A tradição do carnaval de Garanhuns tem festival de jazz. Nada mais pernambucano

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Tremeis historiadores da Cultura de Pernambuco – um Roberto Benjamin, um Leonardo Dantas, um Ivan Maurício -, o governador e prefeitos gastam fortunas com camarotes e contratações de artistas de fora. Que Pernambuco se tornou, oficialmente, um vazio musical. Aliás, o Brasil. Que o Rio é a capital do rock, título disputado por Brasília. Que São Paulo é a capital do jazz, título disputado por Garanhuns.

Roberto Benjamin
Roberto Benjamin

O professor Roberto Emerson Câmara Benjamin nasceu no Recife, em 1943. É graduado em Jornalismo e em Direito. Exerceu o Ministério Público. É professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

Professor visitante da Universidade de Poiters, França.

Preside a Comissão Pernambucana de Folclore.

Tem numerosas publicações de artigos em revistas e periódicos científicos sobre a temática da cultura afro-brasileira.

Coordenou as publicações “Contos populares brasileiros” e “A fala e o gesto: ensaios de folkcomunicação sobre narrativas orais”.

É autor dos livros “Arte-educação em Pernambuco”, “Folguedos e danças de Pernambuco”, “Folkcomunicação no contexto da massa” e o “Pequeno dicionário do Natal”.

Afora outros exemplares da série A África está em nós, alguns deles escritos em coautoria com as professoras Janete Lins Rodriguez e Maria Carmelita Lacerda, tem publicados, também, “Carnaval – cortejos e improvisos” em coautoria com Maria Alice Amorim, “A festa do Rosário de Pombal” em coautoria com Oswaldo Meira Trigueiro, a série de paradidáticos “Ali e os camelos”, “O mansa Musa”, “A rainha Ginga” e “A serpente de sete línguas”, ilustrados por Antônio Jirônimo Bizerril Neto e Alzir Alves de Pontes Júnior.

Considerado um dos maiores teóricos da follkcomunicação, Roberto Benjamin destaca os contextos populares como protagonistas das práticas comunicacionais. 

Formou várias gerações de jornalistas, e introduziu cursos de Jornalismo em universidades no Brasil e no exterior. Inclusive dirigiu os cursos de Jornalismo, Relações Pública e Turismo da Universidade Católica de Pernambuco.

Leonardo Dantas
Leonardo Dantas

Leonardo Antônio Dantas Silva nasceu no Recife, em dez de dezembro de 1945.

Dedicou-se desde jovem ao jornalismo, tendo sido redator do Jornal do Commercio (Recife) e Diario de Pernambuco, seguindo-se da pesquisa histórica sendo Leitor [PESQUISADOR]do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Portugal) e de outros arquivos europeus. Exerce, na atualidade, a função membro efetivo do Conselho Estadual de Cultura e Consultor do Instituto Ricardo Brennand (Recife), bem como Assessor da Companhia Editora de Pernambuco – CEPE.

Atualmente é colaborador das Revistas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Rio), Notícia Bibliográfica e Histórica (PUC – Campinas), Continente Multicultural (Recife), Ciência & Trópico (Fundação Joaquim Nabuco – Recife), Planeta (São Paulo), Nossa História (Rio de Janeiro), Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco (Recife), dentre outros periódicos.

Conferencista, no Brasil e no exterior, colaborador em diversas revistas e jornais, vem se firmando no âmbito editorial e da pesquisa histórica, sendo responsável pela edição e publicação de 373 títulos, pertinentes aos estudos sociais na área do Norte e Nordeste do Brasil, 31 dos quais de sua autoria e/ou por ele organizados, no período compreendido entre 1975 e 2006.

No âmbito da administração pública, Leonardo Dantas dirigiu o Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco (1975-1979), foi o primeiro diretor-presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife (1979-1983), ocupou a Diretoria de Assuntos Culturais da Fundarpe (1983-1987), exerceu a função de Diretor Geral da Editora Massangana da Fundação Joaquim Nabuco (1987-2003). Foi ainda o criador do Baile da Saudade (1972), do Festival Nacional do Frevo e do Maracatu – Frevança (1979), da Frevioca (1980), organizador do Carnaval do Recife (1980-1983), dentre outras promoções culturais.

Leonardo reeditou os mais importantes livros da História de Pernambuco, notadamente os tempos coloniais. Livros raros, existentes apenas em mãos de colecionadores e bibliotecas nacionais do Brasil, Portugal, Espanha, França e Holanda.
Na redação do Diário da Noite
Na redação do Diário da Noite
Ivan Maurício
Ivan Maurício
Ivan Maurício Monteiro dos Santos nasceu no Recife em 19/6/1951.
Repórter e editor do “Diário da Noite” (Recife, 1969). Estudou jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco, mas começou a profissão aos 17 anos.
Repórter, editor e diretor de redação do “Diário da Noite”, foi líder de uma turma de repórteres ainda muito jovem, que também se tornaram celebridades da imprensa.

Repórter de “O Globo”, “Surcursal Nordeste” (1972-1973), “Opinião” (1972-1976), “Manchete” (1974), “Movimento” (1976), Prêmio Esso de Jornalismo – Região Nordeste (1978). Editor do Caderno C do “Jornal do Commercio” (1978-1983). Editor do jornal “Vanguarda” (Caruaru, 1992). Editor-geral do “Diário de Pernambuco” (1994-1995).

Foi Presidente da Empresa de Urbanização e Desenvolvimento Integrado de Olinda – URB Olinda e diretor-geral do Centro de Preservação dos Sítios Históricos da Prefeitura de Olinda.

Coordenador Geral da MCI – Marketing, Estratégia e Comunicação Institucional Ltda. (Fortaleza, CE). É editor-proprietário da Editora Coqueiro, especializada na publicação de folhetos da Literatura de Cordel e livros sobre o Nordeste.

Publicou, entre outros, A vida de Frei Damião, Lampião: vida e morte em dez gravuras de literatura de cordel e O caso de Pernambuco – Do movimento de cultura popular ao movimento armorial (com Marcos Cirano e Ricardo Almeida).

Na política, foi candidato a senador pelo PSB, partido que fundou, sendo co-autor do seu espectro ideológico. Disputou o Senado com o monsenhor Mansueto de Lavor, prefeito Antonio Farias (vitoriosos) e os governadores Cid Sampaio e Roberto Magalhães.

Escritor, Ivan Maurício é um dos mais importantes enciclopedistas do Brasil.

A ESCRAVA QUE FALAVA INGLÊS

Aquarela de Jean Baptiste Debrét

por Leonardo Dantas Silva

O Visconde de Santo Tirso, diplomata português da primeira metade do século XX, escreveu certa vez que “a história da humanidade encontra-se mais nos romances que nos livros de história; e mais ainda que nos romances, encontra-se nos anúncios de jornais”.

Nos anúncios de jornais, acentuava ele, “encontram-se dramas em três linhas, romances em suas linhas e meias”.

A propósito de tais observações Gilberto Freyre chamou a atenção para a importância do estudo dos anúncios de vendas e fugas de escravos, publicados no Jornal do Commercio e Diario do Rio de Janeiro; O Povo e Correio do Sul do Rio Grande do Sul; no Diário do Maranhão ou no Diario de Pernambuco, que por vezes estão a dar notícias, em tão poucas linhas, de verdadeiros dramas e mistérios da vida privada brasileira no século XIX.

A pessoa que no Recife conservar em sua casa huma ama de nome Joana, mulata bem alva, cabelos soltos, já assimilhando-se a branca, com uma filha, anuncie imediatamente a sua morada, e nome para lhe prestar os motivos porque não deve conserva-la; por cujas razões, dada a princípio, não deve estar, visto ignorar o que é passado e ser ela suspeita. A pessoa a quem se dirige este anúncio não deve dar parte da dita ama, porque todos os princípios lhe servir[a de incômodo inesperado. (Diario de Pernambuco, 11 de maio de 1835).

E que se diria de jovem escrava, oferecida na edição de 31 de julho de 1848, do mesmo jornal, possuidora de certos atributos pouco comuns, mesmo nos dias atuais, como o domínio da língua inglesa:

Vende-se uma escrava de dezoito anos, de bonita figura e bons costumes, e que serve bem a uma casa, por ter sido educada por uma senhora inglesa, a qual também fala inglês, cose, cozinha, engoma e lava; na Rua do Livramento n.º 36, Recife.

Por muitos anos a imprensa viu no negro escravo um objeto de negócio, classificando-o entre os semoventes – tratado por “cabra” a se confundir com o próprio animal –, e só muito depois é que veio despertar para a chaga da escravidão.

Para a grande massa escrava, que integrava a população do Brasil e acalentou na Independência o seu sonho de liberdade, a imprensa periódica que surgia nada mais era que uma nova forma de negócio. O Diario de Pernambuco, a exemplo de todos os demais jornais de sua época, não fugia à regra, como se depreende do enunciado do seu primeiro número, que se propunha publicar:

“…Roubos – Perdas – Achados – Fugidas e Apreensões de escravos […] Amas de Leite etc., tudo quanto disser respeito a tais artigos; para o que tem convidado todas as pessoas, que houverem de fazer estes ou outros quaisquer anúncios…”.

Sobre o assunto, observa Joaquim Nabuco em 1883, quando da publicação de O Abolicionismo: “em qualquer número de um grande jornal brasileiro – exceto tanto quanto sei, na Bahia, onde a imprensa da capital deixou de inserir anúncios sobre escravos – encontram-se com efeito as seguintes classes de informações que definem completamente a condição presente dos escravos: anúncios de compra, venda e aluguel de escravos em que sempre figuram as palavras mucama, moleque, bonita peça, rapaz, pardinho, rapariga de casa de família…”.

Esses anúncios de jornais, de que trata Joaquim Nabuco, despertaram o interesse de Gilberto Freyre no início dos anos trinta, para isso contou com as pesquisas do jovem José Antônio Gonsalves de Mello, depois transformada em conferência, “O escravo nos anúncios de jornal do tempo do Império”, seguindo-se do livro de grande sucesso. Os anúncios de jornais, particularmente os do Diario de Pernambuco, já vinham sendo utilizados por Gilberto Freyre desde 1933, quando da publicação da primeira edição de Casa-Grande & Senzala (p.330, notas), como identificação das “nações” africanas aqui existentes.

Dos anúncios desses jornais aparecem escravos claros, a denunciar o sangue branco do interior das casas-grandes a tomar conta do Brasil, produzindo esta raça mestiça da qual tanto nos orgulhamos: alvo era “Francisco, que tinha tatuagens representando uma cruz e o signo-de-salomão” (DP, 28.3.1834); “vende-se para fora da província uma mulata bem alva, de idade de 20 a 22 anos, muito prendada, fiel e sem vício algum” (DP, 30.11.1836); o mulatinho que desapareceu da ponte da Boa Vista [Recife] era “alvo e de cabelo estirado e louro” (DP, 16.9.1837); de peitos grandes, pés e mãos pequenas, dentes grandes separados, era a mulata clara Virgínia (DP, 13.3.1838); “…estatura alta, bem alvo e bonito, seco de corpo, braços compridos, dedos finos e grandes, sendo os dois mínimos dos pés bastante curtos e finos, tem dezoito anos de idade, cabelos corridos e pretos, levando eles rentes… mãos e pés bem feitos e cavados, olhos pardos e bonitos, sobrancelhas pretas e grossas, não buça, leva calça de brim branco já usada e camisa de chita com flores roxas (DP, 21.1.1865); “… bem alvo e bonito, seco de corpo, braços e pernas compridas, dedos finos e grandes, cabelos corridos e pretos, olhos grandes e bonitos, sobrancelhas pretas e grossas”, era Ubaldo cuja fuga é anunciada (DP. 5.4.1870).

Por tais anúncios podemos saber mais sobre as nações de origem (Moçambiques, Angolas, Caçanges, Benguelas, Nagôs, Bantos, etc.), marcas de origens e de castigos corporais, tatuagens tribais, divertimentos, vida social e habilitações dos escravos. Nele se esconde toda a vida social dos escravos de então, como divertimentos – “Catarina freqüentava aos domingos o maracatu dos coqueiros, no Aterro dos Afogados” (DP.1.7.1845) ; trajes – Isabel vestia preto, “por o Sr. trazer de luto” (DP, 31.1.1842) ; temperamento (tristes, alegres, falantes, ladinos, brigões), vícios (fumo, álcool, comer terra); doenças (marcas de bexiga, boubas, bichos-de-pé etc.); ajuntamentos – a preta Ricarda era canhota, “mais ou menos alta, seca, cabeça chata, cara redonda”, que, “muito pachola”, gostava de “súcias e batuques” (DP, 16.7.1845).

Os atributos do corpo, a beleza física e outros predicados, também se faziam freqüentes em tais anúncios, por vezes possuídos do toque do pecado – Ana “tinha os peitos em pé, pés pequenos, bem feita de corpo” (DP, 4.5.1839); “peitos grandes, pés e mãos pequenos”, eram os da mulata clara Virgínia (DP, 13.3.1838); “peitos escorridos e pequenos”, eram os de Maria, escrava de Francisco de Paula Freire do Recife (DP, 21.6.1830); “de peitos grandes e em pé,” era a angolana Francisca, de dezesseis anos (Diario do Rio de Janeiro, 15.4.1830); “peitos regulares e meio em pé”, eram os de Maria, de Nação Angola, acrescentando o anúncio ser “alta, cheia de corpo e cara redonda” (DP, 27.8.1835); Ana tinha também “os peitos em pé, corpo bem feito e nariz afilado pequeno” (DP, 4.5.1839); “peitos gordos” eram os de Delfina que era “filha de Pernambuco e falava muito bem o espanhol”, cuja fuga era anunciada pelo Diario do Rio de Janeiro, de 4 de maio de 1830.

Outras prendas eram oferecidas como próprias para tomar administrar cama e mesa de homem solteiro, como aquela “mulata alva, vistosa, dentes alvos”, finalizando o anúncio: “Se algum homem solteiro que estiver em circunstâncias de precisar de uma ama de casa para todo serviço necessário, etc.” (DP, 30.1.1830).

O comportamento e marcas do escravo também estava entre os predicados anunciados – “mulata de linda figura, sabe labirinto, é engomadeira e costureira, de boa conduta” e, como não poderia deixar de ser, “própria para uma noiva por ser donzela” (DP, 7.8.1857); marcas de ferro e/ou de nação; dado a feitiços – alguns com culto instalado na Estrada de João de Barros (DP, 7.2.1859).

Não faltava, nesses anúncios, alguns escravos fugitivos pertencentes a ordens religiosas, como aquele publicado no Diario de Pernambuco de 11 de setembro de 1838:
Do engenho Maraú, ribeira do rio Parnaíba, propriedade do Mosteiro de São Bento da cidade da Paraíba, fugiu Bonifácio, crioulo, idade de 50 anos, seco, pernas finas, pouca barba, e já toda branca; João Batista, crioulo, carpina, de 30 anos de idade, estatura ordinária, cheio de corpo e muito barbado, tem os calcanhares brancos, e pernas fouveiras por queimadura de fogo de pólvora, e o andar um tanto embaraçado; quem os prender e levá-los ao dito engenho ao abaixo assinado, ou ao Mosteiro de Olinda, será satisfeito de todas as despesas e bem recompensado; consta ao abaixo assinado que eles têm andado por Paudalho, Nazaré e Limoeiro, portanto ele roga a seus amigos residentes nesses lugares, toda a pesquisa a respeito, e deles espera tal favor Fr. Galdino de S. Inês Araújo.