Moradores espancam negro até a morte em São Luís do Maranhão

Existe uma pregação odienta de pastores, de jornalistas policiais e de políticos golpistas. Publica o Correio Braziliense: “Moradores do bairro São Cristóvão, em São Luís amarraram e espancaram um assaltante que havia acabado de roubar uma loja na região. Cleydenilson Pereira Silva, 29 anos, não resistiu aos ferimentos e morreu no local. Segundo a Polícia Civil, o homem teve o tronco, as mãos e as pernas imobilizadas antes de ser agredido com pedradas e garrafadas, além de socos e chutes. Um adolescente, que também participou do assalto, na tarde de segunda, foi apreendido”.

linchamento negro

Ninguém faz isso com um prefeito ladrão. Um governador ladrão. Com os corruptos que desviam verbas da Educação, da Saúde, do Saneamento e do Programa de construção de bairros operários e vilas camponesas. Ninguém faz isso com os traficantes de minérios, de moedas, que vendem o Brasil a preço de banana.

“Tem gente que precisa levar tiro”, prega um pastor enlouquecido.

um louco

Esse cara ou fez plástica no corpo todo, ou colocou um boneco de dezoito anos no Facebook. Com nome de menino, Lucinho, quer ser um eterno garoto, quando é um velhote com complexo de Cinderelo.

Um maluco beleza perigoso. Avisa Maria Luiza Quaresma Tonelli: Lúcio Barreto Júnior, o “pastor Lucinho”, se define como “uma das referências atuais da juventude brasileira”. Esse sujeito no, programa da Super Rede de Televisão, uma emissora gospel instalada em Minas Gerais, faz uma clara defesa da violência policial. É uma verdadeira aberração. Até quando teremos que tolerar esse tipo de coisa, ainda mais nos meios de comunicação, que são concessões públicas? Isso é crime!
Chocante. Se os membros do Ministério Público (cientes do papel de fiscal da lei da instituição `a qual pertencem) não começarem a tomar providências contra essa avassaladora sanha punitiva que está sendo difundida no Brasil talvez estejamos trilhando um caminho sem volta. Mas não é a penas o MP, o judiciário ou os políticos que precisam enfrentar esse problema de frente para combate-lo. A sociedade também precisa tomar consciência do seu papel, debater o problema e barrar esses falsos religiosos que colocam o processo civilizatório em risco.

“Tem que usar o revólver, não tem jeito, irmão, pega o revólver e dá muito tiro”

.

louco dois

Escreve Joaquim de Carvalho:

Lúcio Barreto Júnior, de 42 anos, é um homem bem falante. Casado e pai de dois filhos, uma menina de 13 e um menino de 10 anos de idade, veste roupas de adolescente e, em seu site, se define como “uma das referências atuais da juventude brasileira”.

Essa “referência” da juventude brasileira foi notícia, ao posar para foto com o nariz encostado em um exemplar da Bíblia, como se nela houvesse cocaína, e ele fosse um usuário de droga.

“Se não for radical, não toca o jovem”, explicou seu gesto esse homem já na meia idade. O pastor Lucinho talvez considere radicais suas manifestações no programa da Super Rede de Televisão, uma emissora gospel instalada em Minas Gerais.

Um jovem pergunta: “Um policial em serviço é obrigado a matar alguém para se defender, isso é pecado?”

Lucinho poderia responder sim ou não, mas prefere se alongar e, fugindo da pergunta, justifica a violência policial. Diz ele folheando a Bíblia, como se estivesse próximo de revelar a verdade incontestável. “Vamos ler a Bíblia, então, porque Lucinho é achômetro, mas a Bíblia é palavra final”, diz.

Em seguida, saca um versículo e o cita fora de contexto. “Não há autoridade que não venha de Deus”, fulmina. Ele continua a leitura até emitir um grunhido, como se tivesse marcado um gol ou disparado um tiro. “Êêêêêêêêêêiiiiiiiiiiiiiiiiiii”, vibra.

“Vou traduzir, vou traduzir!”, diz “a referência” da juventude brasileira.

“Pra-rá-tá-tá-tá-tá… pá!”

“É, na cara do capeta!”

Diz, segurando um objeto na mão, como se fosse revólver, apontado para sua audiência.

“Policial, cristão ou não cristão, tá no serviço, tá trabalhando, a Bíblia só te chama de agente de Deus, você é o emissário do Céu, você é Jesus ali protegendo a sociedade.”

O líder da juventude segue na sua pregação:

“Então, chegou o momento, tem que usar o revólver, não tem jeito, irmão, pega o revólver e, ó, não dá pouco tiro não, dá muito tiro, descarrega o tiro. Quando acabar de dar tiro, joga o revólver na cara, joga o que tiver. Se tiver uma arma do Rambo, sapeca tiro no povo.”

Antes que alguém pergunte: “Por quê?”, ele responde:

“Porque tem gente que precisa tomar tiro. Precisa tomar tiro por quê? Porque eles estão querendo matar a sociedade.”

Em seguida, o pastor zomba daqueles que poderiam se opor a ele:

“A pessoa vem com o discurso todo bonito: ‘Não, pastor, isso não pode…’ Então espera o tiro do bandido vir no seu filho… Aí, eu quero ver você permanecer com esse discurso.”

O radical Lucinho volta à Bíblia:

“A autoridade está respaldada pela Bíblia e por Deus para sentar tiro na cara do povo que não quer viver de acordo com as nossas leis.”

Lucinho zomba outra vez daqueles que poderiam se opor a ele:

“Ô traficante, por favor, para, moço…”

“Não é para moço, não”, grita. “É faca na caveira mesmo. E vamos arrepiar o cabelo do sovaco deste povo, porque temos filhos. E a gente tá pondo filho neste mundo é pra quê? Pro bandido vir… Não, senhor.”

Por fim, ele faz a exortação política:

“Você, quando for votar, fica esperto porque você está pondo as pessoas que vão cuidar da gente, e nós temos que ter gente séria, em todos os poderes.”

No encerramento, ele faz um afago:

“E eu mando o meu beijo para a Polícia Militar, para a Polícia Civil e para todas as polícias. Federal, estadual, rodoviária. Beijo para vocês. Que Deus guarde vocês e abençoe vocês todos os dias.”

O programa do pastor Lucinho vai ao ar pela Rede Super de Televisão, emissora que pertenceu ao deputado Dalmir de Jesus, político que ostenta em sua biografia o título de marajá da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, onde recebia salário de R$ 50 mil.

Depois a emissora passou para o controle da Igreja Batista da Lagoinha, uma das denominações evangélicas que mais crescem no Estado, presidida pelo pastor Márcio Valadão, pai de dois astros da música gospel, Ana Paula Valadão e André Valadão, artistas sob contrato da Som Livre, a gravadora das Organizações Globo.

Márcio é um dos pastores que atenderam à convocação do pastor Silas Malafaia e foram a Brasília manifestar apoio ao deputado Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, que quis votar o projeto de “cura gay”.

Veja video do maluco. 

matar

Mais uma pessoa amarrada em poste. Mais um linchamento

.

Escreve Leonardo Sakamoto: Um homem de 29 anos foi linchado por moradores do Jardim São Cristóvão, em São Luís (MA). Segundo a polícia civil, ele havia tentado assaltar um bar, quando foi rendido, amarrado nu em um poste e agredido até a morte com socos, chutes, pedradas e garrafadas. Um jovem de 16 anos que seria seu cúmplice também foi espancado, mas sobreviveu.

Fiz questão de postar a imagem. Alguns leitores psicopatas sentirão orgasmo com ela. Para esses, há pouco a ser feito fora da medicina. Contudo, não acredito que a maioria de vocês ache normal uma turba de moradores fazer justiça com as próprias mãos – e com requintes de crueldade.

Ou indo direto ao ponto: a Lei Áurea completou 127 anos, mas a sociedade ainda coloca negros no pelourinho. Por raiva, por vingança, para servir de exemplo.

Foto Imirante com
Foto Imirante com

Desde que jornalistas fizeram apologia ao fato de um jovem ter sido preso a um poste e espancado, como punição por um suposto crime, no ano passado, no Rio de Janeiro, a moda parece ter pegado. Pois, depois disso, outros casos pipocaram pelo país.

Parabéns, colegas. Parabéns a todos os envolvidos.

Teoricamente em algum momento da história humana, nós abrimos mão de resolver as coisas por conta própria para impedir que nos devoremos. Sei que parte da população, cansada de esperar que o poder público cumpra seu papel e garanta condições mínimas de segurança, ressuscita seus instintos mais primitivos. O sistema que criamos para isso não é perfeito, longe disso, mas é o que tem para hoje.

O Brasil não tem pena de morte. Oficialmente, é claro. Porque muitos governos e suas polícias fingem que não sabem disso. E, não raro, turbas processam, julgam e executam também.

Foto Biné Morais
Foto Biné Morais

Ao criticar linchamentos públicos de “culpados” ou “inocentes” não defendo “bandido” ou “impunidade”, mas sim esse pacto que os membros da sociedade fizeram entre si para poderem conviver (minimamente) em harmonia.

Se algo causa impacto, é claro que será copiado. Não estou jogando a culpa no mensageiro ou dizendo que o mimetismo é a causa, mas nós jornalistas temos certa parcela de responsabilidade. E não falo apenas por conta da banalização da violência. É a sua transmissão acrítica, como se notícias fossem neutras, não houvesse contexto social e todos os receptores da informação compartilhassem dos mesmos valores.

As pessoas veem, as pessoas copiam. E a sociedade vai indo da barbárie para a decadência sem passar pela civilização.

Fanatismo religioso. Resposta de Boechat a Malafaia vira sensação nas redes sociais

meme15meme5

A provocação de Malafaia e a resposta de Boechat. Veja galeria de memes 

A querela foi motivada pelas críticas feitas pelo jornalista sobre a agressão à garota apedrejada, no Rio de Janeiro, por fanáticos evangélicos. Irritado, Malafaia desafiou Boechat, via Twitter, para um debate sobre o tema e o chamou de idiota. “Avisa ao jornalista Boechat que está falando asneiras, dizendo que pastores incitam os fiéis a praticarem a intolerância. Verdadeiro Idiota”, postou.

No programa, Boechat afirmou que é no “âmbito das igrejas neopentescostais que estão acontecendo ato de incitação a intolerância religiosa. Em nenhum momento (…) disse qualquer coisa que generalizasse esse comentário. Até porque, diferente de você, não sou um idiota. Você é homofóbico, uma figura execrável, horrorosa e que toma dinheiro das pessoas através da fé”, disparou. “Tenho medo de você não, seu otário. Vai procurar uma rola, repetindo em português bem claro”, repetiu.

Kailane-Campos

A marca da violência está na cabeça da menina de 11 anos que foi agredida no Subúrbio do Rio por intolerância religiosa, mas esta não é a maior cicatriz. “Achei que ia morrer. Eu sei que vai ser difícil. Toda vez que eu fecho o olho eu vejo tudo de novo. Isso vai ser difícil de tirar da memória”, afirmou Kailane Campos, que é candomblecista e foi apedrejada na saída de um culto. Ela deu a declaração em entrevista ao RJTV desta terça-feira (16).
A marca da violência está na cabeça da menina de 11 anos que foi agredida no Subúrbio do Rio por intolerância religiosa, mas esta não é a maior cicatriz. “Achei que ia morrer. Eu sei que vai ser difícil. Toda vez que eu fecho o olho eu vejo tudo de novo. Isso vai ser difícil de tirar da memória”, afirmou Kailane Campos, que é candomblecista e foi apedrejada na saída de um culto. Entrevista ao G1

Rede Brasil Atual – A Arquidiocese do Rio de Janeiro recebeu dia 19 último a menina que levou uma pedrada na cabeça, por intolerância religiosa, no domingo (14). Acompanhada da avó Kátia Marinho e do babalaô Ivanir dos Santos, representando a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, ela recebeu a solidariedade do arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta. Eles estiveram no Palácio de São Joaquim, zona sul do Rio do Janeiro, residência oficial do arcebispo.

Segundo Ivanir do Santos, dom Orani reafirmou a posição da Igreja Católica contra qualquer forma de perseguição ou intolerância a adeptos de religiões como o candomblé e a umbanda. “Foi muito importante, uma manifestação pública, de preocupação para que o sentimento de ódio [que motivou a agressão] não avance”, disse o babalaô à Agência Brasil.

A avó, que testemunhou o ocorrido, conta que a menina foi agredida por um grupo de evangélicos. Os fiéis arremessaram pedras e xingaram ao identificar, por meio das roupas brancas das vítimas, que eram adeptos do candomblé. A família da garota está empenhada em fazer da agressão um símbolo contra o preconceito. No domingo (21), adeptos das religiões afro-brasileiras fazem uma passeata na Vila da Penha, às 10h, bairro onde ocorreu o ataque.

Apesar de o Rio de Janeiro ter a maior proporção de praticantes de religiões afro-brasileiras (1,61%), segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas, com base no Censo 2010, o estado também liderou as denúncias de discriminação religiosa em 2014, como mostra levantamento da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH). Foram 39 ligações para o Disque 100 denunciando a intolerância. São Paulo, em segundo lugar noranking, contabilizou 29 casos.

A professora aposentada da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Denise Fonseca, que coordenou pesquisa sobre templos de religiões de matriz africana, acredita que por trás das agressões aos praticantes de religiões como o candomblé e a umbanda está a necessidade de religiões neopentecostais criarem um inimigo a ser combatido, para depois cooptar fiéis.

“Há um projeto de aliciamento de pessoas em estado de vulnerabilidade emocional ou material [por neopentecostais]”, disse. “Ao satanizar e trazer [essas pessoas] para dentro de suas igrejas, oferecendo o que chamam de libertação, nada mais estão fazendo do que roubando adeptos”, destacou a professora.

Na pesquisa, entre 2008 e 2011, foram mapeados 900 templos religiosos de matriz africana no Rio e registradas 450 queixas de intolerância. “São casos que começam com agressões verbais – ‘Filha do demônio’ e ‘Vai para o inferno’, ou seja, uma satanização – e passam por agressões às casas religiosas, com pichações e depredações e até agressões físicas”, explicou Denise Fonseca.

O CRISTO FUGIDO

por Talis Andrade

 

Cristo deixando o praetorium
Cristo deixando o praetorium

 

Esbarro nas multidões

com o espanto

de um santo

manchado de ouro

o ouro que os monges

tingiam as iluminuras

 

Um santo mendicante

de extravagante figura

as roupas de mendigo

uma auréola de brilhantes

 

Esbarro nas multidões

as multidões carregam

invisíveis pedras

As multidões buscam

um bode expiatório

a remissão dos pecados

na lapidação

As multidões querem sangue

o sangue do inocente

para espargir o propiciatório

 

 

In Os Herdeiros da Rosa, p.111

 

 

“Em 60 anos, um milhão de brasileiros participaram de linchamentos”

 

 Alex Falco
Alex Falco

 

José de Souza Martins é doutor em sociologia e pesquisador do tema dos linchamentos no Brasil, uma investigação que leva há mais de 40 anos. Em seu último levantamento para o livro Linchamentos: a justiça popular no Brasil, que será publicado pela Editora Contexto no começo do ano que vem, o professor já aposentado calcula que “nos últimos 60 anos, um milhão de brasileiros participaram de linchamentos”. Em uma entrevista pelo telefone, explicou algumas das razões pelas quais os justiceiros aumentaram sua atuação no país, em sua maioria, “motivados por estupros de crianças e incestos”, explica.
Pergunta. Os linchamentos que vemos na Argentina e acompanhamos no Brasil desde fevereiro, quando o caso do rapaz preso a um poste em Botafogo, no Rio de Janeiro, apareceu em vários meios de comunicação, é uma bola de neve?
Resposta. Eu não estou acompanhando os casos na Argentina, mas certamente não é um caso isolado no Brasil, acontece em várias partes do mundo, como a África. No entanto, o Brasil é o país que mais lincha no mundo, e posso afirmar isso pelo material da minha pesquisa, nos últimos 40 anos. Existem linchamentos e tentativas de linchamentos. O caso do Rio, é uma modalidade de tentativa de linchamento, que há três anos atrás eram três ou quatro por semana, mas que depois das manifestações de junho, passou a uma média de uma tentativa por dia. Hoje estamos a mais de uma tentativa de linchamento diária.
P. E quais são as razões para esse aumento? As pessoas repetem os atos que são transmitidos pelos meios? Atuam por conta própria?
R. As causas são várias. O linchamento é sempre uma reação defensiva da sociedade contra o aumento da insegurança e da violência. Mesmo que haja violência e brutalidade no linchamento, se trata de uma reação autodefensiva, mesmo que seja injusta.
P. E quais são as motivações? Existe alguma constante?
R. As multidões geralmente reagem contra estupro de crianças e incesto. Os roubos pesam menos na decisão de linchar, não que sejam insignificantes, mas 3/4 dos linchamentos são motivados por crimes contra a pessoa. Meu cálculo, que fiz para o livro Linchamentos: a justiça popular no Brasil, é que nos últimos 60 anos um milhão de brasileiros participaram de linchamentos.
P. Dos casos que o senhor acompanhou, existe algum índice de impunidade sobre esses linchamentos?
R. Não existe o crime de linchamento. Fica difícil de utilizar os registros policiais para saber se está aumentando ou diminuindo, justamente por isso. Os que se veem envolvidos acabam sendo processados, mas existe o atenuante de crime de grupo. O Código Penal costuma ser benevolente nestes casos e raras vezes a polícia consegue incriminar. É muito difícil identificar as pessoas que cometem esses atos bárbaros.

 

Entrevistou Beatriz Borges/ El País

 

 

A epidemia da justiça popular

* A situação na Argentina se mimetiza no Brasil, com cidadãos que decidem fazer justiça por conta própria

* “Um milhão de brasileiros participou de linchamentos”

* O Brasil se revolta a cada imagem

 

violência ladrão revolta pobre traficante povo

 

por Beatriz Borges/ El País/ Espanha

 

 

As notícias sobre linchamentos proliferam nos jornais locais de todos os Estados brasileiros, mas não constam nas estatísticas. Segundo o Código Penal, o linchamento não é reconhecido como crime e por isso é difícil de calcular quantos atos ocorrem no país. A lista de ações de violência que têm como argumento penalizar crimes de rua é grande. Nos últimos dois meses, pelo menos 10 casos foram noticiados no Brasil. A situação é similar à que acontece na Argentina, que vive uma onda de linchamentos desde meados de março, já levou até mesmo o Papa a se pronunciar sobre a brutalidade dos atos contra ladrões. Apesar da repetição, que prova que não se trata de uma atividade isolada, o Brasil é imbatível em linchamentos, segundo o sociólogo José de Souza Martins, especialista no tema. “Há três anos atrás, eram três ou quatro por semana. Depois das manifestações de junho, passou a uma média de uma tentativa por dia. Hoje estamos a mais de uma tentativa de linchamento diária”, explica.

A humilhação pública é o princípio do fim, que muitas vezes não acaba na delegacia, mas sim em morte. Um dos casos mais recentes foi o de um adolescente de 17 anos que morreu nesta sexta em Serra, em Espírito Santo (sudeste do Brasil). O jovem Alailton Ferreira foi espancado por um grupo de pessoas que o agrediu com pedras, pedaços de madeira e ferro. Até o momento em que a polícia chegou ao local, segundo o blog Negro Belchior, da revista Carta Capital, não se sabia ao certo a motivação do espancamento. Especulava-se que o rapaz havia tentado praticar um roubo, abusar de uma criança ou estuprar uma mulher. Mas nada foi comprovado. Também na sexta, em São Francisco, no Maranhão, um assaltante foi linchado na rua depois de roubar bolsas, joias e celulares de clientes de uma clínica, segundo o jornal local O Dia. Felizmente, outros vizinhos impediram que a agressão continuasse e ele foi encaminhado à delegacia.

Na quinta-feira, dia 10, um homem conseguiu escapar da ira dos vizinhos em Campina Grande, na Paraíba. Ele foi espancado depois que a polícia o flagrou com dois menores, uma menina de 12 e um menino de 11 anos, em sua casa. Segundo o site de notícias Paraíba Agora, os menores passariam por exame de corpo de delito para comprovar se o abuso chegou a ser consumado.

A mesma sorte não teve um jovem de 24 anos em Nova Crixás, Goiás, que morreu na segunda-feira, dia 7, depois de ser linchado por um grupo de moradores. O site Goiás News publicou um vídeo gravado pelo celular, em que a cena de extrema violência foi registrada. Isaías dos Santos Novaes, que já tinha passagem pela polícia por estupro, foi detido pela polícia sob suspeita de ter realizado um furto horas depois de uma criança de seis anos ter sido estuprada na cidade. Não havia indícios de que ele havia sido o autor deste crime. Por causa do furto, ele foi autuado e levado para um hospital, onde realizaria um exame de corpo de delito antes da prisão. Mesmo acompanhado de um grupo de policiais, centenas de moradores invadiram o hospital e bateram no rapaz até a morte, conta o site de notícias G1. Outro linchamento, de um suspeito de assalto em Teresina, Piauí, no dia 8 de abril, também foi gravado e as imagens podem ser vistas aqui. Somente esta semana, oito vídeos de linchamento foram colocados no YouTube.

Em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, um jovem de 15 anos foi linchado pelos moradores no domingo passado, dia 5, por acertar o irmão de cinco anos com uma faca, mas acabou morto com tiros na cabeça. Segundo a Polícia, o homicídio se deve a uma ação de gangue, motivada por vingança, o que não tira o peso do espancamento que sofreu na porta de sua casa, vítima de familiares e vizinhos, segundo conta o portal de notícias Terra.

Em março, os crimes já eram notícia. No dia 22, segundo o Correio de Uberlândia, um homem foi encaminhado ao hospital em estado grave depois de ser agredido por vizinhos que o acusavam de furto, em Uberlândia, Minas Gerais. No mesmo dia, a polícia conseguiu impedir a continuidade de um linchamento em Macapá, no Amapá. Os dois suspeitos de assaltar uma adolescente foram agredidos pelos pedestres que presenciaram o roubo. O G1 colheu depoimentos dos transeuntes e um deles, o auxiliar de serviços gerais Domênico Marques, de 41 anos, chegou a dizer que iam dar uma lição “nesses ‘caras’ porque não tem cabimento as pessoas suarem no trabalho para um homem desse vir e roubar à luz do dia”, um discurso repetido também no ato de violência em Botafogo, no Rio de Janeiro. Naquele dia, um adolescente havia sido amarrado em um poste com um cadeado de bicicleta.

No mesmo final de semana dos linchamentos de Uberlândia e Macapá, um homem foi morto e duas mulheres foram espancadas depois de roubarem um táxi, em São Luis, Maranhão. Segundo informações do jornal O Imparcial, outros taxistas conseguiram localizar o veículo e atuaram por conta própria, junto a cidadãos que passavam pelo local, a dez quilômetros do centro da cidade. No dia 26 de março, o suspeito de estupro Jeferson de Souza Ramalho, de 18 anos, foi morto a pauladas e pedradas antes que a polícia chegasse ao local, próximo à Lagoa Mundaú, em Maceió, Alagoas. Segundo o site Folha do Sertão, ninguém foi incriminado, o que geralmente ocorre quando esses atos de violência coletivos são executados.

 

LILITH

por Talis Andrade
lilith

 
A aparição
de uma judia
rameira
cortesã
bacante
Judite às avessas
o poder da sedução
e da beleza
que leva à perdição
Atira pedras
 
A aparição
de uma judia errante
a mulher estrangeira
a fêmea impura
estranha aos outros animais do Éden
encimada por estrelas alquímicas
majestosa
Atira pedras
 
Possessão de Lilith
que visitou Adão
quando dormia
e montada nele
a vadia se satisfez
provocando-lhe
poluções noturnas
e dessa cópula
os filhos soturnos
flagelos da humanidade
que governam o mundo
 
Posta nas encruzilhadas
vestida de escarlate
adornada com quarenta ornamentos
menos um
Lilith espera algum tolo
 
As faces brancas e vermelhas
o cabelo longo e vermelho
a boca vermelha assemelhada
a uma estreita graciosa passagem
a língua pontuda como uma espada
os lábios vermelhos como uma rosa
os lábios adocicados
com todas as doçuras do mundo
a voz macia cantante
as palavras suaves como o óleo
Lilith espera algum tolo
 
Lilith a prostituta virgem
chama o passante
O tolo a segue
bebe do cálice
do vinho alucinante
fornica com Lilith
perde-se atrás dela
 
O tolo perde-se atrás dela
Lilith fornica com os homens
seduz as mulheres
que admiram o próprio corpo
nos espelhos da soledade
 
Lilith está presente
nas encruzilhadas
de cada mulher
Nos ritos de passagem
de todas as mulheres
 
Lilith presente
no primeiro mênstruo
Lilith presente
no desvirginamento
Lilith presente
no mistério do sangue
nas mutações do corpo
na concepção na gravidez
no leite
 
Lilith mata
as crianças no parto
Lilith mulher vampira
mãe da multidão misturada
a serpente que Javé
cortou os pés
a serpente poetisa
sussurrou versos
encantando Eva
Atira pedras