A corrupção seja investigada no executivo, no legislativo e no judiciário

Faixa da passeata deste 15 de março
Faixa da passeata deste 15 de março

 

O povo pediu nas ruas o fim da corrupção.

Que ela seja investigada já! no executivo, no judiciário e no legislativo.

Que o “Abre-te, Sésamo” aconteça em todas as cavernas das prefeituras, das câmaras municipais, dos governos estaduais, das assembléias legislativas, dos tribunais, do governo da União, do Congresso Nacional.

Que todas as cavernas sejam aclaradas. Nas reitorias, nos cartórios, nas estatais, nos quartéis, no fisco, nos serviços terceirizados, nos leilões da justiça, nas quermesses do executivo, nas Anas, nos pedágios…

Que sejam analisadas todas as outorgas, notadamente de fontes de água, de entrega de ilhas marítimas e oceânicas; todas as concessões para explorar os minérios do Brasil, a começar pelo ouro, pelo nióbio, pelos diamantes, pelos meios de comunicação de massa; todos os precatórios assinados pelos desembargadores, e pagos por prefeitos e governadores; todas as isenções fiscais que beneficiam as castas, as elites protegidas pelo sigilo (fiscal e bancário); todas as anistias concedidas pela justiça secreta do foro especial.

Que seja fiscalizado todo o dinheiro arrancado do povo, via impostos diretos e indiretos, para autarquias, planos de saúde, serviços de informações estratégicas, pesquisas de opinião pública, fundações, ONGs, hospitais, igrejas, maçonaria, partidos políticos, promotores culturais, proxenetas e pedófilos dos esportes amadores, escolas e hospitais particulares…

Que sejam exterminados o tráfico de dinheiro, de minérios, de órgãos humanos, de prostitutas infantis; o mercado negro de venda de sentenças judiciais, do dólar paralelo; o contrabando de medicamentos, de madeira nobre; as máfias dos fiscais, dos alvarás, das obras e serviços fantasmas e dos agiotas das campanhas eleitorais…

 

Que prometem o judiciário e o legislativo? Apenas o governo da União anuncia o combate do bem contra as almas sebosas

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A presidente Dilma Rousseff esteve reunida com nove ministros e o vice, Michel Temer, no Palácio do Planalto. Após o encontro, os ministros da Justiça, Jose Eduardo Cardozo, e de Minas e Energia, Eduardo Braga, fizeram um pronunciamento a respeito das manifestações do último fim de semana e reafirmaram que o governo está ouvindo as manifestações e aberto ao diálogo. Cardozo reconheceu que o país precisa passar por uma mudança, pois, só assim, conseguirá superar os desafios. Além disso, os ministros disseram que não vão retirar os programas sociais.

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Não vão retirar os programas sociais

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Durante o pronunciamento do ministro da Justiça, Jose Eduardo Cardozo, a palavra “humildade” foi usada para dizer que o governo reconhece que é preciso mudar, e que para chegar a essa mudança é preciso à união de todos os que estão no poder, seja da base aliada ou da oposição.

“Reitero que até o final da semana, a presidente da República, assim como anunciou no seu programa de reeleição, irá lançar um projeto para auxiliar as empresas a implementar um mecanismo que ajude a coibir e investigar a corrupção. É preciso ter humildade para reconhecer que o momento é delicado e que é necessário uma mudança. O governo está aberto ao diálogo com todos, oposicionistas ou não, e estamos abertos a debater com a sociedade brasileira. A presidente Dilma Rousseff governa para 200 milhões e não apenas para os que votaram nela”, comentou Cardozo.

Já o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, reforçou as palavras de Jose Eduardo Cardozo:

“O governo sabe que temos um desafio grande, e que é preciso enfrentá-lo. O governo buscou até o esgotamento da sua capacidade com o Tesouro para combater esse momento, e tentando manter todos os programas sociais. Todos esses ajustes são com o único objetivo de continuar crescendo, e alcançando o nível que queremos chegar. Mas para vencer desafios, é preciso coragem para mudar. Reforço que esses novos ajustes serão necessários para que possamos deixar a nossa economia saudável por emprego e distribuição de renda. Um governo que tem compromisso com a transparência e a eficiência, não pode se esconder neste limite, e é isso que nós estamos fazendo, anunciando que chegamos a esse limite”, anunciou o titular da pasta de Minas e Energia.

Ao ser questionado sobre como a presidente ficou após ver todas aquelas pessoas nas ruas protestando contra a corrupção e contra seu governo, o ministro Eduardo Cunha lembrou-se do passado político de Dilma Rousseff para mostrar que ela aceita qualquer manifestação, desde que democrática.

“A presidenta Dilma sofreu uma prisão lutando pela democracia, ela perdeu a sua liberdade para que conseguíssemos nossa democracia, portanto, ela encarou as manifestações de ontem com esse sentimento. Sentimento de quem prega a liberdade de reivindicações, desde que democráticas, e as reivindicações que tivemos nos últimos dias foram totalmente democratas”, explicou Cunha.

Para encerrar, o ministro da Justiça, Jose Eduardo Cardozo, comparou as manifestações do último fim de semana com as que aconteceram em 2013, e que ao contrário do que ocorreu há um ano e meio, desta vez existe uma causa direta, a corrupção.

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Desta vez existe uma causa direta, a corrupção

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“As manifestações de ontem, foram totalmente diferente das manifestações de 2013, antes foram reclamados outras coisas difusas, hoje o povo se manifesta pela corrupção. A grande verdade, é que a corrupção é muito antiga no Brasil, mas hoje ela é investigada e punida. Na história brasileira, desde a constituição de 88, passando por todos os governos, o Brasil trabalha para que possamos investigar coisas como essas”, encerrou Cardozo. Fonte Jornal do Brasil 

O Papa excomunga a máfia italiana

Francisco faz um duro discurso contra a ‘Ndrangheta depois da morte de uma criança
Criança de quatro anos é assassinada na Itália em ajuste de contas mafioso

O papa Francisco aos mafiosos: Peço-lhes de joelhos, convertam-se

 

O papa Francisco, diante de dezenas de milhares de vizinhos da Calábria, a terra da ‘Ndrangheta, o local onde no último mês de janeiro Cocò, uma criança de três anos, foi assassinada e carbonizada junto a seu avô durante um macabro ajuste de contas, deu um passo mais em sua oposição de enfrentamento à máfia. “A ‘Ndrangheta”, disse ontem Jorge Mario Bergoglio chamando o mal pelo nome, “é a adoração do mau, o desprezo do bem comum. Tem que ser combatida, afastada. Isso nos pedem nossos filhos, nossos jovens. E a Igreja tem que ajudar. Os mafiosos não estão em comunhão com Deus. Estão excomungados”. Uma grande ovação rompeu o silêncio de uma terra acostumada a se calar.

As palavras de Francisco, ainda podendo parecer uma redundância, não o são. A Igreja católica não se destacou historicamente por levantar a voz contra a máfia. A lembrada intervenção de João Paulo II em Agrigento (Sicília) em 1993 —“mafiosos, convertam-se, um dia chegará o julgamento de Deus”— foi uma pedrada em um lago quieto. Nem antes nem depois a hierarquia do Vaticano soube acompanhar os padres de um povo que em Nápoles, Sicília ou Calábria romperam o silêncio contra a Camorra, a Cosa Nostra ou a ‘Ndrangheta e, em alguns casos, pagaram com sua vida o atrevimento. A intervenção de Bergoglio durante a missa que fechou sua visita a Cassano allo Jonio —o povoado de 17.000 habitantes, província de Cosenza, onde foi assassinado Cocò— vem a confirmar sua postura radical contra a máfia que já apontou o último 21 de março em Roma.

Naquele dia, Francisco converteu-se no primeiro Papa a ir à cerimônia anual em memória das mais de 1.500 vítimas da máfia. Jorge Mario Bergoglio entrou na igreja de São Gregório VII com Luigi Ciotti, um padre famoso na Itália por sua velha luta contra o crime organizado, e depois de escutar os nomes das vítimas inocentes dirigiu-se a seus verdugos: “O poder, o dinheiro que têm agora, os ganhos de tantos negócios sujos, de tantos crimes mafiosos, o dinheiro ensanguentado não poderão levá-lo à outra vida. Peço, de joelhos, se convertam”.

Na Calábria ele deu um passo a mais. Anunciou a excomunhão dos mafiosos, o que também pode parecer um gesto simbólico, mas é algo mais profundo. Por um lado, não se pode esquecer que muitos mafiosos, e em especial os que pertencem à estrutura da ‘Ndrangheta, incluem em sua simbologia termos e inclusive devoções cristãs. Por outro, a Igreja italiana, como tantos outros setores da sociedade, conviveu durante séculos com as máfias. Às vezes, como um problema menor. Outras, como um poderoso aliado. Ninguém esquece da infiltração de personagens da máfia e da política mafiosa no banco do Vaticano ou do fato, que chamaremos de pitoresco, de que o motorista que conduziu o veículo de Karol Wojtyla em sua primeira visita oficial à Sicília, em 1982, se chamava Angelo Siino e pertencia à Cosa Nostra. A sombra dessa interseção de interesses também parece estar por trás do desaparecimento jamais esclarecido da criança Emanuela Orlandi em 1983.

O papa Francisco não só parece disposto a fazer tábula rasa com essa inércia perigosa do Vaticano, como também a mudar radicalmente —não só com palavras, mas também com gestos— o roteiro. Durante sua visita a este recanto de Calábria, Bergoglio esteve com os presos do presídio de Castrovillari (onde se reuniu com o pai e as avós de Cocò) e com os doentes terminais do hospital San Giuseppe Moscati; almoçou com um grupo de pessoas atingidas pela pobreza extrema e, quando se reuniu com os padres da região, disse a eles que se dediquem menos a eles mesmos e mais às famílias.

Também levou sua fala às instituições. Durante a visita à prisão —afetada como todas as italianas por uma superpopulação que multiplica a dureza das condenações— Francisco disse que “é essencial que os detentos compreendam a importância de respeitar os direitos fundamentais do ser humano”, mas também, advertiu, que as instituições penitenciárias trabalhem para conseguir uma efetiva reinserção dos presos na sociedade. “Quando este requisito não se cumpre”, acrescentou, “a execução da pena se converte em um instrumento de castigo e represália social e, ao mesmo tempo, danoso para o indivíduo e para a sociedade”.

Quando se reuniu com os pais da criança Nicola Campolongo e de Cocò, Bergoglio os confortou, dizendo: “Que não existam mais vítimas da ‘Ndrangheta. E, sobretudo, mais violência contra as crianças. Que nunca mais uma criança tenha que voltar a viver este sofrimento”.

Bergoglio lembrou-se de Cocò em uma terra que, quando o recorda, só o faz em silêncio.

O silêncio cúmplice do medo

A omertà, esse código de silêncio construído de medo, de lealdade ou da ligação de alguns materiais que a máfia sabe manipular tão bem, pode ser tocado nas ruas de Cassano allo Jonio. Só é necessário lançar uma pergunta aparentemente inocente enquanto se espera a chegada de Jorge Mario Bergoglio a bordo de seu carro descoberto: Por que acha você que o Papa vem? E então Antonio Mancuso responde: “Vem nos pedir perdão por levar para Roma nosso bispo”. Diante da expressão de estranhamento do estrangeiro, se vê forçado a acrescentar: “E porque se chama Francisco e nesta terra nasceu São Francisco de Paula…”.
A resposta parece com a que, de início, oferecem os compadres, já aposentados, Mario Pennini e Giacinto Pellicano ou com a que dá Maria, rodeada por suas filhas adolescentes. Mas Maria não demora em confessar —baixinho, isso sim— diante da tristeza da evidência: “Isso que acontece aqui [jamais a palavra máfia ou a palavra ‘Ndrangheta, só às vezes o sucedâneo de “a má vida”] nos tem asfixiado. Está levando nossos filhos, arruinando suas vidas, matando-os. Não podemos continuar vivendo assim, mas não podemos falar se não queremos que nos calem”.
O medo, a granel, em estado puro. Disfarçado de eufemismos sempre e ontem escondido nas bandeirolas brancas e amarelas do Vaticano, na orquestra autárquica e nos novos sorvetes “com sabor Francisco”. O medo é o que provoca a ausência cúmplice de um nome nas bocas e nas paredes. O Papa vem a este recanto da Calábria, sabem todos, porque a ‘Ndrangheta matou Cocò, o matou e o cozinhou no interior de um carro, junto a seu avô e a sua jovem noiva. Mas o nome de Cocò não está em nenhuma parede, ninguém parece se lembrar dele. Até o prefeito, Giovanni Papasso, um socialista convencido de que a ‘Ndrangheta destroçou seu carro e queimou sua casa, procura, no início, sair pela tangente. Depois, à sombra da igreja grande, admite que sim, que a pressão e o medo são sentidos, que é um drama que nesta terra fértil e de gente boa a única saída dos jovens seja a emigração ou…
—Sim, diga prefeito.
—A ‘Ndrangheta.

 

BRA_CB máfia dos alvarás

Ceará
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São Paulo
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Espírito Santo
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O luxo e a luxúria de uma das máfias que roubava São Paulo. Existem outras nas prefeituras das grandes cidades

mafia fiscais

 

Luís Alexandre Cardozo de Magalhães, um dos auditores fiscais de São Paulo investigados por corrupção, foi libertado na madrugada desta segunda-feira última. Essa investigação começou em 2006 e revelou um esquema que pode ter causado um prejuízo de até meio bilhão de reais aos cofres da prefeitura paulistana, informou o Jornal Nacional da Tv Globo.

Eram prefeitos: José Serra, empossado em 1 de janeiro de 2005, e Gilberto Kassab, que governou São Paulo de 31 de março de 2006 a  1 de janeiro deste ano.

Segundo a investigação, Luis e outros três auditores fiscais formaram uma quadrilha para cobrar propina de construtoras em troca da liberação do termo de quitação do ISS, o Imposto Sobre Serviços, com valores muito abaixo do real. Sem esse documento, as construtoras não conseguiriam o Habite-se.

O esquema começou a ruir quando a controladoria da prefeitura comparou os salários com a declaração de bens dos envolvidos. Outra peça importante na investigação foi Vanessa Alcântara, apontada pelos promotores como ex-amante de Luis Alexandre.

O novo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou que foram abertas outras investigações para erradicar a corrupção.

“Novos 16 processos foram instaurados envolvendo suspeitas que não dizem respeito a esse esquema. Mas que podem nos ajudar a descobrir outras quadrilhas, dado o tamanho da incompatibilidade entre o patrimônio declarado e o patrimônio real que foi apurado pelas investigações da controladoria”, declara Fernando Haddad.

 

Vanessa Alcântara máfia alvarás São Paulo

Revela Istoé: Testemunha-chave do escândalo, Vanessa Alcântara revelou como agia o grupo acusado de desviar cerca de R$ 500 milhões dos cofres públicos. Vestida sobriamente, bem maquiada e como uma voz firme, ela diz que o ex-companheiro sempre afirmou que, se um dia o esquema ruísse, iria entregar todo mundo, sem poupar ninguém.

Istoé – Como você conheceu o Luís Alexandre?
Vanessa –
 Eu era representante comercial em 2010 e fui atendida por ele na prefeitura. Trocamos cartões e ele me ligou para sairmos. Depois de um tempo, começamos a namorar. Eram jantares e noitadas maravilhosas regadas a vinhos e champanhes nas melhores casas da noite paulista. Não conhecia esse mundo de se gastar R$ 10 mil reais em um jantar. Ele era muito encantador e sedutor comigo. Logo no início, ele me deu uma gargantilha de ouro. Não foi difícil se apaixonar por uma pessoa que te trata tão bem. Principalmente, porque estava separada, com um filho, e carente.

Istoé – Você ficou encantada com esse mundo de luxo?
Vanessa –
 Tudo era muito fantástico e real. Adorava aqueles jantares com pratos exóticos, com javalis, hotéis deslumbrantes e passeios em lanchas. Quando você está acostumado com o lixo e se depara com aquele luxo é deslumbrante. O Luís não era nenhum príncipe encantado, mas depois que começamos a namorar ele emagreceu 16 quilos, cortou a barba e começou a se vestir melhor. Ficou bem.

Istoé – Você levava uma boa vida, então?
Vanessa – 
Tinha uma vida de madame. Morávamos numa casa de 500 m², com quatro quartos, três banheiras de hidromassagem. O aluguel era de R$ 6 mil. Na verdade, dinheiro não era o problema. Ele não me deixava trabalhar. Nossa casa tinha quatro empregados e tudo à disposição. Em muitos fins de semana, a gente ia de avião particular para Angra dos Reis, pegava a lancha dele de 44 pés, que ficava na Marina Pirata, e dormia em alto-mar. Era fantástico. A gente ia tomando champanhe na proa. Não posso negar que eu adorava.

Istoé – Você também fazia gastos extravagantes?
Vanessa – 
Adoro moda. Apesar de ter um estilo hi-low, sempre consegui combinar peças populares com outras de grife. Não era de exagerar, mas já cheguei a comprar uma bolsa Chanel de R$ 8 mil, diversos casacos de pele e contabilizei 120 pares de sapatos.

Istoé – Luís revelava que o dinheiro daquelas noitadas e das compras vinha da corrupção?
Vanessa – 
Só depois que começamos a viver juntos é que soube. Aí, ele adorava vangloriar-se que era corrupto. Ele adorava ser o mafioso, o bandido grandioso e esperto. Ele gosta de contar a história de sua primeira mala de dinheiro conseguida com a corrupção. Ele diz que comprou um Vectra zero. O Luís gosta tanto do mundo do crime que, sobre a mesa do nosso escritório, ele mantinha um boneco do Al Capone.

Istoé – Quando vocês começaram a se desentender?
Vanessa – 
Ele tinha um ciúme doentio. Brigava comigo e com outras pessoas na rua por causa desses rompantes de agressividade. Nós assinamos vários boletins de ocorrência juntos. Como eu não sei apanhar e não reagir, também batia nele.

Istoé – Então as brigas de vocês eram violentas?
Vanessa –
 Muito. Ele me batia, eu batia nele. Ele me chutava, eu o mordia. Às vezes, essas brigas acabavam na polícia. A única vez que instalei um inquérito foi quando eu estava grávida de dois meses e apanhei dele. Ele queria que eu tirasse o bebê. Não aceitei. Tomei vários chutes e socos na barriga. Saí do flat dele sangrando e inconsciente numa ambulância para o hospital. Mas não perdi o filho.

Istoé – Mas por que você ainda ficava com uma pessoa tão violenta?
Vanessa –
 Ele tem uma conversa terrível, bom de lábia. Depois das brigas, ele acabava levando buquês de flores e até uma guia espiritual para intermediar as crises. Eu acabava perdoando. Com dois filhos, a gente sempre acha que o outro vai mudar. Ele pedia perdão e eu acabava cedendo. Gostava dele.

Istoé – Como é esta história de guia espiritual?
Vanessa – 
Depois das brigas ele chegava em casa junto com a mãe de santo e me convencia de que estávamos possuídos. Ela gastava três horas benzendo tudo, espalhando arruda pelo flat e rezando. Eu não resistia e acabava perdoando.

Istoé – Quando foi que o relacionamento de vocês acabou?
Vanessa – 
No meio deste ano, coloquei ele para fora de casa. Não aguentava mais aquela relação doentia. Ele chegou com um fusca verde 66 em casa e já tínhamos outros cinco carros na garagem. Eu perguntava: pra que tudo isso? Ele dizia que era dinheiro.

Istoé – E você não denunciava o Luís porque também se beneficiava desse dinheiro?
Vanessa – 
Eu sempre ameacei denunciá-lo toda vez que apanhava, que a gente brigava. Uma vez escrevi um e-mail para a Polícia Federal com poucas informações, dando as pistas sobre a corrupção e citava o nome dele. Crie até o e-mail BMW3886@gmail.com para fazer a denúncia – era o nome do carro que ele mais gostava, com a idade e o ano do veículo.

Istoé – Você queria dinheiro com essa denúncia?
Vanessa – 
Ele achava que era isso. Errou. Nós nos separamos e ele não quis aceitar as condições que eu tinha estabelecido, como uma pensão de R$ 3 mil, que era o equivalente ao salário dele.

Istoé – Você chegou a ver como era o relacionamento dele com a quadrilha?
Vanessa –
 De altos e baixos. Depois que um deles ficou viciado em cocaína, as coisas começaram a desandar e vieram as brigas.

Istoé – Como eles operavam o esquema?
Vanessa –
 Eles superfaturavam as guias do ISS e negociavam a propina. O dinheiro era dividido entre os quatro (Luís Alexandre Magalhães, Ronildo Bezerra Rodrigues, Carlos Augusto de Lallo Amaral e Eduardo Horl Barcelos). Eles alugavam um escritório perto da prefeitura que eles chamavam de cafofo – os promotores chamam de ninho, mas eles não usavam esse nome. Quando marcavam encontros, falavam cafofo. Era lá que aconteciam as negociações.

Istoé – A propina era paga em dinheiro vivo?
Vanessa –
 Não sei se era toda assim. Mas o Luís chegava em casa com mochilas cheias de dinheiro. Quando os blocos de dinheiro chegavam desorganizados, nós sentávamos no tapete de casa, espalhávamos aquela dinheirama e separávamos em pacotinhos iguais para os quatro do esquema.

Istoé – O esquema funcionou durante todo o tempo em que eles trabalharam na prefeitura, com todos os prefeitos?
Vanessa – 
Eles operavam na gestão Kassab. Teve uma ou outra coisa no governo Haddad, mas fiquei sabendo por um despachante que só tinha uma pessoa operando nesse atual governo.

Istoé – Eles mostravam algum medo de serem descobertos?
Vanessa –
 Eles nunca achavam que iam ser pegos ou que ia dar alguma coisa errada. Eles não tinham limites para roubar e nem medo de serem presos. Eu sempre perguntava qual era o limite. O Luís falava que tinha filhos e que precisava montar um patrimônio para eles. O único medo dele é de macumba. O negócio dele era dinheiro, dinheiro e mais dinheiro. Quanto ao risco de ser preso, ele sempre dizia que, se um dia o esquema ruísse, ele seria o primeiro a entregar todo mundo. Ele não ia poupar ninguém. Ia ser o primeiro a se oferecer para a delação premiada.

Istoé – Como ele investia o dinheiro?
Vanessa –
 Imóveis. Só em Angra ele tem cinco flats. Em Araraquara, ele tem uma casa com uma adega para 400 vinhos e uma charutaria climatizada no centro da casa. Tudo registrado na empresa da ex-mulher, Ana Luzia Passos.

Istoé – Ele contou se operava só com os grandes empreendimentos?
Vanessa – 
Corriam processos maiores e outros menores. Nem sempre os grandes negócios caíram nas mãos dele. Teve uma época que a turma tirou ele do esquema das grandes operações e aí cada um agia por conta própria. Existiam vários grupos atuando dentro da prefeitura.

Istoé – Ele achacava muita gente?
Vanessa – 
Ele era baixo. Certa vez, ele chegou numa obra para fazer uma vistoria, o empreendedor estava sem dinheiro para pagar o achaque e ele levou uma televisão do cara.

Istoé – Ele chegou a trabalhar diretamente com o prefeito?
Vanessa – 
O esquema colocou o Luís Alexandre no gabinete para ele dar uma maneirada, acalmar um pouco. Ele operava de uma forma muito agressiva, era louco.

Istoé – Por que você decidiu denunciar tudo?
Vanessa – 
Quando a polícia e o Conselho Tutelar entraram na minha casa com um mandado para buscar meus filhos, alegando que eu era louca e não tinha condições de cuidar das crianças, peguei o telefone e liguei para todo o grupo e disse a eles que iria detonar o esquema. Falei para o Ronilson, o Barcelos e o Lallo: ‘Vou f… todo mundo’.

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Istoé – Como eles reagiram?
Vanessa – Ficaram apavorados. O Barcelos disse: ‘Agora a briga é nossa. Nós compramos essa briga para você. Fica calma’. Na verdade, eles queriam pôr panos quentes e pediam para eu segurar um pouco. Mas eu não segurei.

Istoé – E então o que fez?
Vanessa – No início de setembro liguei para a Controladoria-Geral do Município e falei com o corregedor Spinelli. Os meninos da prefeitura e o promotor vieram ao meu encontro aqui em Valinhos e entreguei para eles 150 páginas de documentos e vídeos que comprovavam a corrupção. A partir daí fiz jogo duplo.

Istoé – Como assim?
Vanessa – Eu não sabia, mas quando eu liguei para o Ronilson e o Lalo na noite em que a polícia levou os meus filhos e disse que iria revelar tudo, eu já estava grampeada pela Federal. Depois que soube disso continuei a negociar com o grupo, sem que eles desconfiassem que a polícia estava gravando tudo. Nessas conversas ficou comprovado que eu não queria dinheiro, mas meus filhos de volta. Nas tratativas, eles falam até em “comprar meu bebê de mim”. Servi como uma cola superbonder que uniu todas as peças da investigação.

Istoé – O que tinha nesse material que você entregou para o promotor?
Vanessa – Está sob segredo. Não posso dizer para não atrapalhar as investigações, mas eram documentos que comprovavam minhas denúncias. Havia também gravações que mostram como funcionava o esquema.

Istoé – Em algum momento você ficou com medo?
Vanessa – Ainda tenho muito medo. Mas o maior problema foi naqueles dias de silêncio que tive de aguentar. Ligava para o MP, para a CGM, enfim, queria pôr a boca no mundo para tentar trazer meus filhos de volta. Isso foi em setembro e os investigadores me pediram até o fim de novembro para estourar o esquema. Foi uma aflição ficar tanto tempo em silêncio.

Istoé – Quando você soube das prisões?
Vanessa – Assim que a polícia começou a executar os mandados de busca e apreensão. Eram seis horas da manhã do dia 30 de outubro.
Eu gritava dentro do carro como se fosse um gol.

Istoé – Se o Luís Alexandre tivesse feito o acordo para pagar a pensão você teria denunciado o esquema?
Vanessa – Não. Se ele tivesse me deixado quieta com meu filho, dado a pensão correta, ficaria quieta. O Luís não aceitou minhas condições, mesmo depois que seus amigos o advertiram.

Istoé – Quais eram as suas exigências?
Vanessa – O filho, a pensão, o cachorro Thor, um sharpei que amo, e minha máquina fotográfica profissional.

Istoé – Quais serão os próximos passos?
Vanessa – Tudo que eu quero são meus filhos de volta. Esse processo precisa ser revisto urgentemente. Foi tudo uma grande armação. Depois de uma briga nossa pelo telefone, eu surtei de raiva dele e quebrei uns jarros e algumas peças da prateleira. Com isso, ele entrou com um processo na Justiça, alegando que eu sou louca e perdi a guarda das crianças. Tenho certeza que meu marido armou tudo isso. Pior. Ele foi preso e nosso filho ficou com a babá.

Istoé – Como você está vivendo?
Vanessa – Trabalho como gerente de uma loja, moro em um apartamento de 50 metros quadrados e tenho o mesmo carro, uma Tucson.

Istoé – É verdade que o apelido do Luís Alexandre é “louco”?
Vanessa – Louco e camicase. Na verdade, deveria ser burro. Perder R$ 15 milhões por causa de uma pensão de R$ 3 mil, um cachorro de estimação e uma máquina de fotografia, não é loucura. Aí já é burrice.

 

“Os juízes condenados por crimes cometidos no uso da toga têm como pena somente a aposentadoria compulsória por mais imoral que seja o crime”

OS AMARILDOS DA JUSTIÇA

Debaixo de vara a polícia prende qualquer um no Brasil. É assim que desaparecem os Amarildos. A polícia com o poder de fazer justiça fica próxima dos justiceiros.

A vara era a insígnia dos juízes.

O termo persiste. Vara é uma divisão na estrutura judiciária que corresponde à lotação de um juiz. No caso da Justiça Federal, funciona da seguinte maneira: o Estado é chamado de Seção Judiciária; as cidades formam as Subseções Judiciárias, as quais, por sua vez, são divididas em Varas. Cada Vara está sob a responsabilidade de um juiz titular.

juiz vara

“E os juízes ordinários trarão varas vermelhas e os juízes de fora brancas continuadamente, quando pella Villa andarem, sob pena de quinhentos réis, por cada vez, que sem ella forem achados” (Ordenações Filipinas, Liv. 1, Título LXV).

Simbolicamente (não estou defendendo o uso) significa uma justiça transparente, sem sigilo, quando no Brasil, país do segredo e da censura, persiste a justiça secreta do foro especial para os lá de cima, e os cá debaixo são expostos pelo jornalismo policial = a crônica social dos pobres e miseráveis.

Confirma o provérbio: Quem rouba pouco é ladrão, quem rouba muito é barão. Si tu voles un pain, tu és un voleur, si tu en voles plusieurs, tu es un roi. Ou ainda: Ladrão endinheirado nunca morre enforcado. Para quien roba un reino, la gloria; para quien hurta un burro, la horca.

O Brasil não pode continuar com a mesma polícia que prende e arrebenta e a justiça absolutista da ditadura de 64.

Acompanhei casos dos Amarildos da justiça. Caso Baiardo de Andrade Lima versus a funcionária mafiosa Cristine Epaud dos gabinetes de dois presidentes corruptos do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, envolvendo a máfia do frio. Caso do jornalista Ricardo Antunes, preso político, versus marqueteiro e cientista político Antonio Lavareda, quando foi criado o conceito de “jornalista inimigo”.

No Brasil existe duas justicas, duas polícias. Para favorecer o rei e punir os PPVs.

A polícia nunca precisou da justiça para punir os que ameaçam e matam policiais. O tribunal das milícias resolvem esses casos com a lei de Talião.

Na justiça, as maçãs podres, os bandidos togados agem impunemente. “Os juízes condenados por crimes cometidos no uso da toga (…) têm como pena somente a aposentadoria compulsória por mais imoral que seja o crime”.
PROCLAMAÇÃO DOS ADVOGADOS ATIVISTAS
aativistas

Em tempos antagônicos os pólos se radicalizam, e o que devemos impedir é o crescimento da violência. Em um Estado democrático de direito as forças institucionais devem ser capazes de contribuir para esse anseio de paz. Atualmente não temos visto isso por parte das forças policiais que se impõe através do Poder Executivo. Porém, o que não podemos permitir é que poderes constituídos para defesa do cidadão se mostrem enviesados no sentido de comprometer a legalidade em atos decisórios parciais e legalmente infundados e desmotivados no sentido principiológico do termo, exigência constitucional que esta semana não encontramos em uma decisão judicial, e que será atacada em defesa do direito de liberdade que 7 detidos possuem, mas que permanecem trancafiados no sistema carcerário, sem provas.

Esta semana que se inicia, devemos refletir quanto ao posicionamento de decisões jurídicas eivadas de interferência política filosófica, onde passa a imperar a decisão contra a lei.

Sistemas concebidos para verificação da decisão judicial foram incluídos nas constituições modernas como forma de garantia dos direitos individuais (réu primário responder em liberdade). Em nossa constituição temos como corte constitucional o Supremo Tribunal Federal que exerce a função de guardião da constituição e dos direitos e garantias individuais, quando estes são atacados por decisões judiciais concebidas a margem do Principio da Motivação da Decisão Judicial, prevista no art. 93, IX da CF88 que determina:

Art. 93. Lei complementar, de iniciativa do Supremo Tribunal Federal, disporá sobre o Estatuto da Magistratura, observados os seguintes princípios:
IX – todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004)

Tal Principio mesmo que presente em nossa Carta Constitucional é atacado como vimos recentemente por juízos resistentes a nova ordem constitucional, que se parabenizou em seu 25º aniversario este ano, mas que assistimos em uma sociedade inerte à sua lapidação e constante realizada por movimentos que permanecem impedindo sua efetivação. Crias que continuam produzindo a mesma mentalidade ditatorial, que em resumo construiu uma sociedade corrompida e rompida pela injustiça social, e que permanecem na contra mão deste novo período constitucional.

Não aceitaremos medidas judiciais, que se revestem de formalidade institucional do Poder Judiciário, mas que não produzem efetividade constitucional. Vejamos que o art. 93 da Carta Magna prevê a necessidade de uma legislação oriunda da mais alta corte para consagrar um Estatuto da Magistratura, que vemos ser urgente em nossa sociedade, que carrega como fardo previdenciário os juízes condenados por crimes cometidos no uso da toga, e que têm como pena somente a aposentadoria compulsória por mais imoral que seja o crime, isso acontece em razão da vitaliciedade que possuem e que é necessário às decisões imparciais, em um cargo que por eles é espezinhado quando vemos decisões politicas sendo proferidas ou crimes sendo cometidos por baixo da toga.

Nem mesmo noticias recentes advindas do próprio Supremo Tribunal Federal, na voz de seu presidente produziu repercussão alguma, quanto da necessidade de uma redação final da Loman (Lei Orgânica da Magistratura), sendo por isso que a sociedade civil na voz dos Advogados Ativistas invoca a reflexão, para atribuir a um parlatório democrático o qual seria o CNJ (Conselho Nacional da Magistratura), com a força constitucional que dela advêm, e com a contribuição de uma sociedade civil presente ali, que passa a intervir democraticamente em instituições judiciais proferindo inúmeras decisões amplamente respeitadas, é que analisamos ter legitimidade democrática para esta atuação legislativa especifica estabelecida pela Constituição.

De tal modo, existe uma necessidade emergencial da elaboração deste texto complementar exigido pela Constituição, e que sentimos não haver comoção institucional no Supremo Tribuna Federal, pensamos portanto, que uma casa democrática e efetiva e sensível a comunidade jurídica e a sociedade como é o caso do Conselho Nacional de Justiça seria o local mais adequado para conceber tal Lei Complementar.

tres macacos

Você não precisa ser advogado para entender de leis. Para saber ao menos o básico, basta ser humano. Todos os direitos que você instintivamente deseja, espera e merece são chamados de Direitos Humanos, ou seja, ser valorizado como pessoa, ter sua dignidade preservada, ser tratado como igual, ser livre para expressar-se, etc.

É perfeito, porém são apenas palavras em um papel. Inclusive foram escritas por países que historicamente desrespeitaram esses “direitos naturais”. Por exemplo, no século 19 a França possuía museus de antropologia, basicamente zoológicos de negros. Na Itália foi desenvolvida a antropologia criminal, conceito de que o crime era genético, e claro, os negros estavam na lista de mais propensos a cometerem tais atos. No Estados Unidos, na Carolina do Norte existiam leis para esterilizar crianças com QI abaixo de 70, na Virgínia leis para esterilizar crianças cegas, surdas e com problemas mentais. Detalhe importante, tudo isso antes de Hitler, ok?

Claro, Hitler levou a eugenia até as últimas consequências, e apesar de ter perdido a guerra, estamos longe de vencer o Darwinismo Social. Basta olhar as estatísticas sobre qual é a cor, escolaridade e classe econômica da população carcerária.

Filósofos modernos como Zygmunt Bauman entendem que a fórmula de ouro para a construção de uma sociedade “feliz” consiste em equilibrar liberdade e segurança. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é caos. Para ter mais liberdade é preciso abrir mão da segurança. Para ter mais segurança é preciso abrir mão da liberdade. O sistema nunca atingiu esse equilíbrio, se é que admite tal equilíbrio.

Diversos filósofos políticos, como John Rawls , defendem que para construir uma sociedade justa é preciso usar o “véu da ignorância”. Imagine que você tem um bolo e precisa dividi-lo de maneira justa. Como faria?

Resposta: A maneira mais justa de dividi-lo é sem saber com qual pedaço você vai ficar. Dividindo-o sem saber qual é a sua parte, você estaria inclinado a dividi-lo de maneira justa.

O “véu da ignorância” trata justamente disso, algumas vezes a maneira mais justa de tomar uma decisão é se colocar em uma posição onde você tenha menos informação, isso o “força” a pensar coletivamente.

Estrangeiros assassinados no Rio Grande do Norte. Queima de arquivo ou briga de máfias?

A nova onda da invasão de Natal, por estrangeiros, começou na década de 90. Também desta época o aparecimento de máfias, formadas por noruegueses nativos ou naturalizados. Pelos menos são conhecidas cinco quadrilhas, quatro delas já condenadas pela Justiça brasileira. Também se desconhece quantos estrangeiros foram assassinados, e se mafiosos também estrangeiros estão por trás desses crimes. Possivelmente que sim.

A imprensa da Noruega denomina Natal “Paraíso do Crime”.

A FÚRIA ASSASSINA MAIS RECENTE

Setembro, 2010

As mortes de estrangeiros no Rio Grande do Norte nos últimos meses se transformaram em mistérios sem solução. Pelo menos oito pessoas com nacionalidades distintas foram assassinadas e os casos permanecem em investigação. O mais recente deles, é o da portuguesa Rosa Maria Silveira Mendonça, de 54 anos. Ela foi morta por estrangulamento em Tibau do Sul, no dia 23 de agosto.

Também recente, mais precisamente no dia 3 de agosto, o espanhol André Jaime Romero Conde foi vítima de um latrocínio, na entrada de um Flat, em Ponta Negra, Zona Sul de Natal.

Outro caso emblemático e que já ultrapassou um ano sem solução é a morte do sueco Gert Björn Skytte Sandgren, de 59 anos. Ele foi assassinado no dia 1º de março de 2009 com um tiro no peito, dentro de uma pousada na praia de Pipa.

Gert Björn
Gert Björn

No dia 1º de janeiro deste ano, o alemão Winfried Tiel, de 58 anos, também foi assassinado.

 Winfried Tiel
Winfried Tiel

Dos casos envolvendo estrangeiros, o que ganhou mais repercussão nos últimos meses foi a chacina contra quatro chineses. Dois casais foram executados e encontrados em uma estrada de Macaíba.

Foto: Thyago Macedo
Foto: Thyago Macedo

Jin Wanghai, de 39 anos, Zhou Miaozhen, de 36 anos, Lixiong Lin, de 36 anos, e Zhang Haiyan, de 38 anos, foram assassinados com vários tiros, após serem convidados para uma transação comercial. Por Thyago Macedo

2014
MAIS UM ESTRANGEIRO DONO DE RESTAURANTE ASSASSINADO

Misteriosamente ou coincidentemente, os estrangeiros proprietários de bares e restaurantes no Rio Grande do Norte estão sendo assassinados.

No dia 22 de Abril o empresário norte-americano James Halper proprietário do restaurante Pacífico localizado na praia da Pipa no município de Tibau do Sul foi assassinado.

Ontem o empresário português Antônio Lopes proprietário do bar Tapas localizado no bairro de Ponta Negra foi assassinado com tiros na cabeça em frente ao seu estabelecimento.

Antonio Lopes
Antonio Lopes

O criminoso não levou nenhum objeto de valor do restaurante, portanto, não foi caracterizado assalto.

No restaurante ninguém quer falar sobre o crime, o que aumenta o mistério. Por Tony Costa

Natal, “uma cidade da putaria” e das máfias do frio

Natal é uma capital litorânea com potencial turístico superlativo e imagem consolidada junto a vários mercados internacionais, notadamente europeus. Ao despontar como um dos principais pólos turísticos internacionais no Brasil, Natal também passou a fazer parte da rota mundial do sexo-turismo, inserindo-se na emergência do chamado “turismo sexual” entre as capitais do Nordeste do Brasil, cuja quantidade exata é difícil contabilizar em função da expansão incessante e em larga escala. A capital potiguar está em 11a posição no ranking dos destinos brasileiros mais procurados pelos estrangeiros e a segunda do Nordeste (superada apenas por Fortaleza), conforme os dados do Estudo da Demanda Turística Internacional no período 2004-2008, formulado por um órgão público federal, a Secretaria Nacional de Políticas de Turismo.

O estudo traz alguns detalhes que ajudam a traçar o perfil do visitante, em mais de 70% dos casos do sexo masculino. A faixa etária predominante é extensa, variando de 25 aos 50 anos, e a renda média mensal individual não é desprezível, especialmente para os padrões da cidade: US$ 3,7 mil. a afluência é maciçamente de europeus, tendo italianos e portugueses à frente, em 68% dos casos vêm exclusivamente em viagem de lazer, mais de 96% declaram intenção de voltar e 62% já têm o hábito de visitar a cidade regularmente.

No portal oficial de turismo da cidade, é possível identificar o locus físico preferencial:

[…] Os visitantes estrangeiros já fizeram de Ponta Negra seu território em Natal. Os turistas nacionais também a elegeram. E os natalenses observam a cena, orgulhosos. Ponta Negra não pára de ganhar novas opções de gastronomia e vida noturna. O aumento da demanda acabou favorecendo o surgimento de mais um pólo no bairro. Fica na rua Manuel de Araújo [amplamente conhecida, na cidade e por seus visitantes estrangeiros e nacionais, como rua do Salsa] e abrange algumas vias adjacentes, em área próxima das ladeiras que dão acesso à praia”. Estudo de Maria Stella Galvão Santos. Confira

Temos uma sociedade que vive o sonho do capitalismo, que além do consumismo alia-se a idéia de viver pelo Carpem Diem, aproveite o dia, tudo é possível neste mundo do materialismo histórico superficial, ao qual, nos é vendido à idéia de que a ascensão social, o prazer e o dinheiro são os objetivos maiores da vida do ser humano, fazendo com que inúmeras vidas girem em torno deste fato, o da superficialidade. Este último citado, superficialidade, se mescla ao fator de que turistas oriundos de outros países são tidos pelas mulheres locais, algumas, como uma forma rápida para esta ascensão social e material. O Euro e o Dólar são mais valorizados que o Real e a oportunidade de alavancar-se socialmente faz com que algumas mulheres procurem por turistas especificamente estrangeiros. Mas é aí que reside o perigo, no momento em que alguns deles decidem vir não por causa das nossas belas praias, e sim, visando à oportunidade de praticar o turismo sexual com crianças e adolescentes, crimes previstos em lei como o Estatuto da Criança e do Adolescente, Artigos 240 e 241, estipula pena e reclusão para quem for pego praticando atos de pedofilia, seja cidadão nacional e estrangeiro.

Para termos uma forma efetiva de combate a exploração sexual é necessária que haja uma ação por parte das autoridades competentes de divulgação de Natal no mundo valorizando as paisagens naturais e culturais, acrescentando-se a imagens que remetam a idéia de família, ao invés de mulheres seminuas. Escreve Claudio Taveira.

Uma verdadeira cadeia de agentes aliciadores se ramificou pela cidade, indo desde o agente de viagens que oferece meninas, passando pelo taxista que indica lugares onde conseguir sexo fácil com crianças e adolescentes, chegando até os donos de hotel que ignoram a prática e aceitam a presença de turistas acompanhados de menores de idade em seu estabelecimento. Ao contrário do que pensamos, não são apenas europeu idosos que alimentam esta cadeia criminosa. A reportagem traça um perfil do turista sexual e chega a uma conclusão alarmante: mo maior problema são os turistas que chegam sem esta intenção mas, devido a oferta, acabam explorando sexualmente crianças e adolescentes.

Sim, a oferta. Depois de tantos anos de sexo-turismo, tornou-se normal entre crianças e adolescentes carentes adquirir status social se prostituindo. Durval Muniz de Albuquerque Lopes, doutor em História pela Universidade de Campinas (Unicamp) e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), foi ouvido pela reportagem e concluiu: “A identidade do adolescente no seu grupo social é dada pela marca que ele consome. Se ele não consome, é excluído. Para ter acesso, ele se submete à exploração sexual. Estou falando de outro nível de consumo, não de alimentos.” Em outras palavras: o buraco é bem mais embaixo, pois já chegamos ao nível em que os explorados fazem questão de ser explorados. (Patrício Jr). Leia mais 

A  existência  do  turismo  sexual  se  justifica  a  partir  de  inúmeros  problemas  sociais,  que principalmente  no  nordeste,  têm  feito  com  que  o  dinheiro  estrangeiro  viole  os  princípios éticos  e  humanos.  Com  isso,  os  estabelecimentos  turísticos,  o  histórico  de  pobreza  do nordeste, o modo de vida, a entrada de estrangeiros e seu dinheiro têm sido fatores de repulsa e que denigre a  imagem do Brasil. Isto nos  faz  refletir de que modo a divulgação  realizada pela Embratur, há anos reflete até hoje na população. Mas a exploração de menores feita por estrangeiros, muitas vezes permitida pelos próprios brasileiros, não pode ser responsabilidade de apenas um órgão, instituição ou a falta destes, já que o problema abrange também questões culturais,  onde  estão  inseridos  os  turistas  estrangeiros  que  encontram  oferta  de  sexo  em grande quantidade, como  também os  trabalhadores desta “indústria” que adquirem cada vez mais lucros, junto às mulheres que se permitem ser exploradas e as crianças que acabam no mercado do sexo como vítimas da família e muito mais da facilidade de obtenção de dinheiro que conseguem com a venda de seus corpos. Por Nayara Teodoro Ferrigatto

A foto abaixo foi tirada por mim mesmo. Mostra um gringo no aeroporto Augusto Severo vendo uma pornografiazinha despreocupado. Nada contra a pornografia na internet, afinal essa é uma das funções desta rede mundial. O que incomoda na imagem é o fato de o visitante estar em pose tão relaxada, mostrando segurança de quem está fazendo a coisa certa e no lugar adequado. Algo como “estou em Natal, então viva a putaria!” Bem que o slogan turístico de Natal poderia ser algo como “Estrangeiro, te esperamos de pernas abertas.”

A imagem foi registrada por este blogueiro. Considero um símbolo da situação turística de Natal. Uma cidade de putaria.

Vamos tentar abordar esse assunto sem hipocrisia, tá bom? Nem vou me referir a ele como um problema, mas sim como algo que acontece por essas bandas bem debaixo dos nossos narizes. Muita gente tenta negar a situação ainda mais depois dos mais recentes acontecimentos lá pelas bandas de Ponta Negra: a inauguração de um verdadeiro aquário da libidinagem travestido de bar e o fato de terem encontrado mais resíduos de esperma de gringos em nosso litoral do que coliformes fecais na última análise.

Bem, o turismo sexual existe e fica cada vez mais difícil de coibir. Virou indústria, atração turística e comenta-se que na Europa já conhecem o Morro do Careca ou as Dunas de Genipabu como atrativos localizados nos arredores dos motéis da cidade. Nossa frágil sociedade não resistiu a um punhado de Euros despejados para comprar apartamentos, terrenos, restaurantes, hotéis e o que restava de nossa dignidade. Abriram as pernas e fecharam os olhos, inclusive literalmente em muitos casos. Italianos e espanhóis comandam a pouca-vergonha, a safadeza. Até aí, nada contra. Mas sacanagem mesmo foi não ter convidado a gente pra festa!

É claro que outros aspectos me incomodam, como por exemplo, alguns desses senhores terem sérios distúrbios a ponto de preferirem meninas de 13 anos a mulheres adultas. Mas o problema é maior e bem mais sério do que se pensa. Não adianta só combater com rigor esses pedófilos do além-mar, mas é preciso distribuir renda para, a longo prazo, essas garotas não precisem recorrer a tais expedientes para ganhar a vida. Por Carlos Fialho. Leia a proposta dele. Acrescento na lista de donos da noite: noruegueses e tanzanenses.

Em Natal, a situação chegou ao ponto de alguns comerciantes colocarem avisos em inglês: “Aqui não há turismo sexual”.
À noite, muitos estrangeiros procuram diversão em um centro comercial, cheio de bares. Fica a 500 metros da praia de Ponta Negra, a mais famosa de Natal. Está lotado.
Assim que nosso produtor chega, simulando novamente ser estrangeiro, uma prostituta se aproxima.
O lugar é aberto. Qualquer um entra, sai. Funciona como se fosse uma feira do sexo.
Mais um flagrante. Do lado de fora, bem na saída dos frequentadores, há venda de cocaína. Os traficantes chegam a parar os turistas e oferecem a droga. Veja vídeo
Durante o dia, voltamos ao ponto de encontro das prostitutas. Encontramos uma mulher que se diz funcionária do local. Simulamos interesse em alugar um quiosque. A mulher diz que o dono é o espanhol Salvador Arostegui.

Segundo o Ministério Público Federal, ele é acusado de tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

“Salvador é dono de todo complexo, o Salvador é dono de todo esse quarteirão aqui”, diz uma funcionária sem se identificar.

“Está identificado como um dos estabelecimentos que o senhor Salvador usou para a lavagem de dinheiro”, diz a procuradora da Republica, Clarisier Morais.

Segundo as investigações, o espanhol usou dinheiro do tráfico para comprar R$ 28,5 milhões em imóveis, no Rio Grande do Norte.

Salvador Arostegui chegou a ser preso na Espanha.

O Coletivo Leila Diniz (CLD) vem a público manifestar o seu repúdio à forma criminalizante com a qual a opinião pública vêm tratando as mulheres que exercem o trabalho da prostituição em Ponta Negra. Após reportagem com cunho de denúncia veiculada pelo Fantástico/Rede Globo, jornais locais como Diário de Natal e Tribuna do Norte repercutiram matérias de mesma natureza. No entanto, a abordagem dado, para nós do CLD dá um tratamento tão simplista e estigmatizador a uma questão social tão complexa.
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Nesse sentido, chamamos atenção das autoridades de governo e Justiça para ao fato de que medidas de coerção as mulheres terão baixíssimo grau de resolutividade. Pois antes de tais ações,precisa ser feita uma análise crítica da realidade da vida das mulheres em Natal , e, do nordeste brasileiro, para compreender um contexto social e  histórico  que não se sustenta em análises inacabadas e de senso comum, onde o fato subsiste sem sua própria origem.
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Em 1994, a Casa Renascer era a secretaria executiva de uma Campanha Nacional de Enfrentamento à exploração sexual e o turismo sexual, que já questionava o modelo de desenvolvimento econômico do Nordeste, baseado no turismo, prevendo os impactos negativos que seriam gerados sobre a população feminina a partir da massificação da atividade. Inúmeros documentos comprovam este esforço.
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Desde então, todo o esforço que a gestão pública e a elite governante do estado e da cidade têm feito é uma atuação pulverizada, ocasional, e moralista centrada na repressão às mulheres. O que esses gestores e gestoras esquecem é que esse problema tem a ver com as escolhas por políticas frágeis de enfrentamento à pobreza dos jovens e das mulheres em Natal; com os equívocos dos investimentos nos processos de produção cultural, com o não – investimento para uma educação pública de qualidade; com o abandono da prática de planejamento participativo; com a pouca firmeza da gestão na condução do uso e ocupação do solo.
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Nesse sentido, dizer não à criminalização da prostituição é exigir que políticas de enfretamento à desigualdade de gênero sejam implantadas, com compromisso e seriedade que os problemas relacionados à especificidade das mulheres sejam reconhecidos pela sociedade.