Denúncia do “Episódio” Pinheirinho à OEA

O documento apresenta 260 denúncias de ameaças e humilhações. E relata a morte do morador Ivo Teles da Silva:

“O Sr. Ivo Teles da Silva contava com 69 anos e residia no Pinheirinho há 7 anos, com uma companheira.

No dia da desocupação Ivo Teles da Silva foi espancado pela polícia militar, sofrendo lesões em várias partes do corpo. Foi socorrido no Posto de Saúde do bairro e encaminhado ao Pronto Socorro do Hospital Municipal. Ficou desaparecido por mais de uma semana, apesar das insistentes tentativas de localização, por advogados, entidades de direitos humanos e amigos. A única resposta do serviço médico era que somente a Prefeitura poderia dar informações. E a prefeitura, por sua vez, negava haver efetuado qualquer atendimento à vítima.

Ele só seria encontrado cerca de dez dias depois no Hospital Municipal, outra unidade de saúde, já em estado de coma, e após ser submetido a procedimentos cirúrgicos.

O boletim de atendimento de urgência, embora solicitado pela Defensoria Pública e pelo CONDEPE, jamais foi apresentado.

O serviço público de saúde deu alta médica ao Sr. Ivo Teles da Silva, tendo sido encaminhado para a residência de sua filha, em Ilhéus-BA, de cadeira de rodas, pois ainda não andava ou falava. Ele viria a falecer dias depois, em 10.04.2012.

Embora não haja documentos oficias que atestem o nexo de causalidade entre as agressões praticadas pela polícia e a morte, há inúmeras evidências de que o seu falecimento se deu em decorrência dos fatos. As circunstâncias da morte ainda não foram esclarecidas, seguindo a sistemática sonegação de informação pela Prefeitura e demais órgãos da administração pública”.

MAIS DITADURA DA JUSTIÇA

Caso David Washington Furtado. Morador baleado durante a desocupação:

“David foi baleado nas costas, próximo à medula óssea, quando protegia, com seu corpo, sua esposa, dos tiros de arma de fogo disparados pela guarda municipal.

Hoje, apesar da intervenção cirúrgica e tratamentos clínicos que ainda realiza, restaram sequelas nos membros inferiores que o tornaram parcialmente incapacitado. Um de suas pernas está se atrofiando e David Washington Furtado não recebe tratamento médico adequado.

Esse fato e os documentos que lhe comprovam estão amplamente registrados no relatório do CONDEPE” .

A situação das vítimas após a destruição do bairro:

“O Poder Público não tomou qualquer medida prévia para assegurar aos moradores desalojados condições mínimas de sobrevivência. Espantosamente, soube-se que a operação policial fora preparada durante 4 meses (Anexo 15 – Depoimento juíza Marcia Faria Mathey Loureiro).

Em nenhum momento desses 4 meses houve qualquer preocupação com o bem-estar dos moradores, obrigação elementar das autoridades, em especial do governador do Estado. Foram amontoados como animais, em abrigos públicos.

A conduta das autoridades limitou-se ao uso da força na ação policial. Tudo se resumiu a preparar violentamente o despejo das 6 mil pessoas, desprezando-se o direito dos moradores a um tratamento digno por parte do Estado.

Esse tratamento foi cruel e violador das mais elementares regras de humanidade e civilidade. Constituiu mais um capítulo da série de ofensas ao princípio da dignidade humana praticadas no episódio”.

Texto Integral. Leia. Esta mesma gente defende a cassação do presidente Fernando Lugo, indevidamente responsabilizado pelo massacre de Morombí, no Paraguai. E considera justa a chacina (opa! “episódio”, um simples e costumeiro “episódio”) de Pinheirinho, em São José dos Campos , São Paulo, Brasil, que criminaliza os movimentos sociais. Como fazia a ditadura militar, desde os idos de maro de 64.

Golpe na democracia, vitória do “stronismo”

por Daniel Cassol

Assunção, 1º de Maio de 2009. As manifestações do Dia Internacional do Trabalho terminam em frente a uma clínica privada, que abriga desde a madrugada Augusto Montanaro, ministro do Interior e responsável pelas torturas e desaparições durante a ditadura de Alfredo Stroessner, recém chegado de Honduras, onde estava foragido. Há confronto com a tropa de choque da Polícia Nacional. Sobram, para este repórter que fotografava o ato, alguns chutes de um policial, mesmo anunciando aos gritos ser jornalista. Quando a situação se acalma, um dos manifestantes picha um muro da clínica:“sanatório stronista”.

Qualificar uma clínica privada como “stronista” não é apenas um arroubo exagerado de um manifestante, mas um exemplo de como a ditadura de 35 anos deixou mais do que cicatrizes na sociedade paraguaia. O stronismo está vivo e impregnado em instituições como o Poder Judiciário e a Polícia, controladas durante seis décadas pelo Partido Colorado, herdeiro de uma de suas principais tradições: o desprezo pela democracia.

Foi dentro do Partido Colorado que, em 1999, se gestou uma tentativa de golpe de Estado, no episódio que ficou conhecido como Marzo Paraguayo, a crise gerada pelo assassinato do vice-presidente Luis Maria Argañas e pelas evidências de que, por trás de tudo, estava o general Lino Oviedo, que três anos antes havia tentado um golpe pela primeira vez. Libertado da prisão pelo presidente Raúl Cubas Grau, seu afilhado político, Oviedo estaria tramando para chegar à presidência. Os paraguaios foram às ruas para evitar o retorno da ditadura militar. Sete jovens morreram nos protestos, provavelmente alvos de atiradores de elite que se posicionaram em edifícios do centro de Assunção – da mesma forma que aconteceu na noite da última sexta-feira. Cubas acabaria renunciando à presidência. Oviedo, atualmente, é líder do UNACE, partido de direita que ajudou a impulsionar o “juício político” contra Lugo.

Alguns veículos do Paraguai falam em 24 vezes em que os colorados ou outros parlamentares de direita tentaram aprovar o pedido de “juício politico” contra o presidente Lugo. Não sei dizer se foram tantas, mas nos seis meses em que morei em Assunção, em 2009, lembro de duas. Os motivos eram absolutamente prosaicos. Quando surgiu a informação de que Lugo tinha um filho não reconhecido, uma senadora ingressou com um pedido de impeachment no Congresso. Em seguida, a realização de um encontro de jovens ligados a movimentos sociais em um quartel do Exército gerou uma nova tentativa. Era de conhecimento de todos, inclusive da embaixada dos Estados Unidos em Assunção, que desde 2009 se tramava um golpe contra Lugo, como mostram correspondências diplomáticas publicadas pelo Wikileaks.

Na mesma época, o presidente Manuel Zelaya era destituído em Honduras, levando os partidos de esquerda e movimentos paraguaios a protestarem contra a ameaça à democracia no continente. Falava-se na época sobre os riscos de se reproduzir no Paraguai a mesma experiência hondurenha.

É preciso dizer, no entanto, que mesmo reformas simples foram barradas pelo Congresso, hegemonizado pelo Partido Colorado. Acostumada nos privilégios, a elite paraguaia jamais tolerou sequer a mais básica política de cunho social. Atrasada e truculenta, usava o medo do chavismo como justificativa para a histeria – com apoio de um considerável setor da imprensa, liderado pelo reacionário, controverso e mirabolante jornal ABC Color.

Lugo não conseguiu criar um imposto sobre a renda pessoal, cuja inexistência perpetua a desigualdade e os privilégios das elites locais. Na questão agrária, qualquer menção à recuperação das chamadas “terras mal havidas”, distribuídas ilegalmente a grandes proprietários durante a ditadura Stroessner, gerava uma nova onda de desestabilização, que tinha nos grandes produtores de soja um dos principais incentivadores.

Los sojeros, entre eles muitos brasileiros, detêm o poder econômico e político no Paraguai.

Dotado de grande poder, este setor, apoiados pelas multinacionais de sementes e defensivos químicos, sempre pressionou, por exemplo, pela flexibilização das leis ambientais e pela liberação de cultivares transgênicos e de agrotóxicos pesados. Sempre teve a Polícia Nacional e o Exército paraguaio sob seu comando. A concentração de terras e a pobreza no campo são grandes fatores de tensão, mas para os grandes produtores era Lugo quem estava incitando os movimentos camponeses.

Estopim para o golpe

Uma tragédia decorrente de uma disputa por terras supostamente mal havidas em Curuguaty, próximo da fronteira com o Brasil, em uma propriedade de Blas Riquelme, ex-presidente do Partido Colorado, foi o estopim para o impeachment de Lugo. Há uma grande suspeita de armação na incitação à violência, que terminou com a morte de 11 camponeses e seis policiais. Não é possível afirmar nada, a não ser que a tensão no campo foi explorada pelos setores que desde o começo do governo Lugo tentaram abreviá-lo. E que da União de Grêmios Produtores (UGP), a confederação dos sindicatos de produtores rurais do Paraguai, partiu a palavra de ordem pelo “juício político”.

O principal articulador da estratégia oposicionista foi Horácio Cartes, líder de um movimento interno do Partido Colorado, pré-candidato às eleições presidenciais no ano que vem e apontado, pelos Estados Unidos, como tendo ligações com o narcotráfico, segundo revelou o Wikileaks.

O impeachment foi aprovado e sacramentado com rapidez impressionante. Da noite para o dia, a elite paraguaia conseguia levar a cabo o que sempre foi uma obsessão. Fica claro, portanto, que o massacre em Curuguaty foi o pretexto que faltava para que a direita paraguaia recuperasse as rédeas da administração pública – na marra, como é de seu costume.

Desconsiderar esse contexto é ignorar a gravidade do que aconteceu no Paraguai.

(Transcrevi trechos) Leia mais

REPORTAJE AL EX PRESIDENTE FERNANDO LUGO

–En la madrugada del domingo, frente al edificio de la televisión pública, habló de resistencia pacífica. ¿Esa será la táctica?

–Sí. Ya empezamos la resistencia pacífica y un no reconocimiento de la presidencia que se ha instalado después del golpe de Estado parlamentario. Y ya se ven las manifestaciones de ciudadanas y ciudadanos. Las hay. Crecen. Son pacíficas. Se expresan en contra de lo que el Parlamento ha resuelto en el viernes negro. También vamos a hacer reunión de gabinete.

–¿Cuándo?

–A las seis de la mañana. Van a participar todos mis colaboradores que participaban del gabinete cuando estábamos en el palacio de gobierno.

–Al despedirse de los cancilleres de Unasur les dijo que volvería a su trabajo político en las bases. Así lo relató el canciller Héctor Timerman a Página/12.

–Y ya lo empezamos a hacer. Vamos a unir fuerzas con movimientos sociales y sindicales.

–¿Siempre dentro de la no violencia?

–Sí. Siempre.

–¿Por eso el viernes, cuando lo destituyeron, tuvo una actitud apacible?

–Efectivamente. Nos hemos sometido al juicio político parlamentario y hemos aceptado el veredicto para evitar derramamiento de sangre. Estamos contra todo tipo de violencia y ese día se presagiaba violencia y represión. Hoy, ya con el espíritu sereno, las manifestaciones ciudadanas son ejemplares, lo que puede verse en las calles o en las transmisiones del Canal 13 de Paraguay y como lo hace la televisión pública.

Lugo juntó a los suyos para enfrentar el golpe

Como lo anunció en la entrevista con Página/12, el destituido presidente paraguayo Fernando Lugo encabezó una reunión con su gabinete de gobierno para invitarlos a integrarse de forma pacífica a las fuerzas que resisten el golpe institucional. Además, Lugo explicó que en la reunión se analizó cómo responder en las próximos días ante la situación política e invitar a todas las fuerzas que quieran resistir al golpe de Estado. En tanto, la Corte Suprema rechazó el pedido de inconstitucionalidad sobre el juicio político realizado el viernes pasado por el Senado paraguayo para expulsar de la presidencia a Lugo.

Tras la ratificación de la Corte Suprema de la validez del juicio político que lo corrió del poder, Lugo aseguró se hará la apelación correspondiente a las instancias judiciales nacionales e internacionales haciendo este reclamo.

Por último, explicó que solicitó al Mercosur la oportunidad de asistir a su reunión cumbre del próximo jueves en Mendoza para explicar ampliamente las características y consecuencias del golpe de Estado ocurrido en Paraguay. “No se puede definir qué pasará en Paraguay en los próximos meses, pero la lucha que hacemos es para restablecer el orden democrático”, concluyó.

No Paraguai, a justiça é conservadora, elitista, branca (o partido é que é colorado), favorece o apartheid indígena, e foi o poder que mandou desalojar os camponeses da fazenda Morombí, do senador Blas Riquelme, onde aconteceu o massacre de camponeses. Infiltrados puxaram o gatilho. A justiça fez parte do projeto golpista, e os agentes infiltrados precisam ser descobertos. Quem são eles? Brasiguayos? Mercenários estrangeiros ou capangas de latifundiários?

De qualquer maneira, todo desalojamento judicial, obviamente, tem o comando armado da justiça. São soldados do executivo colocados à disposição do judiciário. E quando as forças da lei batem, sequestram e matam nos deslocamentos involuntários dos sem terra, dos sem teto, dos estudantes que ocupam prédios públicos, tais crimes ficam impunes.

Paraguai: fazendeiros estariam por trás da morte de camponeses

Os infiltrados dos latifundiários. Capangas de fazendeiros começaram o conflito. Que provocou a morte de 18 pessoas, entre elas 11 camponeses, na fazenda do senador Blas Riquelme, em uma zona próxima à fronteira com o Brasil. Foi uma “matança” e há informações sobre mais camponeses mortos na área, denunciou à Carta Maior o representante de uma organização campesina, enquanto a porta-voz de outra organização alertou para um plano desestabilizador contra o presidente Fernando Lugo
Os infiltrados dos latifundiários. Capangas de fazendeiros começaram o conflito. Que provocou a morte de 18 pessoas, entre elas 11 camponeses, na fazenda do senador Blas Riquelme, em uma zona próxima à fronteira com o Brasil. Foi uma “matança”, e há informações sobre mais camponeses mortos na área, denunciou à Carta Maior o representante de uma organização campesina, enquanto a porta-voz de outra organização alertou para um plano desestabilizador contra o presidente Fernando Lugo

 

Dario Pignotti – Especial para Carta Maior

A morte de 18 pessoas, entre elas 11 camponeses, ocorrida na semana passada quando a polícia desalojou sem diálogo prévio uma fazenda ocupada por camponeses sem terra no noroeste do Paraguai, em uma zona próxima à fronteira com o Brasil, foi uma “matança” e há informações sobre “mais companheiros mortos no monte”, denunciou o representante de uma organização campesina, enquanto a porta-voz de outra organização alertou para um plano desestabilizador contra o presidente Fernando Lugo.

“Isso que aconteceu foi uma matança contra nossos companheiros, muitas mentiras estão sendo ditas para prejudicar o que a gente disse dos camponeses que estão lutando por terra para trabalhar, que estão lutando pelo direito à reforma agrária. Confirmo que, até esse momento, são 12 os companheiros que foram assassinados”, declarou Damasio Quiroga, secretário geral do Movimento Campesino Paraguaio, em conversa telefônica com a Carta Maior.

“Agora estou falando desde o local onde ocorreu a matança. Estamos chegando agora com companheiros de várias organizações no departamento de Camendiyú. Está chovendo muito, estamos com outros 300 companheiros porque temos informações de que há mais companheiros mortos e feridos. Também ficamos sabendo que alguns foram executados depois de terem sido presos”, relata Quiroga.

A versão midiática-policial do ocorrido é que um grupo de agentes foi atacado quando ingressava na fazenda de um milionário, Blas Riquelme, que enriqueceu à sombra do ditador Alfredo Stroessner (que recebeu asilo político de José Sarney em 1989), ocupada por membros do Movimento Campesino dos Carperos.

A Associação Rural do Paraguai agregou a esse relato o “seguro” vínculo entre os camponeses e os guerrilheiros do Exército Popular do Paraguai. “Este fato, mais o emprego de armas automáticas e de dispositivos explosivos fala de algo mais que um simples grupo de “sem terras”, mas sim de um grupo fortemente armado e organizado, capaz de desferir um golpe mortal a forças policiais regulares”, disse a entidade.

Trata-se de uma versão dos fatos pouco verossímil pois o saldo de vítimas indica, até o momento, que há mais camponeses mortos (11) que policiais (7), entre eles dois elementos do Grupo de Operações Especiais. O relato do camponês Quiroga difere do divulgado pela maioria dos meios de comunicação, a polícia e a associação de fazendeiros.

“Não há nada de verdade em dizer que havia armas automáticas no acampamento de nossos companheiros. Eu posso dizer a você companheiro que não temos nenhuma relação com uma guerrilha que se chama EPP, para nós o EPP não existe, eles estão inventando isso para prejudicar o campesinato que se organiza melhor, porque nós agora não queremos seguir esperando que nos deem terras ruins. Estamos lutando por nossos direitos, estamos lutando pela reforma agrária que nunca chega na prática porque há gente muito rica contra a reforma agrária”, denunciou o dirigente.

– Você disse que “eles inventaram essa história”. A quem se refere?

Os fazendeiros e a polícia que estão juntos em tudo isso, este novo chefe de polícia nomeado por Lugo é uma pessoa muito perigosa, com denúncias de envolvimento com corrupção contra ele, alega Quiroga.

“O atropelo com violência é um mecanismo que sempre foi utilizado pelas instituições estatais como polícia, militares e promotoria para proteger empresários nacionais, transnacionais, latifundiários, sempre a favor do setor privado”, assinalou em um comunicado a Organização Nacional de Indígenas Independentes.

A tensão entre camponeses e latifundiários, setor onde predominam os produtores de soja brasileiros, cresceu desde a chegada de Fernando Lugo ao governo em 2008, quando este prometeu levar adiante a Reforma Agrária e resolver o problema de “terras irregulares”, grandes superfícies de terrenos fiscais que o ditador Stroessner distribuiu entre militares e seguidores, como o milionário Blas Riquelme, o “Carlos Slim paraguaio”, segundo a definição de Martín Almada, o principal ativista de direitos humanos do país.

O ex-bispo Lugo teve como principal apoio social e eleitoral o campesinato que já não o apoia da mesma forma que anos atrás. “Deixamos de acreditar no presidente, pois ele não está cumprindo as promessas. Depois desse massacre nomeou personagens corruptos e de péssimos antecedentes. O governo que havia prometido fazer a reforma agrária está esquecendo seu compromisso e está nomeando colorados corruptos”, disse Quiroga a Carta Maior.

Ele se referia à indicação, como ministro do Interior, de Rubén Candia Amarilla, membro do Partido Colorado (de Stroessner), que ao assumir prometeu mão dura contra os camponeses e anunciou que, de agora em diante, as desocupações das fazendas ocupadas serão realizadas sem estabelecer diálogo com os “carperos”.

“Lugo teve que dar um passo atrás e aceitar a gente do Partido Colorado, foi uma imposição dos setores mais reacionários, o que deixou um setor dos camponeses descontentes com o Presidente. Ao mesmo tempo, há outros setores campesinos que ainda depositam confiança em Lugo e o respaldam criticamente como um mal menor, porque se ele cair agora sem concluir seu mandato que termina em 2013, será uma vitória das forças conservadoras”, sustenta Martin Almada, que acredita que está em curso um plano para desestabilizar Lugo.

O enfrentamento entre camponeses e policiais causou um tsunami político no Paraguai com repercussões ainda imprevisíveis sobre o destino do primeiro governo sem vínculos com o ex-ditador Stroessner, desde o fim da ditadura. “A situação está muito quente, a direita está muito envolvida em tudo isso”, disse à Carta Maior Magui Balbuena, da Coordenação Nacional pela Recuperação das Terras Irregulares.

“O massacre do departamento de Canindeyú foi consequência de um conflito de classes histórico na sociedade paraguaia, produto da sustentação por parte dos três poderes do Estado de um sistema de acumulação e concentração das terras em mãos de uns poucos. A violência prosseguirá se não se iniciar de uma vez por todas a devolução das terras que pertencem ao povo paraguaio e que hoje estão nas mãos de algumas pessoas e não sujeitas à Reforma Agrária”, assinala um comunicado da Coordenação.

Tradução: Katarina Peixoto

Massacre no Paraguai de Blas Riquelme: nem na morte os camponeses conseguiram sete palmos de terra em Morombí

Os familiares queriam enterrar seus mortos em Morombí, terra em que sempre viveram, e grilada pelo senador Blas Riquelme.

Oficialmente, morreram 13 camponeses no confronto com a polícia. Que 13 corpos foram liberados. Além dos hospitalizados e desaparecidos, existem 50 sem terra presos. A lista de mortos, infelizmente, vai aumentar.

A negativa de permitir o sepultamento em Morombí simboliza bem a crueldade dos responsáveis pelo massacre.

Na negativa anticristã:

* A ambição de Blas Riquelme

* A vingança da polícia

* A falta de justiça justiça.  Uma justiça iníqua que autorizou o desalojamento dos camponeses da propriedade grilada por Blas Riquelme.

* E a falta de governo. Ou melhor dito, o Paraguai é governado por um presidente frouxo.

Sepultan campesinos muertos

Aunque los familiares y compañeros de las víctimas habían planteado realizar el sepelio en la hacienda donde se registraron los incidentes, tras ser velados los cuerpos en una capilla de la iglesia Santa Lucía, se decidió el entierro en los camposantos del lugar.

Centenares de personas acudieron, en medio de una pertinaz lluvia, a acompañar los humildes cajones en que fueron trasladados los restos para recibir sepultura.

El dirigente de la organización de los campesinos sin tierra, Luis Aguayo, dijo que se acometerá un plan de acción para exigir al Estado la recuperación de las tierras obtenidas por los terratenientes en forma malhabida como las de la hacienda donde se desarrollaron los incidentes.

Aseguró que, en la muerte de 11 campesinos hubo acribillamiento y asesinatos, y ahora existe persecución, porque no se permite a las personas siquiera preguntar por unos 50 detenidos.

Os corpos dos onze camponeses mortos foram transportados na carroceria de um caminhão e jogados no chão de um quartel
Os corpos de 9 camponeses metralhados foram transportados na carroceria de um caminhão e jogados no chão de um hospital

Morte e Vida Severina

(Auto de Natal Pernambucano)

por João Cabral de Melo Neto

(Trechos)

ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO

—  Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

— Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
— Será de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
— Será de terra e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos).
— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).

— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.

— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.

— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha.
— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.

— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.
— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com quem se dorme.

—–

Funeral de um lavrador. Morte e Vida Severina por Chico Buarque de Holanda. Vídeo

Massacre no latifúndio de Bras Riquelme: 13 Sem Terra mortos

Grileiro Bras Riquelme, o banqueiro do ditador Stroessner
Grileiro Bras Riquelme, o banqueiro do ditador Stroessner

Na região de Curuguaty, departamento (Estado) de Canindeyú, onde a maior parte de seus quilômetros quadrados é latifúndio em mãos de ricos mafiosos do Paraguai e fazendeiros brasileiros e de outras nacionalidades estrangeiras foram massacrados 13 camponeses sem terra na sexta feira da semana passada. Na tentativa de despejar os sem terra, acampados numa fazenda, 6 polícias militares perderam também a vida ao se deparar com uma forte resistência de parte dos camponeses.

O dono da fazenda Campos Morombí, onde aconteceram os fatos, é um dos donos do Paraguai. Blas N. Riquelme é um oligarca que ficou poderoso na época da ditadura militar, dono de terras griladas, de grandes latifúndios em várias regiões do país; se fez rico com a evasão de impostos e a corrupção. Homem do Partido Colorado, em representação do qual foi Senador da República. Segundo a Direção Geral da Verdade, Justiça e Reparação da Defensoria do Povo do Paraguai, a Fazenda Morombí foi cedida de forma irregular ao referido latifundiário. Com tudo isso, o governo do Lugo foi incapaz de recuperar a terra para fins da reforma agrária. Uma justiça corrupta e nazista determinou o despejo violento dos camponeses. Leia mais

Fotos do massacre.