Propaganda fúnebre. O BUROCRATA

1966 La muerte de un burocrata (cub) 01

(Segundo poema)

Na velação
todo morto
um santo
e quanto
mais morto
mais santo

Incelenças cantam
as virtudes
Uma vida dedicada
à família
ao trabalho
Uma vida
de mãos limpas
sem escrita
na folha corrida

Incelenças cantam
a pobreza
cobiçada moeda
dos mortos
como garantia
da conquista
do paraíso


Publicado in O Enforcado da Rainha. Talis Andrade, Livro Rápido, 2009, Olinda

Selos do Apocalipse

por Talis Andrade

João XXIII
João XXIII

 

A NOVA ESCRAVIDÃO

(Profecia do Papa João XXIII)

 

A grande arma explodirá no Oriente

deixando eternas chagas

Esta imprudente covardia

sobre a carne do mundo

jamais será cancelada

A grande arma

inútil para a guerra

possui a única finalidade

de apavorar as nações

 

Falar-se-á de paz

mas as armas estarão sempre ocultas

A águia o urso o tigre

há um longo tempo armazenam ogivas nucleares

nas entranhas de submarinos e aviões

 

Nas entranhas da terra

no fundo do mar

nas frias luas que escurecem o céu

mochos metálicos chocam os ovos da morte

 

Homens voarão ao céu

e os homens se entusiasmarão

Deveriam chorar

O mal conquista o céu

para golpear a terra

Deveriam chorar

In livro inédito Selos do Apocalipse

 

 

O Enforcado da Rainha, um poema épico

por José de Souza Castro

Redescubro esse gosto por mensagens significativas em forma de poemas lendo “O Enforcado da Rainha”.

(…) os poemas de Talis Andrade? (São enxutos de palavras: “neste apartado mundo/ as palavras são secas/ secos os corpos”.) Apesar disso, ou talvez por isso, eles vão tecendo uma sucessão infindável de pequenos recortes que formam um painel magnífico de nossa história de esperanças sempre frustradas. Começando por Tiradentes, que recebeu “a escorregadia corda dos enforcados” e que na árvore balança “noite após noite/ até que a liberdade venha/ mesmo que tarde”.

Nesse ponto, socorro-me da professora Iracema Torquato que escreveu sobre o “Romance do Emparedado”: “Na dialética entre vida e morte, a poesia de Talis Andrade meticulosamente se constrói, entre fragmentos de lembranças que se completam mas não se esgotam, deixando sempre ao leitor a possibilidade de reconstrução do sentido e das imagens evocadas”.

É exatamente o que sinto ao ler “O Enforcado da Rainha”. Lampião a sangrar montado em um cavalo corredor por essas terras de cabeças cortadas. Lamarca a se deparar com velhos camaradas vagando pelos descampados. O corpo de Antonio Conselheiro desenterrado para ser fotografado e degolado. O Preto Velho, pós-Princesa Isabel, que tá de canseira no corpo. E o poeta faz perguntas que não consigo responder: “Pra que serve a justiça/ quando os longos braços da lei/ não alcançam a multidão?/ Como viajar/ entre luzes/ cores nuvens/ se tudo permanece proibido”?

O próprio poeta tenta projetar alguma luz sobre nossa confusão, buscando algumas definições – que, na verdade, são pouco animadoras: “A vida uma trama/ farsa que esconde/ a face da fera/ um jogo de mentiras/ do qual somos cúmplices/ pela boca fechada”.

Nesse caleidoscópio, não demora e nos vemos no meio da história, gritando slogans carbonários, e os investigadores refazem a ronda escura da ditadura. O poeta, nesse ponto, deixa de lado a história aprendida ou imaginada, para reviver os escuros dos bares freqüentados por esquerdistas “moças ricas/ bem nascidas/ filhas de deputados e ministros”. E denuncia: “A mão que dedura/ e tortura/ A mão que rouba o pão dos pobres/ A mão que rouba/ nossa infeliz nação/ A suja mão do sangue/ dos inocentes/ aponte o destino/ dos descendentes dos criminosos/ de colarinho (de) branco que/ protegidos pelo foro especial/ fornicam em berço esplêndido”.

Não me surpreenderia se visse, um dia, os poemas de Talis transformados em sucessos de rap. Leia mais