Nova lei determina que não existe deputado ladrão

Deputados ficha suja votam lei para não ser chamados de bandido. Talvez seja possível usar a classificação racista: no máximo praticam crime de colarinho (de) branco. É o velho ditado: quem rouba um milhão, barão.

Que rouba um tostão, ladrão. Veja quanto é exemplar este caso:

Faxineira é presa pela Polícia Federal por comer chocolate sem pedir

Agostinho Cascardo, delegado da PF, prende faxineira que comeu chocolate que estava em sua mesa. Em entrevista, a mulher disse que não imaginou que o delegado fizesse tanta questão por um bombom. Internautas indignados (e bem humorados) iniciaram campanha para arrecadar chocolates ao delegado. A campanha ficou conhecida como Operação Sonho de Valsa

O delegado da PF Agostinho Cascardo (foto) prendeu uma faxineira por causa de um chocolate
O delegado da PF Agostinho Cascardo (foto) prendeu uma faxineira por causa de um chocolate

Pragmatismo Político/ Agência Estado – A faxineira E.R.S., de 32 anos, foi detida pela Polícia Federal de Roraima acusada do furto qualificado de um chocolate que estava na mesa do delegado-corregedor Agostinho Cascardo. Ela retirou o bombom de uma caixa e comeu. Após sentir a falta do produto, o delegado analisou as câmeras de segurança da sala e a fez pegar a embalagem do chocolate na lata do lixo, para servir como “prova do crime”.

A acusada trabalhava para uma empresa terceirizada que presta serviço à Polícia Federal e foi demitida por justa causa por “quebra de confiança”.

O caso aconteceu na quinta-feira (30), mas só foi divulgado nesta terça (6), ganhando de imediato repercussão em redes sociais.

Os internautas de Roraima iniciaram uma campanha para arrecadar chocolates e doar ao delegado. A campanha ficou conhecida como Operação Sonho de Valsa.

Em entrevista a veículos de comunicação de Roraima, a faxineira, que tem quatro filhos menores de idade, admitiu ter comido o chocolate, mas disse que não imaginou que o delegado fizesse tanta questão de apenas um dos bombons.

Ela prestou depoimento por quase uma hora e assinou a “notícia-crime” se dizendo constrangida e envergonhada.

Segundo a assessoria de comunicação da Polícia Federal, o caso foi encaminhado para Brasília e a instituição não vai se posicionar sobre o assunto. Ainda conforme a assessoria, não houve prisão em flagrante e foi pedido arquivamento do caso ao Ministério Público Federal pelo “valor irrisório” do crime. A comunicação da PF confirmou que foi feita uma notícia-crime e que a demissão da mulher aconteceu por justa causa.

O Ministério Público Federal em Roraima ainda não recebeu os autos do procedimento e disse que “tão logo tome conhecimento formal dos fatos, analisará o caso em todos os seus aspectos”.

Em nota, a Diretoria Regional da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal em Roraima (ADPF-RR) negou que tivesse sido instaurado inquérito policial ou que tivesse sido feito autuação de flagrante ou de qualquer procedimento investigatório de natureza criminal.

“Na ocasião, simplesmente se observou os protocolos e as normas internas do Departamento de Polícia Federal ao promover o registro de ocorrência, cujo conhecimento foi dado à empresa prestadora de serviços terceirizados contratada pela Superintendência Regional no Estado”.

Quando o pobre rouba a imprensa, a polícia, a justiça usam os seguintes termos: pechelingue, ladravaz, ladravão, furtador, capoeiro, agadanhador, agafanhador, escamoteador, abafador, lapim, lapinante, ventanista, roubador, rapinador, pilhante, pandilheiro, mão-leve, malandrim, malandréu, rato, ladro, larápio, bandido, gatuno, rapace, rapinante, pilha, ratoneiro, malandro.

Cadeia é feita para preto. Que temos uma polícia PPV, e uma justiça também PPV. Os presídios brasileiros têm cor.

presos18

Fotos do blogue de Humberto Oliveira
Fotos do blogue de Humberto Oliveira

Também fica proibido classificar de corrupto um deputado que desvia verbas da saúde, roubando o futuros de milhões de crianças e jovens, e da saúde, apressando a morte de quem procura os hospitais e postos de saúde, sem médicos, enfermeiros, medicamentos etc.

Corrupto tem os seguintes sinônimos: putrefato, podre, devasso, pervertido, depravado, venal, viciado, sórdido, imoral, perverso.

A justiça eleitoral limpa as fichas sujas e a imprensa lava os nomes
Eneko
Eneko

TV Brasil – A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou, na tarde de ontem, o projeto de lei 215/2015, que garante o “direito ao esquecimento” no Brasil. Mas aqui a ideia é um pouco diferente daquela que vigora na Europa.

A ideia é que os cidadãos tenham poder para fazer sumir todo o conteúdo disponível na internet que os associem a fatos caluniosos, difamatórios, injuriosos ou a algum crime de que tenham sido absolvidos sem chances de recurso.

Embora pareça positiva, a iniciativa ultrapassa alguns limites aplicados na legislação europeia. Isso porque no Brasil os deputados querem que as informações simplesmente desapareçam, enquanto que na Europa a lei só obriga buscadores a desindexar esses materiais. Além disso, lá o direito ao esquecimento não se aplica a pessoas públicas, mas aqui, sim.

bombom

Segundo a Folha de S.Paulo, o projeto tem patrocínio do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que acelerou a tramitação para que o texto sequer precisasse passar por comissões de mérito – ou seja, nem os deputados responsáveis por avaliar projetos sobre ciência e tecnologia foram consultados.

O Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional divulgou parecer contra a ideia, que precisa ser aprovada em plenário para ser enviada ao Senado, onde teria de passar por comissões de mérito, pelo CCJ da Casa e, só depois, pelo plenário. Mas já no plenário da Câmara haverá enfrentamento de deputados contrários, segundo a Folha.

Josetxo Ezcurra
Josetxo Ezcurra

Campanha dos jornais associados para derrubar Dilma

* Os restos do império de Chatô

* Hapvida da democracia em perigo de morte

* Canadá investimentos pavão misterioso das comunicações

Aécio Neves comprou ações deste jornal vendido, conservador, tucano e direitista
Aécio Neves comprou ações deste jornal vendido, conservador, tucano e direitista
Correio Braziliense foi vendido para que grupo?
Correio Braziliense foi vendido para que grupo?

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand ou Chatô, foi um magnata das comunicações no Brasil entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1960, dono dos Diários Associados, que foi o maior conglomerado de mídia da America Latina, que em seu auge contou com mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e agência telegráfica.

Cahô é responsável pela chegada da televisão ao Brasil, inaugurando em 1950 a primeira emissora de TV do país, a TV Tupi. Por seu empenho contra a entrada do capital estrangeiro na imprensa, foi visto como ameaça pela CIA que financiou Roberto Marinho na criação da TV Globo.

Figura polêmica e controversa, odiado e temido, Chateaubriand já foi chamado de Cidadão Kane brasileiro, e acusado de falta de ética por supostamente chantagear empresas que não anunciavam em seus veículos e por insultar empresários com mentiras, como o industrial Francisco Matarazzo Jr. Seu império teria sido construído com base em interesses e compromissos políticos, incluindo uma proximidade tumultuada porém rentosa com o Presidente Getúlio Vargas.

Durante o Estado Novo, consegue de Getúlio Vargas a promulgação de um decreto que lhe dá direito à guarda de uma filha, após a separação da mulher. Nesse episódio, profere uma frase célebre: “Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei”. Em 1952, é eleito senador pela Paraíba e, em 1955, pelo Maranhão, em duas eleições escandalosamente fraudulentas.

Caracterizou-se, muito embora fosse um representante típico da burguesia nacional emergente da época, pelas posturas pró-capital estrangeiro e pró-imperialismo, primeiro o britânico, depois o americano: além de muito ligado aos interesses da City londrina (a escandalosa embaixada na Inglaterra, na década de 1950, foi a realização de um velho sonho pessoal), conta a anedota que ele teria uma vez dito que o Brasil, perante os EUA, estava na condição de uma “mulata sestrosa” (Globeleza) que tinha de aceder às vontades dos seu gigolô. Era temido pelas campanhas jornalísticas que movia, como a em defesa do capital estrangeiro e contra a criação da Petrobrás.

Chateaubriand sempre buscou adquirir novas tecnologias para os Diários Associados. Foi assim com a máquina Multicolor, a mais moderna máquina rotativa da época, sendo o grupo de Chateaubriand o primeiro e único a possuir uma por longo tempo, na América Latina; foi assim também com os serviços fotográficos da Wide World Photo, que possibilitava a transmissão de fotos do exterior com uma rapidez muito maior do que possuía qualquer outro veículo nacional. O mesmo se deu com a publicidade: grandes contratos de exclusividade para lançamento de produtos com a General Electric e para o pó achocolatado Toddy, cujos anúncios estavam sempre nas paginas dos jornais e revistas. A orientação publicitária de Chateaubriand para seus veículos começou a funcionar tão bem que os jornais dos Diários Associados passaram a anunciar os mais diversos produtos e serviços, desde modess a cheques bancários, algo tido como inédito na década de 1930, no Brasil.

Publicou mais de 11870 artigos assinados nos jornais, e presidiu, entre 1941 e 1943, a Federação Nacional da Imprensa (FENAI – FAIBRA).

Com o tempo, Chateaubriand foi dando menos importância aos jornais e focando em novas empreitadas, como o rádio e a televisão. Pioneiro na transmissão de televisão brasileira, cria a TV Tupi, em 1950. Na década de 1960, os jornais atolavam-se em dívidas e trocavam as grandes reportagens por matérias pagas. Dois dos veículos de comunicação lançados no início da década de 1960 por Assis Chateaubriand, o jornal Correio Braziliense e a TV Brasília, foram fundados em 21 de abril, no mesmo dia da fundação de Brasília.

Trabalha até o final da vida, mesmo depois de uma trombose ocorrida em 1960, que o deixa paralisado e capaz de comunicar-se apenas por balbucios e por uma máquina de escrever adaptada. Em 1968, morria Chateaubriand, velado ao lado de duas pinturas dos grandes mestres: um cardeal de Ticiano e um nu de Renoir, simbolizando, segundo o protegido, o arquiteto italiano e organizador do acervo do MASP Pietro Maria Bardi, as três coisas que mais amou na vida: O poder, a arte e a mulher pelada. Morreu também com o império se esfacelando e com o surgimento do reinado de Roberto Marinho que, de inimigo, passou a ser uma imitação. Roberto Marinho terminou, também, chamado de Cidadão Kane brasileiro.

Chatô foi um dos homens mais influentes do Brasil nas décadas de 1940 e de 1950 em vários campos da sociedade brasileira.

Assis Chateaubriand criou e dirigiu a maior cadeia de imprensa do país, os Diários Associados: 34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 estações de televisão, uma agência de notícias, uma revista semanal (O Cruzeiro), uma mensal (A Cigarra), várias revistas infantis (iniciada com a publicação da revista em quadrinhos O Guri em 1940), e a editora O Cruzeiro.

Deixou os Diários Associados para um grupo de vinte e dois funcionários, atualmente liderados por Álvaro Teixeira da Costa. O Condomínio Acionário das Emissoras e Diários Associados é, conjuntamente, o terceiro maior grupo de comunicações do país. Tendo como carro chefe cinco jornais em grandes cidades do Brasil, líderes em suas respectivas praças (dos quinze que ainda restam).

O império de Chatô foi sendo vendido pelas desastrosas e corruptas administrações dos empregados do primeiro escalão que, por morte, são substituídos por parentes e contraparentes.

Golpe ao seu alcance
Golpe ao seu alcance

Em 23 de dezembro de 2014, saem notas na imprensa de que o grupo estava se desfazendo de todos os seus veículos de comunicação na Região Nordeste, e vendendo-os ao Grupo Hapvida, proprietário do Sistema Opinião de Comunicação. O negócio, que exclui apenas os jornais O Imparcial e Aqui Maranhão e o portal O Imparcial Online de São Luís, MA, já estaria em fase final de negociação, esperando apenas uma aprovação do CADE.  Isso veio a se confirmar em 19 de janeiro de 2015, quando o CADE aprovou em nota publicada no Diário Oficial da União a venda de 57,5% das empresas do grupo ao Sistema Opinião de Comunicação, através da razão social Canadá Investimentos. Sendo assim, os Diários Associados passariam a ser acionistas minoritários da TV Clube Pernambuco, TV Clube João Pessoa, TV Borborema, Rádio Clube AM Campina Grande, Rádio Clube FM João Pessoa, Rádio Clube AM Natal e do jornal Diario de Pernambuco. As outras empresas contíguas na região continuam pertencentes ao grupo.

Hapvida e Canadá Investimentos realizam no Nordeste a campanha pelo retorno da ditadura. E para derrubar Dilma.

Pouco se sabe sobre a Canadá Investimentos. Apenas que é uma empresa limitada. Até onde vai a limitação? Procure, em qualquer site de pesquisa, informações sobre essa invisível empresa… Que pavão misterioso esconde a Canada Investimentos? Não é incrível que uma empresa, que controla vários meios de comunicação de massa, seja desconhecida, amoitada, uma loba detrás da porta de Dilma ou de Michel Temer?

Outra coisa curiosa, para os Associados, a palavra de um delator vale mais do que a palavra de um juiz, de um delegado, de um promotor, de um procurador. Uma doença nova que ataca deputados e senadores da CPI da Petrobras, além do governo de Fernando Henrique.

 

Das confissões premiadas e sob tortura

Turismo em centro de tortura

Que a ditadura oferecia ao preso político: – confesse! que se pára a tortura!

Que valor tem uma confissão arrancada entre gritos e gemidos, ou nos estertores da morte?

Na delação premiada acontece assim: quanta mais revela um preso, mais liberdade. E parte do dinheiro roubado.

Quantos anos de perdão, e quanto levou em dinheiro o bandido Alberto Youssef, para delatar os companheiros de quadrilha no BanEstado?  Com esse dinheiro, nos últimos dez anos, Youssef criou mais de cem empresas criminosas.

 

A delação premiada virou um negócio da China.

O ex-gerente executivo da Diretoria de Serviços da Petrobras Pedro Barusco, disse em depoimento à CPI da Petrobras que foram solicitados à SBM Offshore recursos para campanha eleitoral e que os valores foram repassados ao PT, via o tesoureiro João Vaccari Neto.

Questionado a quem eram destinados os valores, Barusco disse que o dinheiro foi dado na época da eleição presidencial em que disputavam o tucano José Serra contra a petista Dilma Rousseff e o vice Michel Temer, em 2010.

Ele ressaltou que o dinheiro foi encaminhado ao PT. “Foi solicitado a SBM um patrocínio de campanha, só que não foi dado por eles diretamente. Eu recebi o dinheiro e repassei num acerto de contas em outro recebimento”, afirmou.

De seu rico patrimônio, no Brasil e no exterior, adquirido de forma ilícita e gananciosa, Barusco vai ficar com quantos milhões de dólares? Será premiado com quantos anos de liberdade, para continuar com seus sujos negócios de offshores e tráfico de moedas?

Qual o interesse do Grupo Hapvida em realizar uma campanha diária para golpear Dilma?

diário de pern

Da incomunicabilidade dos divinos poderes

PT deixou de ser partido.
Virou uma religião

shutterstock

 

O macaco é sagrado em várias partes do mundo. Devia ser aqui. As tribos da África Ocidental reverenciam nele uma figura ancestral, que representa a malícia. No hinduísmo honram o deus macaco Hanumam. No Japão os três Macaquinhos Místicos que não vêem nenhum mal, não ouvem nada de mal, e não dizem nada de mal.

Creio assim oficializada uma nova seita, tendo em vista a nossa vocação para o ecletismo religioso.

O primeiro Macaquinho não escuta

O ministro da Fazenda Antonio Palocci disse que “uma transformação silenciosa está acontecendo na economia brasileira”. Em discurso na inauguração do Sistema Integrado dos caixas eletrônicos do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, Palocci revelou que essa transformação silenciosa está permitindo que o Brasil consiga um desenvolvimento que se estende às camadas mais pobres da população, o que não ocorreu em processo semelhante no passado.

Palloci esqueceu de avisar se promoveram uma integração idêntica entre os bancos oficiais, a Receita Federal e a Previdência.

O segundo Macaquinho não fala

Temos o sigilo bancário, o foro especial e o segredo de justiça. José Dirceu inclusive anunciou que o governo pretende criar uma categoria de documento jamais vista: o de segredo eterno. Justiça seja feita, vai oficializar a prática do engavetamento para toda a eternidade, como sempre aconteceu com as CPIs. Um modismo que vem dos tempos do “nada a declarar” do ministro Alfredo Buzaid, no governo Médici.

É o país das autoridades amordaçadas, e que apenas falam abobrinha e mungangem. Fica explicado porque jornalista faz campanha contra a regulamentação da profissão e do trabalho. Todo mundo virou precário em relações públicas das personagens do Panteão nacional.

O terceiro Macaquinho não vê

O Brasil é o país da escuridão total. Ninguém jamais viu um sorteado das loterias da Caixa Econômica, um negócio tão rendoso que Val e Cachoeira queriam o controle. Encantaram até os prédios das prisões especiais para hospedar os ladrões de colarinho (de) branco.

Aviões carregaram para o Uruguai o ouro de Serra Pelada. E ninguém viu. Transportaram nos aviões Franco CC-5, para os paraísos fiscais, cerca de 250 bilhões de dólares nos oito anos terminais do governo FHC. Ninguém viu.

No começo do governo Lula era prestígio ostentar uma carteirinha do PT. Foi o caso do frei Tito, que não quis ser militante na nova religião. Não nasceu com a vocação de Talleyrand, bispo de Antun.

 

Pavel Constantin
Pavel Constantin

Publicado em 28/02/2005 no Aqui e Agora.  Seis anos depois, em 2011, entrou em vigor a Lei da Transparência que ainda não vigora em nenhum poder da República Federativa do Brasil. Vamos deixar para um futuro distante o direito do povo ser informado. E ressaltar a harmonia entre os três poderes. A necessidade de um poder conhecer o que o outro faz.  

Esdruxulamente, esse papel de ligação entre os poderes vem sendo realizado por uma imprensa parcial. 

Poder (do latim potere) é a capacidade de deliberar, agir e mandar e também, dependendo do contexto, a faculdade de exercer a autoridade, a soberania, o império. Poder tem também uma relação direta com capacidade de se realizar algo, aquilo que se “pode” ou que se tem o “poder” de realizar ou fazer.

O poder vai até onde a informação chega. No Brasil são simbólicos: o nome de Rio da Integração para o São Francisco, os postes das linhas telegráficas do marechal Rondon, e a Hora do Brasil, programa radiofônico criado em 1934, durante o Estado Novo, e retransmitido obrigatoriamente por todas as emissoras do país, entre 19 e 20 horas, desde 1938.

Da transparência. Democracia Um país que possui foro especial, neologismo para justiça secreta, não existe transparência.

A Lei da Transparência é para inglês ver. No 

Art. 3o: Os procedimentos previstos nesta Lei destinam-se a assegurar o direito fundamental de acesso à informação e devem ser executados em conformidade com os princípios básicos da administração pública e com as seguintes diretrizes:

I – observância da publicidade como preceito geral e do sigilo como exceção;

II – divulgação de informações de interesse público, independentemente de solicitações;

III – utilização de meios de comunicação viabilizados pela tecnologia da informação;

IV – fomento ao desenvolvimento da cultura de transparência na administração pública;

V – desenvolvimento do controle social da administração pública.

“Sigilo como exceção”, escárnio, piada, que o Brasil se tornou o país das fantasiosas, perdulárias, bombásticas e espetaculares comissões parlamentares de inquérito e das operações policiais. Que representam uma inútil busca da transparência, da quebra do silêncio, da ormità, do sigilo, do segredo. Acrescente-se que, em caráter confidencial, dissimulado, privado, essas investigações também existem dentro do judiciário.  

 

 

Uma barreira contra investidas violentas dos fascistas

 

 

Vários crimes praticados contra uma estudante: assédio moral, abuso de poder, stalking, bullying, violência machista e terrorismo midiático da revista Veja, acostumada a destruir reputações, e o jornal O Globo, que defende o pensamento único.

 

Publica CromossomoX:

Maria Clara Bubna – Sobre o Silêncio ou Manifesto pela Voz

 

Maria

Maria Clara Bubna, 20 anos, é estudante do 1° período de Direito na UERJ e integra o Coletivo de Mulheres da sua Universidade.

Ela era – até ele pedir exoneração – aluna do Professor Bernardo Santoro,autor de uma postagem de conteúdo debochado e pra lá de machista feita, publicamente, em seu facebook, e repudiado, recentemente, e com toda a razão, pelo Coletivos de Mulheres da UFRJ, outra Universidade na qual Bernardo leciona.

Depois disso, Bubna passou a ser perseguida pelo professor – embora ele insista em afirmar o contrário, mesmo estando ele hierarquicamente, acima da aluna, em sua relação dento da Universidade – que atribui, equivocadamente, a autoria do repúdio à Bubna e seu Coletivo, embora o Repúdio tenha sido redigido por outro Coletivo Feminista, de outra Universidade (???).

A estudante ficou um tanto surpresa e assustada com o rumo que o assunto tomou e a repercussão que teve, mas resolveu quebrar seu silêncio e contar sua versão da história em seu depoimento intitulado “Sobre o Silêncio ou Manifesto pela Voz”, que reproduzo, na íntegra, logo abaixo.

“Parabéns” sqn, Professor Bernardo Santoro! O Senhor conseguiu ficar famoso como o machistinha mais comentado das redes sociais dos últimos dias!

E parabéns, de verdade a ti, Maria Clara Bubna, que optou por não ficar calada, apesar de, como tu mesma disseste no teu manisfesto, seres “o elo mais fraco desta relação”, por seres aluna, por seres mulher, por seres ainda muito jovem.

Segue o Manifesto de Maria Clara Bubna:

SOBRE O SILÊNCIO OU MANIFESTO PELA VOZ

Por muitos dias, eu optei por permanecer calada. Talvez numa tentativa de parecer madura (como se o silêncio fosse reflexo de maturidade) ou evitando que mais feridas fossem abertas, eu escolhi, nesse último mês, por vivenciar o inferno em que fui colocada com declarações breves e abstratas e conversas pessoais cautelosas. Mas se tem uma coisa que eu descobri nesse mês é que a maior dor que poderiam me causar era o meu silenciamento, o meu apagamento por ser mulher, jovem, “elo fraco” de toda relação de poder. Eu decidi portanto recuperar minha voz. Esse texto é um apelo a não só o meu direito de resposta, mas o meu direito a existir e me manter de pé enquanto mulher.

Eu nunca vi necessidade de esconder meus posicionamentos. Seja sobre o meu feminismo ou minhas preferências políticas, sempre fui muito firme e verdadeira com o que acredito. Mantive sempre a consciência de que minha voz era importante e que, junto com muitas outras vozes, seriamos fortes. Exatamente por isso, nunca vi necessidade de me esconder. Decidi fazer Direito baseada nessa minha ideia de que a união de vozes e forças poderia mudar a quantidade brutal de situações hediondas que o sistema apresenta.

Dentro da Faculdade de Direito da UERJ, acabei encontrando um professor que possui postura claramente liberal. Ele também nunca fez questão de esconder suas preferências políticas, mesmo no exercício de sua função. Apesar de ser meu primeiro ano na faculdade, passei alguns muitos anos no colégio durante os ensinos fundamental e médio e tive professores militares, conservadores, cristãos ferrenhos. Embates aconteciam, mas nunca ninguém se sentiu ofendido ou depreciado pelas suas preferências ideológicas. O debate, quando feito de maneira saudável, pode sim ser enriquecedor. Para minha surpresa, isso não aconteceu no ambiente universitário.

Ouvindo Bernardo Santoro se referir aos médicos cubanos como “escravos cubanos”, a Marx como “velho barbudo do mal”; explicar o conceito de demanda dizendo que ele era um “exímio ordenhador pois produzia muito leitinho” (sic) e que o “nazismo era um movimento de esquerda”, decidi por me afastar das aulas e tentar acompanhar o conteúdo por livros, gravações, grupos de estudo… Já ciente do meu posicionamento político e percebendo minha ausência, o professor chegou a indagar algumas vezes, durante suas aulas: “onde está a aluna marxista?”.

No dia 15 de maio deste ano, Bernardo postou em sua página do Facebook, de maneira pública, um post sobre o feminismo. Usando o argumento de que se tratava de uma “brincadeira”, o docente escarneceu da luta feminista e das mulheres de maneira grosseira e agressiva. A publicação alcançou muitas visualizações, inclusive de grupos e coletivos feministas que a consideraram particularmente grave, em se tratando de um professor, como foi o caso do Coletivo de Mulheres da UFRJ, universidade em que Bernardo também leciona. A partir do episódio, o Coletivo de Mulheres da UFRJ escreveu uma nota de repúdio à publicação do professor, publicada no dia 27 de maio na página do próprio Coletivo, chegando rapidamente ao seu conhecimento.

Foi o estopim. Fazendo suposições, o professor começou a me acusar pela redação da nota de repúdio e a justificou como fruto de sua “relação conflituosa” comigo, se mostrando incapaz de perceber quão problemático é escarnecer, de maneira pública, de um movimento de luta como o feminismo.

Fui então ameaçada de processo. Primeiro com indiretas por comentários, onde meu nome não era citado. Alguns dias se passaram com uma tensão se formando, tanto no meio virtual quanto nos corredores da minha faculdade. Já se tornava difícil andar sem ser questionada sobre o assunto.

Veio então, dias depois, uma mensagem privada do próprio Bernardo. A mensagem me surpreendeu por não só contar com o aviso sobre o “processo criminal por difamação” que o professor abriria contra mim, mas por um pedido do mesmo para que nos encontrássemos na secretaria da faculdade para que eu me desligasse da minha turma, pois o professor não tinha interesse em continuar dando aula para alguém que processaria.

Nesse ponto, meu emocional já não era dos melhores. Já não conseguia me concentrar nas aulas, chorava com uma certa frequência quando pensava em ir pra faculdade e essa mensagem do professor serviu para me desestabilizar mais ainda. Procurei o Centro Acadêmico da minha faculdade com muitas dúvidas sobre como agir. Foi decidido então levar o assunto até o Conselho Departamental que aconteceria dali alguns dias.

No Conselho, mesmo com os repetidos informes de que não se tratava de um tribunal de exceção, Bernardo agiu como se fosse um julgamento. Preparou uma verdadeira defesa que foi lida de maneira teatral por mais de quarenta minutos. Conversas e posts privados meus foram expostos numa tentativa de deslegitimar minha postura. Publicações minhas sobre a militância feminista e textos sobre minhas preferências políticas foram lidos pelo professor, manipulando o conteúdo e me expondo de maneira covarde e cruel. Dizendo-se perseguido por mim, uma aluna do primeiro período, Bernardo esqueceu-se que dentro do vínculo aluno/professor há uma clara relação de poder onde o aluno é obviamente o elo mais fraco. Eu, enquanto aluna, mulher, jovem, não possuo instrumentos para perseguir um professor.

O Conselho, por fim, decidiu pela abertura de uma sindicância para apurar a postura antipedagógica de Bernardo. Não aceitando a abertura da sindicância, o professor, durante o próprio Conselho, comunicou que iria se exonerar e deixou a sala.

Foi repetido incansavelmente que a questão para a abertura da sindicância não era ideológica, mas sim sobre a postura dele como docente. Bernardo, ao que parece, não entendeu.

No dia seguinte, saiu uma reportagem no jornal O Globo sobre a questão. O professor declara que eu sempre fui uma “influência negativa para a turma”. Alguns dias depois, a cereja do bolo: seu amigo pessoal, Rodrigo Constantino, publicou, em seu blog na Revista Veja, uma reportagem onde eu era completamente difamada e exposta sem nenhum aviso prévio sobre a citação do meu nome. A reportagem por si só já era deprimente, mas o que ela gerou foi ainda mais violento.

Comecei a receber mensagens ameaçadoras que passavam desde xingamentos como “vadia caluniadora” até ameaças de “estupro corretivo”. Meu e-mail pessoal foi hackeado e meu perfil do facebook suspenso.

A situação atual parece estável, mas só parece. Ontem, no meu novo perfil do facebook, recebi mais uma mensagem de um homem desconhecido dizendo que eu deveria ser estuprada. Não, eu não deveria. Nem eu nem nenhuma outra mulher do planeta deveria ser estuprada, seja lá qual for o contexto. Nada nesse mundo justifica um estupro ou serve de motivação para tal.

Decidi quebrar o silêncio, romper com essa postura conformista e empoderar minha voz. É preciso que as pessoas tenham noção da tensão social que vivemos onde as relações de opressão estão cada vez mais escancaradas e violentas.

Em todo esse desenrolar, eu me vi em muitos momentos me odiando. Me odiando por ser mulher, me odiando por um dia ter dado valor à minha voz. Me vi procurando esconderijos, me arrependendo de ter entrado na faculdade de Direito, de ter acreditado na minha força. Me detestei, senti asco de mim. Mas eu não sou assim. Eu sou mulher. Já nasci sentindo sobre mim o peso da opressão, do machismo, do medo frequente de ser violada e violentada. Eu sou forte, está na minha essência ter força. E é com essa força que eu escrevo esse texto.

Estejamos fortes e unidos. A situação não tende a ficar mais mansa ou fácil. Nós precisamos estar juntos. É essa união que vai criar rede de amor e uma barreira contra essas investidas violentas dos fascistas que nos cercam. Foi essa rede de amor e apoio que me manteve sã durante esse mês e é essa rede que vai nos manter vivos quando o sistema ruir. Porque esse sistema está, definitivamente, fadado ao fracasso.

 

Abrace e empodere sua voz.

 

Maria Clara Bubna

Rio de Janeiro, junho de 2014.

 

 

O Papa excomunga a máfia italiana

Francisco faz um duro discurso contra a ‘Ndrangheta depois da morte de uma criança
Criança de quatro anos é assassinada na Itália em ajuste de contas mafioso

O papa Francisco aos mafiosos: Peço-lhes de joelhos, convertam-se

 

O papa Francisco, diante de dezenas de milhares de vizinhos da Calábria, a terra da ‘Ndrangheta, o local onde no último mês de janeiro Cocò, uma criança de três anos, foi assassinada e carbonizada junto a seu avô durante um macabro ajuste de contas, deu um passo mais em sua oposição de enfrentamento à máfia. “A ‘Ndrangheta”, disse ontem Jorge Mario Bergoglio chamando o mal pelo nome, “é a adoração do mau, o desprezo do bem comum. Tem que ser combatida, afastada. Isso nos pedem nossos filhos, nossos jovens. E a Igreja tem que ajudar. Os mafiosos não estão em comunhão com Deus. Estão excomungados”. Uma grande ovação rompeu o silêncio de uma terra acostumada a se calar.

As palavras de Francisco, ainda podendo parecer uma redundância, não o são. A Igreja católica não se destacou historicamente por levantar a voz contra a máfia. A lembrada intervenção de João Paulo II em Agrigento (Sicília) em 1993 —“mafiosos, convertam-se, um dia chegará o julgamento de Deus”— foi uma pedrada em um lago quieto. Nem antes nem depois a hierarquia do Vaticano soube acompanhar os padres de um povo que em Nápoles, Sicília ou Calábria romperam o silêncio contra a Camorra, a Cosa Nostra ou a ‘Ndrangheta e, em alguns casos, pagaram com sua vida o atrevimento. A intervenção de Bergoglio durante a missa que fechou sua visita a Cassano allo Jonio —o povoado de 17.000 habitantes, província de Cosenza, onde foi assassinado Cocò— vem a confirmar sua postura radical contra a máfia que já apontou o último 21 de março em Roma.

Naquele dia, Francisco converteu-se no primeiro Papa a ir à cerimônia anual em memória das mais de 1.500 vítimas da máfia. Jorge Mario Bergoglio entrou na igreja de São Gregório VII com Luigi Ciotti, um padre famoso na Itália por sua velha luta contra o crime organizado, e depois de escutar os nomes das vítimas inocentes dirigiu-se a seus verdugos: “O poder, o dinheiro que têm agora, os ganhos de tantos negócios sujos, de tantos crimes mafiosos, o dinheiro ensanguentado não poderão levá-lo à outra vida. Peço, de joelhos, se convertam”.

Na Calábria ele deu um passo a mais. Anunciou a excomunhão dos mafiosos, o que também pode parecer um gesto simbólico, mas é algo mais profundo. Por um lado, não se pode esquecer que muitos mafiosos, e em especial os que pertencem à estrutura da ‘Ndrangheta, incluem em sua simbologia termos e inclusive devoções cristãs. Por outro, a Igreja italiana, como tantos outros setores da sociedade, conviveu durante séculos com as máfias. Às vezes, como um problema menor. Outras, como um poderoso aliado. Ninguém esquece da infiltração de personagens da máfia e da política mafiosa no banco do Vaticano ou do fato, que chamaremos de pitoresco, de que o motorista que conduziu o veículo de Karol Wojtyla em sua primeira visita oficial à Sicília, em 1982, se chamava Angelo Siino e pertencia à Cosa Nostra. A sombra dessa interseção de interesses também parece estar por trás do desaparecimento jamais esclarecido da criança Emanuela Orlandi em 1983.

O papa Francisco não só parece disposto a fazer tábula rasa com essa inércia perigosa do Vaticano, como também a mudar radicalmente —não só com palavras, mas também com gestos— o roteiro. Durante sua visita a este recanto de Calábria, Bergoglio esteve com os presos do presídio de Castrovillari (onde se reuniu com o pai e as avós de Cocò) e com os doentes terminais do hospital San Giuseppe Moscati; almoçou com um grupo de pessoas atingidas pela pobreza extrema e, quando se reuniu com os padres da região, disse a eles que se dediquem menos a eles mesmos e mais às famílias.

Também levou sua fala às instituições. Durante a visita à prisão —afetada como todas as italianas por uma superpopulação que multiplica a dureza das condenações— Francisco disse que “é essencial que os detentos compreendam a importância de respeitar os direitos fundamentais do ser humano”, mas também, advertiu, que as instituições penitenciárias trabalhem para conseguir uma efetiva reinserção dos presos na sociedade. “Quando este requisito não se cumpre”, acrescentou, “a execução da pena se converte em um instrumento de castigo e represália social e, ao mesmo tempo, danoso para o indivíduo e para a sociedade”.

Quando se reuniu com os pais da criança Nicola Campolongo e de Cocò, Bergoglio os confortou, dizendo: “Que não existam mais vítimas da ‘Ndrangheta. E, sobretudo, mais violência contra as crianças. Que nunca mais uma criança tenha que voltar a viver este sofrimento”.

Bergoglio lembrou-se de Cocò em uma terra que, quando o recorda, só o faz em silêncio.

O silêncio cúmplice do medo

A omertà, esse código de silêncio construído de medo, de lealdade ou da ligação de alguns materiais que a máfia sabe manipular tão bem, pode ser tocado nas ruas de Cassano allo Jonio. Só é necessário lançar uma pergunta aparentemente inocente enquanto se espera a chegada de Jorge Mario Bergoglio a bordo de seu carro descoberto: Por que acha você que o Papa vem? E então Antonio Mancuso responde: “Vem nos pedir perdão por levar para Roma nosso bispo”. Diante da expressão de estranhamento do estrangeiro, se vê forçado a acrescentar: “E porque se chama Francisco e nesta terra nasceu São Francisco de Paula…”.
A resposta parece com a que, de início, oferecem os compadres, já aposentados, Mario Pennini e Giacinto Pellicano ou com a que dá Maria, rodeada por suas filhas adolescentes. Mas Maria não demora em confessar —baixinho, isso sim— diante da tristeza da evidência: “Isso que acontece aqui [jamais a palavra máfia ou a palavra ‘Ndrangheta, só às vezes o sucedâneo de “a má vida”] nos tem asfixiado. Está levando nossos filhos, arruinando suas vidas, matando-os. Não podemos continuar vivendo assim, mas não podemos falar se não queremos que nos calem”.
O medo, a granel, em estado puro. Disfarçado de eufemismos sempre e ontem escondido nas bandeirolas brancas e amarelas do Vaticano, na orquestra autárquica e nos novos sorvetes “com sabor Francisco”. O medo é o que provoca a ausência cúmplice de um nome nas bocas e nas paredes. O Papa vem a este recanto da Calábria, sabem todos, porque a ‘Ndrangheta matou Cocò, o matou e o cozinhou no interior de um carro, junto a seu avô e a sua jovem noiva. Mas o nome de Cocò não está em nenhuma parede, ninguém parece se lembrar dele. Até o prefeito, Giovanni Papasso, um socialista convencido de que a ‘Ndrangheta destroçou seu carro e queimou sua casa, procura, no início, sair pela tangente. Depois, à sombra da igreja grande, admite que sim, que a pressão e o medo são sentidos, que é um drama que nesta terra fértil e de gente boa a única saída dos jovens seja a emigração ou…
—Sim, diga prefeito.
—A ‘Ndrangheta.

 

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Quase um ano de investigações da chacina da família Pesseghini e a polícia não consegue concluir um inquérito convincente

Em 2013, a polícia matou 5.3 pessoas por dia. Entre os 1.890 casos, falta incluir, além de outros, a chacina da família Pesseghini.

A corrupção ou ineficiência da investigação criminal acontece desde o local do crime até o julgamento ou o arquivamento do processo.

Por ano, são mais de 50 mil mortes no país. E os casos em que os assassinos são punidos não chegam sequer a 8 por cento.

Andreia Regina Bovo Pesseghini (35 anos), cabo da 1.ª Companhia do 18.º Batalhão da Polícia Militar, com base na Freguesia do Ó, mãe do menino Marcelo, denunciou companheiros de farda como membros de uma quadrilha de assaltantes de caixas eletrônicos em São Paulo.

Luis Marcelo Pesseghini (40 anos), sargento da ROTA, esposo de Andreia Regina, e pai do menino Marcelo, teve como última missão evitar um assalto de caixas eletrônicos, em um supermercado, tendo inclusive trocado tiros com os bandidos. Um telefonema considerado anônimo, do quartel de Andreia Regina, avisou o sargento Luis Marcelo da ocorrência do crime. Quem deu o telefonema? É muito estranho, uma aberração que se desconheça quem usou o telefone privativo do comando de um quartel. E mais curioso ainda: o quartel que Andreia Regina trabalhava.
Os comandados do sargento Luis Marcelo, que estavam no carro patrulha da Rota, ouviram pelo rádio a informação sobre o assalto que foi evitado, inclusive com a morte de um marginal.

Numa polícia que vinga seus mortos, em que impera a lei do silêncio, o único suspeito investigado é o filho do casal de militares, o menino Marcelo de 13 anos que, para completar a chacina, também matou a avó Benedita Oliveira Bovo (65 anos) e a tia-avó Bernardete Oliveira da Silva (55 anos), respectivamente, mãe e tia da cabo Andreia.

Andrea Regina e o filho Marcelo
Andrea Regina e o filho Marcelo

O INTERMINÁVEL INQUÉRITO DO CASO PESSEGHINI. COMO CONVENCER A POPULAÇÃO COM ALEGAÇÕES FANTASIOSAS, IMPEDINDO O ESCLARECIMENTO.

por George Sanguinetti

Tomo conhecimento que o inquérito policial, que deveria apurar os homicídios múltiplos da família Pesseghini, foi prorrogado mais uma vez.

Os autos remetidos ao DHPP, com dilatação do prazo a vencer em 27-06-2014, ainda será insuficiente para tentar encerrar um inquérito policial que contraria todas as provas, que utiliza artifícios para enganar, que protege os autores da chacina, atribuindo culpa, a também vítima e, por sinal, a mais frágil, mais vulnerável, o menor Marcelo, que além de ter assassinado os familiares, teria em seguida cometido suicídio, conforme alegado “pelo faro” da autoridade policial, na exata ocasião em que os corpos foram encontrados.

Disse não necessitar de laudo ou prova técnica, que o caso já estava resolvido. Começou um trabalho, não de investigação policial, mas de deturpação da imagem do menor Marcelo, até então, comportado, tranquilo, sem nenhuma doença psíquica ou deficiência mental.

A imprensa foi alimentada que o mesmo desejava ser um matador, um serial killer; que possuía experiência e perícia no uso de armas.

Foi encomendado um exame psiquiátrico pós morte, ao Dr. Guido Palomba, que elaborou um pretenso “laudo “, um relato inverídico que o menor sofria de encefalite encapsulada, em razão de ter sofrido uma parada cardiorrespiratória. Não consta prontuário médico, ficha hospitalar ou ambulatorial que comprove o alegado. Nenhum exame, desde o simples eletrencefalograma, exame do liquor, RM crânio, CT crânio, PET SCAN. Não apresentou nenhum sinal ou sintoma. Quando ocorreu a parada cardiorrespiratória? Em qual UTI pediátrica foi atendido?

O rendimento escolar era bom, o depoimento da médica assistente que tratava dele na Santa Casa, desde os 2 anos de idade, negou a encefalopatia diagnosticada no inquérito.

Elaborei um Parecer Médico-legal, entregue no início de fevereiro ao Ministério Público de São Paulo e à Justiça. Em abril, enviei, após consulta preliminar, se os absurdos do inquérito, feriam os direitos humanos. Tive autorização e hoje, o caso é examinado na Organização de Direitos Humanos para as Américas, com sede em Washington, D. C. EUA.

A lamentar, a prática condenável, de direcionar um inquérito policial, um procedimento administrativo, com o objetivo de obter informações a respeito do crime e da autoria, para que o Ministério Público dê andamento a ação penal. Apontando o menor Marcelo, “os soldados de Herodes”, estariam a salvo, não seriam investigados e responsabilizados, pois se Marcelo fosse autor dos crimes e, em seguida, tivesse cometido suicídio, o caso estaria encerrado, a impunidade assegurada.

Aguardo ajuda para o esclarecimento do caso, de todos que possam contribuir para uma ação policial mais digna, mais confiável.

Não deixem o caso ser esquecido. Menor Marcelo inocente, apenas mais uma vitima.

Iniciado o inquérito em 5 de agosto de 2013, em breve convite, de aniversário de um ano.

O enterro de um torturador abandonado pelos comparsas de 21 anos de ditadura e mais um risível laudo policial

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Tudo que o coronel Paulo Malhães fez em vida terminou acontecendo na hora da morte.  Faleceu sozinho, depois de duas ou oito horas de tortura, e enterrado sem os velhos amigos dos porões do golpe de 64. Apenas 51 pessoas acompanharam o cadáver. A única diferença que o corpo foi entregue aos familiares para o sepultamento. Que o Brasil continua com milhares de desaparecidos ocultados em valas comuns nos cemitérios oficiais e clandestinos. Ou os corpos jogados no alto mar. Ou cremados em fornos de fábricas de empresários que financiaram o CCC – Comando de Caça aos Comunistas.

A imprensa publica hoje o press release da polícia: O coronel reformado do Exército morreu de “causas naturais, vítima de edema pulmonar, isquemia de miocárdio e miocardiopatia hipertrófica”, conforme a Guia de Sepultamento do militar entregue, ontem, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, onde foi sepultado. Isso apenas contasta o óbvio:  o ancião, quem tem mais de 70 anos, não suportou a tortura.

O documento, que é necessário para que o enterro seja realizado, contraria algumas linhas de investigação da polícia, que apura se houve violência na morte do militar, e avaliação da Comissão da Verdade do Rio, que classificou o óbito como “queima de arquivo”.

Coronel foi enterrado na tarde deste sábado
Coronel foi enterrado na tarde deste sábado

 

O coronel confessor ter participado de assassinatos, torturas e desaparecimentos durante a ditadura. Em depoimento à Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense, a mulher dele, Cristina Batista Malhães, e o caseiro deles, Rogério, que não teve divulgado seu sobrenome, afirmaram que chegaram ao sítio em Nova Iguaçu às 14h de quinta-feira e encontraram três homens na casa. Um estava encapuzado – mascarado porque conhecido – e rendeu Cristina, outro imobilizou o caseiro e o terceiro levou Malhães para um quarto. A polícia calcula que Malhães morreu por volta das 16h — duas horas depois da rendição. Considero um escárnio quando a polícia “calcula”.

Segundo os depoimentos, os homens que ficaram com Rogério e Cristina mandavam que eles mantivessem a cabeça abaixada. Foram roubados do sítio um computador, uma impressora e pelo menos três armas antigas — uma de cano longo e duas de cano curto. Na primeira versão da morte, para fortalecer a tese de latrocínio, foi dito que Malhães era um “colecionador de armas”.

Parece piada: O delegado Fábio Salvadoretti disparou que na região há quadrilhas de traficantes que poderiam ter interesse nas armas. Os assassinos buscavam o computador e documentos.

Cristina e Rogério disseram que não ouviram gritos de tortura vindos do quarto, e que foram libertados, gentilmente, pelos próprios invasores quando eles deixavam a casa, depois de oito ou nove horas. O coronel foi amordaçado.

Um mês antes de morrer, Malhães falou sobre o desaparecimento dos restos mortais do deputado federal Rubens Paiva, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade no dia 25 de março. Também informou que agentes do Centro de Informação do Exército (CIE) mutilavam corpos de vítimas da repressão na Casa da Morte (Petrópolis) arrancando arcadas dentárias e pontas dos dedos para impedir identificação.

Ontem, o administrador Joaquim Sarmento Souza, 25, afilhado do coronel, relatou uma conversa que teve com a viúva do militar, logo após o crime, na qual ela afirmou que os criminosos citaram ter ordens para “matar ele”. “A mulher dele (Cristina) contou que os bandidos se falavam o tempo todo por rádio. E recebiam ordens: ‘Ainda não matou ele? Tá demorando muito. A ordem é matar ele’. Perguntavam se o meu padrinho não lembrava da família que ele matou em (Duque de) Caxias e ele respondia que não”, disse Souza. Fica a pergunta: por que demoraram nove horas?

O rapaz diz crer que o crime foi motivado por vingança, de uma das vítimas torturadas no passado ou de algum ex-empregado de Malhães, já que o oficial se desentendia com frequência com eles. “Ele sempre teve muito problema com funcionário, desde o cara que cuidava dos animais ao que capinava o mato no entorno da casa”, lembrou. Um empregado de salário mínimo com equipamento moderno de comunicação e, pelos menos, dois veículos.

Mais velha dos cinco filhos do coronel, Karla Malhães, afirmou que o pai tinha alguns problemas de saúde e inclusive era hipertenso “o que é normal para a idade”, destacou. Na última quinta-feira (24) quando foi encontrado no sítio em que morava com a mulher Cristina Batista Malhães, o corpo de Malhães estava de bruços, com o rosto contra o travesseiro e apresentava sinais de cianose, característicos de sufocamento.

Carla Malhães afirmou que o depoimento do pai, confessando ter participado de crimes durante a ditadura, acabou “expondo ele mesmo e toda a família. “O depoimento dele foi muito contundente. Nós mesmos nos surpreendemos”.

Karla acrescentou que a família não tem acompanhado o andamento das investigações. “Não pensamos em nada disso (investigação). Isso é com a polícia. Estamos nos despedindo de nosso pai”. Ela disse que os filhos não sabiam do papel exercido pelo pai durante a ditadura. “Para nós ele era apenas pai. E um bom pai. Para vocês, era um coronel da ditadura. É tudo muito doloroso”, acrescentou a filha.

Irmão mais novo de Karla, Paulo Malhães Junior afirmou que o pai nunca falou sobre possíveis ameaças. “(Ele) não chegou a comentar nada. Não sabemos de nada. Estamos tão perdidos quanto vocês (sobre as motivações do assassinato)”.

"Nós acabamos de enterrar nosso pai, o marido da Cristina. O coronel, o tirano, fica para vocês", disse Karla Malhães, uma das filhas do coronel
“Nós acabamos de enterrar nosso pai, o marido da Cristina. O coronel, o tirano, fica para vocês”, disse Karla Malhães, uma das filhas do coronel

Escreveu Vania Cunha: “Um homem controverso

Aos 77 anos, completados há uma semana, Paulo Malhães vivia recluso em seu sítio em Nova Iguaçu há quase três décadas. Recebia poucas visitas e morava apenas com a mulher. O homem que chocou o Brasil ao dizer que matou ‘tantas pessoas quanto foram necessárias’ durante a ditadura agora passava os dias cuidando dos cachorros e cultivando uma coleção de orquídeas.

Nos últimos 30 anos, o militar vivia recluso no sítio de Marapicu. Ultimamente, tinha poucos contatos com os filhos e morava só com a mulher. Foto:  Juliana Dal Piva
Nos últimos 30 anos, o militar vivia recluso no sítio de Marapicu. Ultimamente, tinha poucos contatos com os filhos e morava só com a mulher. Foto: Juliana Dal Piva

Nos últimos dois anos, estava com os movimentos limitados devido a uma queda durante uma reforma da casa. Passava os dias sentado nas cadeiras da varanda . A relação com a família era distante. Ele tinha cinco filhos e estava no sexto casamento. Colocado na reserva em 1985, logo após o fim da ditadura, Malhães guardava uma imensa mágoa do Exército, por quem dizia ter sido abandonado. Um dos maiores orgulhos do coronel Malhães era o que dizia ser a sua especialidade: formar infiltrados. ‘Eu adorava meu trabalho’, costumava dizer.

Ex-chefe do DOI-Codi assassinado em 2012

O coronel reformado Paulo Malhães não é o primeiro militar ligado ao desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva a ser assassinado. Em 1º novembro de 2012, o coronel da reserva Júlio Miguel Molina Dias, de 78 anos, ex-chefe do Departamento de Operações de Informação do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) no Rio, foi morto com seis tiros quando chegava de carro a sua casa em Porto Alegre.

Peritos encontraram num arquivo pessoal de Molina documentos comprovando que, levado por uma equipe do Centro de Inteligência da Aeronáutica em 20 de janeiro de 1971, Paiva desapareceu numa estabelecimento do Exército.

O militar gaúcho havia sido chefe do DOI-Codi carioca até início dos anos de 1980. As anotações estavam em uma folha de ofício já amarelada pelo tempo e havia sido retirada do arquivo que as Forças Armadas negam existir.

No ano passado, a Justiça gaúcha condenou dois policiais da Brigada Militar pelo crime. Eles teriam matado Molina para roubar 20 armas que o militar guardava em casa”.

Para mídia europeia, morte de coronel Malhães é queima de arquivo

A morte de Malhães tem repercussão na mídia internacional. O jornal espanhol El Pais afirma que “as feridas da ditadura militar brasileira seguem abertas e ainda há muitas coisas para saber sobre esse período, trinta anos após a redemocratização do país”. O jornal comenta que “as pessoas que mataram Malhães podem ter pretendido mandar um recado a todos os convocados a testemunhar na Comissão da Verdade”. El Pais evoca a frieza com que Malhães relatou à CNV as mutilações que executava nos presos políticos para evitar sua indentificação.

O jornal O Público, de Portugal, diz que “a morte de Paulo Malhães trouxe a lembrança do caso de Júlio Molinas Dias, outro ex-coronel que foi morto em novembro de 2012 na porta de casa”. O diário português reproduz comentários de membros da CNV que atribuem a morte de Malhães a uma queima de arquivo.

Queima de arquivo

Segundo Pedro Dallari, no longo depoimento que o coronel concedeu à CNV no dia 25 de março, “ficou evidente que ele dispunha de mais informações”. Na opinião de Dallari, “o assassinato de Malhães deve ter sido praticado com a finalidade que ele não voltasse a depor e e também para inibir o depoimento de outras testemunhas que poderiam colaborar ou que ainda podem colaborar com os trabalhos da Comissão da Verdade”. Uma clássica queima de arquivo.