Brasil dependente alimentar

A desnacionalização da mesa do brasileiro, provocada pelas multinacionais, transformou o Brasil em importador de alimentos. O pão do índio era o milho. Era a mandioca. O milho virou lavoura de exportação para fabricar álcool nos Estados Unidos.

O Brasil importa os alimentos básicos: trigo, arroz, inclusive feijão. Trocamos o suco de frutas pela Coca-Cola e bebidas com sabores artificiais.

Os cursos de Nutrição têm como livros básicos autores europeus e estadunidenses. Publica hoje o jornal Público de Portugal:

Teresa quis lembrar aos cariocas o gosto da tapioca

A chef Teresa Corção criou o Instituto Maniva, que se apresenta em feiras biológicas no Rio de Janeiro com a sua banca de tapioca orgânica Nelson Garrido
A chef Teresa Corção criou o Instituto Maniva, que se apresenta em feiras biológicas no Rio de Janeiro com a sua banca de tapioca orgânica. Nelson Garrido
Por Alexandra Prado Coelho

Porque é que o Rio de Janeiro se afastou dos alimentos mais tradicionais, como a mandioca, ou as frutas da mata atlântica, e começou a comer pão feito de trigo importado e frutas que vêm de outros países? Foi esta a pergunta que levou um grupo de chefs cariocas a criar o Instituto Maniva e a iniciar uma nova relação com os produtores.

Tudo começou com a mandioca. A história do Brasil — e a história da eco-chef carioca Teresa Corção e do seu Instituto Maniva.

“E [os índios] não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos”. Isto registou na sua Carta Pero Vaz de Caminha, cronista de D.Manuel I, depois de os navegadores portugueses terem encontrado os índios tupinanquins na Bahia, a 24 de Abril de 1500.

Saltamos uns cinco séculos e estamos, pelas dez da manhã, na Feira Biológica do bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, onde o Instituto Maniva está a inaugurar a sua banca de tapioca (uma das farinhas que se fazem a partir da mandioca) biológica. Foi há uns dez anos que Teresa Corção se lançou na missão de dar a conhecer a tapioca aos cariocas. É que, descobriu ela, em 500 anos os brasileiros, pelo menos os do Rio de Janeiro, tinham-se esquecido dessa comida — o inhame e a mandioca — que deixava os indígenas “tão rijos e tão nédios”.

“A mandioca é o elemento identitário brasileiro, o nosso símbolo de segurança alimentar, existem mais de 1800 variedades catalogadas”, explica, sentada num banco baixinho. “Em 2002 fui a um festival em Pernambuco e foi aí que me dei conta de que não conhecia as coisas da mandioca e comecei a perguntar-me porquê. Percebi então que a mandioca era uma grande desconhecida, embora fosse muito presente na mesa de todo o mundo, sobretudo através da farofa.” A tapioca, no Rio nessa época, “não era tão conhecida”, e era comida sobretudo pelos imigrantes vindos do Nordeste.

Aproxima-se de nós e junta-se à conversa Marcelo Scofano, especialista em azeite e também ele um eco-chef. “A questão da tapioca tem muito a ver com o facto de o colonizador ter introduzido o trigo como elemento essencial”, explica. “E o trigo não é nativo daqui nem dá em lado nenhum. Oitenta por cento do nosso trigo é importado. A gente depende da Argentina, do Canadá e dos Estados Unidos para um alimento essencial, o pão nosso de cada dia, quando temos um alimento extremamente

rico, sem glúten, e que dá nos cinco biomas brasileiros, que é a mandioca. A tapioca era o pão nativo e foi substituído pelo trigo. Ainda ontem falei com uma pessoa que nunca tinha comido pão até vir para o Rio. Comia macaxeira, aipim, inhame.”

O mesmo acontece com a fruta, continua Teresa Corção. “Esta região é mata atlântica, riquíssima em fruta. E no entanto há pouquíssima fruta no Rio. O que é fruta para um carioca? É maçã, uva, frutas europeias adaptadas ao Brasil. E as frutas brasileiras, tanto da mata atlântica como da Amazónia, são completamente desconhecidas aqui.”

Aponta para a pequena feira à nossa volta, onde, além da tapioca orgânica do Maniva — que tem uma versão rosa forte, feita com beterraba —, há algumas bancas de legumes, um vendedor de azeite e sumo de uva biológicos e quase nenhuma fruta. “Quando os portugueses chegaram, havia tanto caju que eles botavam os escravos debaixo das árvores para eles comerem caju, que era muito bom contra o escorbuto.” Olha em redor. “Não era para ter imenso caju aqui? E não tem, não se encontra nas feiras. Pitanga é outra fruta maravilhosa, dá em tudo quanto é lugar, e não há nas feiras porque não tem o hábito do consumo. E ao mesmo tempo a gente jura que o coco é tropical, quando o coco foi o português que trouxe da Ásia.”

Para contrariar este cenário de desconhecimento de alimentos locais, o Maniva – que reúne 16 ecochefs, entre os quais Claude e Thomas Troisgros (Olympe, CT Brasserie, CT Boucherrie e CT Trattorie), Kátia Barbosa (Aconchego Carioca) e Pedro de Artagão (Irajá Gastrô) — começou a trabalhar, dedicando-se à divulgação de produtos. Teresa produziu, por exemplo, filmes sobre a produção de farinha de mandioca, O Professor da Farinha, e documentário Seu Bené vai Pra Itália, sobre a viagem de um produtor de farinha de mandioca da Amazónia para o evento Terra Madre, do movimento Slow Food, em Turim.

O trabalho do Maniva passa também por uma colaboração cada vez mais próxima com pequenos agricultores locais dedicados à produção biológica, como os que estão hoje na

feira das Laranjeiras. “Aqui há todo um astral. Se você perguntar àquela moça ali, ela é mãe de cada um destes produtos.” Uma das grandes dificuldades destes pequenos agricultores, que não conseguem entrar nos grandes supermercados, é fazer chegar os seus produtos aos compradores. Daí o aparecimento das feiras biológicas, que são apoiadas pela Secretaria de Desenvolvimento Económico Solidário Prefeitura do Rio, e cujo número tem vindo a crescer na cidade. “Há uns seis anos estes produtores vendiam em torno a uns 700 mil reais por ano, hoje estão vendendo nove milhões”, diz Vinícius Assumpção, responsável da Secretaria, que está de visita à feira. “Já temos doze feiras, e a ideia é ir ampliando, mas de forma consistente, sem perder a qualidade.”

tapioca

Comprar os excedentes

Quando, no final da feira, sobram produtos, Teresa e outros eco-chefs vão comprá-los. “Comecei a comprar os excedentes e é uma coisa que eu quero transformar num método. O que é que está sobrando aí? Está sobrando alho-porro. Eu arremato aquilo, vou noutra barraca e tem o cara do shitake, a quem sobrou algum, e eu e os outros chefs que têm restaurantes podemos gerar valor agregado, fazendo um prato. E o meu cliente sabe que está ajudando o produtor porque está escrito lá no meu cardápio.”

O restaurante que Teresa Corção dirige há mais de 30 anos chama-se O Navegador e fica no Centro do Rio de Janeiro, a zona mais antiga da cidade, no belo espaço do sexto andar do edifício do Clube Naval. A filosofia está explicada no cardápio: “Das hortaliças orgânicas de Friburgo e do Brejal na Serra Fluminense, às farinhas de mandioca especiais de Bragança no Pará, Cruzeiro do Sul no Acre e de Palhoça em Santa Catarina, passando por queijos tradicionais de Minas Gerais das serras do Salitre e da Canastra à pimenta rosa da foz do Rio de São Francisco, nossos alimentos são escolhidos com toda a atenção. Conhecemos quem os produz e visitamos suas terras.” Por baixo, um mapa do Brasil mostra que o doce de leite e a goiabada (ambos excelentes) vêm de Minas Gerais, tal como os cogumelos orgânicos e o queijo meia cura, o palmito pupunha vem do Rio de Janeiro, assim como o aipim, e a farinha e o tucupi vêm de Bragança, no estado do Pará.

As receitas são também homenagens a pratos tradicionais. Há Nosso bobó (creme camarão e aipim, dendê artesanal da Bahia, lascas de beijus), e Terra Brasilis (peixe do dia grelhado no azeite, servido sobre puré de aipim e banana-da-terra, acompanhada por pétalas de palmito pupunha e cubos de tomate — o palmito e aipim são de pequenos produtores do município Silva Jardim, do estado do Rio de Janeiro, e “escolher este prato incentiva a economia local”, lê-se). Há Panelinha de moqueca capixaba do Gui Secchin, “à moda do artista plástio capixaba Guilherme Secchin”, há Tortacapixaba, prato típico do Espírito Santo, com bacalhau, camarão, pescada amarela e palmito, ovos batidos e azeitonas verdes, gratinado no forno, há Pirão Seu Bebé e Dona Maria, Galinhada com palmito, que é um arroz de frango típico da região do cerrado, e muitos outros pratos.

Escolhemos o “Prato nosso de cada dia” que, por ser uma terça-feira, era um riquíssimo “Cozido da Terrinha, feito com vegetais da estação produzidos pelos agricultores do Estado do Rio de Janeiro, participantes do Circuito Carioca de Feiras Orgânicas” (as segundas-feiras são dia de peixe assado, as quartas de costelinha assada no tropeiro, as quintas de galinha com pirão-de-parida e as sextas de “feijoada sustentável preparada com feijão dos pequenos produtores”).

E assim, uma história que começara naquela manhã com a mandioca, numa banca de feira num bairro do Rio de Janeiro, levou-nos até aos índios que Pero Vaz de Caminha encontrou em 1500, atravessou muito do Brasil e da sua enorme variedade de produtos, e terminou, da melhor forma possível, em frente a um prato cheio de carnes cozidas, com abóbora, milho, ovo, quiabo, couve, batata-doce, banana-da-terra, arroz e pirão.

 

MAIS SACRIFÍCIOS PARA OS POBRES: QUE COMAM INSETOS. A CARNE FICA PARA OS RICOS

insetos

Introduzir mais os insectos na dieta global é uma das alternativas para combater o dilema da produção alimentar num mundo com cada vez mais habitantes, defende a FAO, a agência da ONU para a alimentação e a agricultura.

Num estudo divulgado esta segunda-feira, a FAO estima que 2000 milhões de pessoas – cerca de 28% da população mundial – já ingerem insectos numa base regular. O relatório identifica nada menos do que 1909 espécies comestíveis, das quais 31% são besouros ou escaravelhos. A seguir vêm as lagartas (18%), as abelhas e formigas (14%) e os gafanhotos (13%). No menu de invertebrados constam também cigarras, libélulas, térmitas e moscas.

Não sendo novidade, o consumo de insectos é apontado agora como uma boa solução para alargar as fontes de alimento do mundo no futuro. A população global continua a subir, embora a menor ritmo, e poderá chegar aos 9000 milhões em 2050. Saciar a fome de tantas bocas pode implicar em sérios problemas de exploração de recursos. Criar uma vaca nos Estados Unidos, por exemplo, implica gastar quase dez quilos de ração ou pasto por cada quilo adicional de animal vivo. Como depois só se aproveita 40% do animal, na prática são necessários 25 quilos de alimentos para produzir um quilo de carne bovina. Um quilo de bife também implica no consumo de 22 mil a 43 mil litros de água.

Os insectos, por sua vez, são animais mais eficientes, sobretudo porque têm sangue frio e não gastam energia a manter a temperatura do corpo. Para um grilo, são necessários 1,7 quilos de alimento por cada quilo de animal vivo. Mas 80% do bicho é mastigável, resultando na prática em 2,1 quilos de alimento por quilo de insecto comestível – menos de um décimo do necessário para uma vaca.

Os insectos também produzem menos gases com efeito de estufa e ajudam na decomposição do lixo. Além disso, são ricos em proteínas e podem ter maior concentração de mais elementos importantes, como cálcio, ferro e gorduras “boas”.

Potencial inexplorado
Segundo Eva Muller, directora da FAO e co-autora do estudo, os resultados não indicam que todos os 7000 milhões de habitantes da Terra devam começar imediatamente a comer insectos. “O que estamos a dizer é que os insectos são um dos recursos proporcionados pelas florestas, e cujo potencial para a alimentação humana e sobretudo animal está ainda muito inexplorado”, diz Muller, citada num comunicado da FAO.

Como em qualquer outra fonte de alimentos, os insectos também correm o risco de serem sobre-explorados. Um estudo publicado em 2006 na revista Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine chama a atenção para o risco existente sobre 14 espécies de insectos ameaçados no México, sugerindo a criação dos mesmos como alternativa.

Investigar o que é melhor em termos ambientais é um dos passos que a FAO diz ser necessário agora para melhor aproveitar o alargamento desta potencial fonte alimentar. O relatório menciona que nalguns países já se pratica a criação de insectos – como a de grilos no Laos, Vietname e Tailândia. Mas a maior parte ainda é capturada na natureza.

A FAO também alerta para a necessidade de legislação nessa área e de mais investigação sobre o valor nutritivo das espécies comestíveis. (In Público, Portugal)

comestivel

Esta agencia de Naciones Unidas presentó hoy en su sede de Roma el informe “Insectos comestibles: perspectivas de futuro para la seguridad alimentaria y alimentación para el ganado “, en el marco de la Conferencia Internacional sobre los Bosques para la Seguridad Alimentaria y Nutricional que se celebra hasta el miércoles.

Según el estudio, realizado en colaboración con la Universidad de Wageningen (Países Bajos), los insectos son una fuente importante y fácilmente accesible de alimentos nutritivos y ricos en proteínas que se encuentra en los bosques.

La recolección y cría de insectos, que, con cerca de un millón de especies conocidas representan más de la mitad de todos los organismos vivos clasificados en el planeta, pueden generar empleos e ingresos en efectivo, hasta ahora a nivel familiar sobre todo, pero también potencialmente a nivel industrial.

“No estamos diciendo que la gente deba comer bichos”, subraya en un comunicado divulgado por la FAO Eva Muller, directora de la División de Economía, Políticas y Productos Forestales de la agencia de Naciones Unidas y coautora del informe. “Lo que decimos -prosigue- es que los insectos son solo uno de los recursos que brindan los bosques, y que se encuentra prácticamente por explotar su potencial como alimento, y sobre todo, como pienso”.

La FAO recuerda que los seres humanos consumen ya en el mundo más de 1.900 especies de insectos, siendo los más utilizados los escarabajos, las orugas, las abejas, las avispas, las hormigas, los saltamontes, los grillos y las langostas, que, por ejemplo, tienen más contenido en hierro que la carne de vacuno. Se estima que los insectos forman parte de la dieta tradicional de al menos dos millones de personas en el mundo. Se comen más de 1.900 especies, principalmente en África y Asia. Lo más consumido son los escarabajos (31%) orugas (18%) y abejas y hormigas (14%). Después les siguen los saltamontes, langostas y grillos (13%), cigarras, saltamontes, chicharritas, cochinillas y chinches (10%), libélulas (3%) y moscas (2%).

Además, la cría de insectos puede ayudar a evitar la sobreexplotación forestal, pues la producción de algunas especies como el gusano de la harina, que ya se producen a nivel comercial en alimentos para mascotas, zoológicos y la pesca recreativa, podría bajar los costes hasta hacer rentable la sustitución de la harina de pescado en la alimentación del ganado.

Los insectos producen asimismo una reducida cantidad de emisiones como metano, amoníaco, gases de efecto invernadero y de estiércol y pueden ser utilizados para descomponer los desechos, ayudando en los procesos de compostaje que devuelven los nutrientes a la tierra a la vez que reducen los malos olores.

Las leyes de la mayoría de países impiden algunas de estas prácticas, sobre todo la alimentación de los animales con residuos, estiércol líquido o desechos alimentarios, por lo que la FAO apuesta por “investigar más, especialmente en lo que respecta a la cría de insectos aprovechando el vertido de residuos”.

“Los bosques contribuyen al sustento de más de mil millones de personas, incluidas muchas de las más necesitadas del mundo. Los bosques proporcionan alimentos, combustible para cocinar, forraje para los animales e ingresos para comprar comida”, explica en la nota el director general de la FAO, el brasileño José Graziano da Silva.

“Los animales silvestres y los insectos son a menudo la principal fuente de proteínas para la población en las zonas forestales, mientras que hojas, semillas, hongos, miel y frutas proporcionan minerales y vitaminas, garantizando una dieta nutritiva”, añade.(In Público, Espanha)

Morrem cinco crianças por minuto devido a má nutrição crônica

A cada minuto que passa, morrem cinco crianças no Mundo devido a má nutrição crónica. E 500 milhões de crianças correm riscos de sequelas permanentes nos corpos e cérebros nos próximos 15 anos.

Cifras negras do relatório divulgado pela organização “Salvem as Crianças”, segundo a qual a morte de dois milhões de crianças em cada ano poderiam ser prevenidas se a má nutrição fosse melhor resolvida.

A dimensão do fenómeno leva a “Salvem as Crianças” a argumentar que a má nutrição crónica é uma crise escondida que afecta uma em cada quatro crianças no mundo.

O índice revela que o Congo, o Burundi, as Comores, a Suazilândia e a Costa do Marfim têm hoje maiores níveis de fome do que em 1990.