Luiz Marinho constrói o museu da corrupção em São Bernardo

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Aos 27 anos, Erisson Saroa Silva faz bicos como eletricista para completar a renda familiar, já que não possui emprego fixo. Mora de aluguel numa casa simples no Jardim Campanário, periferia de Diadema, com a mulher e um filho. Mas o desempregado, sem saber, é sócio da Construções e Incorporações CEI, contratada pelo prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), para erguer o Museu do Trabalho e do Trabalhador, no Centro da cidade.

Na Junta Comercial, Erisson Saroa Silva nem de longe parece o humilde eletricista à caça de serviços informais. Pela instituição de registros, ele tem R$ 10,4 milhões de participações na empreiteira, cujo capital é de R$ 20,8 milhões – o restante pertence a Elvio José Marussi, morador de Guarulhos, na Região Metropolitana.

“Deve ter algum engano”, se espantou Erisson ao ser comunicado pelo Diário que seria um empresário milionário. “Não conheço nenhum Elvio. Nem sabia que meu nome estava nisso aí”, continuou. Informado que, pela Junta Comercial, detinha R$ 10,4 milhões da empresa (veja fac-símile abaixo), não acreditou: “Quanto mesmo?”

A Construções e Incorporações CEI venceu a licitação, em abril do ano passado, para construir uma das obras mais enaltecidas por Marinho. O Museu do Trabalho e do Trabalhador, localizado em frente ao Paço, servirá para resgatar a história de lutas trabalhistas, segundo o petista, e também terá papel de enaltecer o padrinho político do prefeito: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que iniciou sua vida sindical e política em São Bernardo, onde mora até hoje.

A obra – que substitui o antigo mercado municipal – está orçada em R$ 18,3 milhões (com R$ 14,4 milhões da União) e, pelo cronograma, era para ter sido entregue dia 27 de janeiro de 2013. Nove meses atrás. Para disfarçar o atraso, a Prefeitura e a empreiteira apagaram a data de início da construção na placa indicativa, em frente ao canteiro.

Atualmente o empreendimento está a pleno vapor. Em abril, a administração Marinho disse que a paralisação se deu pela “transferência e demolição do espaço que antes era ocupado pela Cooperativa dos Funcionários Públicos”. De acordo com o Portal da Transparência do Paço, R$ 3,6 milhões já foram depositados na conta da empreiteira pelo governo petista.

Durante a semana, a equipe do Diário foi à sede da Construções e Incorporações CEI, numa pequena rua no bairro da Lapa, Zona Oeste da Capital – a terceirizada não possui site oficial nem tem número de telefone comercial disponível. A empresa funciona num modesto sobrado na Rua Sheldon, 23, que também abriga um miniterminal de ônibus de São Paulo. Não há indicativos de que ali funciona uma empreiteira com capital de R$ 20,8 milhões. Vizinhos e motorista dos coletivos também não sabiam que estavam próximos do centro operacional de uma construtora.

Erisson foi procurado no local. Um funcionário, que se identificou como Renato, titubeou ao confirmar se ali era a sede da CEI. Desceu e subiu as escadas três vezes, sempre orientado por uma segunda pessoa, no andar de cima do sobrado. “O Erisson é um contato da empresa. Nunca vem aqui, fica mais rodando, vistoriando obras”, respondeu Renato, depois da terceira consulta no segundo andar e sem dizer que Erisson era sócio da CEI. E entregou o número de Carlos, a quem classificou como “representante da CEI.”

O sócio de R$ 10,4 milhões de participação na CEI informou, à Junta Comercial, ser residente na Rua Jaçanã, no Jardim Campanário, em Diadema. É casa simples, sem pintura e à venda, em que apenas sua tia, Maria, reside. “Ele mudou faz um mês mais ou menos”, contou Maria, que informou em seguida: “O Erisson está morando ainda no Campanário, numas duas ruas abaixo”, sem precisar o endereço.

Ela também achou estranho o fato de o sobrinho ser um empresário milionário, pelo que consta na Junta Comercial. “Pelo que sei, ele é eletricista. Nunca comentou de empresa nenhuma, ainda mais nesses valores.”

O “representante” da CEI afirmou que Erisson é sócio da empresa, mas não interfere nas questões administrativas. “Quem cuida mais da empresa é o Elvio. O Erisson é só um sócio, sem influência direta (na empreiteira)”. Elvio, segundo Carlos, estava em viagem, não pôde atender à reportagem.

O governo Marinho não se pronunciou sobre o caso.

SUBCONTRATAÇÕES

A equipe do Diário também foi ao canteiro de obras, na sexta-feira pela manhã. Foi informada que o engenheiro responsável pela construção foi trocado na terça-feira e que, naquele horário, ninguém poderia autorizar uma entrevista “somente a Prefeitura”, disse um funcionário.

Esse funcionário disse ser um consórcio o responsável pelo Museu do Trabalho e do Trabalhador. Grupo esse formado por Construções e Incorporações CEI, Construtora Cronacon e Engeplan. O nome das duas última empreiteiras não consta na placa indicativa.

A Cronacon, inclusive, é responsável pela polêmica obra do novo plenário da Câmara, projeto idealizado pelo vereador Hiroyuki Minami (PSDB), cujos gastos quase chegam a R$ 35 milhões.

Um Sábado em Trinta dos jornalistas de Pernambuco

O bom de fazer jornalismo: a possibilidade de conhecer pessoas geniais.

Nas entrevistas e reportagens, no final da década de Cinquenta, várias personalidades citavam o cientista e o artista Reinaldo de Oliveira.

Até que uma dia conheci Reinaldo, o professor de médicos, teatrólogos e atores hoje famosos.

Estava no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco, para votar, no dia 17 último, nas eleições sindicais. Na inquietação de matar o tempo, e levado pela saudade, entrei no Teatro Valdemar de Oliveira, prédio vizinho. Pura sorte e alegria, um grupo de jovens ensaiava a peça Um Sábado em Trinta de Luiz Marinho.

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Em 1960, Luiz Marinho entregou a Valdemar de Oliveira Um Sábado em Trinta. Parece escrita para os dias de hoje. Particularmente para os jornalistas, que acabam de realizar uma votação bico-de-pena, com urnas prenhas, capangada da CUT, e o mando do coronelismo. Tudo no jeitinho da República Velha.

O Brasil fez uma Revolução, em Trinta, para acabar com a corrupção política, e  mudar uma sociedade, cujos costumes, e comportamento, Luiz Marinho transformou em comédia; e Moacir Japiassu, em romance.

Nei Duclós, poeta de primeira, e crítico literário, escreve sobre Concerto Para Paixão e Desatino, de Japiassu:

“Sua galeria de personagens inclui tantas figuras fundamentais, que elencá-las numa resenha parece ser o relatório do viajante iludido em levar o romance como lembrança. O jornalista do jornal Imprensa às Suas Ordens, cúmplice do assassinato do presidente João Pessoa, ilumina as origens de um conterrâneo tornado ilustre, Assis Chateaubriand; o José Américo recriado aqui revela o lado desconhecido da Revolução de 30, com suas contradições no bojo da luta; o conde cafetão e a soprano lírica amante do político poderoso são um ensaio sobre os bastidores de um movimento que ainda guarda inúmeros enigmas. Não satisfeito, Japiassu ainda brinda o leitor com os antecedentes de toda a situação política e social do Nordeste ao colocar em praticamente dois parágrafos (páginas 185 e 186) as origens da República por meio de ilustres figuras da transição, vindas do Império. Parece um confeito no bolo da noiva, mas é mais uma bala nesse rifle recheado”.

Diz mais Duclós: Wagner Carelli define o livro como um épico “capaz de ser poderoso como um sinfonia de Mahler – mas que se lê rápida, clara e deliciosamente como uma partitura de Mozart”.

Relatei para Moacir Japiassu que, nas eleições do Sinjope, nem parece que o Brasil fez uma revolução em Trinta.

Jornalistas metidos a intelectuais votam encabrestados, sim. Votam do jeito que o governo de Eduardo Campos manda.

Eu, que fui barrado na cancela do Jornal do Comércio que dirigi, revivi as redações eternizadas noutro romance de Moacir Japiassu: Quando Alegre Partiste, “Melodrama de um Delirante Golpe Militar”.

Fico imaginando se o título Quando Alegre Partiste é uma referência a uma época, o Brasil de antes de 1964; um tempo do Nunca Mais, a juventude; uma profissão, o jornalista sonhador e desprendido; uma mulher, talvez Vera, personagem do romance.

O que se foi na alegria, não significa que deixou a tristeza, a solidão, a desesperança de nunca escrever a Carta a uma Paixão Definitiva, título de um livro de crônicas de Japiassu, que considero o maior romancista brasileiro da atualidade. Gosto de repetir, como um mantra, que Moacir Japiassu é o maior romancista brasileiro da atualidade.

Certamente que nunca vou perder a esperança de um Brasil melhor, e este Brasil, que sonho, depende muito dos jornalistas.

Parece paradoxal, a salvação do jornalismo advirá do jornal que se fazia antigamente: o jornalismo opinativo, escrito na primeira pessoa: o jornalismo de opinião, que a rádio informa instantaneamente; e a televisão mostra; e o jornalismo on line consegue ser estas três mídias.

Não quer dizer que o jornalismo impresso esteja morto. Nem o livro. Mauri König mostra que não. E por fazer jornalismo, o verdadeiro, Mauri pena no exílio.

Vizinha à sede do Sindicato, estudantes ensaiavam a peça Um Sábado em Trinta. Que gostoso de ouvir: Falavam de Luiz Marinho, de Valdemar de Oliveira, do TAP – Teatro de Amadores de Pernambuco, de Reinaldo de Oliveira.

Estavam em um ensaio, prova de conclusão do Curso Theatros&Cia, sem esquecer a realidade, de que eram jovens viventes deste ano de 2013, que o Papa Francisco pede para os jovens ir para as ruas do povo.

No Sindicato, os jornalistas viajavam na máquina do tempo, e viviam a farsa de um eleição em Trinta.  (Continua)

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Um Sábado em Trinta

Dia 3 próximo, Um Sábado em Trinta, de Luiz Marinho, volta a ser encenado no Teatro Valdemar de Oliveira, no Recife.

Luiz Marinho escreveu 14 peças, e Um Sábado em Trinta foi a primeira, e encenada em várias cidades do Brasil e no exterior. Antes mesmo de sua estréia, Luís Marinho recebeu em 1963, dois importantes prêmios: um no concurso da União Brasileira de Escritores, secção Pernambuco; outro no concurso da Escola de Belas Artes, da Universidade do Recife. Outra premiação significativa deu-se em 1974, quando o teatrólogo foi contemplado com o prêmio Molière, de melhor autor, pela obra Viva o Cordão Encarnado, dirigida por Luís Mendonça, no Rio de Janeiro.

Um Sábado em Trinta tem duas montagens famosas. A primeira de Valdemar de Oliveira. A segunda de Reinaldo de Oliveira. Valdemar tornou o nome de Luiz Marinho nacionalmente conhecido.

Reinaldo seguiu os passos do pai. Em 22 de setembro de 2012, publicou o jornal O Globo:

“Além de dirigir a montagem, Oliveira é ator e concilia a carreira da arte com a medicina, inclusive professor. “Às vezes as pessoas me perguntam: como é que você como médico, cirurgião, consegue ajustar o seu tempo com o teatro? É muito fácil, de manhã, quando eu estou operando, estou pensando na peça que vou representar à noite. E de noite, quando estou representando a peça, estou pensando na operação que vou fazer no dia seguinte! É uma maneira um pouco grotesca e graciosa ao mesmo tempo, de justificar essa minha vida, tanto na arte da medicina quanto na arte teatral”, comentou.

Um Sábado em Trinta com o genial Reinaldo Oliveira, que também é compositor, autor de frevos do Carnaval de Pernambuco
Um Sábado em Trinta com o genial Reinaldo Oliveira, que também é compositor, autor de frevos do Carnaval de Pernambuco

Uma mudança que certamente será sentida pelo público é a troca dos atores, entre eles, a dama do teatro pernambucano, Geninha da Rosa Borges, que encenou Dona Mocinha durante anos. Quem assume o papel é a atriz Renata Phaelante, que diz se sentir honrada. “É emocionante, porque vem de Geninha para mim, e eu trouxe para a minha carreira esse senso de responsabilidade que ela tem com os personagens. Ela cuida do figurino dela, das coisas dela, da meinha, do sapato, ela leva para casa, ajeita, compõe o personagem. E eu acho que eu trouxe isso dela para mim”, contou.

Outros atores que estavam no elenco original e serão substituídos são Fernando de Oliveira e Lano Lins. No lugar deles, entram, respectivamente, os atores Adelson Simões e Alderico Costa Melo. Além disso, o elenco recebe também a jovem Sophya Costa.

O texto da nova montagem também não é o mesmo de 1963, ano em que estreou o espetáculo. De acordo com a companhia, a mudança foi feita porque algumas coisas que faziam sentido na época não seriam tão engraçadas atualmente. No entanto, o grupo afirma que as alterações não afetam a direção ou o rumo da peça, que sofreu apenas pequenos cortes e acréscimos”.

Temos agora uma terceira montagem. Cenas:

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Luís Marinho, além do Molière, foi premiado pela Academia Brasileira de Letras,  Academia Pernambucana de Letras e o Estadual de Teatro (do então Estado da Guanabara).

Suas principais obras foram:
Um sábado em trinta.
A promessa.
Viva o cordão encarnado.
A derradeira ceia.
A incelença.
A afilhada de Nossa Senhora da Conceição.
A valsa do diabo.
A estrada.
Foi um dia.
A família Ratoplan.
As aventuras do capitão Flúor.
O último trem para os igarapés.
Corpo corpóreo.
As três graças.

Em sua dramaturgia, suas memórias do interior de Pernambuco, de sua cidade natal,  Timbaúba, a partir de um universo de crendices, violeiros, vaqueiros, cangaceiros e outros tipos locais. Muito embora tenha sido reconhecido como um autor regionalista, ele acreditava que sua obra transcendia a esta categorização.

“Apenas procuro defender e valorizar o que amo. Que viva o teatro maior, de todas as regiões e pátrias”, ressaltou Luís Marinho.

No elenco de Um Sábado em Trinta:

Anayra Bandeira
Anayra Bandeira
Kackeline Villarim
Kackeline Villarim

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