a polícia veio e acabou com a festa

Foto Alex Almeida
Foto Alex Almeida
eu morava perto da favela da serra, em beagá – uma vez, numas férias de janeiro, lá pelos anos oitenta, as crianças arranjaram latas, umas duzentas, vestiram-se com jornais, passaram batom, as meninas com a barriga de fora, e saíram num samba lascado, ao modo deles… um desfile antes do carnaval!
batucavam, dançavam, umas alas bem organizadas, era lindo! toda tarde apareciam, sempre mais gente…

não durou uma semana! os vizinhos telefonaram, atentaram a polícia – ela veio e acabou com a festa!!!

permitir que crianças se organizem é um perigo!!!

Prenhez

líria porto

esta doida de sentires e de pedras
de nublares de viveres e de luas
de sonhares de tornados de dilúvios

esta insana das noites seculares
dos falares dos silêncios dos transtornos
das tempestades desaguares e de lama

esta louca dos amores impossíveis
das demências dos pulsares dos entornos
das claridades dos escuros e dos vãos

esta mulher como tant(r)as
habita-me

Líria lírica. Líria lira. Líria crítica. Líria Porto (quase poesia de protesto)

les misérables 

em noites turvas ou frias
pobres corpos se procuram
sob viadutos e marquises

no reduto dos ratos e das aranhas
os filhos do infortúnio

corpo mole 

no firmamento
tinha uma nuvem

dentro da nuvem
chuva encravada

em terra seca
muita penúria

e a pirracenta
não desaguava

não liberava
uma gota

não soltava uma
descarga

.

tambores

milton minério
nascimento pássaro
caçador de min(as)

.

líder

barriga pra frente
bunda pra trás
e o batalhão
atrás

.

disparo

não tiro de letra
tiro de palavra

de sentença

.

desobediência 

as margens conduzem os rios
com mãos de ferro

(nem sempre conseguem contê-los)

a sede de liberdade
causa transbordamentos

liria 2