70% dos garis continuam em greve no Rio de Janeiro

O protesto dos garis que anunciaram que continuariam em greve nesta quinta-feira (6) terminou por volta das 15h35, em frente à Câmara Municipal do Rio, no Centro. Os manifestantes prometem um novo ato para esta sexta-feira (7), com concentração a partir das 10h, em frente à Prefeitura do Rio.

Na Câmara Municipal, líderes do movimento pronunciaram discursos e cantaram uma paródio do samba da Unidos da Tijuca, campeã do carnaval do Rio neste ano: “Acelera Comlurb que eu quero ver, esse lixo vai render”.

Fura-greves e trabalhadores avulsos, com escolta armada de guardas municipais e empresas de segurança, assumiram a coleta de lixo em alguns pontos da Cidade, conforme decisão do prefeito Eduardo Paes.

“Nós somos trabalhadores e decentes. Mobilizaram uma escolta armada pra que? Somos bandidos? Que venha bala de borracha e bomba de efeito moral. Quero meu direito de cidadão. A nossa proposta era de 1200 de salário básico, 40 por cento de insalubridade nesse valor, auxilio creche, salários diferenciados , tiquete refeição de 20 reais e a da prefeitura era de 800. Nós queremos um salário digno. Isso aqui é independente de sindicato, o sindicato nao nos representa mais. O nosso trabalho ninguém quer fazer. O prefeito nao quer pagar por isso. “, disse William Rocha de Oliveira, da comissão de greve da Comlurb.

Galeria de fotos da sujeira

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Mais uma molecagem de Eduardo Paes e Sérgio Cabral

por Garotinho

Como sempre as Organizações Globo (O Globo e Extra e RJ TV) cumprem seu papel de porta-voz oficial do PMDB – RJ. Afirmam que o PR estaria por trás da greve dos garis. Francamente, isso é um absurdo. Da mesma maneira que inventaram que o partido patrocinava os Black Blocs para salvar Cabral, agora querem nos por a culpa pela incompetência da prefeitura em resolver seus problemas.

Quero deixar claro que embora respeite o direito de greve dos garis, como de todos os trabalhadores, não tenho nenhuma participação no movimento. Aliás, soube da greve pelo jornal, que por sinal afirmava que eram apenas 300 garis de um total de 15 mil, enganando a população, que agora vê que 70% estavam parados.

O lixo que se acumula pelas ruas do Rio é um problema que deve ser resolvido pelo prefeito dialogando com as partes envolvidas. Querer usar uma foto de alguém que está à frente do movimento tirada comigo pelo fato de ter sido candidato a vereador nas últimas eleições é uma falta de compromisso com a verdade.

Cabral e Paes têm essa mania querem sempre arrumar um culpado para a incompetência deles. Quer dizer que agora o prefeito não se entende com os garis, o culpado é Garotinho? As UPPs vão mal, o culpado é Garotinho? Quem gastou em R$ 1,2 bilhão em publicidade e marketing nos últimos sete anos podia pelo menos arrumar uma desculpa melhor.

JORNALISMO INVESTIGATIVO

por Talis Andrade

censura jornal

O lixo define o homem

Remexer o lixo de uma casa o poder

o conhecer a miséria da condição humana

.

nas embalagens de remédios

absorventes de mênstruo

pontas de cigarros

seringas descartáveis

camisas-de-vênus

garrafas vazias

cacos de espelhos

e latarias

.

no revolver o passado

que os papéis denotam

retratos rasgados

cartas dos amores secretos

exames médicos

testamento de morte

.

No lixo jogado fora

unhas cabelos e pêlos

vestígios de sangue e sêmen

fetos e desafetos

o olho de vidro

a perna de pau

a arma do crime

O Carnaval mais sujo da história do Rio de Janeiro

Os garis unidos contra o Sindicato submisso
Os garis unidos contra o Sindicato submisso
 
O Rio de Janeiro teve o Carnaval mais sujo de sua história. Sujeira do prefeito que mandou demitir 300 garis. Sujeira do Sindicato que traiu a classe. Sujeira da Polícia Militar e guardas municipais que bateram nos grevistas.
Prais do Leblon, hoje no Rio. (Foto: Renata Soares/G1)
Praia do Leblon, hoje no Rio. (Foto: Renata Soares/G1)
 A resposta dos garis, que decidiram escapar do mando da pelegada do Sincato, foi que o prefeito Eduardo Paes fosse varrer as ruas. Os lá de cima da Prefeitura não são de pegar no pesado. E sim noutras coisas. E o Rio foi uma sujeira só desde sábado de Carnaval. 
 

Por decisão do prefeito Eduardo Paes, escoltas armadas estão acompanhando todos os caminhões da Comlurb para garantir a coleta. Para  Paes, a maioria dos garis compareceu ao trabalho durante o carnaval, mas foi impedida de trabalhar por “delinquentes”, inclusive grupos armados. Isso não é verdade.

Os garis realizaram vários protestos. A polícia de Sérgio Cabral jogou bombas de gás lacrimogêneo e atirou com balas de borracha. Os líderes grevistas foram presos. 

gari 1

garis 2

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Garis 4 dia

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Ato contra demissão garis

Paes também disse que vai suspender a todas as demissões para os garis que retornarem ao trabalho. Derrotado, prometeu atender todas as reivindicações dos garis: uma alta salarial para R$ 1.200, o pagamento de horas extras e outros benefícios. 

salário gari

garis título adv ativistas
 
████████████████ Brasil realmente tem vivido tempos interessantes. Com a mais pura estratégia, garis paralisaram seus trabalhos durante o Carnaval no Rio de Janeiro, período de maior atenção e turismo na Cidade Maravilhosa. Ao parar, a Cidade fedeu, os lixos acumularam e o debate sobre a greve acendeu.

Direito a greve é mais do que uma garantia inscrita na Constituição Federal. Ao parar a exploração de seu trabalho, clama-se pelo reconhecimento da importância da função e acontraprestação oferecida. É um ativismo político dos mais sangrados, mas que, ainda hoje, oferece resistência e grandes resultados.

“Garis não são diplomados” – dirá a pessoa contra o aumento de salários. Para essa pessoa, a desigualdade é algo tão natural quanto o nascer do sol, e não imposto pelo sistema econômico. Além disso, menospreza-se o valor do trabalho pela ausência de diploma, como se a graduação fosse indicativo de nobreza, na pura tradução do pensamento aristocrático. Típico sintoma da alienação intelectual, onde acredita-se que o trabalho material não exige conhecimento, enquanto o trabalho intelectual é responsável unicamente pela criação de toda sabedoria, e portanto, merece a maior das remunerações. 

Argumenta-se ainda que os “Garis foram chantagistas”, ao escolher a fatídica época para interromperem a função. Ora, greve nada mais é do que parar as atividades para atrapalhar o funcionamento da máquina, tudo para forçar o debate sobre a valorização da função.

Infelizmente, no caso dos garis, em razão do elo fraco no cabo de guerra, os grevistas foram demitidos, numa clara demonstração de arbítrio e falta de diálogo. Hoje, funcionários intimidados pela demissão foram trabalhar, sob o protesto dos grevistas. Além disso, o Tribunal Regional do Trabalho julgou a greve ilegal. Ao que parece, a Greve não é permitida no carnaval da Democracia brasileira.

 
 

APOTEOSE DO CARNAVAL DE JOÃOZINHO TRINTA

por Talis Andrade

 

 Emilio Agra
Emilio Agra

 

O homem um animal sozinho

passa a vida a farejar tal um cão

procurando alimento e cadelas no cio

passa a vida a demarcar com excremento

e urina o conquistado chão

 

O homem um animal sozinho

a andar de rua em rua

catando lixo

a perambular de rua em rua

de casa em casa

vendo as meninas debruçadas nas janelas

sonhando a mais bonita

 

O homem um animal sozinho

a perambular de rua em rua

de casa em casa

a flor mais fácil

arranca do jardim

 

A espreitar na esquina

o homem espera

surpreender o adversário

que lhe ameaça o domínio

do território de caça

 

O homem um animal sozinho

a correr de rua em rua

coa fome canina

a vagar de rua em rua

coa ambição de transformar

o mixo

o lixo

em luxo

PONTO PARA O POVO. PONTO PARA OS GARIS

por Fábio Chap
lixo 1
Existe uma parada chamada DESOBEDIÊNCIA CIVIL que costuma ser 99% mais eficiente que a violência para enviar um recado popular.

Toda essa sujeira espalhada na foto é resultado de uma GREVE que os GARIS do RJ fizeram EM PLENO CARNAVAL. Greve é uma das maneiras de usar a desobediência civil para se alcançar um resultado.

Num mundo onde garis são invisíveis ou ‘a classe mais baixa do trabalho’, como disse o patético Boris Casoy, eles se mostram presentes pela ausência. GRITAM na orelha do poder público: ‘Se vocês precisam da gente para mostrar ao mundo que nossa folia é limpinha; que nos valorizem e nos olhem como cidadãos. Como seres humanos’.

É ano de copa e tudo que os governos municipal (do Rio), estadual (RJ) e federal queriam era passar aquela imagem FAKE e PHOTOSHOPADA do nosso carnaval. Não conseguiram.

PONTO PARA O POVO. PONTO PARA OS GARIS.

“Poder para o povo e o poder do povo vai fazer um mundo novo”.

Invisíveis porque demasiado visíveis

por Giulia Galeotti/ Osservatore Romano

Fotos de Lee Jeffries

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Invisíveis porque demasiado visíveis. Presenças, cada vez mais constantes no nosso panorama urbano, que vivem silenciosamente abandonadas às margens das ruas que percorremos todos os dias. Que nos incomodam porque é mais fácil enviar dinheiro aos pobres da África que superar a tentação de desviar o olhar daqueles leitos que contêm os restos da nossa indiferença. Cada um de nós tem a sua culpa por ter tentado expulsar o grito de solidão, de desolação e embrutecimento que provém, mudo, destas pessoas. Dos corpos consumados e provados dos desabrigados, sem casa nem família, dos rostos fechados em si mesmos, completamente sós. Parece que são impermeáveis a tudo, e no entanto não é difícil perceber o coração esmagado pelo sofrimento de quem sabe que vive e morre ao nosso lado com a nossa mais total indiferença.

Apesar de tudo há pessoas que tentam fazer alguma coisa. Na França uma mulher e um homem escolheram viver com eles, partilhando literalmente a sua existência: Colette Gambiez e Michel Collard. Desejando conhecer deveras estas pessoas, tornaram-se mendigos, enfrentando a luta diária contra frio, fome, rejeição, solidão e abandono para tentar construir uma comunidade e traçar um caminho juntos.

A história dos anos vividos com os desabrigados em 1998 tornou-se o livro Quand l’exclu devient l’élu, vie partagée avec les sans-abri, que agora foi traduzido em italiano (Sulla strada, Roma, Castelvecchi, 2013). São páginas que nos imergem neste mundo distante de nós embora tão próximo: o mundo das mulheres e dos homens-sombra, que vivem em papelão, remexendo o lixo, dormindo nas calçadas e nos corredores do metropolitano.

Collard teve contacto com esta realidade através de uma associação de voluntariado na qual permaneceu por cinco anos, antes de tomar a decisão de partilhar integralmente a vida dos desabrigados. Estávamos em 1983. Nove anos depois Collard prosseguiu o seu caminho com Gambiez, enfermeira fundadora da comunidade Magdala (a favor dos desabrigados), que se tornou sua esposa. Juntos abandonaram tudo para partilhar a vida dos mais pobres. Por detrás da sua escolha estava o desejo de seguir o exemplo de são Francisco, para compreender e amar, interpelar a si mesmos e a Igreja, na convicção de que precisamente nisto é possível o encontro com Deus.

O coração da sua experiência é exactamente o que não gostaríamos de ouvir: «Mais do que o pão é preciso oferecer uma relação fraterna, isto é, recíproca». De facto, a verdadeira infelicidade de quem vive na rua está na dor dilacerante da falta do encontro.

Graças à escolha de Collard e Gambiez, ouvimos quem nos conta a verdade desta vida, as histórias, as dores, os sonhos. Existem dificuldades concretas: quem dorme todas as noites numa cama não consegue imaginar no que consiste a vida de uma pessoa cujo corpo nunca se distende bem, mas está sempre contraído e encolhido. Há a violência sofrida e provocada, que é o pão de cada dia dos pobres. Há a inadaptação, às vezes a loucura; para o homem que sente queimar dentro a própria falência, refugiar-se no imaginário pode ser a única saída para sobreviver.

São situações rápidas e mortíferas como a areia movediça para as quais é necessária uma ajuda diária ampla, muito além do limite da inserção formal. «Para alguns a reinserção já se tornou quase impossível. Então procuremos promover actividades que os tirem do estado meramente vegetativo. A ideia é criar lugares comunitários como as comunidades da Arca», explicam os autores do livro.

Demonstração de uma realidade que une as sociedades mais distantes, as vidas narradas por este surpreendente casal francês encontram parecenças concretas nas imagens de Lee Jeffries, fotógrafo autodidata, contabilista de profissão, que passou os últimos anos nas ruas de Roma, Los Angeles, Paris, Miami, Nova Iorque, Las Vegas e Londres. Não se reconhecem os lugares mas só a dimensão pessoal: são retratos em branco e preto de olhares e rostos de homens, mulheres e crianças unidos pelas dificuldades e pelo sofrimento, mas que brilham de vida.

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Não são imagens feitas à traição, mas retratos fruto do encontro, construído pelas ruas das cidades. Entre luz e sombra, enquadramentos sóbrios sobre fundos monocromáticos escuros, as imagens restituem olhos terrivelmente vivos, brilhantes, lúcidos, arregalados pela surpresa, que choram e olham para o céu, olhos vendados e cegos, olhos enormes e olhos que são fendas. Muitas barbas, lágrimas, muitíssimas rugas. E mãos. Mãos que suplicam, riem, desesperam-se, imploram, rezam, escondem, mãos que fumam, mãos postas sobre o ventre. Crianças que se dão as mãos.

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Meninos no lixo

 
 
por Urariano Mota
 
O Jornal do Commercio, do Recife, nos últimos dias arrancou do sono o jornalismo impresso do Brasil. Quem lê a reportagem “No Recife, infância perdida na lama e no lixo” não sabe o que mais se destaca, se o texto de Wagner Sarmento e Marina Borges, ou se as fotos de Diego Nigro. As imagens de fotógrafo a esta altura correm o mundo, que se espanta pela composição da cena: uma cabeça de menino mergulhado no lixo e na lama de tal forma, que se torna ele próprio lixo também.
 
lixo
 
Escreveram os repórteres:
 
Eles nadam onde nem os peixes se atrevem. De longe, suas cabeças se confundem com os entulhos. Pela falta de quase tudo na terra, mergulham no rio de lixo atrás da sobrevivência. Lá sim tem quase tudo: latinhas, garrafas, papelão, móveis velhos, restos de comida, moscas, animais mortos. Menos dignidade. Lá, no Canal do Arruda, Zona Norte do Recife, o absurdo é rotina….
 
O trio de crianças se acotovelava entre dejetos mil para catar latas de alumínio e garantir o alimento de duas famílias com, ao todo, 18 pessoas. Nadava em meio a tudo que a cidade vomita. Paulinho, o menor e mais astuto dentro d’água, tapava a boca com veemência. Tinha noção exata do risco que corria. Ainda não sabe ler, mas conhece da vida o suficiente para não deixar entrar uma gota sequer daquela lama de cheiro insuportável e chamariz de doenças. Febre e diarreia são constantes”.
 
O escândalo, o falso espanto que causa a reportagem, é na verdade a descoberta desta coisa comum, a miséria de meninos que sobrevivem entre o descaso e a morte. Isso é tão onipresente que não vemos. A transformação da pessoa – perdão, do menino, que há quem julgue não ser uma pessoa -, a mudança de alguém em coisa, e o pior tipo de coisa, a sem valor, descartável, é tão secular que virou natural, como se fossem restos de plástico ao lado dos quais nós passamos imersos em nossas vidas, que achamos ser a mais digna da paisagem. A vida, este bem nosso a que outros não têm o direito. Por que deitar os nossos olhos sobre o que não é gente?
 
Sobre os meninos do Recife eu já havia notado que as ruas, as avenidas onde eles dormem, jazem, têm nomes poéticos, belos: da Aurora, do Sol, da Boa Vista. Mas essa poesia não lhes cola na pele, ou melhor, neles se cola uma poesia invisível, até porque ninguém mesmo os vê. Eles são à semelhança de ratos pela madrugada, porque com ratos se confundem ao sair das cavernas e cloacas da cidade no escuro da noite. Então eles ficam todos negros, na pele ou na camuflagem dos animais que correm pelo asfalto da avenida.
 
Quando em grupos, aos bandos, ainda assim ninguém os vê. Ou melhor, às vezes, sim, quando rondam como símios as bolsas e os relógios dos adultos. Veem-se sem serem vistos, assim como vemos e evitamos no solo um buraco, um obstáculo ou grandes montes de merda. As pessoas fazem a volta e tratam de assuntos mais sérios. Todos estamos já acostumados àqueles figurantes, no cenário. Os meninos nas ruas são personagens que nem falam, porque estão sempre em porre de sonho, delirantes, com a voz trôpega, plenos do sonho que a cola dá. De repente, alguns deles, os mais sóbrios, os que podem, saltam para a traseira de um ônibus. Então os meninos se transformam em morcegos, à beira da morte nos testes que o motorista faz, ao frear e acelerar e a fazer voltas velozes com os ônibus, para ver se os morcegos se estendem no chão. Às vezes os motoristas conseguem.
 
Na foto do Jornal do Commercio, procura-se no canal do Arruda uma criança no meio do lixo espesso na água suja. Onde está Wally? Ninguém vê uma cabecinha negra perdida no lixo e podridão do rio. Ou do canal, que no Recife é um braço do rio. Se o colunista fosse poeta, poderia compor um poema com o nome Os Meninos–Urubus. Ou meninos-ratos. Ou meninos-lixo, simplesmente. Meninos-lixo? Não. Lixo Tudo e Igual, pois uma bola escura à semelhança de cabeça flutua entre plásticos. Para que tentar a poesia que escapa ao colunista? João Cabral de Melo Neto já expressou como ninguém o encontro de lama e rio, de resistência do homem que procurar sair do que o mata no Capibaribe.
 
Com as devidas adaptações, porque o menino da foto ainda não é o homem do poema de João Cabral, dele podemos dizer nesta livre interpretação de O Cão sem Plumas:
 
Aquele canal  jamais se abre aos peixes,
ao brilho, à inquietação de faca que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores pobres e negras como negros.
Abre-se numa flora suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues de folhas duras e crespos como um negro. 

No Canal do Arruda difícil é saber onde começa o canal
onde a lama começa do canal
onde a terra começa da lama;
onde o novo, onde a pele começa da lama;
onde começa o novo homem daquele menino.

 
 
 

Homem é preso por pegar um pedaço de frango descongelado no lixo da Petrobras

Um erro do Ministério Público do Rio de Janeiro levou um homem à prisão por pegar um pedaço de frango congelado na empresa onde trabalhava.
 
O caso aconteceu em julho. O ajudante de limpeza Cláudio Gonçalves Pereira, era funcionário de uma empresa terceirizada e trabalhava na cozinha de um centro de pesquisa da Petrobras. Ele e mais dois amigos foram pegos com frango e iogurte na bolsa, foram levados a delegacia e liberados após pagamento de fiança.
 
Segundo eles, os alimentos seriam jogados no lixo, porque estavam impróprios para o consumo. Em nota, a empresa Ultraserve, onde os três trabalhavam, disse que o material não seria descartado e que não estava fora da validade.
 
Como numa novela, estamos aguardando os emocionantes próximos capítulos: a direção da Petrobrás se faz de morta e até agora não se pronunciou a respeito do tema. Joga toda a culpa na dona da Ultraserv. Como em toda novela, a fofoca corre solta. Dizem que a dona da Ultraserv é amiga do vice-governador do Rio “Pezão” e por isso se acha poderosa.
A dona da Ultraserv que mandou os trabalhadores ficarem em fila indiana, revistou um a um, mochila e bolsa, enfiou três trabalhadores no camburão, levou para a delegacia e prendeu, deve explicações? Ela se defende dizendo que os alimentos não estavam vencidos e nem estavam estragados. Mas a Anvisa determina que alimentos congelados colocados para consumo humano não podem ser reaproveitados, depois de descongelados. Se esse frango não iam para o lixo, para onde ia?
A juíza que mandou prender Claudio Charles, Diogo Cardoso e Marcos Paulo não quis falar a imprensa, nem o promotor. Mesmo ameaçados de demissão e transferência pela dona da Ultraserv, os trabalhadores da empresa fizeram uma paralisação em 29 de agosto, um dia depois da prisão de Claudio, quando Diogo e Marcos Paulo ainda eram considerados “foragidos da justiça”.