nos arredores de Santa (Peru); e

— às virtudes heróicas do servo de Deus Giovanni Bacile, arcipreste decano de Bisacquino; nascido em Bisacquino (Itália), no dia 12 de Agosto de 1880 e ali falecido em 20 de Agosto de 1941.

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Óscar Arnulfo Romero Galdámez, conhecido como Monsenhor Romero, (Ciudad Barrios, San Miguel, 15 de agosto de 1917 — San Salvador, 24 de março de 1980) foi o quarto arcebispo metropolitano de San Salvador (1977-1980).

Nomeado em 3 de fevereiro de 1977, exerceu um apóstolo da não-violência, posição que o levou a ser comparado ao Mahatma Gandhi e a Martin Luther King.

Óscar Romero passou a denunciar, em suas homilias dominicais, as numerosas violações de direitos humanos em El Salvador e manifestou publicamente sua solidariedade com as vítimas da violência política, no contexto da Guerra Civil de El Salvador, governado por uma cruel ditadura, tal como acontecia noutros países das América do Sul e Central, inclusive o Brasil.

 

A morte

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Na homilia de 11 de novembro de 1977, Monsenhor Romero afirmou: “a missão da Igreja é identificar-se com os pobres. Assim a Igreja encontra sua salvação.”

Óscar Romero foi assassinado quando celebrava a missa, em 24 de março 1980, por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado nas Escola das Américas. Sua morte provocou uma onda de protestos em todo o mundo e pressões internacionais por reformas em El Salvador.

Em 2010, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o dia 24 de março como o Dia Internacional pelo Direito à Verdade acerca das Graves Violações dos Direitos Humanos e à Dignidade das Vítimas em reconhecimento à atuação de Dom Romero em defesa dos direitos humanos.

A Comissão da Verdade que investigou os crimes cometidos durante a guerra civil de El Salvador indicou em seu relatório, feito há 20 anos, a “evidência plena” da cumplicidade no assassinato do também já falecido Roberto D’Aubuisson, fundador da ARENA (Aliança Republicana Nacionalista), partido que governou o país entre 1989 e junho de 2009.

No entanto, uma Lei de Anistia aprovada em 1993, um ano depois dos Acordos de Paz de 1992 que puseram fim à guerra, deixou na impunidade tanto o homicídio de Romero como outros crimes de lesa humanidade.

A guerra civil salvadorenha deixou um saldo de 75 mil mortos, oito mil desaparecidos e 12 mil aleijados.

Na Galeria dos mártires do século XX da Abadia de Westminster- Madre Elisabeth da Rússia, o Rev. Martin Luther King, o Arcebispo Óscar Romero e o Pastor Dietrich Bonhoeffer
Na Galeria dos mártires do século XX da Abadia de Westminster- Madre Elisabeth da Rússia, o Rev. Martin Luther King, o Arcebispo Óscar Romero e o Pastor Dietrich Bonhoeffer

Papa Francisco: A tortura é um pecado contra a humanidade, é um crime contra a humanidade e aos católicos eu digo: “Torturar uma pessoa é um pecado mortal, é pecado grave!” . Mas é mais: é um pecado contra a humanidade

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O voo do Papa aterrou em Roma, nesta segunda, de regresso da sua terceira viagem apostólica que o levou à Coréia. Logo depois da sua chegada foi à Basílica de Santa Maria Maggiore para levar à imagem de Nossa Senhora um ramo de flores oferecidas por uma menina coreana, em Seul, no momento da partida.

No avião o Papa Francisco falou com os jornalistas dos momentos mais importantes desta viagem, das emoções sentidas em vários encontros, mas também da atualidade internacional, do Iraque ao Médio Oriente. A síntese no serviço de Gabriella Ceraso:

O pensamento ao povo coreano abre e fecha, basicamente, o diálogo articulado em dezasseis perguntas que o Papa teve com os jornalistas, mas foi a atualidade internacional que sobressaiu entre os temas. Antes de tudo o Iraque: a aprovação ou não do bombardeamento americano e uma hipotética viagem do Papa ao país. “Estou disposto a ir”, revelou o Papa Francisco, “mas neste momento não é a melhor coisa a fazer”, e depois reafirma: “é lícito fazer parar o agressor injusto”, fazer parar “não digo bombardear”, esclarece e, em seguida, “avaliar os meios com os quais fazê-lo”:

Fazer parar o agressor injusto é lícito. Mas devemos também ter memória de quantas vezes, sob esta desculpa de fazer parar o agressor injusto, as potências se apoderaram dos povos e fizeram uma verdadeira guerra de conquista! Uma nação apenas não pode julgar como se faz parar isto, como se faz parar um agressor injusto.

Em seguida, a guerra no Médio Oriente. Inútil, portanto, a oração de junho, com Abu Mazen e Peres, no Vaticano?, perguntam ao Papa. Aquela iniciativa “nascida de homens que acreditam em Deus”, “absolutamente não foi um fracasso”, responde o Papa: sem oração, não existe negociação nem diálogo, explica o Papa, portanto foi “um passo fundamental de uma atitude humana”. “Eu creio que a porta está aberta”:

Agora o fumo das bombas, das guerras não deixam ver a porta, mas a porta ficou aberta a partir daquele momento. E eu creio em Deus, creio que o Senhor olha para aquela porta e aqueles que rezam e pedem para que Ele nos ajude.

As emoções sentidas ao encontrar tantas testemunhas de sofrimento na Coréia são a oportunidade para o Papa falar dos efeitos da guerra. No abraço com as mulheres idosas sobreviventes da deportação no Japão na Segunda Guerra Mundial, o Papa Francisco revela de ter visto a dor de todo o povo coreano, dividido, humilhado, invadido e entretanto forte na sua dignidade. Daqui a advertência ao mundo: “devemos parar e pensar um pouco no nível de crueldade a que chegámos “, e depois as palavras fortes sobre a tortura, usada, diz o Papa, “nos processos judiciários e pela intelligence”:

A tortura é um pecado contra a humanidade, é um crime contra a humanidade e aos católicos eu digo: “Torturar uma pessoa é um pecado mortal, é pecado grave!” . Mas é mais: é um pecado contra a humanidade.

Solicitado pelos jornalistas, o pensamento do Papa retorna também à disponibilidade ao diálogo com o povo chinês, que define como “belo, nobre e sábio”. “A Santa Sé mantém abertos os contactos “diz Francisco que revela a vontade de realizar, inclusive imediatamente, uma viagem à China. Há também uma pergunta sobre o processo de beatificação do arcebispo de São Salvador, Monsenhor Óscar Arnulfo Romero, “desbloqueado”, explica o Papa, que exprime o augúrio e que reza, por esse “homem de Deus”, para que tudo “seja esclarecido e se proceda rapidamente”.

Finalmente as tantas curiosidades dos jornalistas sobre coisas privadas: a vida “normal” que leva em Santa Marta; as férias marcadas por um “ritmo diferente” de vida com mais leitura; mais repouso e mais música e finalmente o relacionamento com Bento XVI, um relacionamento “fraterno” feito de contínuo confronto de opiniões. A escolha que faz hoje um Papa emérito “abriu”, afirma Francisco, uma “porta que é insubstituível, mas não excepcional”:

Porque a nossa vida prolonga-se e a numa certa idade já não temos a capacidade de governar bem, porque o corpo cansa-se…, a saúde pode ser eventualmente boa, mas já sem capacidade de levar para a frente todos os problemas de um governo como o da Igreja. E eu acredito que O Papa Bento XVI fez esse gesto dos Papas eméritos. Repito: eventualmente algum teólogo poderá dizer-me que isso não é justo, mas é assim que eu penso. Os séculos dirão se é assim, ou se não é assim. Vamos ver. Mas o senhor poderia dizer-me: “E se Você um dia sentisse não poder prosseguir? Mas eu faria o mesmo! Faria o mesmo. Rezaria muito, mas faria o mesmo.

A volta do padre vermelho

por Carlos Wagneroscar romero

Na conturbada década de 60, no ventre que gestava os miseráveis das regiões agrárias da América do Sul, surgiu uma figura: o padre da Teologia da Libertação, um modo de vida que comprometia a igreja com os pobres. Esse religioso entrou na história como padre vermelho — por misturar marxismo com religião. Logicamente que se posicionava contra o poder, na época representado pelos ditadores militares. Muitos morreram, como o arcebispo de São Salvador Oscar Arnulfo Romero, conhecido como Monsenhor Romero.

Com o tempo, os oprimidos defendidos pelos padres se ergueram com suas próprias pernas e montaram os chamados movimentos sociais, que contribuíram significativamente para democratização do continente, incluindo o Brasil. A Teologia da Libertação cumpriu o seu papel. Daqueles tempos, ficaram as cruzes à beira das estradas dos que tombaram pelas balas dos pistoleiros. E aos expoentes da luta pelos pobres, como Monsenhor Romero, ficou o silêncio de Roma a respeito dos seus feitos.

Mas a realidade conspirou contra Roma. O espaço onde o padre vermelho trabalhava foi ocupado pelo chamado “pastor eletrônico” — ligado às igrejas pentecostais. Nas últimas décadas, os eletrônicos conseguiram se misturar de tal maneira entre a população de baixa renda que a Igreja católica perdeu centenas de milhares de devotos.

Nos últimos anos, Roma tomou várias medidas para reaver os seus devotos. Mas nenhuma delas do calibre da tomada pelo papa Chico ao reabilitar Monsenhor Romero com a reabertura do processo da beatificação do salvadorenho. Para seguidores da Teologia da Libertação, a medida é muito mais do que uma homenagem tardia: é o selo do comprometimento do Papa com os pobres. Para o pastor eletrônico, o revigoramento do padre vermelho vai ser um problema.

Assassinado pela extrema-direita
Assassinado pela extrema-direita