Movimentos escracham torturador Dulene Aleixo Garcez dos Reis na Cúpula dos Povos (vídeo)

Por Rafael Soriano

Rio de Janeiro, Botafogo, avenida Lauro Müller, número 96, apartamento 1409. Neste endereço vive confortavelmente o militar reformado Dulene Aleixo Garcez dos Reis, que, durante os anos de chumbo da Ditadura Civil-Militar no Brasil, torturou e assassinou militantes da esquerda, nas dependências do famigerado DOI-CODI na Tijuca. Entre suas vítimas, encontramos o jornalista e secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Mário Alves.
Dulene Aleixo foi capitão da Infantaria do Exército em 1970 e serviu no ano seguinte no Batalhão de Infantaria Blindada (BIB) de Barra Mansa. Das 20 horas da noite do dia 17 de janeiro de 1970 até às 4 horas da manhã do dia seguinte, Dulene participou da tortura de Mário Alves, capturado no mesmo dia, o que culminou com a morte do dirigente por perfuração do intestino e hemorragia interna provocadas por empalamento com cassetete de madeira e estrias de ferro.
Demandando Memória, Verdade e Justiça, mais de 3 mil pessoas realizaram uma manifestação de “Escracho” em frente ao prédio onde vive o ex-torturador. A experiência, herdada de países como Argentina e Chile (onde o protesto se chama Funa), tem sido praticada no Brasil por  organizações de juventude e de direitos humanos, como o Coletivo Tortura Nunca Mais e o Levante  Popular da Juventude, para pressionar a recém-instalada Comissão da Verdade, do Governo Federal.
Após caminhada, desde o Campus Praia Vermelha da UFRJ, com amplo diálogo com a população através de panfletagens, batuques e palavras de ordem, os manifestantes instalaram uma grande assembleia na rua, em frente ao apartamento do militar. Participaram, além das organizações já mencionadas, a Articulação Nacional pela Memória, Verdade e Justiça, movimentos populares, Via Campesina, partidos políticos, UNE, o mandato do Deputado Marcelo Freixo e organizações de Direitos Humanos.
Para Ana Miranda, do Coletivo Tortura Nunca Mais, a divulgação dos casos de abuso do poder público durante a Ditadura Civil-Militar é imprescindível para interromper o ritmo de violência ainda levado pelas polícias até hoje no país. “O engajamento jovem é espetacular, porque os meus filhos, que agora tem mais de 30 anos, ficaram, assim como nós, que sofremos com a Ditadura, marcados pelo silenciamento”.
Ana acrescenta: “essa garotada entende que é uma questão da sociedade brasileira inteira, pois a tortura e a violência continua existindo e a constitucionalidade da Lei de Anistia concedida pelo STF é um passe livre à impunidade”. Ela alerta para o fato de que se não houver punição e justiça em relação às torturas, desaparecimentos e mortes do período de ditadura, a violência vai continuar.
Todas as armas: livros, flores, poemas

Com muita animação, os participantes do ato promoveram um momento místico, em memória às vítimas da repressão militar, no qual foi declamado e encenado uma poesia de autoria do comunista Carlos Marighella e outra do próprio Mário Alves. Num ambiente marcado pelo excessivo policiamento, a presença de outras vítimas também foi reclamada pelos marchantes, a exemplo de Edson Luís, Manoel Lisboa e Edgar Aquino Duarte, todos mortos nos porões da Ditadura.
Segundo os movimentos, a pauta da memória, verdade e justiça é unitária na esquerda e os escrachos devem aumentar e se proliferar pelo país. “Os setores conservadores estão se movimentando, a partir do marco da criação da Comissão da Verdade. Nós dos movimentos populares também estamos, pois acreditamos que a Comissão só vai funcionar se houver ampla participação e pressão popular”, afirma Paulo Henrique, do Levante Popular da Juventude.
“Apesar das críticas que temos à Comissão, ela é um passo importante, mas ela só vai funcionar se houver participação popular nela. A Comissão é uma etapa importante para que se faça justiça nesse país, mas não precisamos esperar por ela: ações judiciais contra torturadores existem, mas eles são protegidos pela Lei de Anistia”, avalia Ana Miranda. “O Brasil é um país contraditório. Assina tratados internacionais contra a tortura, mas tem uma lei que a anistia”, esclarece.

Onde está aquele que a lei diz que deve ser processado e punido

Os esculachos que organizamos e têm se repetido por jovens de todo o Brasil nasceram, em condições diferentes, na Argentina. Lá a sociedade impôs a punição de torturadores, assassinos, estupradores e seqüestradores que participaram da repressão da ditadura.

Mas os povos podem aprender das experiências uns dos outros! Na Argentina e do Chile, o método do escrache ou funa expõe aos olhos do mundo a necessidade da construção da Memória, Verdade e Justiça.

O nosso método é simples: denunciar à sociedade que entre nós, na sociedade, ainda circulam criminosos impunes, apresentar à sociedade um violador ou uma violação de Direitos Humanos.

Um esculacho é sempre o anúncio de outro. Porque, se o escrachado de hoje pode ser o torturador de ontem, o escrachado de amanhã – já se anuncia – poderá ser o policial, o promotor ou o juiz que hoje prevarica e protege os criminosos.

A polícia que reprimiu, torturou e matouaqueles que lutavam pela liberdade durante a ditadura é a mesma que persegue, humilha, agride e assassina a juventude pobre e negra das periferias das grandes cidades. É a mesma que despeja violentamente as famílias do Pinheirinho e os estudantes que fazem ocupações legítimas nas universidades. Por Carla Bueno e Edison Junior Rocha. Transcrevi trechos


“A ditadura não acabou. Sofremos com as heranças jurídicas, sociais e culturais”. Vídeos repressão policial do governador Sérgio Cabral

Estandarte do Cordão da Mentira
Estandarte do Cordão da Mentira

Nota de repúdio à violência e à celebração do Golpe de 1964

Cordão da Mentira vem por meio desta repudiar o evento de celebração do golpe militar de 1964, realizado no Círculo Militar do RJ, e a ação violenta da Polícia Militar do RJ contra os manifestantes no dia 29/3/12. O Cordão classifica tais acontecimentos como, no mínimo, lamentáveis.

Cordão da Mentira, assim como os manifestantes de diversas correntes políticas no RJ, denuncia algo grave: “A ditadura não acabou!”, 48 anos após o golpe, ainda sofremos com as heranças jurídicas, sociais e culturais deixadas por esse período. Herança esta que perpetua o terrorismo de Estado e que pode ser sintetizada pela palavra violência. A dita não foi branda e persiste apoiada não somente em setores militares, mas também em setores empresariais, midiáticos, dentre outros da sociedade civil, que juntos cometeram atrocidades em todo o país. Torturaram, mataram e reprimiram a população brasileira como um todo. Suas vítimas não foram só aquelas que contestavam a ordem, mas qualquer pessoa que não se alinhasse aos interesses espúrios da ditadura civil-militar.

Ao contrário dos outros países latino-americanos, no Brasil não houve justiça de transição. Os responsáveis por crimes como tortura e desaparecimento de corpos, de lesa humanidade, não foram julgados. O Estado brasileiro não investigou os crimes cometidos durante a ditadura, mesmo tendo sido internacionalmente condenado pela OEA por esse motivo. Isso demonstra que os interesses que levaram os militares ao poder continuam fortes e operantes no cenário político. Não satisfeitos, os militares ainda resolveram satirizar a sociedade brasileira em mais uma confraternização de celebração. Perguntamos a eles, o que devemos celebrar?

Após 25 anos do fim da ditadura, o que nos resta? Calar-nos frente às comemorações e aos elogios feitos à ditadura militar pelos oficiais? Devemos conviver diariamente com o discurso apaziguador feito pela grande mídia? Temos de sentir vergonha das lágrimas que derramamos pelos queridos e queridas no passado e no presente? Resta-nos a solidão por acreditarmos em uma sociedade democrática?

Para nós, restou a resignação ou a bala. Nas manifestações, balas de borracha e armas de choque. Nas periferias, balas com pólvora e chumbo.

A ditadura não acabou! Não ficaremos calados! Se a farsa continua, continuaremos a exigir o direito à justiça e à verdade.

 Vídeos da violência policial do governador Sérgio Cabral no Rio de Janeiro, frente ao Clube Militar, no dia 29 último, contra os estudantes que protestavam contra a reunião proibida de apologia do totalitarismo, realizada por oficiais de pijama que participaram do golpe de 64. Clique aqui   

“A semente da impunidade, do esquecimento, do pouco caso com a vida humana”

Os jovens na manifestação no Clube Militar, por Hildegard Angel

Zuleika Angel Jones, Zuzu Angel, morta em uma acidente de carro forjado pelos assassinos do filho e da nora
Zuleika Angel Jones, Zuzu Angel, morta em uma acidente de carro forjado pelos assassinos do filho e da nora


A manifestação dos caras-pintadas diante do Clube Militar

Foi um acaso. Eu passava hoje pela Rio Branco, prestes a pegar o Aterro, quando ouvi gritos e vi uma aglomeração do lado esquerdo da avenida. Pedi ao motorista para diminuir a marcha e percebi que eram os jovens estudantes caras-pintadas manifestando-se diante do Clube Militar, onde acontecia a anunciada reunião dos militares de pijama celebrando o “31 de Março” e contra a Comissão da Verdade.

Só vi jovens, meninos e meninas, empunhando cartazes em preto e branco, alguns deles com fotos de meu irmão e de minha cunhada.

 Stuart Edgar Angel Jones foi assassinado sob terríveis torturas na Base Aérea do Galeão
Stuart Edgar Angel Jones foi assassinado sob terríveis torturas na Base Aérea do Galeão
Sônia Maria de Moraes Angel Jones, torturada e assassinada pelo DOSP-SP, e enterrada como indigente
Sônia Maria de Moraes Angel Jones, torturada e assassinada pelo DOSP-SP, e enterrada como indigente

Pedi ao motorista para parar o carro e desci. Eu vinha de um almoço no Clube de Engenharia. Para isso, fui pela manhã ao cabeleireiro, arrumei-me,  coloquei joias, um vestido elegante, uma bolsa combinando com o rosa da estampa, sapatos prateados. Estava o que se espera de uma colunista social.

A situação era tensa. As crianças, emboladas, berrando palavras de ordem e bordões contra a ditadura e a favor da Comissão da Verdade. Frases como “Cadeia Já, Cadeia Já, a quem torturou na ditadura militar”. Faces jovens, muito jovens, imberbes até. Nomes de desaparecidos pintados em alguns rostos e até nas roupas. E eles num entusiasmo, num ímpeto, num sentimento. Como aquilo me tocou! Manifestantes mais velhos com eles, eram poucos. Umas senhoras de bermudas, corajosas militantes. Alguns senhores de manga de camisa. Mas a grande maioria, a entusiasmada maioria, a massa humana, era a garotada. Que belo!

Eram nossos jovens patriotas clamando pela abertura dos arquivos militares, exigindo com seu jeito sem modos, sem luvas de pelica nem punhos de renda e sem vosmecê, que o Brasil tenha a dignidade de dar às famílias dos torturados e mortos ao menos a satisfação de saberem como, de que forma, onde e por quem foram trucidados, torturados e mortos seus entes amados. Pelo menos isso. Não é pedir muito, será que é?

Quando vemos, hoje, crianças brasileiras que somem, se evaporam e jamais são recuperadas, crianças que inspiram folhetins e novelas, como a que esta semana entrou no ar, vendidas num lixão e escravizadas, nós sabemos que elas jamais serão encontradas, pois nunca serão procuradas. Pois o jogo é esse. É esta a nossa tradição. Semente plantada lá atrás, desde 1964 – e ainda há quem queira comemorar a data! A semente da impunidade, do esquecimento, do pouco caso com a vida humana neste país.

E nossos quixotinhos destemidos e desaforados ali diante do prédio do Clube Militar.  “Assassino!”, “assassino!”, “torturador!”, gritava o garotinho louro de cabelos longos anelados e óculos de aro redondo, a quem eu dava uns 16 anos, seguido pela menina de cabelos castanhos e diadema, e mais outra e mais outro, num coro que logo virava um estrondo de vozes, um trovão. Era mais um militar de cabeça branca e terno ajustado na silhueta, magra sempre, que tentava abrir passagem naquele corredor humano enfurecido e era recebido com gritos e desacatos. Uma recepção com raiva, rancor, fúria, ressentimento. Até cuspe eu vi, no ombro de um terno príncipe de Gales.

Magros, ainda bem, esses velhos militares, pois cabiam todos no abraço daqueles PMs reforçados e vestidos com colete à prova de balas, que lhes cingiam as pernas com os braços, forçando a passagem. E assim eles conseguiram entrar, hoje, um por um, para a reunião em seu Clube Militar: carregados no colo dos PMs.

Os cartazes com os rostos eram sacudidos. À menção de cada nome de desaparecido ao alto-falante, a multidão berrava: “Presente!”. Havia tinta vermelha cobrindo todo o piso de pedras portuguesas diante da portaria do edifício. O sangue dos mortos ali lembrados. Tremulavam bandeiras de partidos políticos e de não sei o quê mais, porém isso não me importava. Eu estava muito emocionada. Fiquei à parte da multidão. Recuada, num degrau de uma loja de câmbio ao lado da portaria do prédio. A polícia e os seguranças do Clube evacuaram o local, retiraram todo mundo. Fotógrafos e cinegrafistas foram mandados para a entrada do “corredor”,  manifestantes para o lado de lá do cordão de isolamento. E ninguém me via. Parecia que eu era invisível. Fiquei ali, absolutamente sozinha,  testemunhando  tudo  aquilo, bem uns 20 minutos, com eles passando pra lá e pra cá, carregando os generais, empurrando a aglomeração, sem perceberem a minha presença. Mistério.

Até que fui denunciada pelas lágrimas. Uma senhora me reconheceu, jogou um beijo. E mais outra. Pessoas sorriram para mim com simpatia. Percebi que eu representava ali as famílias daqueles mortos e estava sendo reverenciada por causa deles. Emocionei-me ainda mais. Então e enfim os PMs me viram. Eu, que estava todo o tempo praticamente colada neles! Um me perguntou se não era melhor eu sair dali, pois era perigoso. Insisti em ficar, mesmo com perigo e tudo. E ele, gentil, quando viu que não conseguiria me demover: “A senhora quer um copo d’água?”. Na mesma hora o copo d’água veio. O segurança do Clube ofereceu: “A senhora não prefere ficar na portaria, lá dentro? “. “Ah, não, meu senhor. Lá dentro não. Prefiro a calçada”. E nela fiquei, sobre o degrau recuado, ora assistente, ora manifestante fazendo coro, cumprindo meu papel de testemunha, de participante e de Angel. Vendo nossos quixotinhos empunharem, como lanças, apenas a sua voz, contra as pás lancinantes dos moinhos do passado, que cortaram as carnes de uma geração de idealistas.

A manifestação havia sido anunciada. Porém, eu estava nela por acaso. Um feliz e divino acaso. E aonde estavam naquela hora os remanescentes daquela luta de antigamente? Aqueles que sobreviveram àquelas fotos ampliadas em PB? Em seus gabinetes? Em seus aviões? Em suas comissões e congressos e redações?  Será esta a lição que nos impõe a História: delegar sempre a realização dos “sonhos impossíveis” ao destemor idealista dos mais jovens?

Trailer do filme

Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, foi uma estilista brasileira, mãe do militante político Stuart Angel Jones e da jornalista Hildegard Angel.Zuzu teve seu filho torturado e assassinado pela ditadura militar.

Na virada dos anos 60 para os anos 70, Stuart Jones, filho de Zuzu e então estudante de economia, passou a integrar as organizações clandestinas que combatiam a ditadura militar.

A partir daí, a apolítica Zuzu entraria em uma guerra contra o regime pela recuperação do corpo de seu filho, envolvendo até os Estados Unidos, país de seu ex-marido e pai de Stuart. A busca de Zuzu pelas explicações, pelos culpados e pelo corpo do filho só terminou com sua morte, ocorrida na madrugada de 14 de abril de 1976, num acidente de carro na Estrada da Gávea.

Uma semana antes do acidente, Zuzu deixara na casa de Chico Buarque de Hollanda um documento que deveria ser publicado caso algo lhe acontecesse, em que escreveu:. “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.
Depois de sua morte, Zuzu foi homenageada em livros, música e filme. O mesmo Chico Buarque compôs, sobre melodia de Miltinho, a música Angélica, em 1977, em homenagem à estilista.

Se acaba el olvido para golpistas de Brasil

IPS

 

 

Frente al Club Militar de Río de Janeiro, donde se conmemoró el golpe Estado de 1964, centenas de manifestantes, muchos de ellos adolescentes, gritaron consignas y arrojaron huevos a los invitados, expresando su repudio con humor.Una escena habitual en otros países de América Latina que también vivieron dictaduras, en Brasil es el amanecer de una reacción popular, 27 años después de la llegada de la democracia.

“La dictadura ya acabó, hay que meter preso al torturador”, gritaban algunos. “¡Parásito! ¡Cobarde!”, gritaban otros cuando un anciano militar, identificado por los manifestantes como un antiguo torturador, intentaba abrirse paso hasta el portón del Club Militar.

“Estamos aquí para hacer justicia: acabar con la impunidad de esos militares torturadores y asesinos”, dijo Tȃnia Rocha, una expresa política y viuda de un militante asesinado del Partido Comunista Brasileño.

Durante la dictadura militar (1964-1985), más de 475 personas fueron asesinadas o desaparecidas, 50.000 encarceladas y más de 20.000 torturadas. Una de ellas es hoy la mujer más ilustre del país, la presidenta Dilma Rousseff.

Una ley de amnistía adoptada en 1979 impidió enjuiciar a los responsables de los abusos.

Rousseff prohibió a los militares festejar el aniversario del golpe de Estado el 31 de marzo. Es la primera vez que se toma esta medida desde la recuperación de la democracia.

Pero los militares adelantaron dos días el festejo y continuaron con la programación prevista, que incluyó la conferencia “64: la verdad”.

Protegido por guardaespaldas, otro oficial retirado consiguió entrar. Un huevo arrojado con mala puntería fue suficiente para que se reiniciaran los cantos, gritos y consignas.

“Pai, afasta de mim esse cálice”, decía el cartel de un joven disfrazado con uniforme militar y máscara de burro, recordando el verso de una famosa canción de Chico Buarque contra el régimen.

El movimiento de jóvenes contra los crímenes de la dictadura se extiende a otros estados como el sureño São Paulo, donde algunos comenzaron a organizar “escraches”, denuncias públicas de presuntos torturadores o asesinos.

“Brasil fue el primero de la región en implantar una dictadura”, dijo a IPS otra manifestante, Ana Miranda, del Colectivo Memoria y Verdad. “La impresión es que, estratégicamente, era tan importante que el silenciamiento fue terrible hasta hoy”, dijo.

Ese silencio fue tan grande que, “después de tanto tiempo todavía internalizamos el miedo, como si las Fuerzas Armadas fueran dueñas absolutas del poder”, apuntó Miranda.

Tal vez uno de los frutos de ese miedo sea la Comisión de la Verdad, que comenzará a sesionar este año para investigar violaciones cometidas desde 1964, pero que no tendrá poder de denunciar presuntos responsables a la justicia.

Uno de los conferencistas de la celebración castrense es el general Luiz Eduardo Rocha Paiva, conocido por sostener que Rousseff debe ser convocada por la Comisión de la Verdad para hablar sobre sus acciones como guerrillera.

Afuera, se sumó a los manifestantes un oficial que solo llegó a coronel porque el ejército lo dio de baja por condenar el golpe. “Yo soy un militar del lado de acá”, aclaraba a la multitud.

“Fui dado de baja en 1964 porque estuve contra el golpe, contra la tortura, contra esos militares que hicieron uso indebido del poder”, dijo a IPS el coronel retirado Bolivar Meirelles, hoy de 72 años.

Adentro, los oficiales, ancianos retirados y jóvenes activos, escuchaban a Rocha Paiva definir la “revolución” como “un movimiento cívico-militar”.

(Transcrevi trechos)

 

31 de março era feriado nacional. Era. Virou escracho

O que era para ser uma simples comemoração pela passagem dos 48 anos do golpe militar, no Centro do Rio, acabou numagrande confusão.

Cerca de 350 pessoas, incluindo representantes do PT, PCB, PCdoB, Psol, PDT e outros movimentos sociais de esquerda, bloquearam a entrada principal do Clube Militar, na esquina das avenidas Rio Branco e Almirante Barroso, e tumulturam a chegada dos convidados para o evento. O tempo todo gritavam palavras de ordem, chamando os militares de torturadores, assassinos e covardes. Cada militar que chegava ao local era cercado, xingado e só conseguia entrar no prédio sob escolta da PM.

O policiamento do local foi feito pela tropa de choque da PM, que cercou a entrada do Clube. Uma pessoa foi presa após se desentender com um militar. A confusão começou com xingamentos e acabou em socos e pontapés e com o manifestante sendo levado pela PM num camburão, o que provocou mais revolta dos manifestantes.

No momento em que o jovem foi colocado no camburão, várias pessoas tentaram impedir que ele fosse levado, cercando o veículo. A PM, então, usou de spray de pimenta para dispersar a aglomeração. Os manifestantes fecharam a Avenida Rio Branco por dez minutos e só liberaram o trâsnsito após os policiais usarem bombas de efeito moral.

(Tribuna da Imprensa)

Se o STF ergueu um muro entre a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos e a Justiça, a ação dos jovens lança a ponte que haverá de torná-lo inútil

Quando um muro separa uma ponte une (…)

Você corta um verso, eu escrevo outro

Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente olha eu de novo

Perturbando a paz, exigindo troco

Vamos por aí eu e meu cachorro

Olha um verso, olha o outro

Olha o velho, olha o moço chegando

Que medo você tem de nós, olha aí

(Pesadelo, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

Aos poucos a sociedade vai rompendo o marasmo com que recebeu a agressão resultante da aliança entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e os torturadores e assassinos da ditadura militar.

Se as discussões sobre o projeto da Comissão Nacional da Verdade foram atalhadas pelo rolo compressor do governo, este viu logo em seguida que sua timidez diante dos criminosos somente lhes aumentava a audácia e o despudor. A exigência da presidenta Dilma e do Ministro Amorim de retirada do manifesto apócrifo da página dos Clubes Militares resultou na afrontosa divulgação do Manifesto dos Canalhas na página dos torturadores.

Entre a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos repudiando os crimes militares e a palavra do STF que os santifica ergueu-se o muro de proteção da ignomínia, com o qual a mais alta instância do Poder Judiciário brasileiro se pôs em favor dos torturadores, assassinos e sequestradores.

Entre a posição do Ministério Público Federal que denunciou o Major Curió pelos desaparecimentos forçados no Araguaia e a realização da Justiça alinharam-se a decisão de um Judiciário de primeira instância que não consegue honrar o compromisso com os direitos humanos e a perspectiva de nova manifestação do STF em favor dos torturadores na malfadada Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental, com que a OAB tentou ganhar para si um espaço no panteão da democracia.

Entre o Manifesto dos Canalhas e a vontade da sociedade em apoio à Memória, Verdade e Justiça esboçou-se um hiato de silêncio e dúvida.

E então a sociedade começou a fazer ouvir sua voz, pela voz da juventude, quando saíram às ruas em busca da oportunidade para demonstrar seu repúdio às violações de direitos humanos e à proteção dos violadores, e seu apoio à luta pela construção da memória, da verdade e da justiça.

Em diversos estados brasileiros os jovens foram às ruas e às portas atrás das quais se esconde a covardia para denunciar aos vizinhos e às consciências que ali se escondem criminosos. Já crentes, muitas vezes, de terem escapado ao julgamento da história, os “capitães Lisboa” de todos os recantos se ocultaram atrás das cortinas e devem ter gemido a dor de se verem encontrados quando já se julgavam ocultos para sempre.

Mas as ações dos jovens dizem mais do que avisar os torturadores e agentes dos desaparecimentos e homicídios de que sua hora se avizinha. Os jovens brasileiros disseram, com sua prática, que os esforços dos que apadrinham e acobertam os crimes do fascismo serão vãos.

A juventude brasileira mandou um recado ao Poder Judiciário e a sua instância maior de que mais do que suas decisões importam os direitos da Pátria e de seus filhos. A juventude popular deixou bem claro com suas ações e suas caminhadas que assumiu as bandeiras da geração que se sacrificou pela libertação nacional e a democracia, e já não aceita mais depô-las. Assim como os da geração pós 1964 ousaram afrontar a tirania militar a serviço do capital, a geração do segundo milênio anunciou sua ousadia para enfrentar a tirania judicial dos defensores do crime, do sequestro, dos homicídios e da tortura a serviço do mesmo capital.

As ações empreendidas pela juventude rebelde brasileira põem na berlinda os fascistas de ontem e os de hoje; o capital que sustentou a ditadura que os protegeu e o capital que protege os torturadores de ontem e de hoje. Na página da internet da empresa de vigilância do delegado Davi Santos Araújo, assassino do dirigente político Joaquim Alencar Seixas, estuprador de sua filha, ainda menor de idade naquela ocasião, e torturador de seu filho e sua esposa, exibiam-se orgulhosamente os logotipos de inúmeras empresas – Volkswagen, Santander, Anhanguera Educacional, Banco Itaú, Ford, Jac Motors e Banco Safra, entre outras – que contrataram os serviços das empresas do torturador. Tais empresas haverão de ser chamadas também, como as empresas que financiavam a tortura no passado, a dar contas de suas responsabilidades.

Se o STF ergueu um muro entre a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos e a Justiça, a ação dos jovens lança a ponte que haverá de torná-lo inútil.

Editorial da edição 474 do Brasil de Fato

Vídeo Música de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós.

Interpretação de Eduardo Gudin, Paulo César Pinheiro e Márcia no show “O Importante é que a Nossa Emoção Sobreviva”.

Levante Popular da Juventude apresenta alguns torturadores

Estudante, entre neste Levante. Vídeo apresenta os excruciadores

270312_torturadoresleandrosilvaLíngua Ferina – Inspirada em mobilizações similares ocorridas no Chile e na Argentina, a juventude da Consulta Popular realizou nesta segunda-feira, 26 de março, ações de “escracho” em diversas cidades contra vários torturadores que atuaram durante o regime militar brasileiro.


Em sua página na internet, o Levante Popular da Juventude declara que “os manifestantes apoiam a Comissão da Verdade e exigem a apuração e a punição sobre os crimes cometidos pela ditadura militar.”No dia 21 de setembro do ano passado, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto que cria a Comissão da Verdade para apurar os crimes cometidos no período entre 1946 e 1988. O projeto provocou inúmeras críticas de diversas entidades de Direitos Humanos, que ressaltam que a Comissão não terá independência do governo nem meios legais e materiais para investigar a fundo os crimes da ditadura.
As ações de escrachos constituem na denúncia de torturadores que continuam impunes até hoje em seus atuais locais de trabalho ou moradia.

A POESIA QUE ALIMENTA NOSSA LUTA

por Paula Adissi

Te bateram,
Te prenderam,
Te humilharam,
Te torturaram,
companheiro meu.
Te quiseram arrancar os sonhos
Teu futuro até teu passado.
Quiseram aniquilar-te
E a alguns aniquilaram.
Mas, a todos vocês companheiros nossos,
Dizemos: na tua luta nos reconhecemos.
E contra todas as violências que em vossas peles arderam,
Hoje nos levantamos
Gritamos!
A tua morte compa meu, teu ferimento irmão meu,
Não deixaremos no esquecimento.
Pronunciaremos os nomes de teus assassinos e torturadores
Apontaremos cada um deles
E não descansaremos, até vê-los punidos!
E tu irmão meu, companheiro nosso,
A luta que nos ensinaste com tua trajetória
Em nós se germina,
E ai de sermos um solo fértil
Para que tua vida, tua luta e teus sonhos
Aqui renasçam.

Movimento de jovens inicia ações contra torturadores da ditadura militar brasileira

270312_tortBrasil De Fato – 26 de março de 2012. Levante Popular da Juventude realizou em várias capitais ações simultâneas de denúncia de torturadores que continuam impunes.


O Levante Popular da Juventude realizou em várias capitais do país ações simultâneas de denúncia de diversos torturadores, que continuam impunes. Os manifestantes apoiam a Comissão da Verdade e exigem a apuração e a punição sobre os crimes cometidos pela ditadura militar.

O caráter das ações, conhecida como “escracho”, baseia-se em ações similares as que acontecem na Argentina e no Chile, em que jovens fazem atos de denuncias e revelações dos torturadores que continuam soltos e sem julgamento sobre suas ações durante a Ditadura Militar.

Levante Popular da Juventude

O Levante Popular da Juventude é um movimento social organizado por jovens que visa contribuir para a criação de um projeto popular para o Brasil, construído pelo povo e para o povo. Não é ligado a partidos políticos.

Com caráter nacional, tem atuação em todos os estados do país, no meio urbano e no campo. Se propõe a articular jovens, militantes de outros movimentos ou não, interessados em discutir as questões sociais e colaborar para a organização popular.

Tem como objetivo propiciar que a juventude tome consciência da sua história e da realidade à sua volta para transformá-la.

O Levante organiza a juventude para fazer denúncias à sociedade, por meio de ações de Agitação e Propaganda. Não há bandeiras previamente definidas. A luta política se dá pelas pautas escolhidas pelos próprios militantes, que realizam atividades de estudo e debates, sistematicamente, por todo o país.

São Paulo

Cerca de 150 jovens do Movimento Levante Popular da Juventude realizam um protesto contra o torturador David dos Santos Araújo, o Capitão “Lisboa”, em frente a sua empresa de segurança privada Dacala, na Zona Sul da cidade de São Paulo, na Av. Vereador José Diniz, 3700.

Os manifestantes promovem um ato de escracho/esculacho contra David dos Santos para denunciar suas ações enquanto torturador do Regime Militar.

Quem é

David dos Santos Araújo é assassino e torturador, de acordo com Ação Civil Pública do Ministério Público Federal. A ação registra o seu envolvimento na tortura e morte de Joaquim Alencar de Seixas. Em agosto de 2010, o Ministério Público Federal ingressou com ação civil pública pedindo o afastamento imediato e a perda dos cargos e aposentadorias do delegado da Polícia Civil paulista pela participação direta de atos de tortura, abuso sexual, desaparecimento forçados e homicídios em serviço e nas dependências de órgãos da União.

Araújo é delegado de Polícia Civil aposentado e dono da uma empresa de segurança privada, a Dacala. Nas ações de repressão no Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operação de Defesa Interna (DOI-Codi) utilizava o nome de “Capitão Lisboa”.

O livro Dossiê Ditadura – produzido pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos – tem o registro de que Joaquim e seu filho, Ivan Seixas, foram presos em abril de 1971 e levados para o (DOI-Codi), onde foram espancados. Na sala de interrogatório, foram torturados um em frente ao outro.

Torturas

Os assassinos de Joaquim Alencar de Seixas foram identificados por seus familiares e companheiros como o então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, o capitão Dalmo Lúcio Muniz Cirillo, o delegado Davi Araújo dos Santos, o investigador de polícia Pedro Mira Granziere e outros conhecidos apenas por apelidos.

Em depoimento no Dossiê Ditadura, Ivan Seixas contou que na sala de tortura foi pendurado no “pau de arara”, enquanto seu pai foi posto na “cadeira do dragão”. Ambos foram torturados por uma equipe de umas cinco pessoas, dos quais conseguiu identificar, entre outros, David dos Santos Araújo.

O “Capitão Lisboa” também é acusado de abuso sexual, como declarou Ieda Seixas, que em depoimento ao Ministério Público Federal disse que foi prensada na parede por ele, que depois enfiou a mão dentro da sua roupa, falando obscenidades e fazendo ameaças.

Armas ilegais

David dos Santos Araújo é portador de 111 armas em situação ilegal, de acordo com investigação da Polícia Federal. A empresa de segurança Osvil, de propriedade de Araújo, perdeu por irregularidades o alvará de funcionamento como empresa de segurança que autorizava o registro de armas.

Com isso, as armas deveriam ser entregues à Polícia Federal. No entanto, essas armas se encontram extraviadas. Depois de perder o alvará, Araújo abriu uma nova empresa de segurança, chamada Dacala Segurança, que tem como clientes o grupo Anhanguera Educacional, Banco Itaú, Ford, Jac Motors, Banco Safra, Volkswagen, Banco Santander.

O processo da PF afirma que ao todo Araújo tem mais de duzentas armas ilegais, além de um arsenal de oitocentas regularmente registradas em nome da empresa Dacala, que é acusada também pelo emprego ilegal de armas de fogo na atividade de segurança privada, de acordo com a Polícia Civil.

Minas Gerais

Em Belo Horizonte, cerca de 70 pessoas participaram de uma ação de escracho em frente a residência do torturador Ariovaldo da Hora e Silva, na manhã desta segunda-feira (26), no bairro da Graça.

A manifestação contou com faixas, cartazes e tambores, além de distribuírem cópias de documentos oficiais do DOPS, contendo relatos das sessões de tortura com a participação de Ariovaldo, para conscientizar a população vizinha ao criminoso.

Os vizinhos se mostraram surpresos com o fato do Ariovaldo ter sido torturador do Regime Militar. “Não sabia que o Seu Ari era um torturador. Tenho na família um caso de perseguido pela Ditadura e vou divulgar isso”, afirmou um morador da região. O denunciado permaneceu em casa ouvindo e assistindo a manifestação, tendo aparecido na janela por alguns segundos.
Quem é

Ariovaldo da Hora e Silva foi investigador da Polícia Federal, lotado na Delegacia de Vigilância Social como escrivão. Delegado da Polícia Civil durante a ditadura, exerceu atividades no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) entre 1969 e 1971, em Minas Gerais.

Ariovaldo da Hora e Silva consta na obra Brasil Nunca Mais (Projeto A), acusado de envolvimento com a morte de João Lucas Alves e de ter praticado tortura contra presos políticos.Foram vítimas dele Jaime de Almeida, Afonso Celso Lana Leite e Nilo Sérgio Menezes Macedo, entre outros.

Na primeira comissão constituída para tratar do recolhimento dos documentos do DOPS ao Arquivo Público Mineiro (APM), em 1991, ele foi designado para representar a Secretaria da Segurança Pública do Estado de Minas Gerais (SESP). Em 1998, foi Coordenador de Informações da Coordenação Geral de Segurança (COSEG).

Rio Grande do Sul

Em Porto Alegre, cerca de 100 jovens estiveram hoje às 9h da manhã em frente à casa do Coronel Carlos Alberto Ponzi, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações de Porto Alegre e um dos 13 brasileiros acusados pela Justiça Italiana pelo desaparecimento do militante político Lorenzo Ismael Viñas em Uruguaina (RS), no ano de 1980, para exigir justiça.

A rua aparentemente tranquila mudou com a chegada da juventude. Os muros antes brancos agora denunciavam: “Aqui em frente mora um torturador!”. Os gritos de ordem, cartazes e cantos chamavam a atenção dos vizinhos, que se amontoavam nas janelas para entender o que se passava. Durante os 40 minutos de manifestação, quem transitou pela rua soube que naquele prédio mora um torturador e que o povo está organizado para não deixar que seus crimes caiam no esquecimento.

A atividade seguiu com distribuição de panfletos e conversa no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O protesto faz parte de uma ação conjunta organizada pelo Levante Popular da Juventude e acontece, além do Rio Grande do Sul, nos estados do Pará, Ceará, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina.

Quem é Carlos Alberto Ponzi?

Carlos Alberto Ponzi chefiou em Porto Alegre o Serviço Nacional de Informações (SNI), um dos braços da repressão do ditadura, que foi criado em 13 de junho de 1964 para supervisionar e coordenar as atividades de informações e contra-informações no Brasil e exterior.

A Justiça italiana abriu processo contra Carlos Alberto Ponzi, sob a acusação de assassinato. A denúncia, aberta em dezembro de 2010, abrange outros dez militares e civis brasileiros, que chefiaram unidades de repressão política no governo João Baptista Figueiredo. Carlos Alberto Ponzi não pode entrar em território italiano sob o risco de prisão pelo desaparecimento em Uruguaiana (RS) do ítalo-argentino Lorenzo Viñas, no dia 26 de junho de 1980.

O caso está com o juiz Giancarlo Capaldo, que presidiu um processo contra Pinochet pelo desaparecimento de cidadãos ítalo-chilenos em Santiago. “Queremos chegar às responsabilidades individuais”, diz Giancarlo Maniga, que representa as famílias das vítimas na Itália. “Eles desapareceram na Operação Condor”, afirmou Claudia Allegrini, mulher de Viñas, que foi subsecretária de Direitos Humanos da Argentina. As famílias de Viñas e Campiglia acusam o governo brasileiro pela responsabilidade.

Em dezembro de 2007, a Justiça da Itália pediu a extradição de Carlos Alberto Ponzi e mais 139 militares e policiais sul-americanos envolvidos em sequestro, tortura e morte de pelo menos 25 militantes políticos que foram alvo da Operação Condor e tinham cidadania italiana. Treze brasileiros foram acusados de participar do desaparecimento dos ítalo-argentinos Horacio Domingo Campiglia e Lorenzo Ismael Viñas. Dos 13, seis já morreram. Os que ainda permanecem vivos podem prestar esclarecimentos ao Ministério Público.

O coronel Carlos Alberto Ponzi sofre também acusação pelo desaparecimento de Viñas do Ministério Público Federal, que ajuizou representações em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Uruguaiana (RS), pedindo a abertura de inquérito contra ex-autoridades da ditadura militar acusadas de assassinato e sequestro. As ações foram movidas pelos procuradores Eugênia Augusta Fávero e Marlon Alberto Weichert.

Pará

Cerca de 80 jovens do Levante Popular da Juventude realizam o escracho em frente ao prédio Visconde, em Belém, onde reside torturador e apoiador da ditadura militar Adriano Bessa.

Eles entregaram um manifesto à população convocando a sociedade a se posicionar em defesa da Comissão Nacional da Verdade e contra os torturadores.

Quem é Adriano Bessa Ferreira?

Adriano Bessa Ferreira prestou serviço militar e fez carreira no setor financeiro. Foi presidente do Banco do Estado do Amazonas, da Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Belém e gerente de agências bancárias. Foi também professor da Universidade Federal do Pará.

Durante o período do regime militar, atuou como delator de atividades do militantes que lutavam contra a ditadura. Seu nome consta de listas da extinta Comissão Geral de Investigações (CGI), criada para “apurar atos de corrupção ativa e passiva ou contrários à preservação e consolidação da Revolução Brasileira de 31 de março”.

Segundo relatos de militantes políticos da época, munido por informações privilegiadas, em função de seus cargos de influência, delatou vários militantes.

Atualmente, está aposentado. E faz poesias: “A vida é um teatro, ilusão / que tem começo, meio e fim / Um dia acabará a encenação / E a vez está chegando para mim”.

Ceará

O Levante Popular da Juventude esculachou José Armando Costa, em Fortaleza (CE), que foi delegado da Polícia Federal na capital cearense no início da década de 70. À época, presos políticos relataram à Justiça Militar que a tarefa do delegado era fazer interrogatórios logo após as sessões de tortura e coagia-os a assinar falsos depoimentos sob ameaça.

Costa aparece nos depoimentos de ao menos cinco ex-presos políticos torturados no Ceará, contidos no projeto Brasil Nunca Mais, da Arquidiocese de São Paulo. “Olha, rapaz, se você não concordar com isso que eu mandei colocar, você pode entrar numa faixa pesada”, teria dito ao engenheiro Lavoisier Alves Cavalcante, com 28 anos em 1973, conforme depoimento da vítima.

No depoimento de Ricardo de Matos Esmeraldo, estudante de 24 anos em 1973, teria desdenhado das torturas sofridas pela vítima quando levado à sua presença para interrogatório. “Dr. Armando, então, disse que aquilo era tolice e que em matéria de surra, até ele, Dr. Armando, havia apanhado de seus pais, motivo por que o interrogando não devia dar muita atenção àquele tratamento”.

José Armando Costa também é citado nos depoimentos, todos coletados em 1973, de Geraldo Majela Lins Guedes, comerciante, 24 anos, José Auri Pinheiro, estudante, 22 anos, e Vicente Walmick Almeida Vieira, físico, 31 anos. Em todos os casos, as vítimas sofreram tortura e foram levadas à presença de Costa, frequentemente identificado como “Dr. Armando”, para interrogatório.

Paraná

Em Curitiba (PR), o Levante Popular da Juventude promoveu um ato público, na Boca Maldita, no centro da capital paranaense, para denunciar os assassinatos, torturas e violações de direitos humanos na Ditadura Militar. Entre os denunciados está o tenente Paulo Avelino Reis, citado como torturador em documentos do Grupo Tortura Nunca Mais.

O protesto abrigou lutadores de diferentes gerações, tanto os que viveram os horrores da repressão, assim como aqueles que não querem que esses setores conservadores voltem a ter voz na política nacional.

A abertura da manifestação contou com uma mística do Levante Popular da Juventude, em que foi lido o Manifesto Levante Contra a Tortura. Nele, os jovens declaram: “Nós acreditamos na justiça e não temos medo de denunciar os verdadeiros responsáveis por tanta dor e sofrimento. Convidamos a juventude e toda a sociedade para se posicionar em defesa da Comissão Nacional da Verdade e contra os torturadores”.

Se no dia 8 de março deste ano, as mulheres silenciaram os famosos espaços “de conversas só para homens” da tradição na Boca Maldita, hoje será a vez de silenciar muitas vozes que não querem a verdade sobre os crimes da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985).

Ações de denúncia aos crimes cometidos pelo Regime Militar e denunciando torturadores acontecem em outras cidades brasileiras neste dia 26. Já foram feitas atos de “escracho” em Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), São Paulo (SP), Fortaleza (CE) e Belém (PA).

Comissão da Verdade

O ato também marca a mobilização para o lançamento do Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça, quando mais um estado se soma à reivindicação nacional pela instauração da Comissão Nacional da Verdade. O lançamento acontecerá no dia 12 de abril, às 19:30, no Teatro da Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Um leque amplo de organizações assina e participa da atividade, desde os partidos de esquerda, além dos seguintes sindicatos: dos Petroleiros do Paraná (Sindipetro-PR), dos Servidores do Judiciário (Sindijus), dos Trabalhadores da Vale Fertilizantes (Sindiquímica), dos Engenheiros (Senge), entre outros. Os jovens marcam presença com a poesia e a animação do Levante Popular da Juventude.

Entidades voltadas à defesa dos direitos humanos participaram da articulação, assim como as entidades no campo institucional, caso da Ordem dos Advogados do Brasil no Paraná (OAB-PR), Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do estado e Promotoria Pública.

“Essa é uma luta de todo o povo brasileiro, no sentido de impulsionar a Comissão da Verdade na ampla e rigorosa apuração dos crimes da ditadura civil-militar, contribuindo para a construção de um Brasil verdadeiramente democrático e soberano”, avalia o membro da direção do Sindicato dos Engenheiros, Antônio Goulart.

Transcrito do Diário Liberdade, um projeto sem fins lucrativos, mas cuja atividade gera uns gastos fixos importantes em hosting, domínios, manutenção e programação. “Com a tua ajuda, poderemos manter o projeto livre e fazê-lo crescer em conteúdos e funcionalidades”.