O destino dos fracos possuidores de riquíssimas jazidas de petróleo

  

por Welinton Naveira e Silva

O destino da Líbia, já estava selado. Todos já sabiam. Continuará trágico e cruel, não será muito diferente do genocídio no Iraque. As invasões militares do Iraque e da Líbia, por acaso riquíssimas em petróleo, foram lideradas pelo mais temível bandoleiro de todos os tempos. Só mesmo o poder das armas nucleares pode detê-lo.

Em tempos de fartura, ele nunca respeitou ninguém. Com a atual grande crise econômica, séria e mortal, perdeu toda a preocupação que mantinha para com as aparências. Em alucinado desespero, necessitando como nunca de petróleo barato e de aquecer a sua desativada e poderosa indústria bélica, não teve dúvidas. Munido de meia dúzia de sórdidas mentiras, passou a assaltar a luz do dia, bem às vistas de todo o mundo.

Mas, incompetente e burro, quanto mais se envolve em atrocidades, mais se complica e afunda. Por exemplo, ao matar Kadafi, cometeu outro grande equívoco. Kadafi morto, tornou-se um mito, indestrutível. Tudo que um desgraçado povo precisa numa hora de extremo desespero e sofrimentos.

Mais uma vez. fica a lição para todos os possuidores de grandes reservas de riquezas naturais, principalmente petróleo: se preparem, enquanto há tempo.

Horror e festejos na morte sangrenta de Kadafi. Veja in Correio da Manhã

Herói assassino

por Sebastião Nery

LIBIA
(trechos)

A Líbia é um misterioso pedaço do outro mundo. Numerosas tribos andarilhas de beduinos negros caminhando no deserto escaldado, com seus camelos tortos e vivendo em acampamentos. Tinham apenas o deserto amarelo e abrasado, os camelos de lombo duplo e o horizonte sem fim.

Nos romances e filmes sobre os tempos de Cristo, como “Ben Hur”, “Barrabás”, havia sempre soldados líbios prisioneiros, grandes e luzidios negros fortes, gladiadores que lutavam até o ultimo instante, valentes e enormes, que acabavam sangrados, nas farras oficiais dos Césares.

Os gregos ocuparam. Depois, egípcios, romanos, turcos, otomanos. Há ruínas e restos surpreendentes de civilizações, como a cidade romana de Lepsis, bem preservada. E chegaram alemães, italianos. Em 1936 Mussolini pôs 400 mil soldados para dominarem 800 mil habitantes. Não conseguiu.

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EUA

Depois da 2ª Guerra, em 1951, ingleses e americanos puseram lá um rei de mentira, Idris I, para explorarem o país. Em 61, a Esso descobriu petróleo. Um povo miserável sentado em cima de uma riqueza fantastica.

Não podia dar certo. Os jovens tenentes da Academia Militar de Bengazi criaram o grupo “Oficiais Unionistas Livres” para tomarem conta de sua terra e seu povo, depois de três mil anos de ocupação e escravidão. Eram quase meninos liderados por um jovem tenente de 27 anos, Kadafi, que estudou 2 anos em Londres. O projeto era expulsar os invasores que mandavam no rei e tinham forças militares poderosas, com aviões ultra-modernos e a maior base norte-americana fora dos Estados Unidos.

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KADAFI

Em 1º de setembro de 1969, os tenentes de Alá desencadearam a “Operação Jerusalém”, derrubaram o rei, expulsaram os americanos, ingleses, italianos, fecharam a base americana, nacionalizaram os bancos e empresas estrangeiras, sob a liderança de um “Conselho do Comando Revolucionário”, dirigido por Kadafi e mais onze, todos mais jovens que ele.

Era a “Revolução do Al Fatah”, sob a inspiração do herói nacional Omar Al-Moukhtar, que em 1936 foi fuzilado por resistir à invasão de Mussolini, lutando “pela Libia, pelo Arabismo e pelo Islã”. Em 1969, ninguém foi fuzilado ou enforcado. Todos os estrangeiros expulsos do país.

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O “BUNKER”

Fui ver a casa de Kadafi, no centro de Trípoli. Disseram que era uma casa comum, em um bairro popular. Mentira. De fato, uma fortaleza, em um bairro popular. Um enorme quarteirão, cercado de muros altos, sistema de defesa completo, TV e foguetes para defesa. Dentro, casas onde vive a guarda com suas famílias, roupas nas varandas. E o “bunker” de Kadafi no centro. Três andares ligados por escadarias e elevador, varios quartos, a suite dele, imensa, escritórios. Vivia lá com a mulher e oito filhos.

Uma noite, dezenas de aviões americanos mergulharam sobre a casa e bombardearam. Se estivesse em casa teria morrido. Os tiros atingiram sobretudo os quartos, as salas, arrasando tudo. Um caça americano foi derrubado no quintal, outros perto do mar. Kadafi não estava. Ou estava no subsolo, com a família. A menina Ana, de dois anos, morreu, no quarto. A mãe, na cozinha, salvou-se. Hoje Kadafi vive em um “bunker” no deserto.

Agora, 42 anos depois, o herói da libertação da Líbia em 69 tornara-se um ditador corrupto, histérico, genocida, assassino de seu povo.