A Liberdade de Imprensa é do jornalista. Não pertence ao patrão

redação liberdade jornalista

Os grandes empresários nacionais e estrangeiros estão adquirindo, com dinheiro de fonte escondida, os meios de comunicação de massa.

A liberdade de imprensa é de propriedade das empresas, e nunca dos jornalistas, que levam um pé na bunda toda vez que escrevem contra os interesses do patronato.

Há uma conspiração golpista no Brasil, e quem defende a Democracia, a Verdade, a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade não tem nenhuma garantia no emprego.

O Brasil não possui nenhuma Lei que regulamente a mídia, que impeça os monopólios, que defenda os direitos dos jornalistas, e a criação dos Conselhos de Redação.

IG demite Paulo Henrique Amorim e tira site do ar

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Carta Maior – O jornalista Paulo Henrique Amorim confirmou por telefone, no final da tarde de terça-feira, que foi demitido pelo portal IG por fax, informou Luiz Carlos Azenha, do site Vi o Mundo. Amorim relatou a Azenha que foi informado, por volta das 17 horas, por fax, que o portal não renovaria o contrato, que vence no dia 31 de dezembro deste ano. No fax, o IG menciona uma cláusula no contrato que daria ao portal o direito de tirar o site do ar dentro do prazo de 60 dias que antece o fim do contrato.

Paulo Henrique Amorim disse também que não poderia gravar entrevista por não ter consultado seu advogado. O jornalista disse que não foi informado do motivo que levou à decisão do IG.

“Paulo Henrique Amorim, que também é repórter da TV Record, é crítico tanto de José Serra quanto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso”, lembrou Vi o Mundo, que também informou:

Dentro de duas horas vai entrar no ar um novo site de Paulo Henrique Amorim. O endereço será http://www.paulohenriqueamorim.com.br.

Mino Carta retira blog do IG
Nesta quarta-feira, Mino Carta, diretor da revista Carta Capital, decidiu retirar seu blog do portal IG, em solidariedade a Paulo Henrique Amorim.

Mino Carta fez sua despedida: “Meu blog no iG acaba com este post. Solidarizo-me com Paulo Henrique Amorim por razões que transcendem a nossa amizade de 41 anos. O abrupto rompimento do contrato que ligava o jornalista ao portal ecoa situações inaceitáveis que tanto Paulo Henrique quanto eu conhecemos de sobejo, de sorte a lhes entender os motivos em um piscar de olhos. Não me permitirei conjecturas em relação ao poder mais alto que se alevanta e exige o afastamento. O leque das possibilidades não é, porém, muito amplo. Basta averiguar quais foram os alvos das críticas negativas de Paulo Henrique neste tempo de Conversa Afiada”.

Apoio e solidariedade da Carta Maior
A Carta Maior expressa aqui sua solidariedade a Paulo Henrique Amorim e também a Mino Carta, pelo seu gesto de apoio e defesa da liberdade de expressão. Episódios como este mostram que o Brasil ainda precisa avançar muito na democratização dos meios de comunicação.

Utilizam a justiça para censurar Paulo Henrique Amorim, Lúcio Flávio, Esmael Morais, Mino Carta, Rubens Glasberg, Luiz Carlos Azenha, Luiz Nassif, Rodrigo Vianna, Juca Kfouri

 

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A Justiça é usada como instrumento de censura contra os jornalistas? Há realmente liberdade de imprensa e expressão no Brasil? É necessária a criação de um marco regulatório nas comunicações? Para responder essas e outras perguntas, o jornal Unidade ouviu os jornalistas e “blogueiros sujos” Paulo Henrique Amorim, Lino Bocchini e também o jurista Fábio Konder Comparato.

Abaixo, a entrevista com Paulo Henrique Amorim.

A questão da mídia, da liberdade de expressão e a Justiça estão em pauta ultimamente. Vários jornalistas vêm sendo processados e, inclusive, perdendo alguns processos contra os chamados “Barões da mídia”. Você acabou de perder uma ação contra o Ali Kamel da TV Globo. Você se sente vítima da Justiça?

Paulo Henrique Amorim– Eu não diria que eu sou vítima da Justiça. Eu sou vítima de um processo que utiliza a Justiça para nos censurar. Não a mim apenas, evidentemente. Temos exemplos múltiplos, desde o Lúcio Flávio no Pará, o Esmael Morais no Paraná, aqui em São Paulo tem o Mino Carta, o Rubens Glasberg, o Luiz Carlos Azenha, o Luiz Nassif, o Rodrigo Vianna, o Juca Kfouri, que não é exatamente um blogueiro sujo, mas sofreu e sofre cerca de 50 processos movidos pelo Ricardo Teixeira.

Então, a Justiça acaba servindo aos interesses dos barões da mídia?

P.H.A.– O que aconteceu historicamente, em minha opinião, é que estamos participando de dois fenômenos simultâneos. O primeiro fenômeno é que houve uma cooptação completa pela Casa Grande. Casa Grande com C maiúsculo, G maiúsculo, na concepção do Mino Carta. Não a Casa Grande do Gilberto Freire, mas a Casa Grande da elite brasileira que hoje fica mais no Jardim Europa do que no Engenho, não é? Mas a Casa Grande cooptou a imprensa. A imprensa, que no meu blog eu chamo de PIG (Partido da Imprensa Golpista), foi completamente devorada pelos interesses da Casa Grande e nada mais é do que a expressão dos interesses políticos, culturais e filosóficos da Casa Grande. Esse é um primeiro fenômeno.

Esse fenômeno tem a ver com o fim da Lei de Imprensa?

P.H.A.– Um fenômeno mais circunstancial, digamos mais conjuntural, é que houve aqui no Brasil uma medida que à primeira vista foi muito progressista que foi o fim da Lei de Imprensa. Ela foi promulgada pelos militares com objetivos restritivos e, quando acabou a Lei de Imprensa, não ficou nada embaixo, não ficou nada que protegesse os jornalistas. Porque mal ou bem, essa Lei era, como diria aquele famoso presidente do Corinthians, uma faca de dois legumes: ela prejudicava a imprensa, mas também a beneficiava. Agora, não tem nada embaixo. E é muito fácil hoje você chegar até a Justiça e dizer que está sendo vítima de uma ofensa moral. Acontece que lá no Supremo, ao julgar a Lei de Imprensa, já foi estabelecida uma jurisprudência que é: não há limite ou restrição à liberdade de expressão. Então, até você provar que houve uma ofensa moral, no caso de uma figura pública, você terá que rasgar a Constituição várias vezes. O problema é que até nós, jornalistas e blogueiros, chegarmos até o Supremo, a gente vai gastar muito tempo e muito dinheiro. Então, qual é a tática, por exemplo, do Daniel Dantas, que move contra mim duas dezenas de ações? É me calar pelo bolso, porque a estratégia dele não é reparar um direito. Ele não está interessado em reparar um direito, em se ressarcir de uma ofensa grave. Para ele, o processo é o fim em si mesmo, a ação na Justiça é o objetivo em si mesmo. Quer dizer, ao me acionar, ele imagina que vou me depauperar financeiramente, vou desistir e parar de falar dele. Ele já percebeu que isso não vai acontecer, porque eu estou falando dele há dez anos e tenho dinheiro para ir até o Supremo. Eu, felizmente, fiz uma carreira no jornalismo bem sucedida por que o salário de televisão é maior do que o da imprensa escrita. Eu fiz, modestamente, uma carreira que me permitiu uma boa remuneração. Eu soube aplicar o meu dinheiro. Então, não há o menor problema. Eu vou ao Supremo cinquenta vezes. Agora, eu me pergunto, quantos jornalistas no Brasil podem fazer isso?

O jurista Fábio Konder Comparato perdeu uma batalha na Justiça contra a Folha de S.Paulo. E o Daniel Dantas, que move dezenas de processos contra você, tem boas relações no Judiciário. Como você, jornalista, vai enfrentá-lo?

P.H.A.– Eu tenho certeza e a minha própria vida nessa batalha na Justiça demonstra isso, que eu sou muito mais vitorioso do que perdedor. Tenho certeza de que a Justiça se faz e se fará. O problema é chegar até o fim. O problema é chegar até o final da Copa do Mundo, tantas são as etapas anteriores. E o que a gente assiste hoje é a tentativa de sufocar por esse desenrolar sufocante de etapas, etapas e etapas. Quantas e quantas vezes eu já fui ao Fórum da Barra Funda. Eu já sou íntimo dos funcionários do Jecrim, que é o Juizado Especial Criminal. Eu sou íntimo, nos tratamos de você, contamos piadas uns para os outros, de tantas vezes que eu fui até lá. Tem gente que sofre quando fica ao lado de um algemado no Jecrim. Para mim isso é normal. Faz parte da minha rotina de jornalista. O meu país, lamentavelmente, criou as condições institucionais para que nós jornalistas sejamos tratados assim. Agora, paciência, eu vou lutar nessa batalha.

O fim da lei de Imprensa teve quais efeitos para a sociedade brasileira?

P.H.A.– Existe um vácuo legal que é o que acontece nas instâncias inferiores até você aplicar a jurisprudência que foi estabelecida na hora em que acabou a Lei de Imprensa. Acabou a Lei porque o ministro Ayres Britto e um dos votantes, o voto mais eloquente, que foi o ministro Celso de Melo, disseram que não há restrição à liberdade de expressão. Aquela que é garantida pela Constituição, entretanto, acabou. Agora, até os juízes intermediários chegarem a essa decisão e, muitos deles, submetidos às pressões que homens como o Daniel Dantas são capazes de fazer, para quem o processo é o fim e não a reparação da injustiça, até que isso se resolva, nós somos a primeira geração de jornalistas que teremos que enfrentar essas coisas e nós vamos enfrentar.

Aparentemente, os jornalistas estão indefesos, não possuem mais nenhuma salvaguarda. Não conseguiram formar o Conselho Federal de Jornalismo, não existe um marco regulatório na comunicação, a sociedade não tem controle sobre as informações que recebe. Como fazer para mudar este quadro?

P.H.A.– Nós temos que disputar em todos os fóruns, em todos os capítulos. Temos que aproveitar todas as chances e uma dessas janelas que nós temos para enfrentar esses ataques à liberdade de expressão é o nosso próprio blog. É dar divulgação a essa batalha. Precisamos informar a opinião pública. Eu, particularmente, sou visado porque eu fui cercado pelo que eu chamo de o sistema planetário que tem o Daniel Dantas como um sol. É um conjunto em que ele é o ponto de referência, ele é o mastro do circo e tem vários picadeiros. Todos os artistas que trabalham nesses picadeiros entraram em ação contra mim, mas eu não tenho a menor dúvida de que ele é o mastro. Ele é o mestre de cerimônias e talvez seja o tesoureiro, entendeu? Então, meu caso é muito peculiar. Mas, não tem problema, porque eu estou agora para fazer e eu vou processar o Daniel Dantas por abuso de usar o Direito. Todo mundo tem o direito de recorrer à Justiça para se defender daquilo que considera um direito ameaçado. Ele, ao me processar 20 vezes, está abusando do direito que o Direito confere e ele vai pagar caro por isso. Estou esperando ele na esquina. Quando ele completou um número significativo de ações contra mim e quando ele entrou no crime também, aqui em São Paulo. Completo esse quadro, essa estante de processos judiciais que configuram um excesso, um abuso de um direito que cada cidadão tem, ele será processado e terá que me ressarcir do dano financeiro que eu tive e o dano moral que eu passei quando estava lá no meu trabalho, na Record, como jornalista e fui interrompido com a chegada de dois seguranças e um oficial de Justiça como se eu fosse um traficante de cocaína. Entendeu? Isso tem um custo.

cigarro Kamel suave

Você foi recentemente condenado em primeira instância em uma ação movida pelo Ali Kamel, o todo poderoso diretor da Rede Globo. Como você analisa esta pendência judicial?

P.H.A.– Essa questão é a seguinte: o Ali Kamel me processa várias vezes porque eu critiquei aquele livro que ele escreveu, Nós não somos racistas. Eu disse, repito e repetirei, inclusive no Supremo Tribunal Federal, que aquele livro leva água para o moinho do racismo, joga lenha na fogueira do racismo. Porque aquele livro é um dos centros ideológicos, uma das matrizes filosóficas do pensamento racista ao delegar, ao subtrair a maldita herança da escravidão que está aqui até hoje no Morro do Alemão, na Rocinha, Paraisópolis, Heliópolis, na USP. Entre na USP e vá à Poli e você vai ver o legado da escravidão, entendeu? E o seu Ali Kamel escreveu um livro para dizer que no Brasil a maioria não é negra, que a maioria é de pardos e como não há negros, não precisa de cota. E ele é o ideólogo contra o Bolsa Família. A matriz do pensamento conservador do Brasil contra o Bolsa Família está nas páginas de O Globo em artigos assinados pelo Ali Kamel. Então, eu direi até o fim dos meus dias que o senhor Ali Kamel é um dos esteios mais sólidos do pensamento racista brasileiro. Aí ele ficou chateado. Então fica essa batalha,. Ele ganha uma, eu ganho outra, ele ganha mais uma e eu outra. Ele ganhou uma agora, mas ganhou uma etapa.[…]

Como você mesmo disse, é necessário ir até o final nesses processos. Mas o que você diria a jornalistas que não têm a mesma condição?

P.H.A.– Nós temos que encontrar mecanismos dentro do Sindicato, dentro do Instituto Barão de Itararé. Precisamos criar mecanismos que deem apoio a esses blogueiros sem condições de ir até o Supremo. Nós temos que fazer isso através das OABs. Veja bem: esse é o início da batalha. Agora que está começando. Por acaso eu sou pioneiro nisso, como o Nassif foi pioneiro, como o Mino Carta. O Mino responde a dez processos do Daniel Dantas. Somos pioneiros nisso, então temos que criar os mecanismos institucionais dentro das nossas próprias instituições, seja no Sindicato, seja na OAB e defender o Lino, por exemplo, até ele ter força para chegar lá. Porque é isso que eles querem. É isso que a Folha quer: sufocar o Lino no começo do campeonato. Entendeu? Na primeira rodada, porque ela sabe que quando chegar lá na final no Morumbi, renovado, a gente ganha. Então tem que matar antes. Até se firmar uma jurisprudência que vá descendo os escaninhos da Justiça e chegue às primeiras instâncias do Brasil inteiro, entendeu?

Qual a sua concepção de liberdade de expressão ou liberdade de imprensa. Como você analisa este tema?

P.H.A.– O ministro Ayres Britto, ao sair da presidência do STF, criou no Conselho Nacional de Justiça, um fórum para elucidar os juízes de primeira instância sobre a questão da liberdade de imprensa. E ele cometeu três erros. Primeiro, ele usou a expressão liberdade de imprensa e, como diz o professor Vinícius [Venício] Lima, o mais importante é a liberdade de expressão. A liberdade de imprensa é uma expressão ligada ao direito empresarial, comercial, industrial de imprimir. A liberdade de expressão é um direito do cidadão que vem desde a Revolução Francesa. O ministro não misturou estes conceitos por acaso e por quê? Porque ele fez com que esse fórum tivesse representantes de fora de duas instituições. Ele não chamou o Guto (José Augusto Camargo, presidente do SJSP), não quis saber do Guto. Ele chamou a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) que é controlada pela Globo e a ANJ (Associação Nacional de Jornais) controlada pelo Globo. Então, vai ser um fórum dentro do Conselho Nacional de Justiça com os membros do Conselho Nacional de Justiça, um representante da Globo, que deve ser o Ali Kamel e outro representante de O Globo que deve ser o Merval Pereira. Isso que ele fez. Agora nós, do Barão de Itararé, através do nosso presidente pro tempore, Altamiro Borges, estamos batendo na porta com a ajuda do nosso advogado Joaquim Palhares, dizendo: “Queremos sentar aí. Queremos sentar aqui, queremos discutir aqui com o Ali Kamel e com o Merval”. Porque só eles dois podem participar desse fórum? Porque esses dois aí, a ANJ e a Abert querem que nós, blogueiros sujos, façamos parte daquele conjunto de pessoas que foram queimadas nas fogueiras da Inquisição. É isso. Nós temos que ter fôlego e temos que criar os mecanismos dentro dos nossos próprios fóruns para poder enfrentar essa batalha, porque o objetivo deles é nos matar no início.

Observatório da Imprensa/ SJSP